Quando  preciso voltar
        Zbia Gasparetto




        Ditado por Lucius
Captulo 1


Enquanto ele olhava atravs da janela do trem, seu pensamento se perdia em amargas
reflexes, seus olhos no percebiam as paisagens que se sucediam e seus ouvidos
ignoravam o rudo cadenciado que movimentava seu corpo no banco duro e frio.
Ele no queria olhar para trs. Preferia seguir adiante, recomear. Entretanto, estava sendo
difcil. O passado o oprimia e ele no sabia como sair dele, como esquecer, como apagar da
memria aqueles mo mentos de desiluso e de agonia.
Tudo passa neste mundo...
Algum,  guisa de consolo, dissera-lhe isso, e ele pensou:
"Talvez porque esteja olhando do lado de fora e no seja ele o envolvido. Tudo fica fcil
quando no se trata de ns. Todos temos sempre na ponta da lngua um remdio para a dor
alheia, uma soluo infalvel. Para mim esse recurso no vale nada."
Inconformado, ele deixara sua casa andando sem destino, preso aos seus pensamentos
angustiados. O que ele queria mesmo era sair dali, deixar tudo, como se, indo embora,
estivesse arrancando a ferida que o consumia.
Dirigira-se  estao, tomara um trem, sem se importar para onde o levaria. Queria fingir,
esquecer. No entanto, embora o trem se distanciasse, a mgoa seguia com ele, no o
deixava.
Ah, a dor da traio! A vergonha, a desiluso! Dez anos de casamento, dois filhos, uma
relao que parecia bem estabelecida. Nada disso era verdade. Nada estava bem. Tudo
estava errado. Quando ela teria comeado a trair? Desde quando ela tripudiava sobre seus
sentimentos?
A esse pensamento, a angstia voltava mais forte do que nunca e a cena chocante dos dois
se beijando reaparecia diante de seus olhos.
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O susto deles percebendo sua presena, a tentativa de explicar, como se isso fosse possvel.
O medo de que ele os matasse.
Vontade ele teve, mas como poderia? No acreditava que a morte fosse soluo. Alguns
parentes mais prximos esperavam isso. Ele continuou preso ao fio de seus pensamentos:
"Eu sei que eles esperavam. Chegaram at a dizer que a lei estaria do meu lado se eu
resolvesse fazer justia com as prprias mos. O adultrio  justificativa mais do que aceita
pela justia. Mas e eu? Como ficaria? No sou um assassino. No tenho o direito de tirar a
vida de ningum, seja l pelo que for."
O pensamento de que Clara no o amava mais o feria fundo. Ele tinha conscincia de haver
cumprido da melhor maneira sua parte compromisso conjugal. Ela nunca demonstrara estar
aborrecida nem sem interesse.
Haviam passado tantos momentos bons juntos! Tantas alegrias esperanas! Ela com certeza
esperava mais. Por que nunca falara nada? Por que no expusera sua insatisfao para que
pudessem melhora relacionamento?
Ele tinha a certeza de ser compreensivo. As pessoas costumavam apont-los como exemplo
de felicidade conjugal. Que iluso! Ela no era feliz! Ele havia fracassado. Por mais que
tentasse esquecer, o pensamento de fracasso o oprimia. Ele era o culpado de tudo. No sou
alimentar a felicidade do seu lar.
Depois disso, haveria lugar para ele no mundo? No seria melhor desistir de viver? Talvez
essa viagem no conseguisse apagar a dor. Esquecer estava difcil. Onde quer que ele fosse,
a ferida iria junto, estava dentro dele.
Morrer. Apagar todas as lembranas. Isso sim seria o melhor. Nunca mais lembrar de nada,
descansar. No ver mais a cena odiosa, nem contemplar a prpria impotncia, o prprio
fracasso. Sim. Talvez essa fosse a soluo.
Ningum diria que ele era um fraco, um covarde ou um insensvel. Era prefervel acabar
com a vida a matar. Poderia atirar-se do trem e acabar de uma vez com tudo.
Osvaldo levantou-se do banco e dirigiu-se para a porta do fundo vago. Abriu-a e saiu,
fechando-a de novo. Segurou na grade mureta sentindo o vento agitar seus cabelos e o
corpo sacudido pelos movimentos.
O trem passava por um barranco. Ele estava no ltimo vago. Olhando os trilhos que iam
ficando para trs, pensou:
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"Se eu me atirasse barranco abaixo, seria o fim. O esquecimento, a paz."
Pensou nos dois filhos pequenos. Um dia eles iriam entender seu gesto. Decidido, fechou os
olhos e atirou-se.
Seu corpo rolou pela ribanceira e ele desfaleceu. O trem seguiu adiante, e ningum viu o
que aconteceu.
Muitas horas mais tarde, dois homens em uma carroa passando pela estrada viram o corpo.
Pararam imediatamente, desceram e foram at l.
Pai, acho que ele est morto -- disse o jovem, colocando a mo sobre o peito de Osvaldo.
Pode estar s desfalecido. Vamos coloc-lo na carroa. Com cuidado, porque pode ter
quebrado alguma coisa.
-- Isso pode complicar. E se ele estiver morto?
-- Se estiver morto, daremos uma sepultura digna. No temos nada com isso e no
precisamos temer. O que devemos  ajudar. Vamos.
Com muito cuidado, eles levantaram Osvaldo e puseram-no na carroa, sobre o material
que haviam ido comprar na cidade.
--Pai, no sei, no. Ele est plido feito cera. No sei se fizemos bem trazendo-o.
-- Era nosso dever. Deus o colocou em nosso caminho para que pudssemos ajudar.
Aprenda isso, Diocleciano.
-- Sim, pai.
Chegando ao pequeno stio onde residiam, pararam em frente a casa simples mas limpa e
imediatamente dois cachorros vieram latindo alegremente, seguidos por duas moas e uma
senhora. Vendo o corpo dentro da carroa, pararam curiosas.
-- O que aconteceu, Joo? -- perguntou a mulher.
--Encontramos este homem cado no mato. Parece mal.
A senhora aproximou-se de Osvaldo e colocou a mo sobre seu peito.
--No d sinal de vida-- disse Diocleciano. -- Acho que est morto.
-- No est, no -- respondeu ela. -- Mas est mal.
--Eu no podia deix-lo l sem socorro.
-- Fez bem, Joo. Traga-o para o quarto de Juvncio. Ele foi embora mesmo. Vamos ver o
que podemos fazer.
As duas moas olhavam curiosas. A me disse-lhes:
-- Vocs duas, vo pr gua na chaleira para ferver. Vamos tentar acord-lo. Se no
melhorar, podemos chamar o seu Antnio do vale.
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--Vocs dois, carreguem-no com cuidado. Pode ter quebrado alguma coisa.
Os dois pegaram Osvaldo e o levaram at o pequeno quarto que pertencera a um sobrinho
de Joo e que se mudara para a cidade havia poucos dias.
--  melhor coloc-lo na esteira primeiro. Est coberto de poeira.
Rapidamente, a esposa de Joo apanhou uma bacia e voltou em seguida com gua quente e
sabo.
-- Diocleciano, pode sair enquanto Joo me ajuda a lav-lo. Quando for para coloc-lo na
cama, eu chamo.
O rapaz obedeceu e foi logo cercado pelas duas irms, que queriam saber todos os detalhes.
Embora no tivesse muitas coisas para contar, ele fez suspense e fantasiou o mais que pde.
Quando a me chamou, ele atendeu e ajudou o pai a colocar Osvaldo na cama.
--E agora, o que faremos? Ele no d sinal de vida. Parece mesmo morto.
-- Morto ele no est. Ponha a mo aqui. O corao est batendo. Vou pr um saco de gua
quente nos ps, esto gelados.
Ela providenciou tudo, mas Osvaldo no recobrava os sentidos.
Maria apalpou cuidadosamente o corpo dele, dizendo ao marido:
-- Parece que no quebrou nada. No h sinal disso nem nos lugares onde ele bateu que
esto roxos. Veja voc.
Joo apalpou e concordou:
-- Ele parece que no quebrou mesmo nada. Mas quem sabe bateu a cabea, machucou por
dentro.
-- , pode ser. Nesse caso  melhor mesmo chamar seu Antnio. Ele  um bom curador.
-- Agora j est quase escurecendo. Ele mora muito longe. Amanh cedinho Diocleciano
vai busc-lo.
-- Vou matar uma galinha e fazer um caldo. Seu Antnio vai ficar para o almoo. Ele gosta
muito de galinha.
-- Mande Aninha fazer um bolo de milho para o caf.
Maria concordou e disse:
-- Vou fazer um ch de arnica. Quem sabe ele consegue beber um pouco. Tambm vou
fazer umas compressas nos lugares inchados.
-- Isso, mulher. Talvez ele acorde antes de amanh. Vou chamar o Brinquinho para tomar
conta dele.
Saiu para o quintal chamando:
-- Vem, Brinquinho. Voc vai ficar aqui tomando conta dele. Se ele acordar, me avise.
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Maria riu enquanto dizia:
-- Como um cachorro vai avisar?
-- Ele fala comigo sempre. Ele late e eu sei o que ele quer dizer.
Ela abanou a cabea.
-- Voc e suas idias...
-- Ele  to inteligente quanto uma pessoa. Voc vai ver.
Enquanto ela na cozinha preparava o ch, Joo olhando o rosto arranhado e um pouco
inchado de Osvaldo pensava: como aquele moo fora parar ali? Tinha boas roupas, parecia
pessoa da cidade e de trato, o que estaria fazendo por aquelas bandas? Teria sofrido algum
acidente? No havia nenhum indcio no local. Talvez houvesse alguns documentos em suas
roupas.
Maria trocara-as por uma limpa. Foi procur-la.
-- Maria, onde esto as roupas do homem?
-- Na tina para lavar. Por qu?
-- Quero ver se h alguma coisa, algum documento. J procurou?
-- Ainda no. Melhor voc ver.
Joo saiu e voltou logo com uma carteira e alguns documentos na mo.
-- Olhe aqui. O nome dele  Osvaldo de Oliveira. Nasceu em So Paulo. Aninha leu tudo
para mim. Tem dinheiro na carteira.
-- Vamos guardar tudo direitinho.
-- Est certo. Parece gente de bem.
-- No preciso de documento para ver isso. Olhando nele eu j vi.  gente boa.
-- Como ter se metido nessa aventura? O que estar fazendo por aqui?
Maria deu de ombros:
-- Saberemos tudo quando ele acordar.
-- E se ele no acordar?
-- No diga isso. Se ele no acordar at amanh, seu Antnio d jeito.
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Captulo 2
Seu Antnio s chegou ao stio depois do meio-dia. Diocleciano sara ao raiar do dia, mas a
casa do curador era muito distante.Ao chegar, os ces e toda a famlia saram para receb-
lo.
Depois de abra-los, Antnio, um mulato forte de grossos lbios sempre entreabertos em
generoso sorriso, cabelos j meio embranquecidos, crespos e at o pescoo, entrou na casa.
Era muito estimado . Para Maria e Joo, vivendo distantes da cidade, ele sempre foi no s
recursos nas doenas da famlia mas tambm o conselheiro nas horas difceis. Era Deus no
cu e seu Antnio na Terra.
Depois dos abraos e das notcias, Maria levou-o a ver Osvaldo. O moo continuava
desacordado. Seu rosto plido parecia morto, muitas vezes Maria colocara a mo em seu
peito para ver se seu corao ainda batia.
Antnio aproximou-se e colocou a mo sobre a testa de Osvaldo, fechando os olhos em
orao. Todos os Outros fizeram o mesmo em respeitoso silncio.
Depois de alguns momentos Antnio abriu os olhos.
-- E ento? -- perguntou Joo. -- O que  que ele tem?
-- Tristeza. No quer mais viver -- respondeu Antnio.
-- Que horror! -- disse Maria. -- To moo e forte...
Antnio abanou a cabea, dizendo:
-- H momentos na vida em que tudo parece sem soluo.
-- Mas e a f? Deus sempre tem uma sada boa -- disse Maria.
-- Disse bem, Deus sempre tem uma soluo boa. Mas, s vezes as pessoas no conseguem
enxergar isso e se desesperam. Este moo est sofrendo muito. Pensa que, saindo da vida,
vai esquecer sua desiluso Est enganado. Quanto mais fugir, mais vai encontr-la. E
enfrenta do que se consegue vencer. Ele ainda no sabe disso.
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--Ele est ferido, bateu a cabea. Ser que no quebrou nada? -- perguntou Joo.
-- Ele caiu do trem, machucou o corpo, mas nada que no possa sarar. A ferida da alma 
que o est corroendo e impedindo de acordar.
-- O que podemos fazer quanto a isso? Como curar as feridas da alma? -- indagou Maria.
Antnio balanou a cabea pensativo:
--Ns temos a f. Para ns, tudo fica mais fcil. Ele no tem nada. Vamos orar por ele,
pedir a Deus que o faa acordar para a f. Venham todos.
A famlia reuniu-se ao redor da cama de Osvaldo e deram-se as mos. Na cabeceira,
Antnio pediu que os dois ltimos colocassem as mos em seus ombros enquanto ele ficava
com suas mos livres. Em seguida, colocou-as sobre o peito de Osvaldo dizendo com
suavidade:
-- Vamos sentir o amor de Deus em nosso corao, sentir que Deus est movendo nossos
sentimentos, e vamos pensar neste moo com carinho. Ele est s, sem a certeza da f, sem
a bno do conhecimento, perdido na iluso de que a dor  mais forte do que ele. Isso no
 verdade. Voc no est sozinho. Ns estamos aqui e oferecemos nossa amizade, nosso
carinho, nossa alegria e nossa f em Deus. Voc pode viver! Voc pode continuar. Voc
pode enfrentar essa situao!
Um suspiro escapou do peito de Osvaldo e uma lgrima rolou o seu rosto plido.
Antnio continuou:
-- Volte, Osvaldo. Venha enfrentar os problemas da vida. Voc pode. Ns estamos aqui
para ajud-lo. Venha. Ns o queremos bem e estamos juntos. Ns o apoiamos.
De repente, um soluo Cortou o peito de Osvaldo. Seu corpo foi sacudido por um choro
sentido, agoniado, enquanto eles continuavam a preces.
Depois ele abriu os olhos, olhando assustado para aquelas pessoas desconhecidas. Teria
morrido? Estaria no cu?
--Voc no morreu. Est mais vivo do que nunca. Chore, ponha para fora essa mgoa que
o est atormentando. Limpe seu corao. Voc pode ser feliz. No desista. Deus o est
ajudando. Quando uma porta e fecha, outras se abrem em melhores condies.
Osvaldo foi sacudido pelo pranto, que no teve foras para conter. Quando se acalmou,
sentiu-se envergonhado.
-- Desculpe -- disse. -- No sei o que aconteceu, onde estou.Mas sinto que so meus
amigos e esto me ajudando. Obrigado.
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-- No se preocupe com isso. Voc foi encontrado desmaiado no mato por Joo e seu filho
Diocleciano, e eles o trouxeram para casa estava fora de si, mas graas a Deus j voltou.
--Eu queria morrer! -- disse ele angustiado.
-- Mesmo que tivesse conseguido, sua dor iria com voc. No sabe que a morte no cura as
feridas da alma? A vida continua e a alma nunca morre -- tornou Antnio calmo.
Osvaldo olhou admirado para ele.
-- Terei de carregar esta dor para sempre?
-- No. Poder enfrent-la e vencer.
Ele abanou a cabea desanimado.
-- Como?  mais forte do que eu!
-- No diga isso. Nada  mais forte do que voc. Jamais substime sua fora. Ainda no
aprendeu a us-la, mas ela est a,  espera que se decida.
Osvaldo olhou para Antnio sem compreender.
-- No entendo o que diz. Sinto-me fraco e sem foras.
-- Descanse por ora. Est entre amigos que desejam seu bem estar.
-- Antes ele vai tomar um pouco de caldo de galinha -- Maria. -- No comeu nada.
Barriga vazia d desnimo.
Juntando o gesto  palavra, ela foi  cozinha e voltou em seguida com um prato fumegante
e um pedao de po, colocando-os o criado-mudo.
-- Pode se sentar? -- indagou ela.
Ele tentou, mas o corpo doa. Ela o obrigou a ficar apoiado nos cotovelos e colocou dois
travesseiros em suas costas, fazendo-o encostar. Em seguida colocou uma toalha sobre o
peito dele, apanhou o prato e a colher, chamou a filha e disse:
-- Dalva, venha aqui dar a sopa para ele.
Osvaldo esboou um gesto de protesto:
-- No precisa se incomodar. Mais tarde eu como.
Maria abanou a cabea:
-- Nada disso. Voc  da cidade, mas desde j quero dizer aqui ns no temos nada disso.
Voc est precisando, e Dalva vai lhe dar de comer. E melhor deixar o orgulho de lado. Eu
vou dar comida aos outros.
A moa que se aproximou colocou uma cadeira perto da pegou o prato e a colher, sentou-se
e calmamente comeou a mexer sopa para esfri-la.
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Osvaldo sentia-se acanhado. Seus pais moraram em pequena cidade no interior. Quando ele
tinha cinco anos, seu pai morreu e sua me o mandou para a casa da tia, irm de seu pai,
mulher rica, fina e educada, mas muito ocupada com a prpria vida. Acolhera-o, cuidara de
sua educao, dos estudos. Era severa, distante, no se permitindo demonstraes de afeto.
Distante da famlia, Osvaldo a princpio sofreu muito, foi obrigado a engolir seus
sentimentos. Mas ainda assim respeitava a tia e agradecia por ela haver se interessado em
dar-lhe abrigo e cuidar para que no lhe faltasse nada.
Ela no tinha filhos, e ele nunca soube se foi porque ela no gostava de crianas ou porque
no os pudera ter. O marido, homem rico e de boa aparncia, era mais amvel. Porm,
como era muito ocupa do com seus negcios, quase no parava em casa.
Ao conhecer Clara, linda, carinhosa, educada, Osvaldo se apaixonou perdidamente. Aps o
casamento, sentiu-se realizado. Ela o cercava de atenes e carinho. Com o nascimento dos
filhos, ele se considerou o homem mais feliz do mundo.
-- Abra a boca, seu Osvaldo, vamos!
Arrancado dos seus pensamentos ntimos, ele obedeceu. A sopa estava gostosa. Olhou para
a moa sentada em sua frente. Era jovem ainda, talvez uns dezessete ou dezoito anos, rosto
corado e queimado de sol, cabelos castanhos presos em uma trana que lhe caa pelas costas
com a ponta amarrada por uma fita azul que ele notara quando ela se levantou para abrir as
janelas.  que depois de algumas colheradas Osvaldo estava suando.
-- Vou abrir s um lado, para o vento no lhe fazer mal -- disse ela, sentando-se
novamente com o prato na mo.
-- Estou com muito calor. Acho que j chega de sopa.
 porque est de estmago vazio. Vamos mais devagar. Acho que estou indo muito
depressa. Quer um pedao de po? E feito em casa.
Sem esperar resposta, Dalva apanhou uma fatia e deu-a a ele.
-- Experimente -- disse sorrindo. -- Foi Aninha quem amassou este po. Quando ela faz
isso, ele cresce mais do que comigo ou com a me.
Vendo que ela o olhava com olhos brilhantes esperando que experimentasse, Osvaldo levou
o po  boca e comeu um pedao. Estava delicioso.
--  bom mesmo! Aninha quem ?
-- Minha irm mais nova. Ela tem uma mo de ouro. Tudo que faz fica bom. Vamos tomar
mais um pouco de sopa.
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Dalva conseguiu que ele engolisse toda a sopa e sorriu com satisfao.
-- Agora vou fechar a janela para o senhor dormir. Garanto que quando acordar vai estar
novo, O caldo de galinha da me levanta defunto!
-- Obrigado -- disse Osvaldo.
Depois que ela se foi, ele ficou pensando.
Que gente boa! No o conheciam e no entanto o estava tratando como se fosse da famlia.
Melhor que sua tia, que nunca dava sopa na boca quando ficava doente!
Lembrou-se de Clara e sentiu um aperto no peito. Ela era carinhosa... Tudo fingimento!
Como estariam os meninos? Marcos est com oito anos. Era um homenzinho. Carlinhos
estava com cinco. Clara lhes contaria a verdade. O que pensariam do seu desaparecimento
De certa forma, arrependeu-se de ter sado sem falar com algum. Teria sido justo deixar os
filhos em companhia de uma pessoa como ela? Teria sido egosta pensando s em sua dor e
esquecido do bem estar das crianas?
Remexeu-se inquieto. Teria sido por isso que Deus lhe conservara a vida?
Antnio entrou no quarto e sentou-se na cadeira ao lado da cama.
-- Como se sente?
-- Melhor, obrigado.
-- Vou fazer um remdio e voc vai tomar direitinho. Ele vai ajudar a curar as feridas do
corao.
Osvaldo suspirou:
-- Essas no tm cura.
Antnio sorriu:
-- Tem, sim, voc vai ver. No duvide do poder de Deus.Ele lhe poupou a vida porque
voc precisa cumprir seu destino no mundo.
Osvaldo admirou-se:
-- Como sabe que eu estava pensando nisso?
--Eu sei.
-- O que  que voc sabe?
-- Primeiro, que voc no estava no seu juzo quando resolveu se atirar daquele trem. Por
isso ele o ajudou. Mas agora voc tem sua parte. Tocar a vida para frente e no pensar mais
em bobagem
-- Sei o que quer dizer. Acho que no vou fazer novamente tenho dois filhos. Fui egosta
pensando s em mim. Eu os abandonei. Agora sinto que no posso fazer isso.
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-- Sua cabea ainda est confusa. Voc no deve decidir nada enquanto no estiver bem.
-- Nunca mais vou ficar bem como antes. Assim que melhorar, vou voltar e buscar meus
filhos.
-- Agora no  hora de pensar nos outros. Voc precisa recuperar sua sade, esfriar a
cabea. Qualquer deciso que tomar agora lhe trar arrependimento.
O rosto de Osvaldo contraiu-se dolorosamente.
-- Minha mulher no  digna de ficar com eles.
-- No pense nisso agora. A raiva, a mgoa torcem os fatos. Vou preparar o remdio e j
volto.
Saiu e retornou pouco depois com um copo em que havia dois dedos de um lquido
esverdeado, que estendeu para Osvaldo.
-- Beba -- disse.
Osvaldo obedeceu. Era amargo e forte, e ele sentiu queimar sua garganta  medida que o
engolia.
-- Agora deite-se -- continuou Antnio, tirando os travesseiros de suas costas, deixando
apenas um.
Osvaldo obedeceu. Antnio segurou sua mo, dizendo:
-- Vamos rezar. Ns no temos poder algum sem Deus. Ele  quem comanda tudo no
universo.  preciso entender isso e cham-lo toda vez que formos fazer alguma coisa, no
s na hora da dor, como agora. Depois que receber ajuda, quero que se lembre disso e seja
agradecido. A vida  cheia de graas e de coisas boas. O sol, a chuva, a sade, o corpo, os
alimentos, os amigos, a famlia, tudo  Deus quem d. Ele sabe do que ns precisamos.
Junta as pessoas conforme  preciso para nossa felicidade.
Osvaldo pensou em Clara e agitou-se. Antnio continuou:
-- Deus no erra. Por mais que as coisas sejam ruins, que no possamos entender o que ele
quer, tudo est certo, do jeito certo.
Osvaldo no se conteve:
-- Como posso achar certo minha mulher me trair? Como posso achar bom um casamento
com uma pessoa falsa e maldosa?
-- Ela apareceu em sua vida por uma necessidade sua. Se no tivesse de passar por essa
experincia, teria se casado com outra ou sua mulher no teria feito isso. A vida nunca erra.
-- No posso entender o que est dizendo. No concordo.
-- No faz mal. Agora voc precisa descansar. Outro dia conversaremos sobre isso.
-- Pea a Deus que me faa esquecer. E o que eu mais quero.
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-- Enquanto guardar a mgoa dentro de voc, no conseguir esquecer. Vamos pedir a
Deus que o ajude a perdoar.  o mais certo.
-- Perdoar? Acha que posso?
-- Acho que pode e deve. E a nica forma de se libertar do peso que est carregando.
-- Nesse caso ser difcil. No consigo.
-- Feche os olhos. Pense em seus filhos, no bem que lhes deseja, no amor que sente por
eles.
O rosto de Osvaldo descontraiu-se. Seus traos se suavizaram e Antnio murmurou sentida
prece pedindo a Deus que abenoasse Osvaldo, a famlia, os moradores daquele lar.
Quando terminou, Osvaldo estava dormindo. Antnio soltou a mo dele que detinha entre
as suas, levantou-se e saiu sem fazer rudo.
-- E ento, como est ele? -- perguntou Joo.
-- Dormindo. Dever tomar o remdio trs vezes por dia. Se ficar muito triste ou inquieto,
pode dar mais vezes. Agora tenho de ir.
-- Diocleciano leva voc de volta -- disse Joo.
-- Embrulhei umas broas e um po para voc levar -- disse Maria. -- A cesta j est na
carroa.
-- Obrigado. No precisava se incomodar.
-- Qual o qu, isso no  nada.
-- No domingo eu volto para v-lo -- disse Antnio, abraar todos em despedida.
-- Diocleciano vai buscar voc para almoar. Vou fazer uma sobremesa especial.
-- Dona Maria est me deixando mole com tanto dengo. Cuidado, que posso me
acostumar!
Eles riram satisfeitos, abanando a mo em despedida quando a carroa virou em uma curva
da estrada. Joo abraou Maria e juntos voltaram para dentro de casa.
Nos dias que se seguiram, Osvaldo foi melhorando. As dores no corpo passaram, mas as
marcas roxas e o machucado do brao que para nas pedras ao rolar pela ribanceira ainda
estavam visveis. Apesar disso, dois dias depois ele no quis mais ficar na cama.
-- Acho que devia descansar mais um pouco -- disse Maria, vendo-o aparecer na cozinha.
-- Estou bem. No agento mais ficar l, pensando na vida, enquanto todos aqui trabalham
o dia inteiro. Vocs tm sido to bons para mim, tratando-me como se eu fosse da famlia.
Gostaria de retribuir de alguma forma, fazendo alguma coisa.
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Ela parou de mexer a comida na panela que fumegava no fogo, colocou a tampa, voltou-se
para ele e respondeu:
-- No precisa fazer nada.
-- Saiba que sou muito grato a todos pelo carinho. A senhora tem uma famlia maravilhosa.
Ela sorriu.
-- Eu sei. Todos os dias dou graas a Deus por isso. Quer uma xcara de caf?
-- Aceito.
Ela colocou o caf na caneca, adoou-o e a entregou a ele.
-- Estou lhe dando trabalho.
-- Vivemos longe da cidade. Temos muitos amigos, mas recebemos poucas visitas.  que
moram longe e vivem ocupados com a plantao. s vezes aos domingos alguns aparecem,
e para ns  uma festa. Apesar do que lhe aconteceu, sua presena aqui  bem-vinda.
-- Bondade sua. Mas no momento no sou boa companhia para ningum.
-- Que nada! Minha finada me dizia que tudo passa neste mundo. Eu acredito. Sua tristeza
vai passar e a vida ainda lhe trar muitas alegrias.
Embora no concordando, Osvaldo sorriu e no a contradisse. Para qu? No queria
entristec-la com seus problemas.
-- Em todo caso, sinto que preciso fazer alguma coisa. Ocupar-me. Trabalhar. Ficar
naquela cama pensando no est me ajudando muito.
-- Bom, quanto a isso tem razo. O trabalho  um santo remdio. Mas acho que o senhor
ainda est muito machucado. Melhor esperar um pouco mais.
Joo ia entrando, e Maria, vendo-o, continuou:
-- Ele quer trabalhar, Joo. Acho que  cedo.
-- Preciso fazer alguma coisa, me ocupar.
-- Maria tem razo. O senhor  moo da cidade. No est acostumado ao trabalho da roa.
Aqui  s o que temos para oferecer.
-- Gostaria que no me chamassem de senhor. Vocs so meus amigos. Sinto que preciso
me movimentar. Nunca trabalhei na roa, mas posso aprender. No tenho medo de servio.
Quero fazer alguma coisa. Deitado naquela cama, as lembranas no me deixam descansar.
Trabalhar vai ser bom.
-- Est certo. S que ainda  cedo para comear. Mas pode ir comigo depois do almoo
para a plantao e ver como . Est uma beleza. O algodo est comeando a abrir e logo
comearemos a colheita.
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At l, penso que estar bem para nos ajudar. Vamos falar com Antnio no domingo e
saber o que ele acha.
-- Vocs confiam muito nele.
Foi Maria quem respondeu:
--  um santo homem. Tem nos ajudado muito. Possui grande sabedoria. Muita gente
daqui e da cidade o procura para pedir conselhos. Onde ele coloca a mo, tudo melhora.
-- Ele fez voc voltar  vida. Parecia morto. Eu estava achando que ia morrer mesmo. Foi
s ele rezar, pr as mos em sua cabea e pronto: voc acordou. Esteve dormindo por dois
dias! -- ajudou, Joo concluiu
-- Foi um gesto tresloucado. Na hora nem pensei em meus filhos
-- Felizmente j passou -- disse Maria.
--  Passou.
--Agora  melhorar. O tempo  santo remdio -- tornou Maria
-- Preciso pensar no que fazer da minha vida. Recuperar meus filhos, tir-los da me, que
no tem condies morais para cuidar deles
-- Tem tempo para pensar no que fazer. Antes precisa se cuidar e ficar bem. No d para
resolver nada com a cabea quente. Foi o seu Antnio aconselhou -- concluiu Joo.
-- . As idias todas se misturam na minha cabea. H horas penso uma coisa, depois
outra. No sei o que fazer.
-- No precisa fazer nada agora -- retrucou Maria. -- Espere a poeira assentar.
-- Tentarei, Dona Maria.
-- Se me tratar de dona, eu o trato de senhor.
Osvaldo sorriu.
-- Est certo. Vamos deixar as cerimnias de lado. Mas vocs fizeram muito por mim.
Preciso procurar um lugar para ficar. Estou a h quase uma semana.
-- Algum est lhe mandando embora? -- perguntou Joo.
-- No, mas...
-- Voc vai ficar aqui quanto quiser. O quarto de Juvncio e vazio -- disse Maria.
-- Isso mesmo -- reforou Joo. -- Pode ficar quanto quiser.A casa  sua.
-- Obrigado.
Osvaldo sentia-se acanhado. No queria abusar, mas o olhar alegre dos novos amigos, no
qual percebia sinceridade e carinho, deixava-o  vontade para ficar um pouco mais.
-- Eu gostaria muito de ficar algum tempo por aqui. Mas estou sem roupas.
22


Achei que no iria precisar mais delas. H alguma loja por aqui onde eu possa comprar
alguma?
-- De vez em quando seu Jorge aparece vendendo. Mas no sei quando ele vem --
informou Joo.
-- Seu Jorge pode demorar.  melhor ir at Varginha. Diocleciano leva. L voc vai
encontrar o que comprar -- sugeriu Maria.
--  longe?
-- No. Pouco mais de uma hora -- esclareceu Joo.
-- Se me ensinarem, posso ir sozinho. Diocleciano trabalha e no pode perder dia de
servio.
Maria sorriu:
-- Voc vai se perder e dar mais trabalho para ir procurar. Depois, Diocleciano vive
procurando jeito de ir  cidade. No sei o que h l ele sempre quer ir. Vai ficar feliz da
vida em poder lev-lo.
Osvaldo esboou um sorriso.
-- Se  assim, aceito. Quando poderemos ir?
-- Amanh mesmo.
Osvaldo concordou. Depois do almoo, quis ir com Joo conhecer a plantao. Arregaou
as calas e colocou na cabea o chapu de palha que Maria lhe emprestou, provocando
hilaridade entre as meninas e brincadeiras de Diocleciano:
-- Vai andar na roa com esses sapatos?
-- O que  que tm meus sapatos So de muito boa qualidade
-- Eu sei -- retrucou o rapaz sorrindo --, mas so para andar na cidade. E se pisar em
alguma cobra?
-- Cobra? -- assustou-se Osvaldo.
No ligue para ele -- interveio Maria. -- As cobras tm mais da gente do que a gente delas.
L existem cobras, e vocs vo assim, sem nada? -- admirou-se Osvaldo.
--Existem algumas perto do rio ou dentro da mata fechada. Na estrada no aparecem. Mas,
se aparecerem, sei lidar com elas -- garantiu Joo. -- Ainda quer conhecer a plantao?
--Claro. Se vocs no tm medo, eu tambm no.
--Assim  que se fala. Se vai  cidade,  bom comprar um par de botas--concluiu Joo.
Vendo-os sair, Dalva aproximou-se da me, dizendo:
--Ser que ele no vai ficar com medo? Gente da cidade  to cheia dengo.
23
-- Mas ele no parece ser assim. Diocleciano no precisava pr medo nele.
-- S quero ver quando voltarem -- disse Aninha.
--  bom que ele esteja com vontade de trabalhar -- tornou Maria. --  sinal de que est
querendo continuar a viver.
-- Por que ele quis se matar? -- perguntou Dalva.
-- Por causa da mulher. Ele a encontrou com outro homem.
-- Ele devia am-la muito! -- considerou Aninha, suspirando.
-- Pois eu acho que ela no merecia que ele se suicidasse. Deve ser uma mulher leviana.
Ainda mais tendo filhos! -- argumentou Dalva.
-- No faa mau juzo de quem no conhece. No sabemos como as coisas aconteceram.
Depois, no temos nada com isso e no devemos ficar falando mal da vida alheia.
--  que ele parece estar sofrendo tanto! Ser que ela no pensou na dor que iria causar?
-- Essas coisas so complicadas e no somos ns que devemos julgar. O melhor ser
rezarmos por todos dessa famlia. Deus faz tudo certo. Ele pode tudo. Vai dar jeito e no
adianta ficarmos tenta explicar o que no temos como compreender.
-- Eu no vou rezar para ela, no.
-- Por que, Dalva? No se esquea de que so os que mais erram que precisam de oraes.
Pode haver mais infelicidade do que errar, arrepender-se e no poder voltar atrs?
-- Ser que ela se arrependeu? -- indagou Aninha pensativa
--  possvel. Pode ser que nesta hora ela esteja chorando arrependida, sem poder refazer o
que perdeu. H pessoas que s valorizam a famlia quando a perdem. Ela pode ser uma
delas. Nesta hora pode estar sofrendo tanto quanto ele.
--  verdade, me. No havia pensado nisso. Estava at com raiva dela -- disse Dalva.
-- Espero que tenha passado e que voc reze por ela. Pode ter certeza de que ela deve estar
precisando.
-- Vou rezar.
-- Agora trate de recolher a roupa do varal. Est seca.
-- Vamos, Aninha -- convidou Dalva.
Olhando as duas que abraadas se dirigiam ao quintal, Maria riu com satisfao. Elas eram
dceis e obedeciam de boa vontade.
Foi para a cozinha bater um bolo de fub, que era o preferido Joo. Enquanto separava os
ingredientes, lembrou-se de uma cano antiga e comeou a cantar. Sentia-se feliz.
24
Captulo 3
Cara levantou-se inquieta. Mal pregara olho a noite toda. Tinha vontade de desaparecer,
sumir, para no ter de tolerar os desaforos da famlia de Osvaldo, inconformada com o que
acontecera. Eles lhe telefonavam ameaando denunci-la  polcia caso Osvaldo fizesse
uma besteira. Se ao menos ela tivesse idia de onde ele havia se metido!
A atitude dele era de esperar. Nunca fora capaz de enfrentar nenhuma dificuldade. Quando
um problema aparecia, tratava logo de fugir, deixar para depois. O pior era que sempre
colocava a culpa nos outros. Nunca reconhecia as besteiras que fazia.
Claro que encontr-la aos beijos com Vlter fora um choque. Por que se deixara envolver
pela tentao? Sentira-se atrada por ele desde que o vira pela primeira vez na casa de seu
cunhado Antnio.
Alm de bonito, inteligente, alegre, Vlter possua um magnetismo forte, que fazia com que
o corao dela disparasse quando ele a fixava. Clara lutou contra aquela atrao. Nunca
havia trado o marido naqueles dez anos de casamento.
Reconhecia que Osvaldo, apesar de no ser o homem de seus sonhos, era dedicado 
famlia, trabalhador e a amava muito.
Vlter era o chefe de Antnio e o ajudara muito a fixar-se na empresa e a melhorar seus
vencimentos. Tornaram-se amigos e, como ambos eram solteiros, passaram a sair juntos,
um freqentando a famlia do outro. Por isso, sempre que Clara ia  casa da sogra aos
domingos ou em qualquer reunio da famlia, encontrava Vlter.
Com o tempo, conhecendo-o melhor, passou a admirar seu jeito de ser. Estava sempre
alegre, tudo para ele era fcil. Vivia de bem com a vida, tinha idias prprias, no se
deixando levar por ningum.
Antnio vivia contando como Vlter enfrentava os desafios na empresa com coragem,
determinao, e acabava levando a melhor.
25
Esse era o tipo de homem com o qual Clara sonhara ter casado. No podia evitar compar-
lo a Osvaldo, que perdia cada dia mais. Nunca ele lhe parecera to inexpressivo, sempre
evitando problemas, contornando situaes, com medo de enfrent-las.
"Vlter no faria isso!", pensava ela.
Um dia aconteceu o inevitvel. Num momento em que ficaram a ss na casa de sua sogra,
ele a tomou nos braos, beijando-a rapidamente nos lbios. O corao de Clara disparou,
suas pernas tremeram e ela perdeu o flego.
Mas o rudo de Dona Neusa voltando  sala separou-os imediatamente sem que trocassem
nenhuma palavra.
A partir daquele dia, Vlter comeou a telefonar para sua casa dizendo-se apaixonado.
Queria marcar um encontro em algum lugar, mas Clara, apesar de viver desejando isso,
recusava-se. Tinha medo do sentimento forte que comeava a tomar conta de seus
pensamentos, no a deixando em paz.
Finalmente concordou. Uma tarde, enquanto as crianas estavam na escola, ela saiu
discretamente, tomou um txi e foi ao encontro de Vlter em um apartamento na periferia.
Quando ele abriu a porta, ela sentiu vontade de recuar. Ele, porm, puxou-a pelo brao,
fechou a porta e abraou-a com fora, beijando-lhe repetidamente os lbios.
Clara deixou-se dominar pela emoo. Entregou-se s carcias dele com paixo,
descobrindo emoes que nunca se julgara capaz. Foi um encontro inebriante.
De repente ela olhou para o relgio, dizendo assustada:
-- Tenho de ir. Preciso pegar as crianas na escola.
-- Quero ver voc amanh.
-- No sei. Tudo isso  uma loucura. Temos de parar. Sou casada, tenho filhos, no posso
continuar com isso.
Vlter abraou-a com fora, beijando-a longamente nos lbios.
-- Fomos feitos um para o outro, Clara. No podemos negar isso.
-- Voc apareceu em minha vida um pouco tarde.
-- Nunca  tarde para o amor.
-- No posso fazer isso com Osvaldo. Ele no merece.
-- Sei que no. Mas eu a amo e voc me ama. Ns no merecemos sofrer. Amanh  tarde
quero t-la em meus braos de novo.
-- No sei. Voc tem de trabalhar.
-- Eu posso sair sem problemas. Voc tambm pode.
-- Agora tenho de ir. No posso esperar nem mais um minuto
26
Ela saiu, conseguiu um txi e pelo caminho tentou acalmar suas emoes em conflito. No
podia continuar com aquilo. No iria encontr-lo no dia seguinte, nem nos outros dias.
Contudo, no dia seguinte, conforme o tempo passava e a hora que ele marcara se
aproximava, a deciso de Clara de no ir ao encontro ia enfraquecendo.
Quando deu por si, estava dentro do txi, arrumada, cheirosa e com o corao batendo de
ansiedade para o novo encontro.
Durante uma semana eles se viram todas as tardes. Depois, Clara conseguiu dominar-se.
Ele precisava trabalhar e ela no queria prejudic-lo. Acabaram combinando encontrar-se
duas vezes por semana naquele local.
Entretanto, continuavam se encontrando nas reunies de famlia e Clara fazia enorme
esforo para no demonstrar o que sentia. A cada dia sentia-se mais apaixonada e Vlter
correspondia.
Um dia aconteceu o inevitvel. De repente, Osvaldo percebeu uma troca de olhares, um
gesto de intimidade. Desconfiou. Sentiu o sangue gelar nas veias  simples hiptese da
traio. A cada dia sentia aumentarem suas desconfianas.
Resolveu investigar. Contratou um detetive e logo descobriu onde Clara ia duas vezes por
semana e com quem se encontrava. Preparou o flagrante e naquela tarde, quando ela tomou
o txi, seguiu-a. Ficou l, em frente  porta do apartamento, esperando que ela sasse.
Quando a porta se abriu, ele pde ver Vlter abraando e beijando Clara com paixo. No
se conteve. Atirou-se sobre eles gritando:
-- Traidores! Vou acabar com vocs!
Os dois, paralisados pela surpresa, separaram-se imediatamente.
Osvaldo agarrou Clara pelos braos, sacudindo-a vigorosamente:
-- Por que voc fez isso? Por qu? Vou matar vocs dois! Nunca pensei que pudessem ser
to vis.
Vlter tentou colocar-se entre os dois enquanto o detetive mais seu ajudante que fotografara
a cena intervinham, conseguindo separ-los.
-- Que  isso, seu Osvaldo? -- disse o detetive. -- O senhor prometeu no usar violncia.
Temos a lei do nosso lado. No vou permitir que agrida ningum. Acalme-se. Somos
civilizados. Vamos conversar e ajustar tudo dentro da lei.
Osvaldo, plido, conteve-se a custo. A dor era tanta que ele ficou sem saber o que dizer.
Clara chorava assustada, pedindo que no a matasse.
Mesmo agora, quase um ms depois, ela no conseguia esquecer o terror daquele momento.
27
A partir da sua vida tomou-se um pesadelo. Sua sogra viera pedir-lhe contas e ameaara
tirar seus filhos.
-- Voc no  digna de tomar conta deles. Qualquer juiz me dar ganho de causa. No
pense que vai receber algum bem de Osvaldo com a separao. Ele tem provas da sua
infidelidade. Vai sair do casamento sem nada. Ter de trabalhar para comer. Assim no ter
tempo de fazer o que no deve. Quero ver se aquele sem-vergonha do Vlter, que vivia
comendo em nossa casa, vai lhe dar dinheiro e fazer por voc o que Osvaldo fazia. Por sua
causa, Antnio deixou o emprego. No quis trabalhar mais com aquele conquistador barato.
A custo Clara conseguira coloc-la para fora de sua casa. Ela sara falando alto, interessada
em que todos os vizinhos a ouvissem:
-- Estou saindo mesmo! Nunca mais porei os ps aqui enquanto voc estiver. A casa  de
meu filho. Faa o favor de desocupar e ir se prostituir em outro lugar. Deus  justo. Voc
vai pagar todo o mal que est nos fazendo.
Clara fechou a porta e tapou os ouvidos com as mos. Como pde suportar aquela mulher
durante tantos anos? Antiptica, dona da verdade, manipuladora, queria que tudo na famlia
girasse ao redor dela. Pelo menos, agora no precisava mais suport-la.
Na noite em que fora surpreendida, Clara ficou com medo de Osvaldo. Ele bem que poderia
ter ido arranjar uma arma e voltar para mat-la. Ouviu suas ameaas. Ele ficou muito
revoltado e naquele estado poderia fazer qualquer loucura.
Mas ele no voltou naquela noite, nem na seguinte. Ela no sara mais de casa nem deixara
as crianas irem  escola.  noite, fechava-se no quarto com elas, com medo de Osvaldo.
Vlter telefonara pedindo-lhe que se acalmasse, dizendo que Osvaldo no iria fazer nada
contra eles. Quando os nimos se acalmassem, ele iria ter com ela para conversar.
No estado em que as coisas estavam, Clara pediu-lhe que no a procurasse, para no piorar
a situao.
Foi na terceira noite que escutou o barulho da chave na fecha dura, Osvaldo estava voltando
para casa. Assustada, chamou as crianas e fechou-se no quarto.
Osvaldo entrou, subiu as escadas e bateu na porta do quarto.
-- V embora, Osvaldo. No vou abrir -- disse ela trmula.
As crianas, assustadas, comearam a chorar. Osvaldo respondeu:
-- No precisa ter medo. No vou fazer nada. Quero s apanhar minhas coisas.
28
-- Eu quero o papai! -- choramingou Carlinhos.
-- Abra para ele, me -- pediu Marcos.
-- No quero me encontrar com ele. Vou me fechar no banheiro e vocs abrem a porta --
decidiu ela.
Depois que ela se fechou, Marcos abriu a porta. Os dois meninos atiraram-se nos braos do
pai, que os abraou comovido:
-- Estou com medo, pai! -- disse Marcos.
-- Acalme-se, meu filho. No vou brigar com sua me. S vim pegar algumas coisas.
-- Voc vai embora? -- perguntou Marcos.
-- No quero que o papai v embora -- tomou Carlinhos, chorando.
Osvaldo, sentindo um n na garganta, colocou os dois meninos sentados na cama  sua
frente e olhando-os com firmeza disse:
-- Aconteceram algumas coisas que me foram a ir embora de casa. Quero que sejam
sempre bons meninos e obedeam  sua me.
-- Para onde voc vai? -- indagou Marcos.
-- Ainda no sei.
-- Fique, papai -- pediu Carlinhos. -- No v embora.
-- Preciso ir, meu filho. Ser por algum tempo.
-- Voc volta logo? -- perguntou Marcos.
-- No sei ainda. Mas onde eu estiver sentirei muita saudade de vocs. Eu os amo muito.
Nunca se esqueam disso.
Sentindo as lgrimas descerem pelas faces, Osvaldo disfarou e abriu o guarda-roupa 
procura de uma mala. Depois colocou alguns pertences dentro enquanto as crianas
olhavam tristes para ele.
-- Agora preciso ir.
Abraou-os e beijou-os com amor enquanto eles choravam. Ele lutava para conter a
emoo. Depois, com medo de se arrepender, ele os largou e saiu quase correndo,
carregando a pequena mala.
Ouvindo o barulho da porta de entrada, Clara entreabriu a porta do banheiro perguntando:
-- Ele j foi?
-- Foi. Me, por que ele teve de ir embora?
-- Porque  melhor assim.
-- No , no -- respondeu Carlinhos. -- Ele estava chorando!
Clara abraou-os sem saber o que dizer. Ela tambm se sentia emocionada. Por que no
resistira quela tentao? Por que se entregara quele amor e destrura a felicidade de toda a
sua famlia?
Ela era a nica culpada de tudo. Como poderia viver dali para frente carregando o peso da
sua culpa?
29
Quando seus filhos crescessem e pudessem compreender, continuariam amando-a do
mesmo jeito
Tinha certeza de que tanto a famlia de Osvaldo quanto os vizinhos e conhecidos se
apressariam a contar a seus filhos toda aquela histria, a seu modo. Naquela hora, Clara
arrependeu-se muito de haver fraquejado. Mas o que fazer? Era tarde para recuar. Tinha de
seguir adiante, enfrentar o que viesse pela frente com coragem e dignidade.
De uma coisa tinha certeza: no permitiria que ningum lhe tirasse os filhos. Lutaria com
unhas e dentes para t-los do seu lado, educ-los. Acontecesse o que acontecesse, no
abriria mo desse direito
Durante mais dois dias ela esperou que Osvaldo aparecesse e desse notcias. Mas ele
desapareceu. Tanto Antnio como Dona Neusa telefonaram vrias vezes para saber de
Osvaldo, no querendo falar com ela, s com Marcos, ligando vrias vezes por dia, sempre
pedindo que se comunicassem com eles caso Osvaldo desse notcias.
Por eles, Clara ficou sabendo que Osvaldo desaparecera. Eles haviam solicitado a ajuda da
polcia, procuraram nos hospitais, em dos os lugares possveis, receosos de que ele tivesse
tentado contra vida. No conseguiram nenhuma informao.
Depois que ele foi embora, Clara ainda ficou sem sair de casa mais alguns dias. Os
mantimentos foram acabando. Ela tinha algum dinheiro no banco que, se bem
administrado, poderia pagar as despesas durante dois ou trs meses. Ela teria de trabalhar.
Mas onde?
Em solteira havia sido balconista de uma loja de departamentos no centro da cidade.
Gostava do seu trabalho, principalmente por sentir til, ter o prprio dinheiro. Mas Osvaldo
no lhe permitiu continuar depois do casamento.
-- Eu ganho bem e posso manter a famlia. Voc no vai precisar trabalhar.
Ela tentou convenc-lo, mas ele foi categrico:
-- Mulher minha no trabalha fora. Na minha famlia, todas as mulheres s trabalham em
casa.
Agora, Clara arrependia-se de haver concordado. Se pelo m tivesse estudado, se tivesse se
formado em alguma coisa. Mas nada. Durante todos aqueles anos limitou-se a cuidar dos
filhos, da do marido e viver do dinheiro que ele lhe dava.
O que seria deles agora? Ela poderia se arranjar, mas os filhos precisavam de conforto e
assistncia. Osvaldo era muito amoroso com as crianas. Por certo no se negaria a
sustent-los. Contudo, ele desaparecido e ningum sabia onde estava.
30
E se ele tivesse morrido? E se nunca mais voltasse? Ela teria de suprir todas as
necessidades dos filhos sozinha. A famlia do marido vivia bem, tinha conforto e nada
faltava, embora no fossem ricos, mas ela nunca lhes pediria nada. Sabia que a sogra faria
tudo para tirar- lhe os filhos, e isso ela nunca iria permitir.
Levou as crianas para a escola. Eles haviam faltado dez dias. Para Carlinhos, que estava
no jardim de infncia, isso no tinha nenhuma importncia, mas Marcos j estava no
segundo ano e poderia ser reprovado.
Tentou justificar as faltas alegando problemas de sade, mas pelo olhar da diretora notou
logo que ela sabia o verdadeiro motivo. Clara fez-se de desentendida, prometendo que
Marcos no teria mais nenhuma falta e que ela o ajudaria a recuperar o tempo perdido.
Comprou o jornal disposta a encontrar trabalho. No sabia bem o que procurar. Verificou
logo que no seria fcil. No tinha formao profissional e as empresas exigiam dois anos
de experincia. Alm disso, o salrio de uma balconista era to baixo que no daria para
sustentar a famlia.
Ligou para Vlter e depois dos cumprimentos disse:
-- Quero conversar com voc. Estou aflita.
-- Alguma notcia de Osvaldo?
-- At agora nada. Isso tambm est me preocupando. A famlia dele continua me
atormentando, ligando para c, conversando com as crianas.
-- Agente mais um pouco. As coisas para mim aqui na empresa tambm esto ruins.
Antnio fez uma onda danada. Procurou o diretor, contou a histria a seu modo, pediu
demisso e eu fui chamado, repreendido, ameaado de perder o emprego. No posso perder
esse emprego de jeito nenhum. Custou muito para chegar aonde eu cheguei.
-- S quero conversar, pedir um conselho.
--  melhor no ligar aqui para o escritrio.
-- Vou ligar para sua casa.
-- Nem pense nisso. A famlia toda est em p de guerra. No se conformam com o que
fizemos.
-- Devem estar com raiva de mim...
-- Esto. Sabe como , nesses casos a mulher sempre leva a culpa maior.
-- Ento voc me liga e vamos nos encontrar em algum lugar para conversar. Tenho de
arranjar emprego e no sei como fazer isso. Gostaria que me orientasse. Faz tanto tempo
que deixei de trabalhar fora...
31
-- Est precisando de dinheiro?
-- Por enquanto no. Mas o que tenho no vai durar muito. Se Osvaldo no aparecer, no
der penso para as crianas, o que farei?
-- Calma. Se isso acontecer, verei o que posso fazer.
-- Voc vai me procurar logo?
-- Assim que puder. Acalme-se. Temos de deixar a poeira assentar. Espero que
compreenda. No ligue para c nem para minha casa. Assim que eu perceber que eles se
acalmaram, irei procur-la.
Clara desligou o telefone sentindo o corao apertado. Por que se deixou levar pela paixo?
Por que no pensou melhor antes de entregar-se quele amor proibido? Por que no soube
valorizar o amor sincero de Osvaldo?
Angustiada, ela no encontrava resposta para essas perguntas. As lgrimas desceram pelas
faces sem que ela fizesse algo para as impedir. Se pudesse voltar atrs, lutaria com todas as
foras para vencer aquela paixo. Mas era tarde, muito tarde. Agora s lhe restava seguir
adiante, sofrendo as conseqncias de suas atitudes, pagando o preo de suas fraquezas.
Mas, se era justo que ela sofresse, no suportava ver o sofrimento dos filhos. Eles amavam
o pai e sofriam com a separao. Por que no pensou nisso antes? Quanto mais refletia
sobre isso, mais se recriminava, mais aguda se tomava sua sensao de culpa.
Onde procurar consolo? Lembrou-se da igreja. Sua me era catlica e sempre a levava 
missa. Consultou o relgio e notou que ainda tinha uma hora para pegar as crianas na
escola. Resolveu procurar um padre para confessar. Ele lhe daria a penitncia e a perdoaria,
assim essa sensao de culpa iria embora.
A pequena igreja perto da escola estava vazia quela hora da tarde. Ela procurou o padre e
pediu para ser ouvida em confisso. Ele concordou e Clara ajoelhou-se no confessionrio 
espera de que ele a atendesse.
Cheia de remorso, rezava pedindo a ajuda de Deus e o perdo para seu erro. Queria libertar-
se daquele pecado.
O padre abriu a janelinha do confessionrio e Clara comeou a falar. Contou sua histria,
no fim da qual ele considerou:
-- Filha, voc pecou contra Deus. Seu pecado  muito grave. No posso dar-lhe a
absolvio por enquanto.
-- Eu estou arrependida, pedindo perdo. Quero comungar, limpar meu corao.
-- O adultrio  pecado mortal. Voc tem de avaliar melhor seu erro.
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No posso permitir sua comunho. Vou dar-lhe como penitncia todos os dias rezar um
tero e pedir perdo a Deus, repetindo no final: "Minha culpa, minha culpa, minha mxima
culpa". Depois de um ano, volte aqui para avaliar como voc est.
Fazendo o sinal da cruz abenoando-a, o padre fechou a janelinha do confessionrio e Clara
ficou ainda alguns instantes parada, sem saber o que fazer. Depois se levantou e saiu da
igreja, cabea baixa, curvada ao peso de sua culpa.
"Nem Deus quer me perdoar", pensou ela, desesperada.
Se no fosse pelos filhos, teria dado cabo da vida ali mesmo. Seria fcil: os carros
passavam em velocidade, e num instante tudo estaria resolvido.
Mas os rostos de Carlinhos e de Marcos vieram-lhe  mente. Ela no podia pensar s em si.
Eles precisavam dela, agora mais do que nunca. Mal ou bem, triste ou arrasada, ela teria de
cuidar deles.
Foi andando at a escola e teve de esperar algum tempo at que as crianas sassem.
Sentia que as outras mes a olhavam de forma diferente. Saberiam o que ela havia feito?
Encolheu-se em um canto tentando passar despercebida, fingindo no ver as outras mes,
algumas que costumavam cumpriment-la sempre que ia at a escola. Sentia vergonha.
Assim que os dois saram, ela os apanhou e em silncio voltaram para casa.
-- Como foi na escola?
-- Bem -- respondeu Marcos. -- Meus amigos queriam saber por que eu faltei.
-- O que voc disse?
-- Contei que estava doente. No foi isso que voc falou para Dona Laurinda?
Clara concordou. Sempre ensinara os filhos que era melhor dizer a verdade, mas como
exigir isso depois de haver mentido na frente deles?
Suspirou agoniada.
Uma vez em casa, enquanto eles tomavam banho, ela providenciou o jantar. A campainha
tocou e a fez estremecer. Seria Osvaldo?
Foi at a porta e espiou pelo visor. Era Rita, e ela abriu imediatamente:
-- Entre, Rita.
-- Como vai, Dona Clara? Est melhor?
-- Mais ou menos.
33
-- Bom, eu vim vrias vezes, mas ningum atendeu  porta. Fiquei acanhada de aparecer.
Sabe como : o povo fala tantas coisas que a gente fica encabulada.
-- Eu e Osvaldo nos separamos. Ele foi embora e no sei onde est.
-- Entendo. No quero ser intrometida, Dona Clara, mas gosto muito da senhora. Faz mais
de quatro anos que trabalho aqui e aprendi a gostar das crianas, tudo. Estou sentindo muita
falta de Carlinhos. Vim saber se a senhora ainda me quer para trabalhar aqui.
Querer eu quero, Rita. Voc tem sido muito amiga, e as crianas a adoram. S no sei se
poderei pagar. Estou procurando emprego e ainda no sei como me arranjar.
-- A casa  da senhora. Vai continuar morando aqui?
-- Vou. No temos outro lugar para ir.
-- Nesse caso, a despesa no  muito grande. Depois, os meninos precisam de algum para
tomar conta quando a senhora for trabalhar.
--  verdade.
-- At agora eu morava com minha irm e s trabalhava durante o dia. Mas ela vai embora
para o interior com o marido e eu fiquei sem ter onde morar. No posso pagar o aluguel da
casa sozinha. Por isso, se permitir que eu venha morar aqui, faremos um trato que no fique
pesado para ningum. Se a situao da senhora melhorar, a minha tambm melhora. Est
bem assim?
Clara abraou-a comovida. Na situao em que se encontrava, a companhia de Rita era-lhe
uma bno. Alegre, bem-disposta, positiva, amorosa e cumpridora dos seus deveres, s
tinha uma paixo: a dana. Todos os sbados ela saa para danar e s voltava quando o dia
estava amanhecendo.
-- Vai ser maravilhoso ter voc aqui conosco. Puxa, cheguei em casa to arrasada,
pensando at em besteira, mas voc me trouxe um alento.
-- Tudo passa, Dona Clara. A senhora ainda tem seu maior tesouro, que so os meninos.
Carlinhos entrou na cozinha abraando as pernas de Rita, dizendo alegre:
-- Rita! Voc voltou! No vai mais embora, vai?
Ela o pegou no colo, beijando-lhe a face rosada.
-- Claro que no. Vou buscar minha mala e amanh eu volto para morar aqui.
-- Oba!  verdade isso? -- perguntou Marcos, que acabava de entrar e a abraava tambm.
34
-- Vamos arrumar tudo depois do jantar para que ela possa se mudar amanh cedo.
-- Hoje ela vai dormir aqui -- disse Carlinhos. -- Quero que ela me conte a histria do
gato que tinha sete vidas.
-- No  gato de sete vidas,  o gato de botas, seu bobo -- corrigiu Marcos.
-- O gato de botas tinha sete vidas -- retrucou o irmo.
-- No  sete vidas,  sete lguas!
-- Vamos arrumar tudo e eu conto a histria antes de dormir --interveio Rita.
Enquanto ela falava com eles, Clara, vendo-os entretidos, respirou mais aliviada. Talvez
nem tudo estivesse perdido e as coisas pudessem melhorar.
Tentou esconder a tristeza e cooperar. Os meninos mereciam usufruir um ambiente mais
alegre, e ela faria tudo para lhes proporcionar isso.
Captulo 4
O galo cantou e Osvaldo remexeu-se na cama. Sentia o corpo doer, pois no conseguira
pregar olho a noite inteira.
Fazia mais de dois meses que ele se atirara do trem e, embora as feridas do corpo
houvessem sarado, ainda sentia que a ferida interior continuava aberta, como se o tempo
no houvesse passado. Estava difcil esquecer.
Naquela casa, todos o tratavam com respeito e considerao. Havia bondade em cada gesto,
e ele os apreciava muito. O ambiente era agradvel, leve, eles se tratavam com educao e
carinho.
Havia harmonia, e os filhos conversavam de igual para igual com os pais, sem atravessarem
os limites do respeito, e eram ouvidos em seus questionamentos.
Para Osvaldo, habituado  convivncia com a tia, sempre muito fechada a qualquer
intimidade, essa era uma condio nova, e ele se sentia muito bem na companhia deles.
Mas, apesar disso, a ferida do corao ainda sangrava. A cena de Clara abraada com
Vlter voltava-lhe  mente, e nesses instantes a angstia o sufocava.
At quando carregaria essa chaga no peito? At quando a lembrana dos filhos queridos e a
saudade o atormentariam? Nesses momentos, perguntava-se por que Deus lhe poupara a
vida. Seria para continuar nesse tormento?
Quando se sentia triste, costumava sair e ir sentar-se sob o abacateiro na beira do crrego e
ficar meditando, olhando sem ver, perdido em seus pensamentos.
Quando percebia, havia algum sentado a seu lado, ora Diocleciano, ora uma das meninas e
at Joo, sem dizer nada, e Osvaldo sentia que eles estavam sendo solidrios, oferecendo
apoio, amizade
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Ento a angstia passava. E, quando ele se mostrava disposto a conversar, cada um do seu
jeito procurava chamar sua ateno para as belezas da vida, da natureza, que, perfeita em
seu ritmo, vai colocando todas as coisas no lugar.
Osvaldo acabava por sentir-se melhor, entre as risadas de Aninha, as tiradas bem-
humoradas de Dalva, a curiosidade insacivel de Diocleciano, a pacincia de Joo e at as
frases bem achadas de Maria.
Durante o dia, trabalhava duro na roa. Sentia-se bem por retribuir o carinho que recebia e
tambm porque, ocupando-se, suando a camisa, esquecia um pouco a tristeza. Com o corpo
cansado, muitas vezes adormecia sem ter tempo de pensar no passado.
Naquela noite, entretanto, isso no aconteceu. E que naquele dia Carlinhos fazia seis anos.
Pensara nele o dia inteiro, O que estaria fazendo? Como estariam levando a vida?
Havia momentos em que se arrependia de haver desaparecido e ficava tentado a telefonar
para sua me para saber o que estava acontecendo l. Mas no queria que soubessem onde
ele se encontrava. Sabia como eles pensavam. Julgavam-no covarde por ter fugido e no ter
acabado com Clara ou tirado os filhos dela.
s vezes pensava em voltar. Mas estava sem emprego, sem roupas, com pouco dinheiro. O
que iria fazer na cidade? A me era sustentada por seu outro filho, Antnio, que pedira
demisso do emprego. Como estariam vivendo?
No. Nunca voltaria tendo de pedir a ajuda deles nem que fosse apenas para os primeiros
tempos. E Clara? Teria se ligado a Vlter de uma vez?
A esse pensamento, sentia aumentar sua revolta. A idia de ver seus filhos vivendo ao lado
do rival, tendo-o como pai, incomodava-o. Nesses momentos tinha mpetos de voltar e
tomar conta dos filhos. Mas como fazer isso? No se encontrava em condies de pleitear a
guarda deles na justia. Nem sequer tinha uma casa para abrig-los.
Apesar do que fizera, Clara era muito amorosa com as crianas.
No as entregaria a ele a no ser que a justia a obrigasse. Reconhecia que isso seria difcil.
Nesses casos, a preferncia  da me.
Se ao menos ele tivesse tido a coragem de pegar as provas do comportamento dela para
tentar obter o direito sobre os filhos... Entretanto, mesmo que conseguisse a tutela deles,
como iria tomar conta se no tinha recursos para montar uma casa decente, manter uma
bab para cuidar deles?
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Depois, eles eram muito apegados  me. Sofreriam bastante tendo de se separar dela.
Osvaldo passou a mo pelos cabelos, inquieto. No tinha sada. O jeito era continuar ali,
naqueles ermos, engolindo a angstia, a saudade, a revolta, tentando sobreviver apesar de
tudo.
Pensou em sua tia Ester. Certamente sua me no teria ocultado da cunhada o seu drama.
Como teria reagido? Apesar de educada e afvel, nunca conseguira muita proximidade de
tia Ester.
Mantinham bom relacionamento. Enquanto viveu em sua casa nunca lhe deu motivos de
preocupao, tendo procurado ser sempre correto e obediente. Apesar disso, sentia que
entre eles havia uma barreira. Ela era sempre discreta e equilibrada. Nunca a viu sair
daquela postura ou perder a calma.
Quando conversavam, nunca mencionavam problemas pessoais Por isso Osvaldo sentia
que, mesmo tendo vivido com ela na mesma casa durante anos, no a conhecia mais de
perto. Respeitava essa forma de viver, mas ao mesmo tempo no se encorajava em
atravessa aquela barreira que ela colocava e tacitamente evitava mostrar seus sentimentos
diante dela, conservando a postura indiferente e equilibrada mesmo que por dentro
estivesse inquieto.
Depois de formado, ele comeou a trabalhar, e quando resolvei casar-se j tinha economias
suficientes para montar a casa sem precisar pedir-lhe ajuda. Mesmo assim, ela fizera
questo de dar-lhe a casa onde foi morar depois do casamento. Era uma casa boa, e eles a
decoraram muito bem.
Pensando nisso, ele estremecia. Haviam sido felizes por tantos anos. Teria sido tudo
mentira? Clara teria tido outros amantes? Desde quando ela o enganava?
O que tia Ester estaria pensando dele? Era difcil saber. Se ele procurasse para pedir ajuda,
o que ela faria? Apesar da falta de intimidade entre eles, ela sempre o ajudou. Momentos
havia em que ele pensava que ela talvez fosse a nica pessoa que o ajudaria sem
recriminaes.
Tanto sua me quanto seu irmo eram interesseiros e egostas. Viviam endeusando a tia por
ela ser rica, mas por trs criticavam sua vida com o marido, o que sempre o revoltava e
acabava em discusso.
Osvaldo no gostava de maledicncia. Quando a me e o irmo se mudaram para So Paulo
e ele comeou a conviver mais com eles, descobriu logo como eles viviam e tratou de
espaar suas visitas.
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Ele j havia se casado, e Clara tambm no gostava de conviver com eles. Era ele, Osvaldo,
que insistia para que a mulher o acompanhasse nas visitas domingueiras  casa da me.
Arrependia-se disso. Mas como poderia saber que ela iria fazer o que fez? Ele valorizava a
vida familiar e muitas vezes se culpou por no gostar de conviver com a me e o irmo,
obrigando-se a ir v-los mesmo sem prazer.
Pensava que um bom filho tinha de ser atencioso com os pais, mesmo que eles deixassem a
desejar como pessoas. O que ganhara com isso? Eles o chamavam de fraco, ditavam
normas de comportamento, que riam obrig-lo a tomar atitudes que ele no desejava.
Pensando bem, talvez ele tivesse fugido no s para esquecer seu drama amoroso mas
tambm para escapar do assdio e das crticas deles que o estavam confundindo e
infelicitando mais.
O galo cantou e Osvaldo levantou-se, sem haver pregado olho a noite toda. Era hora de
trabalhar. Melhor do que ficar se remexendo na cama lutando com pensamentos dolorosos.
Quando Maria entrou na cozinha para acender o fogo, j Osvaldo estava sentado no banco
ao lado da janela.
-- Bom dia, Osvaldo -- disse ela.
-- Bom dia.
Ela acendeu o fogo e colocou a chaleira para o caf. Osvaldo se levantou.Vou pr as
canecas na mesa.
-- Pegue o po tambm, aquele que Aninha fez ontem. Maria passou o caf enquanto ele
colocava as coisas na mesa sobre a toalha xadrez. Ela encheu uma xcara, adoou e
entregou-a a Osvaldo, dizendo:
-- Beba. Vai sentir-se melhor.
Ele pegou a caneca e no respondeu. Ela continuou:
-- Hoje seu Antnio vem almoar aqui. Disse que tem de falar com voc. Mandou um
recado pelo Tonico da venda.
-- Ele  bom demais. No sei se vale a pena tanto trabalho por to pouco.
-- Se ele vem,  porque acha que vale.
-- Ele devia ter  me deixado morrer. Teria sido melhor.
-- No seja mal-agradecido. Deus no gosta.
-- Desculpe, Maria. Todos vocs so gente muito boa. Esto perdendo muito tempo
comigo. No vale a pena.
-- Tome seu caf e coma o po, que  melhor. Passe bastante manteiga, que fica gostoso.
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O caf est bem aucarado, para acalmar voc.
Osvaldo suspirou e no respondeu. Ela continuou:
-- Voc quer fugir dos problemas mas no consegue. Pode ser a hora de enfrent-los.
-- No vejo soluo.
--Voc no tem f. No acredita na vida nem em voc, se faz de fraco. Por qu? Para que
todos fiquem com pena?
Osvaldo enrubesceu.
-- No quero que ningum tenha pena de mim.
-- Pois no parece. Vive pelos cantos, pensativo, de cara feia, mas no faz nada para
resolver o seu caso.
--No h nada que eu possa fazer. O que aconteceu no tem remdio.
-- Tudo tem remdio quando voc quer. Acontece que quando ele  amargo ningum quer
tomar.
-- Pois eu tomaria qualquer remdio, por pior que fosse, se ele pudesse voltar o tempo e
evitar o que aconteceu.
-- Querer o impossvel no resolve. Se acha que no pode fazer nada para solucionar os
problemas que o entristecem, por que continua se atormentando com eles? O que no tem
remdio remedia do est.
--  fcil falar. Bem que eu gostaria de esquecer, de no pensar mais no que aconteceu.
Mas no d. H coisas que no saem da minha memria.
Maria olhou-o sria e respondeu:
-- Ficar de cara feia, brigar com a vida, no vai ajudar nada. Assim como no adiantou
voc fugir. Minha finada av sempre dizia que, quando aparece uma assombrao, no
adianta fechar os olhos ou esconder a cara, porque ela continua l e ns continuamos
vendo. O melhor  encarar bem e saber o que ela quer, por que est nos assombrando. A
ns vamos descobrir que ela era s uma fumaa, que logo desaparece e no tinha nenhum
poder para nos fazer mal.
--O que quer dizer com isso?
-- Que muitas vezes as coisas parecem ser maiores do que so. Quando vencemos o medo,
elas perdem a fora e acabam desaparecendo.
Osvaldo baixou a cabea pensativo. Ele precisava dar um jeito em sua vida, resolver o que
fazer. No podia ficar ali, daquele jeito, incomodando os amigos com sua tristeza.
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Levantou-se e foi para a plantao. O melhor era trabalhar, cansar o corpo. Assim acabaria
esquecendo um pouco a dor que lhe ia no corao.
Quando voltou com Diocleciano e Joo para o almoo, Antnio estava sentado
conversando com Maria na frente da casa. Os trs acenaram para eles com alegria, pararam
no poo onde j havia um balde de gua tirado, lavaram-se na tina, enxugaram-se e
apressaram-se a abra-lo com carinho.
-- Faz tempo que chegou? -- indagou Joo sorrindo.
-- Uma meia hora, se tanto. Est muito bom aqui nesta sombrinha.
-- Eu queria mandar Dalva avisar que ele j estava aqui, mas ele no deixou.
-- No queria atrapalhar o trabalho de vocs. Depois, eu sabia que no iam demorar.
-- Como  que veio?
-- Tonico ia passar aqui perto, vim com ele.
-- No faa mais isso. Sempre que quiser, mande avisar e Diocleciano vai lhe buscar em
casa.
Quando Maria foi para a cozinha providenciar o almoo, eles ficaram conversando do lado
de fora. Pouco depois, ela avisou que a mesa estava posta e eles entraram. O cheiro gostoso
da comida era convidativo e Antnio disse com um sorriso largo:
-- Se eu vivesse aqui, ia ficar mal acostumado. Ningum faz um feijo como a Dona
Maria.
-- L isso . E a galinha tambm  tima -- concordou Joo, alegre.
Maria sorriu satisfeita, colocando a jarra de limonada sobre a mesa. O almoo decorreu
alegre. Depois do caf, Antnio tirou do bolso a palha, o fumo, fez um cigarrinho, acendeu-
o, tirou algumas baforadas e levantou-se dizendo:
-- Obrigado, Dona Maria. Agora preciso caminhar um pouco. E bom para digesto.
Osvaldo, quer me acompanhar?
Ele se levantou e os dois saram caminhando devagar. Ningum se ofereceu para
acompanh-los. Todos sabiam que o que o curador desejava era falar com Osvaldo a ss.
Em silncio, eles andaram alguns metros, e Antnio convidou:
-- Venha, vamos nos sentar aqui, neste tronco. Este lugar  bom para meditar!
Ao lado do tronco havia uma frondosa rvore cujos galhos balanavam tocados pela brisa
leve que circulava, projetando sombras que se movimentavam no cho, formando
caprichosos e varia dos desenhos.
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-- Como  linda a natureza! Como a vida  boa e generosa! Sentaram-se. Osvaldo, porm,
mergulhado em seus ntimos pensamentos, no respondeu. Antnio continuou:
-- Voc precisa se livrar dos tormentos, no se deixar envolver pelas iluses.
-- Iluses? Do que est falando? No h no mundo ningum mais realista do que eu.
Depois do que me aconteceu, perdi a confiana nas pessoas. Cada um  o que , e pronto.
-- Isso mesmo. Cada um  s o que . Voc j pensou nisso, meu filho?
-- No tenho pensado em outra coisa desde o dia em que descobri a verdade.
-- E o que fez com ela?
-- O que poderia fazer? A traio de Clara me destruiu, arrasou todas as minhas iluses,
acabou com nossa famlia.
Foi voc quem abandonou o lar, que atentou contra sua vida.
-- O que mais eu poderia fazer depois de tudo? Como suportar a dor, a vergonha, a
infelicidade?
-- No adianta querer substituir uma iluso por outra. No  isso que a vida est querendo
de voc.
-- No estou entendendo. Eu no fiz nada. Durante anos fui fiel a ela, vivi s para a
famlia, respeitei nosso lar, nossos filhos. Estava iludido: Clara no merecia essa dedicao.
Estou desiludido.
-- No est, no. Continua se iludindo, imaginando coisas, se machucando com elas. Acha
pouco?
-- Agora eu sei quem ela . No estou imaginando nada. Eu vi.
Voc viu sua mulher com outro.
-- Isso mesmo. No consigo esquecer esse momento.
-- Est doendo. No corao e na vaidade. Fugiu para no ser apontado como marido trado.
Fugi para esquecer. Para no ver mais diante dos olhos aquela cena odiosa.
-- Se no se livrar dela, no adianta fugir. Ela vai junto.
-- J descobri isso. Mas o que posso fazer? s vezes tenho vontade de voltar, ver as
crianas, assumir o comando da minha vida e dos meus filhos. Mas como, se no tenho
recursos? Tirar os filhos da me no ser para eles uma dor maior?
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-- Mas se atormentar, sofrer, brigar com a vida, revoltar-se tambm no vai ajudar em
nada. O que precisa  dar soluo.
-- No h nenhuma. No vejo nada que possa me ajudar.
-- Nem Deus?
Osvaldo deu de ombros e respondeu:
-- Nunca fiz mal a ningum, sempre fui justo e bondoso. Por que aconteceu isso comigo? 
difcil ter f depois do que passei.
-- No seja ingrato. Voc poderia ter morrido se Deus no colocasse Joo e Diocleciano
em seu caminho. So gente boa, da melhor qualidade.
-- Sei disso. Sou agradecido a eles pelo que tm feito por mim. Mas me sinto culpado por
incomodar os amigos com minha tristeza.
Tenho pensado em ir embora, mas no sei para onde ir.
-- Por enquanto deve ficar. Ainda no est pronto para voltar  cidade. H algumas coisas
que eu gostaria de lhe ensinar. Vim aqui para dizer que, apesar do que est passando, voc
tem amigos espirituais que se interessam pela sua felicidade. Esto dispostos a ajud-lo,
mas antes querem que voc saia das iluses.
-- No estou entendendo. No tenho mais iluses. Sei que esta vida  cheia de pessoas
falsas, traioeiras, das quais no se pode esperar nada bom. Quer que eu seja mais realista
do que isso?
-- Voc foi do excesso de confiana  negao de todas as qualidades humanas. Os
extremos so ilusrios. E preciso perceber no o que parece, nem o que voc imagina, mas
s aquilo que .
-- Como perceber o que vai no corao das pessoas? Como descobrir a verdade? Para no
me iludir, no sofrer novamente, prefiro acreditar no pior.
-- E ficar se amargurando, sem encontrar remdio para as feridas da sua alma.
Osvaldo baixou a cabea pensativo por alguns instantes, depois disse:
-- O que preciso fazer?
-- Primeiro, entender o que est se passando em seu corao, precisa se conhecer melhor,
perceber como a vida , aceitar o que ela est lhe oferecendo no momento.
-- No momento est me dando s dor, tristeza, desiluso.
-- Est mostrando uma parcela de verdade. Isso quer dizer que voc j est maduro para
vencer o desafio que ela est lhe trazendo.
-- Pelo contrrio. Estou perdido. No tenho como vencer esse tormento que se abateu sobre
mim.
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-- Tem, sim. No menospreze sua fora. Ela est a, dentro voc. Apenas ainda no sabe
us-la. Por isso  que precisa se conhecer e conhecer os mecanismos da vida. Quando ela
coloca um desafio em seu caminho,  porque voc j tem meios de venc-lo. Com o tempo
perceber que ela  justa e trabalha sempre em seu favor. Nunca lhe traria um problema que
voc no tivesse condies de enfrentar e vencer.
-- No  isso que eu sinto. No consigo encontrar uma sada
-- Voc pensa que est sentindo, mas est apenas reagindo aos pensamentos que aprendeu
dos outros, s regras da sociedade, aos ditames do que lhe parecia certo ou errado, segundo
os conceitos dos homens Para conseguir chegar ao seu corao, ao que sua alma sente e
almeja, voc precisa primeiro libertar-se das regras convencionais, questionar suas crenas,
avaliar os valores que so verdadeiros e importantes para voc. Sem isso, nunca sair da
inquietao, dos tormentos das iluses.
-- O que me diz  novo. No sei se poderia fazer isso.
-- Teria muito prazer em lhe ensinar o pouco que aprendi meus guias espirituais. Quero
convid-lo a passar algum tempo minha casa.
-- Gostaria muito. A seu lado sinto-me mais calmo. Ainda a estava desorientado. Passei a
noite em claro, pressionado meus pensamentos. Com esta conversa estou me sentindo-me
bem Acha que no irei incomodar?
-- No ser de graa, claro. Estou precisando de um ajudante como no sou orgulhoso, vou
aceitar sua cooperao. Eu lhe ensino algumas coisas e voc me auxilia em minhas tarefas.
Osvaldo sorriu. Ele sabia que Antnio lhe dizia isso para deix-lo  vontade.
-- Quando poderei ir?
-- Se quiser, hoje mesmo. Se no gostar de l, poder retornar para c.
Voltaram para casa e Osvaldo contou aos amigos que aceitou o convite de Antnio para
ficar em sua casa, ao que Maria comentou:
-- Vamos sentir sua falta, Osvaldo. Mas um convite desses para recusar. Eu sei o que estou
dizendo.
-- Tem razo, Maria -- concordou Joo. -- Voc foi escolhido ter certeza de que tem
muita sorte.
Osvaldo arrumou suas poucas coisas e Diocleciano trouxe a carroa para lev-los  casa de
Antnio. Despediram-se com carinho
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              Maria embrulhou um po que Aninha assara naquela manh e algumas broas
              que ela mesma fizera. Abraando os amigos, Osvaldo acomodou-se na
              carroa enquanto Antnio sentava-se ao lado de Diocleciano na bolia.
Com o corpo sacudindo ao ritmo cadenciado da carroa, Osvaldo pensava em seu destino.
Antnio acenava com uma esperana.
Osvaldo, embora estivesse convencido de que seria muito difcil, se no impossvel,
esquecer, deixava-se levar, disposto a tentar.
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A casa de Antnio era de madeira e compunha-se de uma cozinha grande onde havia um
fogo a lenha, um armrio, de um lado a mesa onde ficavam as vasilhas de gua e a bacia
de lavar a loua, do outro uma mesa com alguns bancos, utilizada para as refeies.
Havia outros cmodos que se ligavam a essa dependncia da casa, que Antnio foi
mostrando a Osvaldo.
-- Eu durmo neste quarto. Neste outro dorme minha irm Zefa mais Nequinho, o menino
que ela est criando. Este quarto  o seu, pode deixar suas coisas a.
Osvaldo colocou seu embrulho de roupas sobre a cama modesta e Antnio continuou:
-- Aqui do lado  meu lugar de trabalho.
Osvaldo olhou curioso a pequena sala onde havia algumas prateleiras de madeira com
garrafas, a mesa tosca e vrios utenslios de cozinha, inclusive um pequeno fogo a lenha.
Uma cama de solteiro e uma cadeira completavam o mobilirio.
-- So remdios que eu fao -- explicou ele, apontando para as garrafas. -- s vezes
preciso deixar um doente aqui para tratamento. Agora vamos para a cozinha. Quero lhe
apresentar Zefa. Senti o cheiro do caf, acho que ela j voltou da roa.
Zefa era uma mulata forte, muito parecida com o irmo. Assim que foi apresentada a
Osvaldo, abriu os grossos lbios em alegre sorriso.
-- Coei o caf. J vi o po de Aninha que Maria mandou. S vou pr a toalha na mesa.
Foi at a porta da cozinha e gritou:
--Nequinho! Nequinho! Eta moleque danado! Eu no disse que era para pr a mesa para o
caf?
Antnio j havia colocado a toalha e estava pondo as canecas quando finalmente o menino
entrou.
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Osvaldo logo viu que no era parente, pois tinha pele muito clara, cabelos quase louros e
era muito magro. Seus grandes olhos castanhos pareciam ainda maiores graas  magreza
do seu rosto.
-- Onde voc estava? No ouviu chamar?
--Fui ver se tinha gua no galinheiro. Quando passamos, as galinhas estavam com o bico
aberto. A senhora no viu?
Zefa encarou o menino e no questionou. Disse apenas:
-- Cumprimente seu Osvaldo e depois v lavar as mos para tomar caf.
-- Sim, senhora. Como vai o senhor?
-- Bem.
-- Com licena -- disse ele curvando-se e saindo para lavar as mos na gua da tina.
Osvaldo olhou admirado para ele e comentou com Antnio:
-- Menino educado. Quantos anos tem?
-- Onze. Esteve muito doente, mas agora, com a graa de Deus, est melhor. Faz dois anos
que estamos tratando esse menino.
Sentaram-se  mesa, onde Zefa colocara, alm do po de Aninha, um bolo de fub e um
prato de mandioca cozida.
Antnio contou que seu pai comprara aquele pequeno stio quando se casou com sua me e
foi construindo a casa, aumentando-a conforme os filhos nasciam.
Plantavam milho, mandioca, um pouco de feijo, criavam galinhas e mantinham pequena
criao de porcos apenas para uso da famlia. Quando o pai morreu, os dois irmos de
Antnio foram embora para a cidade. Ele e Zefa ficaram com a me, cuidando de tudo.
Depois que ela morreu, eles continuaram morando ali. Gostavam do lugar.
--Amanh vou levar voc para ver tudo -- disse Antnio. -- que conhea cada planta
deste cho.
Depois de comerem, Antnio levou-o  sala dos remdios e fechou a porta, dizendo:
--Sente-se, temos de conversar.
Ele obedeceu. Antnio prosseguiu:
--Meu guia me mandou trazer voc aqui. Pediu que eu lhe ensine. Voc quer aprender?
--Ache que posso? Nunca entendi nada de doenas.
--Bom,se ele disse,  porque pode. Agora, precisa querer, gostar. Depois, estou precisando
de algum para me ajudar.
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-- Preciso me ocupar para esquecer. Se eu puder ser til, estou disposto a tentar.
-- A vida  muito rica. Tem seus ciclos e sua maneira de funcionar. Trabalhar em favor
deles facilita, ajuda a curar as doenas e a ver melhor. A Terra produz tudo que os homens
precisam para viver muitos anos com sade, alegria e paz.
-- Pena que eles estraguem tudo.
-- . Poucos conseguem manter o equilbrio.
-- Por causa de pessoas sem carter. Eu mesmo vivia bem, com sade, com uma famlia
linda. Tinha tudo para ser feliz. Mas minha mulher estragou tudo. Acabou com nossa
famlia.
-- A responsabilidade no  s dela.
-- Meu irmo e aquele sem-vergonha do amigo dele, eles contriburam, mas, se ela fosse
uma mulher honesta, nada teria acontecido. Os homens tentam, mas s conseguem
conquistar uma mulher quando ela consente.
-- Voc guarda muita raiva dentro do corao. Esse veneno pode acabar minando sua
sade.
-- No consigo esquecer. Eu amava aquela mulher. Sempre fui marido fiel, interessado no
bem-estar da minha famlia.
-- Voc se coloca como uma vtima. Mas a vida  justa e responde s atitudes e crenas de
cada um. De alguma forma voc atraiu esses fatos.
-- No concordo. Como eu disse, sempre fui fiel.
-- A fidelidade no est s em resistir s tentaes, em no arranjar uma amante. Est
tambm em ser verdadeiro, em viver de acordo com suas necessidades espirituais.
-- No sei quais so essas necessidades. Como poderia viver de acordo com elas?
--  pena que ningum ensine as crianas a preservar sua sinceridade. A educao  feita
para ensinar a mentir, a aparentar o que no . Essa  a causa de tantos sofrimentos no
mundo. A alma  a essncia divina dentro de cada pessoa e s age no bem. Mas desde
muito cedo a criana  ensinada a mergulhar no mundo dos interesses pessoais e das
convenincias, acenando como prmio o amor de todos, a aceitao da sociedade. Essa  a
grande iluso. Porque  verdadeiramente aceito quem  forte, tem carisma, sente amor. E
voc s consegue ser forte quando expressa sua essncia divina, quando obedece  voz da
sua alma.
-- Se somos educados errado, no temos culpa de nada.
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-- No gosto da palavra culpa. Ela no expressa a verdade e  uma faca de dois gumes.
-- Mas quem erra  culpado. Quem mata, quem trai, quem fere  culpado. No h como
negar isso.
-- No. Quem mata, quem trai, quem fere  um fraco que cultiva vrias iluses que a vida
vai tirar uma a uma.  um candidato ao sofrimento porque a verdade  mais forte e  nela
que est a felicidade.
-- A verdade  cruel. A iluso ajuda a suportar as coisas pelo menos por algum tempo. 
difcil viver sem iluses.
Antnio sorriu levemente, dizendo tranqilo:
-- Essa  a maior iluso de todas. Veja a natureza! Observe o milagre da vida acontecendo
a cada instante, o equilbrio do cu, dos rios, dos mares, das estrelas. Tudo caminha
naturalmente, cada coisa no seu ritmo e no seu lugar. Essa  a verdade. A vida  perfeita,
sabe tudo, assim como nossa alma, que  parte da natureza.
-- O universo e perfeito no equilbrio, mas nossa alma, no Ela  cheia de fraquezas e de
limitaes.
-- A alma foi criada  semelhana de Deus,  perfeita! Mas no tem conscincia dessa
perfeio. Esse  um trabalho que cada um precisa fazer atravs do prprio esforo. Para
isso dispe de certo perodo a que damos o nome de evoluo e no qual a pessoa aprende a
usar seu livre-arbtrio, vivenciando experincias e colhendo os resultados decorrentes de
suas atitudes e crenas.
-- Se isso fosse verdade, eu no estaria passando por nada disso e os que fazem mal
estariam sendo castigados. Contudo, enquanto minha vida ficou destruda, o homem que
causou a runa do nosso lar continua l, sem sofrer nada.
-- Isso  o que parece a voc, mas a verdade  outra. A justia divina  perfeita e imparcial.
A impunidade do mau  momentnea.Conforme seu grau de conhecimento espiritual, a vida
determina os resultados de suas atitudes. Quanto mais primitivo ele for, mais tempo vai
demorar para receber esses resultados. Quanto mais sensvel e evoludo, mas rpido ser.
Mas todos, sem exceo, vo atrair pessoas e experincias de acordo com o que fizeram.
-- No acho justo Se pessoa primitiva e mais atrasada, a evoluda  mais adiantada
espiritualmente. Por que ento quem  atrasado demora mais para colher os resultados do
mal que faz? No seria mais justo, por ser uma pessoa pior, portanto mais maldosa, que ela
colhesse os resultados dos seus erros mais depressa?
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Antnio meneou a cabea negativamente.
-- A justia divina responde ao nvel de conhecimento de cada um. Voc puniria uma
criana de dois anos por no saber ler? A vida s ensina a quem j tem condies de
aprender, e a colheita dos resultados de suas atitudes  sempre uma lio. De que adianta
ensinar quem no tem como entender?
Osvaldo coou a cabea e no respondeu. Antnio continuou:
-- Em resumo, a vida  mais tolerante com quem  ignorante e mais gil com quem sabe
mais. O ignorante pode fazer o mal pensando que est se defendendo, cuidando do seu bem.
Mas o sbio compreende melhor o que  o bem, e, quando pratica o mal, tem maior
responsabilidade, colhe rapidamente os resultados de suas atitudes. Se ele faz o bem, sua
vida se torna verdadeiramente abenoa da e feliz.
-- Mas eu tenho visto muita gente boa sofrendo. Se isso fosse verdade, elas estariam bem.
-- Partindo do princpio de que Deus no erra, vamos perceber que, se algum est
sofrendo, se est atraindo problemas e dor,  por que j poderia agir de maneira melhor e
no o faz. A viso humana do bem est errada em muitos pontos. Nem sempre as pessoas
certinhas, que agem de acordo com as regras da sociedade, esto fazendo o bem. O mundo
est cheio de pessoas que, a pretexto de ajudar os outros, invadem a vida alheia, se metem
onde no deveriam e acabam prejudicando. O conceito de ajuda anda muito mal
compreendido. Onde muitos acreditam ver o bem s h vaidade, manipulao, interesse.
-- Mas  s o que h no mundo: maldade e jogo de interesses.
-- Por isso h tanta dor e sofrimento. Mas eles poderiam ser evitados se cada um
aprendesse e valorizasse a essncia divina que est em sua alma.
-- Esse  um sonho impossvel! Muitos nem acreditam na existncia da alma, como
poderiam encontrar essa essncia divina?
-- Vamos deixar de lado os que no acreditam na alma. Voc  desses?
-- No. Eu creio que temos uma alma.
-- Ns somos uma alma desenvolvendo a conscincia.
-- Mas da a saber como chegar a ela  difcil. Tudo  muito vago, cheio de mistrios e de
crendices da religio.
-- Deixemos as religies de lado. Elas so interpretaes que os homens fizeram das
revelaes divinas. Falemos da alma. Ela est ligada diretamente com Deus.
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Embora voc no perceba,  atravs dela que ele d os recados, mostrando se voc est
sendo verdadeiro ou no. Se est agindo de forma a ajudar esse desenvolvimento ou se est
se perdendo em iluses e atraindo a dor.
--  difcil. Nunca recebi nenhum recado de Deus.
-- Engano seu. Sempre tem recebido. A cada atitude sua, a cada pensamento, sua alma
responde atravs de emoes, tentando ajuda-lo a discernir.
De que forma?
-- Atravs do prazer, da alegria ou do aperto no peito, da tristeza. Esses so os meios de
que ela se vale para dar seus recados. Se prestar ateno, com o tempo perceber
nitidamente o que ela lhe deseja dizer. A intuio, aquela certeza inexplicvel de que algo
vai ou no dar certo, nos garante a proteo sempre que precisemos escolher alguma coisa,
por mais simples que seja.
Osvaldo ficou pensativo por alguns instantes. Depois disse:
-- Voc pensa diferente. De onde tirou essas idias?
-- Observando a vida. Aprendendo como ela funciona.
-- No foram seus guias espirituais que lhe ensinaram?
-- Eles tm me ajudado muito. Mas no interferem nas minhas escolhas. Dizem que
preciso experimentar e saber o que funciona ou no. Quando alguma coisa que fao no d
o resultado que esperava, eles insistem para que eu analise minhas atitudes. Garantem que
foram elas quem atraram esse resultado. Sei que esto certos. Se eu plantar laranjas, vou
colher laranjas.
-- No  to simples assim..
-- Sabe que ? Se voc sabe o que quer, descobre o caminho adequado, vai colher o que
espera.
-- Eu quis ser feliz, valorizei minha famlia. Sempre fiz tudo certo.Por que deu to errado?
-- A vida no erra. Se voc tivesse plantado felicidade, teria colhido felicidade.
--Nunca fiz mal a ningum, e repito: sempre fui um bom marido, um bom pai.
--No estou criticando nem dizendo o contrrio. Mas o que ficou claro  que voc atraiu
traio, dor, desiluso. Est machucado.Sente-se injustiado, culpa os outros. Mas essa
mgoa abriu uma ferida em seu corao que est dificultando sua recuperao. Eu poderia
dizer que o perdo liberta, que  preciso jogar essa dor fora. Mas ningum pode perdoar
enquanto no descobrir a verdade que est atrs do que parece, escondida no mais profundo
do seu mundo interior.
51
-- Bem que eu gostaria de esquecer, de recomear minha vida, de poder perdoar. Mas isso
 impossvel!
-- Enquanto persistir em se colocar como uma vtima, no vai conseguir.
-- Mas eu fui uma vtima. Como eu disse: foi ela quem me traiu.
-- De fato. Ela foi fraca. No resistiu  tentao. No fez o que voc esperava.
Osvaldo notou que a voz de Antnio estava um pouco modificada, bem como sua
linguagem. As palavras saam fluentes, em um portugus elegante e perfeito, diferente do
que ele costumava usar. Ele prosseguiu:
-- E voc, sempre fez o que ela esperava? Agiu como ela sonhou que voc seria?
-- Eu?! Como posso saber? Procurei fazer o que achei melhor.
-- Ela nunca reclamou de nada?
-- Bem, ela s vezes dizia que gostaria que eu fosse mais alegre, que gostasse de danar, de
cantar. Mas eu nunca gostei de nada disso. Quando se casou comigo, Clara sabia como eu
era.
-- E voc, quando se casou com ela, sabia que ela era uma mulher romntica, ardente,
sonhadora
-- Todas as mulheres so assim. Mas da a fazer o que ela fez...
-- Gostaria que pensasse nisso. Vocs se casaram sem uma boa base. Ela gostava de outro
tipo de pessoa. Sentiu-se atrada por voc mas casou pensando que com o tempo iria
conseguir que voc mudasse e se tornasse o que ela queria. Voc percebeu que ela se iludia
em um sonho de amor e casou mesmo assim, acreditando que esse estado era comum a
todas as mulheres. Na verdade vocs se casaram mas nem sequer se conheciam. Nunca se
viram como realmente so. Hoje vamos parar por aqui. Eu quero que pense em tudo que eu
disse.
Antes que Osvaldo respondesse, Antnio respirou fundo, passou a mo pelos cabelos
olhou-o nos olhos. Depois se levantou dizendo
-- Vamos andar um pouco l fora. Quero lhe mostrar algumas plantas.
Saram pela porta dos fundos. Atrs daquela sala havia uma plantao diversificada.
Antnio foi caminhando devagar, parando quando em quando para mostrar cada planta que
considerava importante como remdio.
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Osvaldo acompanhava-o atento enquanto ele explicava para que cada uma servia.
-- Pelo que tenho ouvido falar a seu respeito, voc com esses remdios tem ajudado muita
gente.
Antnio deu de ombros e respondeu alegre:
-- Gosto de ajudar as pessoas, mas no me iludo. Estou apenas sendo instrumento da
bondade divina. Tenho recebido mais do que dou.
-- Voc  modesto.
-- Nada disso. Estou mais  cuidando dos meus interesses, aprendendo muito. Se eu no
fizesse, outro faria. Pode ter certeza disso. A vida trabalha pelo bem de todos. Depois, na
cura o merecimento  do doente. S os que modificam as atitudes causadoras conseguem
ser curados.
--  difcil acreditar que uma doena seja causada por uma atitude. E os casos de contgio?
E os acidentes? E os que sofrem a violncia dos maus?
-- Por que em circunstncias iguais, uns se contaminam e outros no? J tratei de doentes
com molstias muito contagiosas e nunca peguei nada.
-- No estar exagerando? Uma gripe, uma diarria tm causas fsicas: uma mudana de
temperatura, uma comida indigesta. A atitude da pessoa nada tem a ver com isso.
-- Engana-se. S tem. J notou que existem dias em que voc pode comer de tudo e nada
lhe faz mal e h outros em que um alimento leve provoca clicas e at diarria? Dias em
que voc se expe ao mau tempo e nada acontece enquanto em tempo normal aparece
aquela dor de garganta, os olhos lacrimejam, o nariz inflama, o corpo fica mole e voc vai
para a cama com gripe?
-- , isso acontece.
--Nessa hora, se voc prestar ateno, perceber por trs do fato uma atitude causadora.
-- Que atitude poderia causar indigesto?
-- Algum fato de que voc no gostou e que no deseja aceitar o seu estmago no digere,
 seu corpo que est lhe mandando uma mensagem recomendando que, para sua vida fluir
naturalmente, voc precisa estudar sua contrariedade at digeri-la. Ento seu estmago
voltar ao normal.
-- Voc cr mesmo nisso?
-- Claro. Nunca notou que, quando se contraria, seu estmago logo embrulha?  o
primeiro sintoma.
53
-- Interessante. E a gripe, que mensagem seria?
-- H vrias. Depende do tipo de gripe e da forma como se apresenta. Geralmente o
congestionamento das vias respiratrias significa que voc est se sufocando, querendo
fazer muitas coisas ao mesmo tempo, alm de suas reais possibilidades. As dores no peito
podem ser provocadas pela sua falta de amor a si mesmo, por culpar-se de algo que fez. A
febre revela raiva; a bronquite, irritao.
-- E os remdios, no valem nada?
-- Claro que ajudam. Nunca notou que seus efeitos so diferentes em cada pessoa? Alguns
ficam curados com eles; outros, no.
-- Qual seria o tratamento ideal?
-- O esclarecimento, a sabedoria. Enquanto toma o remdio para aliviar o mal do corpo,
tentar descobrir a atitude causadora. Modificando-a, conseguir maior efeito do remdio e a
cura real. Essa  a frmula.
-- Por isso, alm de ministrar o remdio, voc orienta e ensina as pessoas?
-- Isso mesmo. E nesse trabalho que meus mestres espirituais ajudam. Eles me inspiram e
eu fao. Como voc v, sou apenas uma parte desse trabalho. Tudo que sei aprendi com
eles.
Osvaldo ficou pensativo alguns segundos, depois considerou:
--  esse trabalho que eles desejam que eu aprenda?
-- . Embora no saiba, voc tem energia para isso. Este tempo aqui comigo ser para que
conhea do que se trata. Depois ter de decidir se o aceita ou no.
-- Quanto tempo teremos?
-- No sei ainda. Vai depender de voc. Se no quiser, eles compreendem; mas, se aceitar,
ter de se dedicar de corao.
Osvaldo no respondeu logo. Precisava pensar. Estava confuso. Nem sequer sabia que
rumo daria  sua vida dali para frente.
-- Vamos entrar -- convidou Antnio. -- Por hoje chega. Tem o tempo livre para o que
quiser.
Entraram e Osvaldo foi para seu quarto. Estirou-se na cama pensando em tudo que ouviu. O
que Antnio lhe disse tinha lgica, mas seria verdade mesmo? Era uma teoria interessante.
Por que nunca ou vira falar nada sobre ela? Reconhecia que Antnio possua poderes que
ele nunca havia visto em ningum. Era um homem bondoso e sincero. Acreditava que ele
tivesse mesmo muita ajuda espiritual, mas da a crer em tudo quanto ele dizia ia grande
distncia. Tratava-se de um homem sem cultura, perdido em um lugarejo do interior.
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Era-lhe muito grato pelo bem que ele lhe fizera, mas precisava pensar melhor naquelas
idias, descobrir at onde elas poderiam ser verdadeiras. Ficaria l com ele o tempo que
fosse preciso para esclarecer suas dvidas. Depois decidiria o que fazer de sua vida.
A saudade dos filhos, a ausncia de notcias, angustiava-o. Por causa disso algumas vezes
havia pensado em voltar para a cidade e enfrentar de vez a situao com Clara.
Mas ao pensar nisso sentia um aperto no peito e desistia. Ainda no se sentia preparado.
Precisava dar mais um tempo e aquele trabalho poderia ser para ele uma bno ajudando-o
a refazer seu equilbrio interior.
O carinho daquela gente simples e acolhedora era como um blsamo na ferida que ainda
sangrava em seu corao.
Seja pela caminhada, pelo calor ou at por haver acordado muito cedo, Osvaldo adormeceu.
Sonhou que estava em um frondoso bosque, cheio de rvores e de flores perfumadas,
andando alegre, respirando prazerosamente a brisa leve e agradvel, sentiu que algum o
acompanhava, mas no viu quem. S ouvia sua voz convidando-o a observar a perfeio da
natureza.
Essa voz tomou-se mais ntida quando disse:
-- A sabedoria  o caminho da felicidade. A vida deseja que voc seja feliz, por isso coloca
todas as oportunidades  sua frente, para que siga esse caminho. Preste ateno s chances
que voc est tendo entregue-se a elas com alma. Isso  o que lhe est sendo oferecido ora,
e a vida faz sempre o melhor. Deixe o futuro nas mos de Deus sem preocupaes, porque,
quando chegar o momento da mudana, a vida se encarregar disso.
Osvaldo acordou ouvindo essas palavras e sentiu-se melhor, mais sereno, mais lcido. Sua
angstia, sua insegurana de momentos antes haviam desaparecido. Respirou aliviado e
pensou: era bobagem ficar se martirizando com o futuro. J que no se sentia com coragem
de tomar nenhuma deciso, o melhor mesmo era no pensar, era deixar o tempo correr e
usufruir a calma e o aconchego daquelas pessoas que to carinhosamente o receberam e lhe
trataram.
Nos dias que se seguiram, Osvaldo dedicou-se de corpo e alma ao trabalho com Antnio.
Levantava-se muito cedo sentindo o cheiro gostoso do caf que vinha da cozinha. Lavava-
se colocando gua da torneira na bacia que havia no lavatrio, arrumava-se e ia tomar o
caf.
L j encontrava Antnio e os dois pees que cuidavam da plantao. Enquanto eles
comiam, Zefa tentava tirar Nequinho da cama, o que sempre dava certo trabalho.
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Ele no era preguioso, mas no gostava de acordar cedo.
Osvaldo gostava de comear o dia daquela forma porque, depois de arrancar Nequinho da
cama, Zefa fazia-lhes companhia e ficavam certo tempo entre goles de caf e boa conversa,
O assunto era sempre agradvel e Osvaldo sentia-se muito  vontade diante da bondade que
expressavam, de suas histrias simples e muito bem-humoradas.
Davam nomes ao galo que os acordava ao raiar do dia, ao papagaio que cantava alegre
saudando-os quando passavam pelo seu poleiro na parede de fora da cozinha, aos cavalos, e
falavam deles como se fossem pessoas e tivessem raciocnio. Sem contar os cachorros, que
no dizer deles eram to inteligentes que s lhes faltava falar.
Nessas conversas no deixavam de haver os casos de apario de espritos e de sua atuao
com as pessoas que iam at l em busca de ajuda. Quando se referiam aos casos dolorosos,
eram discretos e comentavam apenas o quanto eles haviam sido beneficiados, mas davam
preferncia a falar dos mais pitorescos, o que faziam com muito bom humor e alegria,
recordando as inmeras lies que atravs deles haviam recebido dos espritos.
A cada manh tinham um fato novo a comentar ocorrido com os animais, narrados com
prazer, revelando o carinho que tinham por eles.
Depois, enquanto Nequinho ajudava Zefa nos servios caseiros, Antnio ia com Osvaldo
trabalhar com as plantas.
A pedido de Antnio, Osvaldo havia comprado na vila dois cadernos nos quais fazia as
anotaes. Em um ele escrevia sobre cada erva estudada, para o que deveria ser usada e
como preparar o remdio e us-lo. Em outro, escrevia sobre as doenas, com as possveis
emoes que as provocavam.
Osvaldo, que a princpio aceitara esse trabalho como uma forma de esquecer um pouco
seus problemas, comeou a interessar-se e a envolver-se cada vez mais. Absorvia-se de tal
forma que no sentia o passar do tempo. Esquecia-se de comer, e, no fosse a insistncia de
Antnio, ele nem iria almoar.
Aos poucos foi percebendo, em tudo quanto Antnio lhe ensinava, a sabedoria da natureza.
Diante de certos fenmenos naturais, as indagaes surgiam e Antnio explicava revelando
profundo conhecimento dos elementos e das foras naturais do universo, que mostravam
em suas manifestaes encadeamento e equilbrio perfeitos.
Osvaldo absorveu-se a tal ponto que no fim da tarde, quando se sentavam na modesta
varanda para conversar depois do jantar, ele revelava todo o seu interesse, continuando a
indagar, querendo saber mais.


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Antnio sorria alegre, respondia, mas procurava logo levar a conversa para outros assuntos,
muitas vezes contando histrias antigas sobre pessoas daquela regio, ouvindo com
interesse os demais falarem tambm sobre suas vidas.
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Captulo 6
Clara olhou desanimada para o jornal que acabara de folhear. Como vinha fazendo nas
ltimas semanas, recortou todos os anncios que lhe pareceram de algum interesse e
preparou um roteiro para o dia seguinte.
Depois, colocou-os em um envelope e guardou-os na bolsa. Es tava cansada. Mesmo
economizando, o que faria quando o dinheiro acabasse?
Fazia trs meses que Osvaldo havia desaparecido. Nem uma notcia, nada. Aonde teria ido?
A princpio pensara na hiptese de ele haver sofrido algum acidente e estar recolhido num
hospital, mas, se isso houvesse acontecido, certamente sua famlia teria sido avisada.
Mesmo que ele no quisesse lhe dar notcias, pelo menos procuraria a me ou os irmos.
Mas a insistncia de sua sogra ao telefone indagando por notcias do filho mostrava que
eles tambm no sabiam onde Osvaldo estava.
Apesar da culpa que sentia, momentos havia em que tinha raiva dele por deixar as crianas
naquela situao de penria. Mesmo que a odiasse e no quisesse ajud-la, pelo menos
deveria preocupar-se com o bem-estar dos filhos.
Mas no. Ele nunca mais deu notcias. Todos os dias Clara levantava-se cedo e saa de casa
carregando o envelope de anncios na bolsa. Procurava um emprego com salrio que pelo
menos desse para manuteno das mnimas despesas da casa. Logo percebeu que isso no
seria possvel. Esses empregos faziam exigncias que ela no tinha como satisfazer.
 medida que os dias iam passando, ela ia se conformando em procurar salrios menores,
mas ainda assim no conseguia ser admitida. Precisava ter prtica, referncias, o que ela
no tinha.
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Insistiu em conversar com Vlter, que concordou em marcar um encontro. Compareceu
com ar preocupado, receoso de estar sendo seguido, o que fez Clara dizer:
-- No se preocupe. Osvaldo sumiu e ningum est interessado em nos seguir.
-- No sei. Para mim ele est escondido em algum lugar s esperando darmos uma brecha
para cair em cima de ns. No me leve a mal, mas no momento acho que precisamos dar
um tempo em nosso caso.
-- Eu o procurei no foi para reatarmos nada. Se quer saber, estou muito arrependida por
ter trado meu marido. No o estou culpando de nada. Eu  que deveria ter resistido 
tentao.
--Ainda bem que compreende. Tenho enfrentado situaes desagradveis na empresa, com
meus pais e a famlia de Antnio. Acho que erramos e o melhor que temos a fazer agora 
no nos ver mos mais.
-- Estou em situao difcil. Meu dinheiro acabou e ainda no consegui arranjar um
emprego. Estou desesperada, no sei o que fazer. Pensei que talvez voc pudesse
aconselhar-me. Conhece tanta gente, poderia falar com algum amigo e arranjar-me um
emprego.
-- De forma alguma. No posso misturar as coisas. O escndalo foi grande, e se eu pedir
um emprego para voc eles pensaro que continuamos a nos ver. Para dizer a verdade,
quero esquecer esse pedao de minha vida.
Os olhos dela brilharam estranhamente quando ela disse:
-- Quer dizer que no vai me ajudar?
-- Olha, vou dar-lhe um cheque. E o que posso fazer por ora. Minhas finanas tambm no
esto bem. Sabe como : o reflexo do escndalo prejudicou-me nos negcios.
Vivo rubor subiu nas faces de Clara. No respondeu. Quando ele preencheu o cheque e o
entregou, ela sentiu vontade de rasg-lo e atirar os pedaos na cara dele. Conteve-se. Na
situao em que se encontrava, no podia dar-se ao luxo de ser orgulhosa.
Rapidamente o apanhou e guardou na bolsa. Disse simplesmente:
-- Percebo que, para voc, nossa relao no passou de uma aventura. Pensa que com este
cheque vai apagar sua responsabilidade. Aceito. Estou me sentindo como uma prostituta,
que deve ser a forma como voc me v.
Ele fez um gesto de surpresa. Reagiu:
-- Dei-lhe dinheiro para suavizar sua situao. Nunca pensei em pagar pelos momentos de
amor que vivemos juntos.
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-- Seja como for, muito obrigada. Pode ter certeza de que nunca mais o incomodarei.
-- O que  isso? No leve as coisas por esse lado. Tenho certeza de que vai arranjar
emprego e tocar sua vida. Depois, quem sabe seu marido aparece e acaba perdoando.
Afinal, ele deve amar as crianas.
-- No precisa justificar-se. Se arrependimento matasse, eu estaria morta. Mas agora 
tarde. No tenho outro remdio seno levar minha vida para frente.
Despediram-se com frieza e Clara intimamente jurou nunca mais o ver, O dinheiro que
Vlter lhe dera permitiria o sustento da famlia durante mais um ms. E depois?
Em casa, apanhou os sapatos e engraxou-os, tentando melhorar sua aparncia. Estavam
velhos, mas ela no podia comprar outros. Quem daria emprego a uma pessoa mal
arrumada?
Rita apareceu na porta do quarto, dizendo:
-- A senhora no comeu nada no jantar. No pode continuar sem comer. Est
emagrecendo. Se ficar doente, o que ser das crianas? Elas agora s tm a senhora. Venha,
tome pelo menos uma xcara de caf com leite, como uma fatia daquele po doce que eu
trouxe esta tarde. Est to gostoso! As crianas adoraram.
-- Estou sem fome, mas voc tem razo: preciso alimentar-me.
Rita sorriu satisfeita e, notando o abatimento de Clara, tentou anim-la:
-- Ainda bem que sabe disso. Esta situao  temporria. Logo encontrar trabalho e tudo
estar bem. No pode desanimar.
-- Estou cansada, Rita. Tenho procurado e nada. Infelizmente no tenho formao
suficiente para obter um bom emprego.
-- Nesse caso, o melhor ser procurar fazer alguma coisa por conta prpria.
Clara sentou-se  mesa e serviu-se de caf com leite, adoando- o pensativa.
-- No tenho dinheiro para abrir um negcio. Mesmo que tivesse, no sei o que faria.
-- Minha me sempre falava que o melhor negcio  fazer comida. As pessoas podem
deixar de comprar uma roupa, um objeto de uso, mas nunca vo deixar de comer.
-- Se eu pudesse abrir um restaurante ou penso, talvez desse certo. Mas como arranjar
dinheiro para tanto? Depois, sei cozinhar o trivial mas nunca nada que as pessoas se
interessassem em comprar. No isso no daria certo.
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-- Tudo d certo quando acreditamos e nos empenhamos. Existem muitos cursos de doces,
salgados, de coisas para festas. Logo a senhora, que tem tanto bom gosto! No sei, no, mas
penso que se fizesse isso ganharia muito dinheiro.
Clara sorriu e respondeu:
-- Isso  voc, que gosta de mim e acha que eu poderia ser bem- sucedida nisso. Amanh
tenho alguns lugares para visitar, talvez consiga alguma coisa. Vamos ver.
-- O que no pode  desanimar. A senhora tem estado triste, e isso no resolve nada. Ao
contrrio: s atrapalha.
-- Sei que tem razo, mas no me conformo com o que aconteceu. Estou arrependida, mas
agora  tarde. Se pudesse voltar atrs, no faria o que fiz.
-- A gente s d valor ao que tem quando o perde. Mas, por outro lado, no adianta agora
ficar se culpando e se arrependendo. O que passou passou e no volta mais. A senhora tem
de tocar a vida para frente com alegria e coragem. Tudo isso vai passar e logo as coisas
estaro melhores, a senhora vai ver.
Clara colocou a mo no brao de Rita, dizendo com comoo:
-- Voc  o anjo bom que Deus colocou na minha vida para me ajudar nesta hora difcil
No sei o que faria sem voc.
-- Eu  que no sei o que faria sem aqueles dois anjinhos que esto dormindo. Por eles
farei tudo que puder.
-- Obrigada, Rita. Deus a abenoe.
-- Por falar em Deus, Dona Clara, rezar faz bem, cura as feridas da alma
-- Eu tentei, Rita, mas Deus no aceitou minhas preces e no quis me perdoar.
-- No diga isso! Deus  amor e sempre perdoa. Tenho certeza de que est ajudando a
senhora e logo tudo vai melhorar.
-- Gostaria de ter sua f. Mas no me sinto com coragem de voltar  igreja. Eles no me
aceitam l.
-- Eu tambm no vou a nenhuma igreja, mas converso com Deus todos os dias. Tenho
certeza de que ele me escuta. No  preciso ir  igreja para encontrar Deus. Ele est em
todo lugar. Eu sinto que ele est dentro do meu corao e  l que converso com ele. Sabe,
nesses momentos eu sinto um ar gostoso, como uma brisa delicada que me d muita paz e
alegria. Eu sei que  Deus respondendo  minha orao, dizendo: "Fique em paz porque eu
estou aqui, protegendo-a".
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Clara suspirou fundo. Bem que ela gostaria de encontrar a paz. Disse com simplicidade:
-- Gostaria de aprender a rezar como voc e sentir paz.
--  fcil. Quando for deitar, preste ateno aos sentimentos do seu corao e tente jogar
fora toda tristeza, ressentimento, arrependi mento, desnimo. Depois, pense em alguma
coisa bonita, leve, agradvel. Eu penso numa rosa aberta numa linda roseira. Ela me fala da
bondade de Deus e da beleza da vida. Depois eu comeo a conversar com Deus, conto a ele
todos os meus segredos e peo-lhe que me esclarea, que me faa sentir qual  o caminho
melhor, e peo que esse caminho se abra  minha frente. Depois disso, agradeo a ajuda
que ele me d e pronto. Faa isso, Dona Clara, e ver que sua vida logo comear a
melhorar.
A simplicidade de Rita comoveu-a. Ela era uma mulher de f. Foi com respeito que Clara
respondeu:
-- Vou tentar, Rita.
Ela sorriu alegre.
-- Pode ter certeza, Dona Clara, que, quando no podemos fazer nada, Deus pode. Por isso,
fazemos nossa parte e pedimos a ele que faa a dele. Assim, o bem e a luz nos envolvem e
nossa vida melhora.
Clara sorriu e deu-lhe boa-noite. Uma vez no quarto, ficou pensando nas palavras que
ouvira.
"As pessoas simples conseguem levar a vida melhor do que aquelas que se acreditam mais
instrudas", pensou. "Gostaria muito de ter a serenidade de Rita e poder olhar a vida sem
complicaes."
Preparou-se para dormir. Sentou-se na beira da cama. Fazia tempo que no rezava. Estava
revoltada com ela mesma pelo que fizera, e acreditava que Deus no ouviria suas preces.
Ela precisava ser castigada pelo seu erro.
Lembrou-se dos filhos. Eles no tinham culpa de nada. Seria jus to que eles pagassem pelo
crime que ela havia cometido? No era justo, mas, de uma forma ou de outra, eles tambm
estavam sofrendo. Reconheceu que, ao entregar-se quela paixo, nem se lembrara dos
filhos. Sentira-se dona de sua vida e mergulhara fundo na aventura. Entretanto, seus filhos
eram ainda pequenos e dependentes. Sentiam falta do pai, foram obrigados a viver em um
ambiente tenso, doloroso. Seu padro de vida e de alegria havia baixado.
Querendo ou no, suas atitudes causaram sofrimento a vrias pessoas, inclusive aquelas a
quem ela mais amava.
Tinha sido leviana, inconseqente. Estava arrependida, mas isso no lhe devolvia a
tranqilidade de antes.
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O mal estava feito e no havia como retroceder.
Essa importncia a deprimia, aumentando sua culpa. Mas, por outro lado, sentia que, se no
podia voltar  antiga situao nem contar com o apoio da famlia, precisava se dedicar aos
filhos fazendo o possvel para devolver-lhes um pouco do que haviam perdido.
Pensou em Deus. Haveria perdo para ela? Ajoelhou-se ao lado da cama e pediu ajuda. As
lgrimas desciam-lhe pelas faces e ela sentiu a fora do seu arrependimento pelo que
acontecera.
Desesperada, disse em voz alta:
-- Meu Deus! Preciso da sua ajuda. Sei que errei muito, mas estou arrependida. Peo
perdo para meus pecados, mas eu mesma no consigo me perdoar. Entretanto, o senhor 
compaixo e bondade, tenha piedade de mim. Prometo que nunca mais me deixarei iludir.
De hoje em diante, vou cuidar apenas da felicidade dos meus filhos. Permita, senhor, que
eu possa compensar um pouco do mal que lhes fiz. Meu dinheiro acabou. Por favor, me
ajude a encontrar trabalho para que no lhes falte o sustento. Estou disposta a trabalhar o
mais que puder, no que aparecer. Obrigado por ter me ouvido.
Murmurou um pai-nosso e levantou-se. O desabafo fez-lhe bem.
Sentiu-se mais calma. Deitou-se e, como o sono demorou para aparecer, tentou imaginar o
que poderia fazer para ganhar dinheiro. Nenhuma idia boa lhe ocorreu.
Finalmente sentiu sono. Ajeitou-se, respirou fundo e pensou:
-- Rita est certa. No posso desanimar. Deus vai ouvir minhas preces. Amanh  outro
dia.
Acordou e olhou no relgio. Eram sete horas. Levantou-se sentindo o cheiro gostoso de
caf que vinha da cozinha. Rita j havia se levantado.
Lavou-se e foi se vestindo enquanto descia para o caf. As crianas ainda dormiam. Rita
estava na despensa sentada no cho em meio  montanha de jornais e revistas.
-- Voc se levantou cedo hoje Esta fazendo faxina da despensa -- . Tive uma idia, e, se
a senhora concordar, poderemos conseguir algum dinheiro.
--O que ?
Vender estas revistas e jornais velhos. Eles pagam um cruzeiro o quilo.
--Tem certeza?
--Tenho. Posso vender?
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-- Claro.
-- Sem falar que abrimos espao na despensa para guardar mais alimento.
-- , mas o dinheiro que vo pagar por isso no vai dar para comprar muita coisa. Temos
espao de sobra.
-- Sabe, minha av costumava me ensinar que a vida no gosta de ver espaos vazios em
casa. Ela trata logo de mandar coisas para ocup-los.
-- No estou entendendo aonde quer chegar.
-- Ns costumamos guardar muitas coisas inteis de que no precisamos nem nunca mais
vamos utilizar. Elas ocupam muito espao e ficam paradas atravancando a casa. Nossa vida
emperra e no prospera. Por isso, de tempos em tempos precisamos reavaliar tudo, jogar
fora o que no serve e dar para os outros o que no serve mais para ns mas que ainda pode
ser utilizado. Fazendo isso, movimentamos os bens e os recursos, e nossa vida prospera.
-- Tem lgica... Mas isso funciona?
-- Claro. Minha av no era rica, mas nunca lhe faltou nada.
-- Muito bem. Ela deveria ser sbia como voc.
Rita riu satisfeita e continuou acertando a pilha de jornais. Clara ficou pensativa. Em outros
tempos no se preocupava com dinheiro. Osvaldo ganhava bem, era generoso, gostava de
conforto e de ver a famlia bem.
Lembrou que seu guarda-roupa estava atulhado de coisas que ela guardara e no usara
mais: vestidos que saram de moda, lembranas de momentos especiais, sapatos bonitos
mas que lhe apertavam os ps e por isso estavam encostados.
Havia tambm alguns presentes que ela ganhara e estavam sem uso, guardados, uns porque
no combinavam com o estilo da casa, outros porque ela no gostara.
Terminou o caf e comentou:
-- Rita, preciso fazer isso nos armrios da casa. Tenho muitas coisas de que posso me
desfazer.
--  uma boa idia. Posso tirar tudo de dentro, mas a senhora tende estar junto para decidir
o que vamos mandar embora.
-- Vou sair agora e ver se arrumo algum emprego. Recortei vrios anncios. Quando eu
voltar, veremos.
Foi a trs lugares e no conseguiu nada. Abriu o envelope e tirou um dos recortes. Era de
um ateli de alta-costura na rua Baro de Itapetininga. Ela no tinha muito jeito para
costura, mas ali dizia que precisavam de uma recepcionista,
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O salrio era muito baixo, mas ela decidiu tentar. No estava distante do local. Dava para ir
a p, o que economizaria o dinheiro do nibus.
O ateli estava situado no primeiro andar de um prdio bonito, e Clara gostou do ambiente
luxuoso que comeava no hall. Tocou a campainha e um rapaz a atendeu. Clara mostrou o
anncio e ele a mandou entrar em uma bela sala, decorada com muito bom gosto.
-- Venha comigo.
Conduziu-a a um luxuoso escritrio e indicou uma poltrona, dizendo:
-- Sente-se, por favor. O patro est atendendo a uma cliente mui to especial. Assim que
ele acabar, vir conversar.
Clara agradeceu e enquanto esperava entreteve-se olhando cada detalhe daquele escritrio
original e muito diferente dos que estava habituada a ver.
Depois de meia hora, a porta abriu-se e um homem moo, alto, forte e elegante, muito bem
vestido, entrou. Cabelos castanhos penteados para trs, que, apesar da brilhantina e do
esforo que ele fizera para alis-los, ainda mostravam sinais de ondas. Olhos penetrantes.
Um tanto altivo, pele clara, gestos finos mas firmes.
Clara levantou-se. Ele a olhou, examinando-a atentamente.
-- Vim por causa do anncio.
-- Eu sei. Tem alguma experincia de recepcionista?
Ele a olhava firme, como querendo penetrar at em seus pensamentos. Ela sustentou o olhar
e respondeu:
-- No. Para ser sincera, nunca trabalhei. Mas agora tive um problema familiar e estou
precisando muito trabalhar. Tenho boa vontade e se me ensinar, tenho certeza de que farei
tudo certo.
Voc viu o salrio. Acha que poder viver com ele?
-- No  o que eu preciso para manter meu padro de vida, mas  melhor do que nada.
-- Pode dar-me referncias?
--De trabalho, no. Nunca trabalhei.
-- Tem disponibilidade de tempo? Aqui muitas vezes precisamos atender s clientes alm
do horrio comercial. Voc  casada? Sou, mas estou separada do marido. Tenho dois
filhos pequenos tara criar.
--Nesse caso...
--Mas posso dispor do meu tempo como for preciso. Tenho uma senhora que cuida da
minha casa e das crianas.
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Ele a observou de novo, mandou-a andar pela sala, depois disse.
-- Pois muito bem: vamos experimentar. Vai ter de mudar um pouco a postura, o penteado,
vestir-se melhor. Mas ns daremos um jeito nisso. Vai conversar com as clientes pelo
telefone, marcar entre vistas, receb-las aqui, cuidar do bem-estar delas enquanto esperam
se eu estiver ocupado, entret-las. E, quando elas vo sair, cuidar para que se sintam bem,
verificando do que elas precisam. De acordo?
-- Sim. Quando posso comear?
-- Amanh cedo iniciaremos seu treinamento. Pode vir s oito e procurar Domnico. J o
conhece: foi ele quem a fez entrar. Ele lhe dar as demais instrues.
--Estarei aqui amanh.
Depois que ela se foi, ele chamou Domnico, deu-lhe algumas instrues e concluiu:
-- Ela nunca trabalhou. Precisa de um banho de loja, mas acho que vai surpreender. Por
esse salrio, foi a melhor que apareceu. Tem nvel.  o que interessa para ns.
O outro concordou satisfeito:
-- Deixe comigo. Sei como fazer isso.
Clara saiu de l pensativa. Estava contente por haver finalmente encontrado trabalho. O
salrio era insuficiente, mas no podia dar-se ao luxo de recusar. Faria economia e pelo
menos no faltaria comida em casa. Depois poderia encontrar algo melhor.
Quando chegou em casa, contou a Rita a novidade:
-- Resolvi aceitar. O salrio  pouco, mas  melhor do que nada.
-- Fez muito bem. E assim que se comea. Olhe, Dona Clara, eu j tirei tudo dos armrios,
e, se a senhora tiver um tempo agora de ver o que vamos mandar embora, seria bom.
-- Vamos l.  bom mesmo fazer agora, porque amanh comeo a trabalhar e no terei
tempo. Vamos ver.
Depois do jantar, elas comearam o trabalho. Clara avaliava e separava o que no queria
mais. As crianas se divertiam ajudando. Quando acabaram, passava da meia-noite e havia
algumas caixas atulhadas de coisas que Rita levou para a despensa.
Clara sentiu-se cansada mas aliviada. Aquela limpeza fizera-lhe bem. Ia comear uma nova
vida e despedira-se de alguns objetos que lhe recordavam o passado. Tomou um banho,
deitou-se e dormiu tranqilamente.
Na manh seguinte, quando chegou ao ateli, Domnico conduziu-a a uma sala, dizendo:
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-- Meu nome  Domnico. Sou assistente de Gino. Ele me encarregou de prepar-la para
seu trabalho.
Clara concordou com a cabea e ele continuou:
-- Este  um lugar muito bom para trabalhar. Ambiente classe A, isso  fundamental. Por
isso vou ensinar-lhe como deve proceder aqui, falar com as clientes, cuidar de sua
aparncia pessoal. Quando algum vem encomendar uma roupa, repara nos mnimos
detalhes. Nada pode estar fora do lugar, incluindo as pessoas.
Clara havia vestido um dos seus melhores vestidos, porem ele a via como se ela fosse uma
maltrapilha.
-- Voc vai ter de fazer parte do ambiente, com naturalidade e muita classe.
Abriu um dos armrios em que havia vrios vestidos, apanhou um conjunto bege e deu-o a
Clara.
-- Experimente este aqui. Deve servir. Pode entrar ali naquele provador.
Clara entrou segurando o cabide com a roupa. Vestiu-a e caiu-lhe como uma luva. Era um
duas-peas de seda pesada, elegante e reto.
Saiu do provador e Domnico observou-a atentamente, depois ajeitou as costuras para que
o caimento ficasse impecvel.
-- Temos de escolher pelo menos mais dois. Depois iremos aos acessrios e finalmente 
maquiagem.
Uma hora depois, Clara olhou no espelho admirada Havia se transformado em outra
mulher. Parecia mais alta e esguia, elegante e bela.
Domnico mandou que ela desse uma volta, depois disse:
-- Melhorou. Agora precisa aprender a andar e a falar. Sua voz  um pouco aguda. Ter de
tentar um tom mais baixo. Vou passar-lhe alguns bons exerccios para treinar em casa.
Deseja perguntar alguma coisa?
-- Sim. Esses vestidos, ficaro guardados aqui ou em minha casa?
-- Devo esclarecer que se trata de uma roupa cara, de qualidade, de alta-costura. Ficar
responsvel por elas. Se as danificar, ter de pagar o prejuzo. Mas  claro que dever lev-
las. Trabalhando para ns, vai tornar-se conhecida e no pode ser vista mal vestida. Com o
tempo poder adquirir um guarda-roupa melhor. Gino  muito generoso e costuma vestir os
empregados por um preo nfimo.
-- Estou me sentindo muito elegante. Depois de usar uma roupa como esta, ser difcil
contentar-me com as antigas.
-- Muito bem. Vejo que sabe valorizar artigos de qualidade.  um bom comeo.
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Penso que vamos nos entender muito bem. Vamos fazer um intervalo para almoo. Pode
sair se quiser. Mas  uma dever estar de volta. H clientes marcadas para a uma e meia.
Ter de estar aqui.
-- Sim, senhor.
Clara saiu, procurou um lugar para comer, pediu um sanduche, um refresco. Notou que
estava chamando ateno por onde passava. Levantou a cabea com satisfao. Sabia que
estava linda e elegante. Sentiu-se rica, e essa sensao foi to agradvel que chegou a
esquecer sua falta de dinheiro, dando uma gorjeta generosa ao garom.
Dez minutos antes da hora, estava de volta ao ateli. Procurou Domnico.
-- Quando a cliente chegar, o que deverei fazer?
-- Fique do meu lado e observe. Vou atend-la e apresent-la a voc. Cuidarei de tudo e
voc ficar do meu lado, observando e mostrando-se atenciosa e gentil sem exageros. Seja
natural. Vamos ver como se sai. No se esquea de baixar o tom de voz, mas no sussurre.
Fale com voz firme e clara.  horrvel no poder ouvir ou entender o que as pessoas falam.
-- Pode deixar. Sei como fazer isso.
Ela aceitara aquele emprego por no ter outro melhor, mas com o decorrer do dia foi
mudando de idia. O salrio era pequeno, mas o que ela estava aprendendo, o contato com
pessoas de alta classe, a possibilidade de vestir-se bem, ficar no meio do luxo e de coisas
bonitas, tudo era extremamente prazeroso.
Era a esse mundo que ela desejava pertencer. Nunca fora ambiciosa. Tinha sido educada
para o casamento. Alimentara a crena de encontrar um amor verdadeiro para o resto da
vida. Mas seu sonho de amor havia naufragado.
Ela no conseguira cumprir sua parte no compromisso. Apaixonara-se por Osvaldo e
colocara naquele casamento todos os seus sonhos. Entretanto, a rotina a desafiou e Vlter
apareceu. Ainda daquela vez acreditou haver encontrado o amor verdadeiro. Por ele
arriscou tudo e perdeu. Destruiu sua famlia, infelicitou o marido, os filhos, ficou na
penria, para no fim descobrir que o amor por Vlter, pelo que jogara fora sua cmoda
situao familiar, no passara de uma iluso perigosa e destrutiva que desapareceu assim
que os problemas surgiram
Quanta iluso! O amor era apenas um jogo de interesses. Agora ela sabia, e nunca mais se
machucaria com ele. Dali para frente cuidaria da sua felicidade de outra forma. Colocaria
toda a sua fora em ganhar dinheiro, cuidar do futuro dos filhos.
68
Nunca freqentara a alta sociedade. Trabalhando naquele ateli, via a possibilidade de
adquirir o verniz e a classe que lhe faltavam. Conhecendo e relacionando-se com pessoas
ricas, famosas, tinha certeza de que encontraria uma oportunidade para subir na vida.
Enquanto se preparava para ajudar a atender s clientes naquele seu primeiro dia de
trabalho, Clara refletia em tudo isso e tomava decises.
Quando ela se postou ao lado de Domnico para receber aquela senhora elegante e altiva
que entrou para escolher alguns modelos, no perdeu tempo. Assumiu uma postura firme de
quem sabe o que est fazendo e sorriu delicadamente ao ser apresentada por Domnico.
Colocou tanta ateno em observar aquela mulher que percebeu logo que tipo de pessoa
tinha na sua frente. Sentiu que no podia mostrar-se subalterna ou insegura. Aquele era o
tipo de mulher que s respeitava ou dava ateno aos seus iguais, ignorando os subalternos.
Por isso, Clara mostrou-se segura e firme. Sustentava o olhar quando ela lhe dirigia a
palavra e logo Domnico surpreendeu-se ao perceber que a cliente se dirigia a Clara
trocando idias e pedindo sugestes.
Quando ela se foi, depois de haver escolhido alguns modelos, Domnico procurou Gino
satisfeito.
-- Acho que fizemos uma tima aquisio. Voc precisava v-la atendendo Madame
Georgina. Eu estava preocupado. Sabe como essa cliente  exigente. Quando ela no gosta
de uma pessoa,  como se ela no existisse. Lembra o que ela fez com a pobre Adalgisa?
-- Adalgisa era bonita mas muito insegura, no tinha garra. Gostei tambm do que voc fez
com ela. Ficou muito melhor.
-- Madame Georgina falava com ela como se fosse uma amiga. Por isso as deixei mais 
vontade.
-- Fez bem. Eu percebi que estavam se entendendo bem.
Quando Clara chegou em casa naquela noite, Rita admirou-se:
-- Dona Clara! Como est diferente! Quase no a reconheci.
-- Acha que estou melhor do que antes?
-- Est linda!
-- De agora em diante, vou me arrumar assim.  exigncia do emprego. Estou trabalhando
em um lugar de luxo, onde os clientes so ricos e de classe. Ganhei mais dois vestidos,
sapatos e complementos. Terei de ir impecvel todos os dias.
-- Est vendo s? Foi s fazer espao nos armrios que a vida lhe mandou novas roupas.
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Clara parou pensativa e sorriu. Foi uma coincidncia, pensou, mas no disse nada para no
cortar a alegria de Rita.
Depois de jantar e de colocar as crianas na cama, Clara apanhou um caderno e sentou-se
na sala. Registrou ali as impresses daquele seu primeiro dia de trabalho, bem como os
dados da cliente que tivera o cuidado de anotar. Nome, sobrenome, endereo, telefone, etc.
Se pretendia fazer um bom trabalho, ter um relacionamento melhor com os clientes, tinha
de conhec-los, saber coisas a respeito de suas vidas e de como se tornar para eles pessoa
prestativa e agradvel.
Naquela noite, ao se deitar para dormir, Clara no pensou no sofrimento do marido nem na
falta de carter de Vlter. Seus sonhos agora eram outros. Eram de subir na vida tendo
como escada do seu sucesso aquele modesto emprego de recepcionista de um ateli de alta-
costura.
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Captulo 7
Clara entrou no ateli e colocou a bolsa no armrio de sua sala. Depois olhou-se no espelho,
ajeitando os cabelos e o vestido elegante.
Sorriu satisfeita. Estava impecvel, bonita e com classe. Sentia-se muito  vontade em meio
ao luxo do lugar e havia conseguido relacionar-se muito bem com as clientes que a
procuravam e que pediam sugestes at para assuntos pessoais.
Naqueles seis meses que Clara trabalhava l havia inspirado confiana s clientes, pela sua
classe invejvel, pela sua beleza elegncia ou pela segurana que demonstrava, sabendo
sempre o que estava na moda, o que ficava bem a cada uma, em cada ocasio.
As indecisas penduravam-se nela, s escolhendo quando ela estava presente e dava opinio.
Domnico ficava fascinado e comenta a Gino:
-- Voc precisava ver o que Clara conseguiu hoje. Madame Mota veio escolher um vestido
para uma festa e acabou comprando quatro.Saiu daqui to satisfeita que distribuiu gorjetas
at para o porteiro.
-- Essa moa vai longe. Espero que no aparea um homem para atrapalhar. Sabe como :
mulher vai bem at se apaixonar. Depois, deixa tudo que conseguiu e pendura-se no
homem.  uma calamidade. Espero que no acontea com ela.
-- Eu tambm.
Clara preparou-se para receber a prxima cliente, uma senhora muito rica cujos olhos tristes
a haviam impressionado. Soube por Domnico, que a conhecia havia muito tempo, que ela
era casada com um industrial mas que o marido a deixava de lado, mostrando-se
publicamente com a amante, que apresentava como secretria mas cujas atitudes deixavam
margem  dvida quanto ao seu verdadeiro papel. Por causa disso, Consuelo tornara-se
triste e retrada, recusando os convites dos amigos nos quais teria de comparecer ao lado do
marido.
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Os filhos, dois jovens, passavam pouco tempo em casa, e ela se sentia muito s.
Observando-a, Clara sentira-se incomodada. Por que uma mulher ainda jovem, bonita, rica,
se sujeitava a viver dessa forma sem reagir? Se fosse com ela, j teria rompido com esse
casamento que s a humilhava e fazia sofrer.
Consuelo ia ao ateli regularmente, escolhia as roupas sbrias como se fosse uma
obrigao, olhando indiferente os detalhes de cada uma. Clara tentou aproximar-se dela
desde o primeiro encontro.
-- Este tom de azul fica-lhe muito bem. Reala a cor de sua pele.
--  um tanto chamativo. Prefiro o cinza.  mais discreto.
--De fato, o cinza  bonito. Por que no leva os dois? Este azul parece que foi criado para a
senhora.
Colocou o vestido sobre o corpo dela em frente ao espelho.
-- Veja: com ele a senhora ganha vida, fica irresistvel.
Pelos olhos de Consuelo passou um brilho emotivo.
-- Voc acha mesmo?
--Acho. Posso fazer uma sugesto?
-- Fale.
-- Com este vestido, clareando um pouco o tom de seus cabelos, a senhora ficaria
maravilhosa.
-- Voc est me tentando. Se eu esperasse alguma coisa da vida, faria isso. Mas no vale a
pena. A cada alegria, a vida responde com uma tristeza; a cada iluso, com a desiluso.
Prefiro a calma e o conforto de no esperar nada. Por isso ficarei com o cinza, que  neutro
Clara no se deu por achada.
-- A senhora fala como se sua vida estivesse no fim, E to jovem e bonita! Sua pele parece
de porcelana, seu porte  de rainha, seus olhos tm um brilho especial.
Consuelo colocou a mo sobre o brao de Clara enquanto dizia:
-- Voc  muito amvel.
-- Desculpe se fui inconveniente. Mas  que aprecio o belo.Se eu pudesse, transformaria
todas as clientes que entram aqui em mulheres maravilhosas. Infelizmente no tenho esse
poder. Mas quando vejo uma mulher como a senhora, que possui tudo para brilhar e
conforma em ficar neutra, no me contenho.
-- Sei o que quer dizer. A beleza faz parte de sua profisso.
-- Tambm. Mas sei por experincia prpria o quanto  ruim sentir-se menos, estar em
segundo plano, ser posta de lado. E como  bom sentir-se bela, elegante, charmosa,
atraente.
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D segurana, confiana na vida, alegria de viver.
Consuelo ficou pensativa alguns instantes, depois disse:
-- Talvez tenha razo. Sabe de uma coisa? Vou levar tambm o azul. Em sua homenagem.
Clara sorriu satisfeita.
-- Se clarear um pouco os cabelos, a homenagem seria completa. As duas riram. A partir
desse dia, Consuelo passou a ir com mais freqncia ao ateli e fazia questo de conversar
com Clara. Em uma dessas visitas ao ateli, Consuelo lhe disse:
-- Voc tem me sugerido coisas que mudaram meu gosto. Fiquei mais exigente. Meus
guarda-roupas esto atulhados, mas s vezes o que tenho l no me agrada mais.
--  preciso renovar. Depois,  contra a prosperidade guardar coisas que voc no usa.
Deve desfazer-se de tudo que voc no vai mais usar.Assim cria espao para as coisas
novas que viro.
-- No sei o que fazer com as roupas. So finas, esto em bom estado. Algumas j ficaram
fora de moda.
-- Poderia vend-las e assim fazer espao.
-- Vender? Quem compraria roupas usadas? Depois, no preciso de dinheiro, teria
vergonha
-- Venderia muito barato, apenas para dar dignidade a quem as comprasse e que no
normalmente no teria dinheiro para freqentar um lugar como este.
-- Nunca pensei nisso. Gosto de dar, mas sempre sinto que isso humilha um pouco quem
recebe. Essa idia de vender  boa, s que no teria para quem o fazer. No conheo
ningum assim.
-- Pois eu conheo. H pessoas que se sentiriam muito felizes se pudessem vestir um dos
seus vestidos.
-- Nesse caso sei o que fazer. Vou escolher tudo que no vou mais usar e mandar  sua
casa. Faa o que quiser com eles. Faria isso por mim?
-- Sim, voc. Tenho certeza de que saberia a quem vender. No quero dinheiro nenhum.
Pode ficar com ele e fazer o que quiser.
A princpio Clara se surpreendeu. Depois, pensando melhor, resolveu aceitar. Embora seu
salrio j houvesse sido aumentado, ainda era pouco. Vendendo aquelas roupas poderia
melhorar sua renda.
Dois dias depois, chegando em casa, Rita contou-lhe a novidade:
-- Hoje veio aqui um carro e o motorista descarregou uma mala cheia de roupas e mais
alguns pacotes.
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Disse que Dona Consuelo mandou.
-- Ela disse que ia mandar.
-- Coloquei tudo no quarto dos fundos. So para a senhora?
-- No. Ela pediu para eu dar a algum que precise. Vamos ver.
Elas subiram e abriram os pacotes, a mala. Alm de roupas, havia bolsas, sapatos e at uma
caixa com bijuterias.
-- So de boa qualidade -- comentou Rita.
-- Claro. Dona Consuelo  muito rica e exigente.  tudo alta costura.
-- Por que ela deu tudo isso? Esto novas.
-- Essas pessoas no gostam de aparecer com as mesmas roupas. Usam um pouco e logo as
substituem. Falou que eu posso vend-las ficar com o dinheiro. Voc conhece algum que
compre e venda roupas usadas? Ouvi falar que h gente que se dedica a isso.
-- No conheo ningum. Por que ns no vendemos para pessoas amigas? Conheo
algumas aqui em nossa rua que certamente se interessariam.
-- So pessoas de classe mdia. No vo querer comprar coisas usadas.
-- Pois pobre  que no compraria. No sabe valorizar uma roupa fina. Os tempos esto
difceis, Dona Clara. Sei de pessoas que lutam muito para comprar uma roupa boa.
Adorariam vestir uma alta costura. Depois, quem iria saber que comprou usada?
-- Voc pode ter razo.
-- Vamos arrumar tudo direito neste quarto. Aqui no dorme ningum. Esvaziamos o
guarda-roupa e arrumamos como se fosse uma loja. Tem espelho grande e tudo. Depois 
s conversar com as pessoas na feira, na padaria ou no mercado. Vo adorar.
-- No sei, no. Voc acha mesmo?
-- Tenho certeza. Antes temos de estabelecer os preos.
Rita comeou imediatamente a tratar da arrumao e Clara concordou. Precisava de
dinheiro. As crianas estavam sem roupas e havia uma lista de coisas que ela precisava
comprar mas que ia adiando.
Conforme Rita previra, algumas mulheres da vizinhana se interessaram e a notcia correu
com rapidez. Embora no privassem da amizade de Clara, conheciam sua vida. Era com
admirao que a viam passar, linda, elegante, vestindo roupas caras. Sabiam que ela
trabalhava no ateli.
Venderam tudo com rapidez, e o resultado as entusiasmou. Clara comeou a pensar na
possibilidade de falar com outras clientes, comprar tudo que elas no fossem mais usar e
revender.
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Estaria ganhando dinheiro e ajudando que elas renovassem seu guarda-roupa.
Antes de tomar qualquer iniciativa, procurou Gino para conversar. No gostava de fazer
nada s escondidas.
Sentada diante dele, contou o que acontecera e finalizou:
-- Vendemos tudo com rapidez, e as compradoras ficaram to satisfeitas de poderem vestir
uma roupa de qualidade que pediram para que eu trouxesse mais.
Gino a observava com ateno. Ela continuou:
-- So roupas de qualidade, que duram muito, e nossas clientes gostam de renovar e estar
na moda. O que ganho aqui tem sido pouco para despesas de minha famlia. Esse dinheiro
foi muito bem-vindo. Por outro lado, adoro trabalhar aqui e no gostaria de sair. Ento
pensei que poderia conversar com as clientes e comprar delas, por preo mdico, claro, o
que quiserem vender. Assim, eu poderia comercializar estas roupas em minha casa, sem
nenhuma despesa. Desejo pedir sua permisso.Acredito que todos seremos beneficiados. Eu
poderei dar mais conforto aos meus filhos, as clientes se livraro de tudo que no quisessem
mais e faro espao para novas aquisies, e o ateli vender mais.
Dona Consuelo comprou um vestido e telefonou avisando que vir comprar mais dois
porque acha que est com pouca roupa.
Gino sorriu e meneou a cabea, dizendo:
-- Est quase me convencendo. S quero saber como pretende fazer isso. No podemos
importunar as clientes com pedidos. Sou rigoroso nisso, voc sabe.
-- Sei. Penso que at agora no lhe dei nenhum motivo de preocupao. Tenho me
relacionado muito bem com todos. Claro que farei isso discretamente.
-- De que forma?
-- Direi a elas que estou montando em minha casa uma loja de roupas usadas. Se elas
tiverem alguma coisa para vender, eu comprarei.
--Bem, se fizer discretamente, pode fazer. Eu mesmo tenho no deposito algumas peas um
pouco fora de moda. Se voc se interesse poder levar.
--As pessoas que compraram no tm meios para pagar uma roupa nova de seu ateli.
Acho que no conseguiria vend-las.
--Voc no entendeu. Essas roupas esto tomando espao e ningum vai querer compr-
las. Pode lev-las.
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-- Gostaria de pagar por elas. Se fizer um preo bem mdico, faremos negcio.
-- V ver as peas e faa o preo.
Clara comeou a conversar com as clientes e o resultado a surpreendeu. Em pouco mais de
um ms, o quarto de sua casa estava lotado e ela ganhando dinheiro.
Algumas clientes que reformaram a casa lhe ofereceram graciosamente objetos de
decorao os mais variados, satisfeitas por verem- se livres do que no gostavam.
Clara aceitava tudo, depois escolhia os melhores, alguns com pequenos problemas mas que,
por serem de qualidade e bom gosto, ela tencionava restaurar. O que sobrava, separava para
dar a quem aparecesse.
-- Muito obrigado, dona. Quando tiver mais coisas que deseja dar, espere por mim. No d
a ningum. Vou vender e comprar comida para meus filhos.
Clara concordou satisfeita. Comentou com Rita:
-- Fico admirada em ver que h pessoas que aproveitam tudo.
-- E isso comeou quando a senhora resolveu dar o que no lhe servia mais. Lembra-se?
Minha av tinha razo. Se voc quer ter fartura em sua casa, no guarde coisas inteis,
porque os bens precisam circular. Se fizer isso, sempre ter o suficiente.
Clara ainda no estava convencida disso, mas sorriu alegre. Pode ser coincidncia, mas
notava que sua vida estava mudando radicalmente. Perdera o medo do futuro, sentia-se
segura, calma, contente. At problemas de famlia que tanto a atormentavam haviam
diminudo
De vez em quando se perguntava o que havia sido feito de Osvaldo. Onde estaria? Por que
no dava notcias? Pensava que ele tava sendo egosta, rancoroso, a ponto de no se
interessar pela sorte dos filhos.
Isso ela no tolerava. Havia errado, estava arrependida, sentia-se culpada, reconhecia que
ele no merecia isso, mas quando pensava que ele desaparecera sem se preocupar com os
filhos, ignorando como eles estavam, sabendo que ela nunca havia trabalhado e que teria
dificuldades para sustent-los, uma onda de rancor a acometia.
Logo percebeu que tambm para isso havia compradores. Um homem que passava uma vez
por semana com um carrinho de madeira recolhendo o que pudesse aproveitar do lixo dos
moradores ficou muito contente quando Clara lhe deu os vrios objetos que considerava
refugo.
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Nervosa quando as crianas perguntavam pelo pai dizendo que sentiam saudade, ela
comentava com Rita:
-- Osvaldo parecia um bom pai. Mas no . Eu estava enganada. Como  que ele pode ficar
tanto tempo longe sem saber como as crianas esto?
-- Ele  boa pessoa, Dona Clara, mas ficou desnorteado com o que aconteceu. Parecia
outro homem. Passou por mim e nem me viu. Estava fora de si. Quando ele sumiu, pensei
que tivesse feito uma besteira.
-- Tambm tive medo. Mas, se at agora no soubemos de nada, acho que no fez. Sabe
como : as ms notcias chegam depressa.
-- Vai ver que ele tem se comunicado com a me e ela tem lhe dado notcias das crianas.
--Como poderia? Dona Neusa nunca nos procurou depois do que aconteceu.
Rita hesitou um pouco, depois disse:
-- Ela telefona de vez em quando para saber como esto.
-- Porque no me disse nada?
-- Ela implorou que eu no contasse.
-- Ainda bem que ela no veio aqui. Tenho medo de que fale mal de mim para as crianas.
Sei que ela faz isso com todos os nossos conhecidos. Nesse caso,  possvel que ela saiba
onde Osvaldo est e tenha lhe dado notcias.
-- Ela disse que telefona escondido, que ningum da famlia sabe. Acho que ela no sabe
nada do seu Osvaldo. Sempre pergunta se ele se comunicou com a senhora ou com as
crianas.
-- Se houvesse conversado com ele, saberia que no ligou. Seja como for, quero esquecer
essa parte de minha vida. Errei, mas agora no h como consertar. O melhor a fazer 
trabalhar para criar meus filhos, educ-los bem, fazer as vezes de me e de pai.  s isso
que eu quero. Talvez seja melhor para as crianas que ele no aparea mais. So pequenos
detalhes com o tempo vo esquecer. Vamos tocar nossa vida para frente. Tenho uma
proposta a lhe fazer.
-- Proposta? O que ?
-- No tenho tempo de ficar em casa e cuidar do nosso negcio.  voc quem tem feito
tudo. No sei o que teria sido de minha vida sem voc. Sou-lhe muito grata por isso. Assim
sendo, de tudo que vendermos em nossa loja lhe darei uma comisso.
-- No precisa, Dona Clara.
-- Precisa, sim. Quero que seja minha scia. E ento, aceita?
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-- Puxa! Estou me sentindo importante. Mas o dinheiro que entra  para o sustento da casa
e para o futuro das crianas. No acho justo. Eu no preciso de nada...
-- Precisa, sim. Do jeito que as coisas vo, tenho certeza de que logo estaremos ganhando
muito dinheiro. Vai dar para todos ns. Outra coisa: se voc  minha scia, no deve mais
me chamar de senhora.
-- No sei se me acostumo.
-- Acostuma, sim. Agora vamos definir os preos naqueles vestidos que chegaram ontem.
O telefone tocou, Rita atendeu.  para a senhora.
Clara apanhou o telefone:
-- Al.
-- Clara? Aqui  Vlter. Como vai?
-- Bem. O que voc quer?
-- Saber de voc, das crianas. Gostaria de v-la para conversar.
-- No temos nada a dizer um ao outro.
-- Est zangada comigo? Outro dia vi voc na rua. Tentei alcan-la, mas voc no me viu.
Entrou em um prdio na Baro de Itapetininga.
-- Eu trabalho l.
-- Deve ser um emprego muito bom. Voc estava muito bem vestida, elegante.
--  uma exigncia do meu emprego.
-- Senti saudade. Nunca esqueci os momentos que passamos juntos.
-- Pois eu no sinto saudade alguma. Se pudesse voltar atrs, no faria aquilo de novo.
-- Voc no me ama mais?
-- Para ser sincera, penso que nunca amei. Foi uma paixo que acabou no momento em que
Osvaldo descobriu tudo. Se fosse amor teria sido diferente.
-- No posso acreditar. O tempo passou, voc est livre agora. Podemos recomear. Estou
cumprindo o que lhe prometi, lembra-se?
-- Lembro. Mas no desejo v-lo mais. Decidi virar essa pgina da minha vida, criar meus
filhos e viver em paz.
-- No acredito que uma mulher ardente como voc se conforme em viver sozinha. Por que
no abre o jogo? Quem  o homem que colocou em meu lugar?
78


-- Voc est delirando. Deixe-me em paz. To cedo no quero saber de nenhum homem
em minha vida.
-- Quer que eu acredite? Quando vi voc to bem vestida, maquiada, elegante, logo vi que
havia outro no pedao. No acredito nessa de emprego. Voc nunca trabalhou na vida, no
sabe fazer nada.No vai conseguir me enganar.
-- Cada palavra que voc diz mostra quanto eu estava enganada a seu respeito. Voc no
passa de um conquistador barato, mal-intencionado. O que voc pensa de mim no me
interessa. Nunca mais me telefone nem aparea na minha frente.
Clara desligou o telefone irritada. Rita fitava-a admirada.
-- Puxa, Dona Clara, a senhora acabou com ele!
-- Por causa desse mau-carter tra Osvaldo. Se arrependimento matasse... -- A senhora
ainda gosta do seu Osvaldo.
-- Pensando bem, ele foi um bom marido. Sempre me tratou com honra e respeito. Mas
no gosto de pensar nele. Sinto vergonha, medo, fico deprimida. No sei onde est, como
est. No gosto de me sentir assim. Preciso ser forte para cuidar da minha famlia e do
nosso negcio Alias, no me chame mais de senhora, por favor.
--Vou tentar. A senhora... isto , voc ficou vermelha de raiva que Vlter lhe disse.
--E no era para ficar? Ele me chamou de incapaz. Acha que se bem vestida  porque
arranjei um amante. Para ele uma mulher consegue dinheiro dessa forma! No sei como
pude me envolver com esse patife.
--Ele ainda gosta de voc.
Clara deu de ombros:
--No creio. Depois do que eu lhe disse, nunca mais aparecer.
Mas Clara estava enganada. Quando chegava em casa  noite, ele lhe telefonava insistindo
em um encontro. Dizia que estava sofrendo que a amava, que precisava v-la. A princpio
ela tentara explicar, convenc-lo de que nada mais era possvel entre eles,mas Valter no
desistia.
Tendo esgotado todos os argumentos, cansada da insistncia dele, no mais atendia ao
telefone. Ento ele passou a esper-la perto do seu trabalho, assediando-a de todas as
maneiras. Clara a cada dia ficava mais irritada, e ele se mostrando mais apaixonado. Ela
escapava o mais que podia. Em casa, comentava com Rita:
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-- Ele parece que se multiplica. Aparece em todos os lugares que vou. Insiste. Um horror.
At algumas clientes j perguntaram quem  esse moo que fica me esperando na porta do
prdio.
-- Ele vai lhe dar trabalho.
-- Uma hora ter de desistir. No quero nada com ele. Engraado... Logo que Osvaldo foi
embora, fiquei desesperada, preocupada com nossa situao. Pensei que Vlter fosse
assumir, tomar conta de mim e das crianas, dizer que nos ajudaria financeiramente. Afinal,
ele tambm teve culpa no que aconteceu. Mas no: deu-me algum dinheiro, mostrou-se
apavorado. Pediu para que eu no o procurasse nem telefonasse em seu emprego. Ficou
louco para ver-se livre de mim e de qualquer compromisso. Agora, como eu no o quero,
fica insistindo. No d para entender!
--  que voc deu a volta por cima, est bonita, no precisou dele, mostrou seu valor. Isso
mexeu com os brios dele.
-- O caso  que essa insistncia est me cansando. Se no fosse o receio de escndalo,
daria queixa  polcia.
-- O povo fala muito. Muitos ainda se lembram do seu caso com ele. O melhor  deixar
que ele desista.
-- . Tem razo.
Mas ele no desistiu. Continuou assediando, chegando ao cmulo de querer abord-la nos
fins de semana quando saa com as crianas. Clara estava cada dia mais indignada. A quem
apelar?
Certa tarde, Domnico indagou:
-- Tenho notado que voc ultimamente tem estado nervosa. O que h? Alguma coisa aqui a
est aborrecendo?
-- Absolutamente. Tudo aqui est cada dia melhor. Trata-se de um assunto particular.
-- Nem sempre as coisas so como desejamos.
--  verdade. Voc sabe que sou separada de meu marido. A culpa foi minha. Ele foi
embora, no sei onde est, nunca deu notcias. Graas ao meu emprego aqui, tenho
conseguido cuidar de minha famlia e no h nada que eu deseje mais do que viver em paz
com meus filhos. Mas no estou conseguindo.
-- Por qu?
Clara suspirou fundo, hesitou, depois respondeu:
-- Nunca contei como foi que arruinei meu casamento. Apaixonei-me por outro e meu
marido descobriu. Arrependi-me sinceramente. Depois, descobri que o homem pelo qual
me iludi no era o que eu havia imaginado e a paixo desapareceu. Restou apenas um
sentimento de tristeza, de frustrao. Mas agora esse homem est me perseguindo sem
cessar. Deseja reatar o relacionamento, jura que me ama. Mas eu no gosto dele. Quero que
me deixe em paz, mas ele no desiste.
-- Por isso est to irritada.
-- Desculpe. No percebi que estava dando na vista. Vou me controlar. No vai prejudicar
meu trabalho.
-- Sei que no. Voc  bastante profissional e sabe separar as coisas. Mas eu, que a
conheo bem e sou seu amigo, no gosto de v-la contrariada.
-- Obrigada pelo apoio, Domnico. Se ao menos eu pudesse fazer alguma coisa para Vlter
me deixar em paz!
-- Voc pode. Conheo uma pessoa que poder ajud-la.
--Quem?
-- Trata-se de um mdium muito bom, que  meu amigo. Se quiser posso marcar uma
consulta para voc.
Clara assustou-se:
-- No, obrigada. Minha sogra  que gostava de andar atrs mdiuns. Nunca aceitei isso.
No acredito que possa me ajudar.Como  que voc, uma pessoa culta e inteligente,
acredita nessas coisas?
-- Por experincia, minha cara. J passei por muitas coisas e no tenho mais dvidas: sei
que a vida continua depois da morte, que os espritos dos que morreram algumas vezes
ficam ao nosso redor, interferindo em nossas vidas.
--Pois eu no creio. Trata-se de uma iluso dos inconformados com a separao dos que
morrem. Uma maneira de se enganar e sofrer menos.
Domnico olhou para ela e sorriu. Apenas disse:
--Um dia voc vai descobrir a verdade. Vamos deixar o tempo passar.
--. O tempo sempre  um santo remdio.
 Campainha tocou e logo entrou uma cliente e Clara apressou-se em atend-la. Margarida
era uma jovem senhora, exuberante, bonita.Filha de pais muito ricos, casara-se muito cedo
com um estudante de Direito, pelo qual se apaixonara, do qual tivera dois filhos, depois de
formado, fora trabalhar nas empresas do de Margarida resumia-se em cuidar do bem-estar
da famlia com o marido pela melhor sociedade, participando de todos os acontecimentos
importantes.
O jovem casal era conhecido pela sua filantropia, estando na frente de vrios projetos
sociais, sendo por isso constantemente citado pelos meios de comunicao, aparecendo nas
revistas importantes.


81
Margarida era uma das melhores clientes do ateli. Comprava muito e pagava sem regatear.
-- Em que posso servi-la? -- indagou Clara depois dos cumprimentos iniciais.
-- Estou precisando de dois vestidos: um esporte, outro habill.
-- Vou mostrar-lhe alguns tecidos que acabamos de receber da Itlia. As cores so
maravilhosas. Enquanto espera, aceita um caf, uma gua ou um refrigerante?
-- Uma gua, obrigada. Acho que ainda no vi nenhum destes figurinos. So novos?
-- Chegaram na semana passada. Fique  vontade.
Ela se sentou e comeou a folhear o figurino. De repente parou. Seu rosto ganhou uma
expresso diferente e ela disse:
-- Esse homem j lhe causou muito mal. Cuidado. Precisa livrar- se dele. Se ele continuar,
vai prejudic-la ainda mais.
Clara sobressaltou-se. Olhou em volta, estavam sozinhas. Assustada, indagou:
-- Para quem est dizendo isso?
-- Cuidado. Ele no serve.  preciso livrar-se dele. J prejudicou sua famlia, pode
atrapalhar muito mais. Mande-o embora de sua vida.
Clara notou que Margarida estava plida, olhos perdidos em um ponto distante, a voz
modificada.
Clara apavorou-se. Imediatamente foi  sala vizinha e chamou Domnico:
-- Venha, Dona Margarida est esquisita, falando coisas sem nexo. Acho que est tendo
alguma crise...
Domnico acompanhou-a. Margarida continuava na mesma postura. Ele se aproximou,
dizendo com voz calma:
-- O que quer?
-- Avis-la de que corre perigo. Esse homem precisa sair do caminho dela.
-- Est bem. Mas ele insiste, ela no sabe o que fazer. Pode nos sugerir alguma coisa?
-- Ela que reze. Vamos tentar ajudar, mas ela precisa cooperar. Voc falou, ela no ouviu.
Vamos ver se agora ela entende.
-- Farei o possvel. Obrigado pela ajuda.
Margarida deu um suspiro fundo, depois olhou para Domnico perguntando:
82
-- Aconteceu de novo!
-- Aconteceu, Margarida.
-- O que foi que eu disse?
-- Clara est com um problema e voc tentou orientar.
Ela passou a mo pela testa como querendo afastar a preocupao.
-- No sei por que isso acontece comigo. Fico inquieta. Nunca sei quando vai se dar. J
pensou se acontecer quando eu estiver em alguma solenidade?
No se preocupe. Pelas palavras que voc disse, quem est fazendo isso sabe como agir.
No vai exp-la ao ridculo.
-- Se ao menos eu me lembrasse... Clara no se conteve:
-- Voc no se lembra do que me disse h pouco?
-- Nenhuma palavra. Quando eu era criana, de vez em quando a algumas ausncias.
Nesses momentos, algumas vezes falava coisas das quais depois no me lembrava. Meus
pais, preocupados, levaram aos maiores especialistas no s no Brasil mas tambm no
exterior. Como no encontraram nenhuma doena. Como no sabiam como explicar, alguns
diziam que com o tempo iria passar. E, de fato, melhorou tanto que eu havia at me
esquecido. Fazia muito tempo que no acontecia. Agora no sei o que pensar. Ser que vai
comear tudo de novo?
-- No. O que voc tem  apenas mediunidade.
-- No pode ser.
--  verdade. Acredite. Seria muito bom se procurasse estudar esses fenmenos. H livros
muito srios sobre esse assunto, que ajuda m a compreender melhor o que est
acontecendo. Alm disso, eles a orientariam como proceder.
-- Estou assustada, Domnico.
-- No deve. Ser mdium significa possuir mais sensibilidade, perceber o que a maioria das
pessoas no consegue ver. Perceber o que h alm do nosso mundo material, conhecer a
vida em outras dimenses, saber muito mais a respeito do ser humano. A mediunidade 
uma beno, Margarida. Ao invs de ter medo, trate de aprender como funciona. Tenho
certeza de que encontrar maneira de conviver com isso e aproveitar todos os benefcios
desse estado. A espiritualidade  alegria, proteo e luz.
-- Comeo a pensar que tem razo. Poderia indicar-me alguns desses livros?
-- Certamente. Vou anotar e lhe darei uma relao boa. Vou mandar servir-lhe um caf.
Acho que lhe far bem.
83
-- Obrigada. Aceito.
Enquanto ele foi pedir o caf, Clara perguntou:
-- Est se sentindo bem?
-- Estou. Alis, nunca me sinto mal quando essas coisas acontecem.
Margarida estava corada e bem-disposta, muito diferente de como havia ficado naqueles
instantes. Clara sorriu. Ainda bem.
Atendeu a Margarida, mas, apesar de falarem de outros assuntos, ela no conseguia
esquecer aquelas palavras. Margarida no sabia nada sobre sua vida pessoal. Clara nunca
havia comentado com ela.
Margarida referiu-se a Vlter, com certeza. Por haver se envolvido com ele, a vida de Clara
fora prejudicada. Em todo caso no tencionava dar-lhe ateno. No sentia por ele mais
nenhum tipo de atrao. Ao contrrio, sua presena a incomodava, causava-lhe mal-estar.
No se sentia com o direito de atirar toda a culpa em cima dele, a responsabilidade era dos
dois. Se ela no o houvesse escutado, nada teria acontecido.
Depois de tudo quanto passara, percebia que Vlter no era o que ela pensava. Era um
homem leviano, arrogante, fraco, preocupado com o que as pessoas pensavam dele, incapaz
de um sentimento verdadeiro. Admirava-se de haver se deixado iludir por ele.
No fim da tarde, antes de encerrar o expediente, Domnico aproximou-se:
--Voc ficou pensativa depois do que Margarida lhe disse.
-- Fiquei. Suas palavras foram de certo modo intrigantes.
-- S intrigantes? Eles se preocuparam em mandar-lhe um recado e voc parece que ainda
no percebeu o alcance do que acontece hoje aqui.
-- Eles quem?
-- Amigos espirituais, espritos desencarnados que velam pelo seu bem-estar.
Clara olhou sria para ele:
-- difcil acreditar que eles existam.
Domnico sorriu e respondeu:
-- Nem tanto. Depois da prova que voc recebeu hoje, j deveria acreditar.
-- . De fato. Margarida no sabia nada sobre minha vida. Falou de um homem que me
persegue, e eu sei a quem se referiu. At a surpreendente. Quanto ao resto, no creio que
esteja correndo algum perigo. No pretendo nada com Vlter.
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-- Mas ele pretende com voc. Est insistindo. O recado tem fundamento, sim. Seria bom
que acreditasse e tomasse alguma providncia mais sria para afast-lo de vez.
-- Vlter pode no ser do jeito que eu gostaria, mas trata-se de um homem civilizado, que
vai entender. Depois, ele sempre teve muita sorte com as mulheres. Logo aparecer outra e
ele me deixar em paz. Voc vai ver.
-- Talvez o fato de ter sorte com as mulheres seja a causa de ele estar insistindo com voc.
Para ele, sua recusa est ferindo seu orgulho, e orgulho ferido sempre  perigoso.
-- Ele no pode fazer nada.
-- Seria bom que no andasse sozinha por a.
-- No exagere, Domnico. Sei me cuidar.
-- Tudo bem. Mas prometa que vai tomar cuidado. Sou seu amigo. No quero que lhe
acontea nada de mau.
-- Desse jeito voc me assusta. Ficou mais impressionado do que eu com aquele recado.
-- Porque sei que eles, para conseguir transmiti-lo, tiveram de remover vrias barreiras, e
nunca fariam isso se no fosse realmente necessrio.
Clara saiu pensando nas ltimas palavras de Domnico. Olhou para todos os lados da rua,
mas Vlter no estava l. Ficou aliviada.Era provvel at que ele j houvesse desistido.
85
Captulo 8
Clara levantou-se irritada.
--Tem certeza de que ele disse isso?
-- Tenho, Clara. Se no lhe dermos o dinheiro, vai nos multar e proibir a venda em nosso
bazar.
-- Bem que Domnico me disse que eu deveria registrar nossa firma. Mas fiz as contas e vi
que precisaramos gastar muito. Queria esperar um pouco mais, at juntarmos o dinheiro.
-- Quando ele tocou a campainha dizendo que queria fazer compras, eu fiquei desconfiada.
Respondi que no tnhamos nada para vender. Ento ele mostrou a carteira, disse que era
fiscal e que tinha recebido uma denncia. No tive como impedi-lo de entrar.
--Denncia? Quem teria feito isso? As pessoas que compram aqui so nossas amigas.
--No sei. O fato  que ele sabia de tudo. At o local onde est a mercadoria, o horrio em
que as crianas esto na escola, tudo. Foi um horror.
--O que mais ele disse?
-- Que tinha de nos multar e apreender toda a mercadoria. De nada adiantou alegar que se
tratava de objetos e roupas usadas, que era um bico para poder sustentar a casa, que o
volume de negcios era pequeno. Queria mandar colocar tudo no carro. Pedi-lhe que no o
fizesse. No fim, pediu que lhe dssemos duzentos mil cruzeiros em dinheiro. Respondi que
amos tentar arranjar o dinheiro e pedi um prazo. Deu-nos trs dias.
-- Mas  muito dinheiro! No dispomos dessa quantia.
-- Eu sei, mas foi s o que pude conseguir: ganhar tempo.
Clara sentou-se passando a mo pelos cabelos, como que para afastar a preocupao.
86
-- O que vamos fazer? Logo agora que estvamos indo to bem...
-- O melhor ser registrar a firma. Temos algum dinheiro, faremos economia em casa,
vamos conseguir. No podemos desistir agora.
-- Mas e se no arranjarmos o dinheiro e eles levarem toda a nossa mercadoria?
-- Tenho f em Deus que eles no vo conseguir. Hoje mesmo vou ao centro de Dona
Ldia pedir uma ajuda espiritual.
Clara olhou para ela e no disse nada. Por mais ajuda que tivessem, a verdade era que no
tinham tanto dinheiro. Se ao menos ela tivesse a quem recorrer... No ia pedir ajuda ao
patro. Ele j lhe dera muitas mercadorias, e no tinha coragem de pedir mais. Depois,
Domnico havia insistido para que ela registrasse devidamente sua firma. No seguira sua
orientao e agora tinha vergonha de queixar-se com ele.
Dispunha de trs dias para pensar, mas sabia por antecipao que no tinha de onde tirar
esse dinheiro.
Foi para o trabalho e durante o dia inteiro remoeu o assunto, procurando uma soluo
Passava das seis quando saiu do ateli Valter esperava-a na porta do prdio.
Durante alguns dias ele no havia aparecido e ela pensou que ele j houvesse desistido.
Tentou desviar. No se sentia com disposio para conversar. Mas no teve como, porque
ele estava na porta.
-- Como vai, Clara?
-- Bem, obrigada.
Ela foi saindo e ele a segurou pelo brao
-- Espere um pouco. Quero conversar com voc.
-- No temos nada para conversar. Sinto muito. Estou cansada e quero ir para casa.
-- Tenho uma proposta a lhe fazer. Coisa sria.
-- No estou interessada.
-- Vamos tomar um caf ali na esquina. Quero que me oua.
-- No posso. Preciso chegar em casa logo.
-- Cinco minutos. Puxa, pelo menos um pouco de ateno em nome dos velhos tempos.
-- Que eu no quero lembrar.
-- Vamos entrar. Apenas cinco minutos, eu prometo.
Clara deixou-se conduzir desanimada. Sentou-se e esperou. Ele pediu caf e alguns
salgadinhos.
-- Hoje fechei um bom negcio e recebi excelente comisso. Fiquei feliz. Pensei em
comprar uma boa casa, em assentar minha vida, em me casar.
87
Ela no respondeu, ele continuou:
-- Nunca deixei de am-la Clara. Voc  a mulher de minha vida. Tentei esquec-la, mas
foi intil. Alm disso, sinto-me culpa do pela sua infelicidade. Eu destru sua paz, sua
famlia. Seus filhos esto sem pai. Pensei muito, mas s agora tenho meios para oferecer a
voc e a seus filhos uma vida confortvel. Por isso lhe peo que se case comigo.
-- No posso. Ainda sou casada.
-- Osvaldo desapareceu. Ningum sabe onde est. Pode ser declarado morto. Se isso
demorar, podemos nos casar no Uruguai.
-- Voc pensou em tudo, no ? Menos que eu no desejo me casar. Estou muito bem
como estou. Agora preciso ir. Deixe-me em paz.
-- Estou lhe fazendo uma proposta honesta, colocando minha vida em suas mos. Por que
est sendo to dura comigo? Prefere passar o dia inteiro trabalhando fora, longe de seus
filhos, quando poderia ficar em casa, com conforto? Hoje eu posso cuidar do seu futuro.
-- No quero nada com voc nem com ningum. Agora s quero trabalhar, criar meus
filhos e viver em paz.
-- Voc me amava. No pode ter esquecido.
-- Nunca amei voc. Foi uma grande iluso da qual me arrependi amargamente. Entenda
de uma vez por todas que acabou. Deixe- me em paz.
Ele a olhou nos olhos, trincou os dentes com raiva e segurou o brao dela com fora,
dizendo:
-- Pense bem. Se no aceitar minha proposta, vai se arrepender Isso eu garanto!
-- No preciso pensar. No quero nada com voc. Agora vou indo. Boa noite.
Clara levantou-se e saiu. Vlter seguiu-a com os olhos brilhantes de rancor. Ela teria de
reconsiderar. Quando estivesse na misria e perdesse o emprego, no lhe restaria outro
recurso seno aceitar.
A cada dia desejava mais aquela mulher. Os momentos de intimidade que haviam vivido
no lhe saam do pensamento. Nunca fora derrotado por mulher nenhuma. No seria ela a
primeira.
Clara chegou em casa nervosa. Vlter olhara para ela com raiva ao ser recusado. Sentiu um
aperto no peito. E se o que Margarida dissera fosse verdade? E se ele representasse mesmo
um perigo?
Sacudiu os ombros como se isso pudesse afastar aqueles pensamentos. Estava
impressionada pelo que acontecera  tarde. Vlter no podia prejudic-la. Esforou-se para
esquecer e recuperar a serenidade.
88
Mas o problema do dinheiro ainda estava sem soluo. O que fazer?
Quando o prazo dado pelo fiscal expirou, Clara sentiu-se arrasada. No haviam conseguido
o dinheiro.
Pela manh Rita perguntou aflita:
-- Hoje vence o prazo. Se o fiscal voltar, o que faremos?
Clara suspirou resignada.
-- No d para fazer nada.
-- Eles vo levar nossa mercadoria, vamos perder tudo.
--Estamos nas mos deles, Rita. No posso faltar hoje no ateli.Devem ir algumas clientes
que s compram comigo.
-- Depois de termos trabalhado tanto, no  justo entregarmos tudo a eles. Seria prefervel
dar aos pobres.
-- Concordo com voc. Pelo menos teriam utilidade. Para eles no vale nada.
-- Pois eu tenho f que Deus vai nos ajudar. Dona Ldia garantiu que ia rezar por ns.
Clara no respondeu. Gostaria de ter a f de Rita para sentir-se mais encorajada, mas no
acreditava que isso as pudesse ajudar.
-- Vou trabalhar. Se acontecer alguma coisa, voc telefona.
Depois que ela saiu, Rita resolveu procurar Dona Ldia. Deixou as crianas na escola e foi
at l.
Assim que ela abriu o porto, foi logo dizendo:
-- No conseguimos o dinheiro. No sabemos o que fazer. Vamos perder tudo.
-- Calma. Vamos ver se encontramos alguma soluo. Entre. Sente-se.
-- A senhora sabe o quanto temos lutado para manter a casa. Tem acompanhado nossas
dificuldades.
--  verdade. Mas no se desespere. Deus vai nos ajudar.
De repente, Rita levantou-se:
-- Dona Ldia, a senhora ajuda muito os pobres, teria como ir buscar aquela mercadoria?
-- Temos a caminhonete, mas tem certeza de que deseja fazer isso?
-- Tenho.
-- E Clara, vai concordar?
-- Conversamos, e ela tambm prefere. Precisamos ir antes que eles apaream.
-- Est bem, vou chamar Alpio.
O prdio do centro esprita ficava ao lado da casa de Ldia. Alpio morava nos fundos e
dirigia a caminhonete.
89
Ele apareceu e foram buscar a mercadoria
Colocaram tudo rapidamente na caminhonete.
-- Eu vou ficar e limpar tudo. Eles no vo encontrar mais nada.
-- Rita,  noite, quando Clara chegar, vocs vo at minha casa. Temos de conversar.
Eles se foram e Rita sentiu-se aliviada. Encontrara uma boa soluo. Passava das trs horas
quando finalmente o fiscal tocou a campainha.
-- Ento, o prazo acabou. Como ficamos?
-- Achamos que o senhor estava certo. Pode crer que ns no sabamos que para vender
aos vizinhos algumas roupas usadas teramos de ter uma licena.
-- Vo regularizar tudo?
-- No. Decidimos acabar com isso. Doamos tudo ao centro esprita de Dona Ldia, que
fica prximo daqui. Ela vai distribuir aos pobres.
O fiscal abriu a boca, fechou-a novamente e depois decidiu:
-- Havia muita coisa. No acredito que tenham dado tudo. Vamos fazer uma vistoria.
-- Faa o favor de entrar.
Ele chamou o outro que ficara no carro e entraram. Enquanto se encaminhavam para o
quarto onde estava o bazar, Rita disse amvel:
-- Os senhores aceitam um caf? Coei agora.
Eles no responderam. Vasculharam todos os compartimentos da casa. Ao sair, o fiscal
disse:
-- Olhe aqui, isso no vai ficar assim. No pense que nos enganam. De hoje em diante
estarei de olho em vocs.
-- Vai perder tempo. No vamos mais vender nada.
Depois que eles se foram, Rita sentou-se na cadeira e, satisfeita, colocou caf na caneca.
Haviam perdido a mercadoria mas fizeram uma caridade e ao mesmo tempo no deram
dinheiro quele malandro.
Depois de tomar seu caf, Rita telefonou para Clara contando lhe tudo. E finalizou:
-- Sabe que apesar de tudo estou aliviada? Nem imagina a alegria que senti vendo a cara de
decepo deles.
-- Rita, voc no existe! Apesar de havermos perdido tudo, tambm estou satisfeita. Diante
das circunstncias, foi a melhor soluo.
Clara desligou o telefone contente.
-- Boas notcias? -- indagou Domnico, que a observava.
90
-- De certa forma, sim.
-- Observei seu nervosismo nos ltimos dias.
-- Agora posso contar-lhe o que aconteceu.
Em poucas palavras colocou-a a par dos acontecimentos e concluiu:
-- Voc tinha razo ao aconselhar que regularizssemos nossa firma. Como eu no segui
seu conselho, tive vergonha de contar-lhe o que aconteceu. Agora terei de comear do zero.
-- A experincia vale mais do que muitos conselhos. Espero que desta vez comece abrindo
uma firma.
--  o que faremos.
A noite, Clara e Rita levaram as crianas e foram conversar com Ldia, que as recebeu com
prazer, conduzindo-as  sala de estar.
Clara no a conhecia pessoalmente, mas vendo-a percebeu por que Rita gostava tanto dela.
Era uma mulher simples, simptica, bem-educada.
-- Pedi-lhes que viessem para lhes propor um negcio. Vocs doaram ao nosso centro o
produto de meses do seu trabalho e de onde tiravam o sustento da prpria famlia. Agradeo
de corao terem se lembrado de ns para fazer esse donativo. H mais de quinze anos eu e
alguns amigos abrimos este centro esprita para ajudarmos as pessoas a estudarem a vida
espiritual, e com a graa de Deus temos conseguido realizar um bom trabalho. Tudo que
fazemos aqui  gratuito. Ningum paga nada pela ajuda que recebe no centro, mas, como
podem imaginar, temos algumas despesas naturais: gua, luz, telefone, faxineira e alguma
ajuda aos pobres, pois mantemos uma assistncia social. H algum tempo eu vinha
pensando em obter uma forma de cobrir as despesas sem que fosse preciso apelar para os
jantares, almoos ou chs beneficentes. Havia pensado de abrir um bazar no qual as pessoas
pudessem comprar coisas por um preo mdico e que ao mesmo tempo oferecesse pequeno
lucro para manuteno da obra. Quando Rita apareceu hoje, eu havia acabado de rezar
pedindo orientao aos meus amigos espirituais para comear. Sei que para vocs deve ter
sido triste, mas para ns significa que foi a maneira que Deus encontrou para nos ajudar.
Sei que vocs trabalharam meses para juntar tudo isso e no  justo que percam tudo. Ento
encontrei uma forma que vai servir para todos ns. Resolvi montar esse bazar e dividir o
dinheiro com vocs. De tudo que trouxeram, metade para o centro e metade para vocs.
Clara olhou surpreendida para ela e no encontrou palavras para responder.
91
-- Ento -- continuou Ldia --, est bem assim?
-- No sei se devemos aceitar... -- disse finalmente Clara.
-- Devem, sim. Vocs nos ajudaram e ns nos sentiremos felizes em retribuir.
-- Bem, no posso negar que o dinheiro de nossas vendas nos far muita falta. Meu salrio
 insuficiente para pagar todas as nossas despesas.
-- Ento est resolvido. Amanh mesmo arrumaremos tudo e abriremos nosso bazar.
-- E a licena? -- indagou Rita preocupada.
-- Nosso centro  devidamente registrado e pode manter um bazar beneficente.
-- Vamos fazer o seguinte, Dona Ldia -- props Clara. -- Ns pretendemos continuar
com nosso negcio. Vamos abrir uma firma, regularizar tudo. Para isso, precisaremos de
dinheiro e no temos como obt-lo. Aceitamos sua proposta s enquanto precisarmos.
Assim que tivermos tudo regularizado, no receberemos mais nada.
-- Isso mesmo -- concordou Rita satisfeita.
-- Que seja. Fica combinado assim. Agora vamos chamar as crianas que esto brincando
com meus netos no quintal e tomar um caf com bolo.
A partir daquele dia, Clara passou a relacionar-se com Ldia. Gostava de conversar com ela,
falar da educao das crianas. Percebendo seu bom senso, aos poucos comeou a falar de
sua vida, abrindo seu corao como nunca fizera a ningum.
Era um domingo  tarde e elas estavam na sala da casa de Ldia tomando caf enquanto as
crianas brincavam no quintal. Marcos e Carlinhos haviam se tornado amigos dos dois
netos de Ldia. Eram quase da mesma idade.
Seja por causa da tarde agradvel, do momento calmo, do cafezinho gostoso ou porque o
carinho de Ldia a fizesse lembrar-se do aconchego familiar que havia perdido, Clara
comeou a falar de sua vida, contando tudo que lhe acontecera.
Ldia ouviu atenciosa e, apesar de Clara no atenuar seus erro assumindo toda a culpa do
que lhe acontecera, ela no teve uma palavra de reprovao. No final, limitou-se a dizer
simplesmente:
-- O importante  que com tudo isso voc cresceu em experincia . Isso  o que conta.
--  verdade. Se fosse hoje, eu no teria me envolvido. Mesmo sentindo paixo por outro
homem, teria respeitado meu marido.
92
Calou-se por alguns segundos, depois continuou:
-- No sei o que foi feito dele. Isso s vezes me incomoda. Sempre foi um homem bom,
marido exemplar. Ns nos casamos por amor.
Quando se lembrar dele, no fique se culpando. Voc errou, mas ficar rememorando o
passado agrava o problema.
--  difcil no me sentir errada, o arrependimento di principalmente por saber que no h
como remediar. Por mais que eu faa, nunca poderei apagar da nossa lembrana o que
aconteceu. Essa ferida vai machucar sempre.
-- A vida prossegue, e voc ainda  muito moa. Alm disso, tem dois filhos para criar. Por
ter cometido um erro, voc no  errada. No seja radical. Tanto isso  verdade que
conseguiu manter a dignidade. Saiba que eu a admiro muito por haver assumido sua
responsabilidade e estar se esforando para refazer sua vida honestamente. Teria sido muito
mais fcil aceitar o que Vlter est lhe propondo, ir morar com ele e deixar que a
sustentasse, bem como seus filhos.
-- Se eu o amasse, talvez fizesse isso. Mas agora, olhando para ele, no sinto nada do que
sentia antes. No sei como pude trocar Osvaldo por ele.
-- A paixo cega, ilude, mas um dia acaba. No  amor.
-- Tem razo.
-- Um dia, quando menos esperar, o amor voltar e voc ser feliz de novo.
-- No, Ldia. No quero mais me envolver com ningum. Chega de me machucar. No
estou preparada para comear tudo de novo. Alm disso, no quero dar um padrasto para os
meninos.
Ldia sorriu e seus olhos brilhavam quando disse:
--O mundo d muitas voltas, Clara. Tudo passa e se renova.
-- Para mim essa fase j passou. Pretendo ganhar dinheiro para dar uma boa educao aos
meninos e poder tornar-me independente pelo resto da vida. Agora descobri que sou capaz
de fazer isso, e sinto-me muito bem assim. Depois, no sei o que foi feito de Osvaldo.
Continuo casada com ele. s vezes penso que pode ter morrido.
-- Por que diz isso?
-- Era um pai muito amoroso. No gostava de ficar longe dos filhos. Ele nunca mais nos
procurou, sua famlia tambm no sabe dele.
Pode ter morrido mesmo.
-- Ele est vivo, Clara. Pode ter certeza.
-- Por que diz isso?
-- Se tivesse morrido, eu saberia.
93
Disse isso com tanta segurana que Clara olhou admirada para ela. Apesar de serem amigas
e ela dirigir um centro esprita, nunca tinham falado a respeito. Rita freqentava as reunies
do centro e a convidara vrias vezes, mas Clara nunca aceitara. No gostava de en volver-se
com nenhuma religio. Sua experincia na igreja deixara-a descrente. Curiosa, perguntou:
-- De que forma
-- Meus amigos espirituais teriam-me avisado. Depois, enquanto voc contava sua histria,
eu vi seu marido. Est longe, em um lugar cheio de plantas, em companhia de vrias
pessoas.
-- Como sabe que  ele? Nunca lhe mostrei nenhum retrato e no o conheceu.
-- Eu o vi e sei que  ele.  um rapaz alto, est muito magro, moreno-claro, cabelos
castanhos ligeiramente ondulados, repartidos de lado, que por vezes lhe caem na testa, e ele
costuma passar a mo colocando para trs. Esse  um gesto que ele sempre faz. Testa alta,
olhos grandes cor de mel, lbios carnudos e bem delineados, queixo largo com ligeiras
covinhas no centro.
Clara levantou-se surpreendida.
--  ele mesmo! Muitas vezes ele passava brilhantina para segurar os cabelos penteados.
Mas eu preferia que ele os deixasse soltos. Parecia um menino.
Pelos olhos de Clara passou um brilho emocionado e ela no conseguiu reter as lgrimas.
Passou a mo pelos olhos e disse com voz trmula:
-- Desculpe. No pensei que a lembrana dele ainda me emocionasse. Mas  que eu no
esperava e voc o descreveu perfeitamente.
-- No precisa justificar-se. Sua emoo  natural. Depois, falando no assunto nos ligamos
energeticamente com ele e captamos sua energia. Foi por isso que eu lhe aconselhei que, ao
lembrar-se de seu marido, procure pensar s nos bons tempos. Evite dramatizar o passado.
Assim como voc sentiu a energia dele e isso a emocionou, ele deve ter sentido a sua, ter se
lembrado. O pensamento  um correio direto, e  preciso estar atenta para no mandar para
as pessoas energias pesadas e tristes.
-- Ele deve ter raiva de mim. Deve estar magoado, triste.
-- Est magro, sofrido, queimado de sol.
-- Onde estar? Por que no nos procura pelo menos para saber das crianas?
-- No sei. Talvez a ferida ainda esteja doendo muito.
94
Clara ficou calada por alguns instantes, depois perguntou:
-- Se eu pensar coisas boas, ele vai se sentir melhor?
-- Vai ajudar.
-- Vou tentar fazer isso daqui para frente.
-- Voc tambm se sentir melhor.  muito ruim ficar pensando no que j foi e que no
tem remdio.  intil e prejudicial. Jogue fora seu passado. Ele j foi e no volta mais.
-- No volta mas continua me pesando. Nunca fui muito religiosa, mas tenho medo de ser
castigada pelo meu pecado. Minha me falava isso quando eu era criana.
-- No acredite. Deus no castiga ningum. Cada erro tem um preo que as pessoas pagam
para aprender. Quando aprendem, amadurecem e erram menos. Isso  progresso, e
progresso  lei da vida. Tire essas idias de crime e castigo de sua cabea para que no
venha inconscientemente a se punir para castigar a si mesma. Muitas pessoas acabam se
punindo, pensando assim "pagar" por seus erros. Criam sofrimentos inteis e evitveis.
-- O que fazer ento?
-- Se alguma coisa no deu certo, no se culpe. Voc fez o que lhe pareceu melhor no
momento. O resultado no foi bom, voc no gostou, procure agir de outra forma.  o que
est fazendo no presente que determinar seu futuro.
-- Tem razo. Hoje eu no me deixaria levar pela tentao.
-- Pagou o preo e aprendeu. E assim que a vida ensina.
Clara ficou calada por alguns segundos perdida em seus pensamentos. Por fim disse:
-- Se eu pudesse voltar atrs, como seria bom!
Ldia sorriu e respondeu:
-- Voc precisou perder para valorizar.
-- Eu amava meu marido.
-- Se estivesse mais consciente dos seus sentimentos, no teria se envolvido com outro.
-- Teria percebido que a realidade era melhor do que o sonho. Eu vivia com a cabea cheia
de sonhos, acreditava em "alma gmea",amor arrebatador. Osvaldo, apesar das qualidades,
no era um prncipe encantado.
-- Essa  uma inverso de valores perigosa. Voc no quis largar o sonho e ficar com a
realidade. Preferiu a iluso. Hoje voc sabe que escolheu errado.
-- Estou arrependida.
95
-- Procure esquecer. Da prxima vez escolher melhor.
-- Prxima vez? No quero mais saber de ningum. Vou cuidar de minha vida, criar meus
filhos e nada mais.
Ldia sorriu e no respondeu. Ela sabia que a ligao de Clara com Osvaldo fora rompida
mas no terminara. A sabedoria da vida um dia os colocaria de novo frente a frente e ento
teriam de decidir o rumo que dariam a suas vidas.
96


Captulo 9
A tarde ia morrendo, j os ltimos raios solares coloriam o cu. Osvaldo entrou em casa
sobraando um cesto com ervas.
Estava magro, deixara crescer a barba, vestia-se como um lavrador, as em seus olhos havia
um brilho novo, que o tornara muito diferente do que era quando trs anos antes chegara
em casa de Antnio.
O homem ferido, machucado, desiludido e triste dera lugar a outro , mais introspectivo,
mais maduro, mais forte.Tinha ido para ficar um ms, porm nas atividades espirituais
Antnio desenvolvia com tanta dedicao descobrira com surpresa uma forma de sentir-se
til, de cooperar para aliviar o sofrimento das pessoas.
Sensibilizado pela maneira simples e amorosa com que Antnio empenhava suas tarefas,
identificando-se com elas, entregou-se a trabalho com alma, sentindo-se feliz com as curas
que conseguiam. Sua mediunidade se abriu e ele assustado passou a ver cenas e pessoas de
outras dimenses, bem como os problemas de cada paciente.
A princpio ele se desequilibrou, mas Antnio ensinou-o a lidar com essas energias, e aos
poucos ele foi se adaptando. Em pouco tempo a fama correu pela vizinhana e muitos o
procuravam em busca de ajuda.
Sua mgoa pela traio de Clara havia desaparecido. S a saudade o incomodava.
Quando fez seis meses que ele estava morando na casa de Antnio, precisaram ver um
doente na vila. Ento, Osvaldo procurou um telefone ligou para sua tia Ester.
Apesar do temperamento retrado dela, naquele momento Osvaldo sentia que era a nica
pessoa com a qual poderia manter contato sem problemas.
97
Ela atendeu admirada:
-- Osvaldo,  voc?
-- Sim, tia. Como vai?
-- Bem. Ainda hoje estava pensando em voc.
-- Por qu? Aconteceu alguma coisa?
-- No. Voc desapareceu e sua famlia pensa at que est morto.
Osvaldo fez silncio por alguns instantes, depois disse:
--  melhor assim. No tenho vontade de falar com eles. Gostaria que no contasse que
liguei.
--Tem certeza?
-- Tenho, tia.
-- E voc, como est? Sabe que, se precisar de alguma coisa, farei o que puder para ajud-
lo.
-- Obrigado, tia, no preciso de nada. Estou bem.
-- E o corao, ainda di?
-- J passou. A nica coisa que me incomoda  a saudade dos meninos. Sabe como esto?
-- Sei. Esto bem.
Osvaldo hesitou um pouco, depois disse:
-- E quanto  situao financeira, isto , como Clara est se arranjando com as despesas?
-- Melhor do que voc poderia supor. Est trabalhando em um ateli de alta-costura e
parece que vai bem. Rita continua com ela.
-- Quer dizer que ela...
-- Est sozinha. Depois que voc partiu no quis nada com Vlter. Pensei em oferecer
ajuda, mas ela nunca me procurou e eu no quis me intrometer. Tenho falado com Rita, que
me d notcias das crianas.
-- Sinto-me aliviado.
-- Gostaria de saber onde voc est. Poderei escrever de vez em quando e mandar notcias.
-- Faria isso por mim?
-- Claro, meu filho. Estou feliz por ter me ligado. Sabe que pode contar comigo.
Osvaldo deu o endereo da caixa do correio para correspondncia. Assim tomou
conhecimento da morte do tio e escreveu  tia falando de suas atividades espirituais, de sua
certeza de que a vida continua depois da morte.
Passou a corresponder-se regularmente com ela. Pelo menos uma vez por ms ela lhe
escrevia. Se antes era para falar das crianas, depois da morte do marido e da carta
comovida que Osvaldo lhe mandou, ela passou a abrir-se mais, contando-lhe seus
problemas.


98
Mesmo distantes, a amizade entre os dois estreitou-se. Era com prazer que Osvaldo recebia
aquelas cartas e as respondia com carinho. Dessa forma acompanhou os filhos  distncia,
sabendo que Clara abrira uma loja e cuidava da educao dos meninos com dedicao.
Ela sempre foi boa me, amorosa, dedicada. Como esposa, cuidou dele com carinho e,
quando ele se recordava disso, ainda sentia certa revolta, perguntando-se se tudo tinha sido
fingimento.
Nesses momentos, metia-se no mato, perto do rio, e entregava-se  meditao, procurando
libertar-se de toda emoo desagradvel, orando, em busca de conforto e esquecimento.
Depois, refeito e sereno, voltava s suas atividades com Antnio.
Foi com ele que aprendeu a controlar as emoes, restaurando seu equilbrio interior.
-- Meu filho, quando a tempestade vem, nos assustamos com sua violncia. Raios cortam o
ar, arrancando os galhos das rvores. As plantas feridas, sem folhas, resistem como podem.
Quando passa, algumas esto vergadas pelo vento forte; outras, tendo seus galhos
arrancados, exibem suas feridas. Mas sua passagem deixa tudo limpo, o ar fica mais leve e
algum tempo depois as feridas cicatrizam, as plantas se cobrem de verde novamente. Ento
entendemos que tudo aconteceu para o melhor.
-- A tempestade que se abateu sobre mim passou, mas as feridas ainda no cicatrizaram.
-- Voc est vendo s um lado. Dessa forma no tem condies de enxergar.
-- Para mim s existe um. Tenho conscincia de que fui um bom marido, fiel, trabalhador,
sincero, um bom pai. E difcil justificar a traio.
-- No precisa justific-la. Apenas enxergar os outros lados.
-- S consigo ver o meu. Quando tento colocar-me no lugar de Clara na tentativa de saber
por que ela me traiu,  ainda pior. Ela no tinha nenhum motivo.
-- Ningum age sem motivo.
-- Ela nunca demonstrou insatisfao. Nunca deixou transparecer que estava gostando de
outro.
-- Voc no esperava que ela sucumbisse  tentao.
-- Para mim ela era uma santa, cheia de virtudes.
-- Ela  apenas um ser humano. Seus erros revelam suas fraquezas mas no anulam suas
qualidades, elas ainda permanecem.
99
Depois, o erro quando aproveitado fortalece e imuniza para o futuro. Nunca ouviu dizer que
gato escaldado tem medo de gua fria?
-- Para mim foi como se um raio me destrusse.
-- Foi um desafio difcil.
-- Destruiu minha vida.
-- Voc quase se destruiu com a situao. Naquele tempo voc colocava sua felicidade nas
mos de sua esposa. Essa  uma iluso que infelicita e enfraquece.
-- Mas o casamento  uma troca. Eu precisava faz-la feliz e ela deveria fazer o mesmo. 
o mnimo que esperamos no matrimnio. No juramos isso no altar?
-- Prometem o que no sabem se vo cumprir e passam a vida se cobrando, insatisfeitos e
infelizes. Acontece muito, tanto na cidade com pessoas instrudas como aqui, com gente
simples.
-- Clara era uma moa direita. Nunca pensei que acabasse me traindo.
-- Ela tambm no pensou. Mas as tentaes surgem e nessa hora s os fortes resistem.
-- Eu tambm tive tentaes. Algumas mulheres me provocaram, e olhe que a sociedade 
muito mais tolerante com o homem que trai. Mas eu no cedi. Fui um marido fiel. Isso  o
que mais me revolta. Se eu pude resistir, por que ela no?
-- Por que as pessoas no so iguais. Voc foi mais forte. Mas en quanto voc pode se
controlar, porque usa sua fora interior, nada pode fazer para impedir que ela tenha
sucumbido. Acredite: na vida voc s pode contar consigo mesmo. Seu poder s funciona
em voc.  lei universal. Nem Deus mover uma palha se voc no fizer sua parte, se no
estiver pronto.
-- Nesse caso no podemos confiar em ningum. Como viverei em paz dessa forma?
--  preciso usar o bom senso. Ser astuto como as serpentes mas manso como as pombas.
O povo fala isso, mas no faz.
-- No vejo como cumprir esse ditado.
-- Pois para conquistar a paz interior  preciso praticar isso.
--  difcil.
-- Se continuar pensando como a maioria, no consegue. Primeiro  preciso aprender como
a vida . Saber como ela age.
-- Eu no quero mais me relacionar com ningum. Nunca mais vou gostar de nenhuma
mulher.
100
-- Isso  contra sua natureza.
-- Eu no poderia viver com algum que a todo o momento pode me trair.
-- As pessoas no so iguais. O bom senso nos ensina que cada um  como . E isso que
precisamos aprender quando lidamos com os outros. O gostar de uma pessoa no nos
impede de perceber seus pontos fracos. Ao bom observador no ser difcil enxergar
atravs das aparncias. O perigo  que, quando algum se apaixona, deixa de enxergar os
lados negativos que o outro tem. Endeusa, como voc fez. Quando a pessoa erra, faz uma
tragdia. Mas com certeza sua mulher deu muitas advertncias indicativas de suas
fraquezas e voc no quis ver.
Osvaldo ficou pensativo. Lembrou que nos ltimos tempos Clara tinha se tornado mais
exigente com ele, reclamando mais ateno, comprando roupas mais modernas, arrumando-
se melhor e insistindo para que ele fizesse o mesmo. Seria um sinal de que ela estava em
crise?
-- Sinto que voc percebeu e sabe o que eu quis dizer.
-- , pode ser.
-- Esses sinais so um pedido de ajuda inconsciente. No momento de tentao, quando a
pessoa deseja resistir, eles aparecem. Quando o outro percebe e age positivamente,
fortalece a resistncia.
-- Quer dizer que se eu houvesse prestado ateno, entendido as atitudes dela, cooperado,
Clara no teria me trado?
--  difcil dizer, mas  o que poderia ter acontecido.
Osvaldo remexeu-se na cadeira, inquieto.
-- Voc conseguiu fazer com que eu comece a me sentir culpado por ela ter fraquejado.
-- No  isso o que eu quero Voc no pode se culpar pela falta de habilidade para lidar
com uma situao. Naquele tempo agiu como sabia. Mas agora amadureceu. Quero que
aprenda a usar sua fora para manter sua paz, acontea o que acontecer. A serenidade 
conquista de quem conhece a verdade das coisas e no se deixa impressionar pelo que os
outros fazem.
-- Gostaria de ter essa elevao.
-- A serenidade  fruto de um trabalho interior constante.  preciso confiar na vida,
conhecer a espiritualidade. A observao sem preconceitos, o esforo para manter um
dilogo positivo com voc mesmo, a ligao com a fonte do amor divino, tudo isso  uma
conquista que s voc pode fazer. Mas, quando conseguir, ter encontrado a paz e a
felicidade verdadeiras.
101
Osvaldo fitou Antnio comovido. Era um homem simples, sem cultura acadmica, mas um
sbio. Abraou-o com carinho, dizendo:
-- Obrigado, mestre. Farei o possvel para alcanar isso. A partir daquele dia, Osvaldo foi
perdendo a amargura e aos poucos sua mgoa foi desaparecendo. J conseguia pensar em
Clara sem revolta. Muitas vezes rememorava cenas de sua convivncia e, quanto mais o
fazia, mais ficava claro que ela realmente lhe dera sinais de que estava em crise. No que a
justificasse, mas questionava a fragilidade dos relacionamentos. Ningum lhes ensinara a
lidar com os problemas humanos nem com suas emoes. Nenhuma escola trata desse
tema, entretanto  com ele que cada um depara no dia-a-dia, seja no trato com a famlia ou
com a sociedade.
Ele comeava a vislumbrar que a vida tinha outros lados para quem se dispe a observ-la,
que podem ajudar a viver melhor.
Ele colocou o cesto sobre uma mesa, sentando-se para descansar um pouco antes de
preparar as ervas para fazer os remdios. Apesar do tempo decorrido e de sentir-se
conformado com a situao, naquela tarde a saudade dos filhos o entristecia.
Antnio entrou convidando-o para o caf. Sentados ao redor da mesa tosca, enquanto
saboreavam o gostoso bolo de fub de Zefa, Antnio perguntou:
-- No est gostando do bolo?
Arrancado de seus pensamentos ntimos, Osvaldo respondeu:
-- Est bom, como sempre.
--Pois no parece. Voc estava comendo com uma cara...
Zefa interveio:
-- Ele cresceu bem, ser que no ficou bom?
-- No  isso, Zefa. O bolo est delicioso. Eu  que no estou muito bem.
-- A saudade di -- tornou Antnio --, mas s existe um jeito
-- Vendo que Osvaldo olhava atento para ele, concluiu: --  voc voltar para sua famlia.
Osvaldo colocou a caneca de caf sobre a mesa e disse:
-- No pretendo voltar nunca mais. Aqui encontrei sossego, Se no puder ficar com vocs,
procurarei outro lugar, mas voltar
-- Voc pode ficar aqui pelo resto da vida. Tem me ajudado tanto e sou grato. Mas, se no
quer voltar, precisa aceitar a saudade e se entristecer.
--  difcil. Mas  isso que eu quero. Tenho acompanhado a vida dos meus filhos e tudo
est bem. No estou fazendo falta. Clara est cuidando de tudo.
102
-- Um dia ter de voltar.
-- No quero. A vida na cidade no  mais para mim. L tudo  falso, as pessoas vo atrs
das aparncias, s pensam em dinheiro. Aqui o povo  simples, amoroso, acolhedor. Tenho
muitos amigos. Vocs me ensinaram a ver a vida de maneira diferente. Quero ficar. Ajudar
os outros  um bno, e no vou perder essa chance.
Antnio fitou-o srio por alguns segundos, depois disse:
-- A vida trouxe voc para c e nos deu a alegria de estarmos juntos. Mas sinto que um dia
ela o levar de volta. Ento, ter de enfrentar todos os desafios dos quais voc est tentando
fugir.
-- Nada me far voltar.
Antnio sorriu, pegou a caneca sorveu um gole de caf e no respondeu. Mas em seus olhos
havia um brilho malicioso que Osvaldo no viu.
Os anos foram passando e Osvaldo continuou trabalhando e morando na casa de Antnio.
Era muito conhecido pelas pessoas que o procuravam ora em busca de ajuda espiritual, ora
trazendo-lhe alguma guloseima caseira em agradecimento pela ajuda obtida.
Osvaldo continuava correspondendo-se com a tia regularmente.
Fazia dez anos que ele deixara a famlia e, embora a saudade continuasse, no pensava em
voltar.
Uma tarde, quando passou no correio, havia um envelope diferente. Abriu-o e leu:
"Sr. Osvaldo de Oliveira, Saudaes.Cumpro o doloroso dever de comunicar que Dona
Ester dos Santos Freire faleceu no dia dezoito de outubro passado, acometida de um mal
sbito. Como o senhor  seu nico parente, pedimos que comparea ao nosso escritrio o
mais rpido possvel para tratarmos das providncias legais.Assinado: Dr. Felisberto
Antunes advogado."
Osvaldo sentiu um aperto no corao. Tia Ester nunca lhe disse que estava doente.
Chocado, conversou com Antnio:
-- Eu no gostaria de ir at l.
-- Ela no tem outros parentes?
103
-- No. Era viva e no teve filhos. Vivia sozinha.
-- Nesse caso,  melhor ir.
-- Isso aconteceu h dez dias. Ela j foi enterrada.
-- Mas  bom ir at l, cuidar das coisas dela.
--Tem razo. Eu vou, cuidarei de tudo e voltarei dentro de uma semana. Tia Ester sempre
foi muito boa para mim. Ela me criou. E os meus doentes?
-- Pode deixar que eu cuido deles. Fique o tempo que precisar.
-- Vou pegar um cavalo e ir  vila. Tenho de ver passagem, comprar algumas roupas.
-- Precisa de dinheiro?
-- No. Ainda tenho algum. Deve dar para tudo. Aqui no gasto nada.
Enquanto ele saa em busca do cavalo, Zefa apareceu na porta e perguntou:
-- Aonde Osvaldo vai com tanta pressa?
-- Voltar para a cidade.
-- Ele volta?
--Diz que sim.
Ela abanou a cabea, dizendo:
--No sei, no. Alguma coisa me diz que ele vai ficar por l.
-- Pode ser. O futuro est nas mos de Deus.
Osvaldo foi  vila e comprou a passagem de segunda classe. Tinha pouco dinheiro. Depois
foi comprar roupas. Precisava pelo menos de uma cala, camisa, meias e sapatos. Terno,
nem pensar. Alm de o dinheiro no dar, a qualidade era to ruim que ele preferiu nem
comprar.
Sua tia era de classe e ele no podia apresentar-se quele advogado com as roupas surradas
que usava, O dinheiro era pouco e no dava para comprar tudo. Precisou pechinchar e
acabou conseguindo. Gastou tudo que tinha, no sobrou nada para a viagem.
Antnio arranjou-lhe algumas economias que ele finalmente aceitou, prometendo pagar
tudo quando voltasse, e Zefa preparou algumas guloseimas para ele comer na viagem.
Seriam cinco horas dentro do trem.
Osvaldo no quis viajar sem se despedir da famlia de Joo, que o havia salvado e dos quais
se tornara amigo. Antnio acompanhou-o at l. Dalva havia se casado com um lavrador e
vivia em sua prpria casa. Diocleciano e Aninha moravam com os pais.
Osvaldo despediu-se dos amigos, afirmando que voltaria em breve. Diocleciano ofereceu-se
para lev-lo  estao. Foi com emoo que Osvaldo se despediu dos amigos, prometendo
visit-los na volta para contar-lhe as novidades.
104
Osvaldo teve de levar no s frango com farofa de Zefa mas tambm o po que Aninha
fizera especialmente para ele. Com lgrimas nos olhos ele disse adeus aos amigos e
embarcou.
Sentou-se perto da janela e, quando o trem partiu, ficou acenando at desaparecer em uma
curva. Depois sentou-se pensativo.
Voltar! Ele estava voltando. Dez anos era muito tempo, mas ainda assim o barulho do trem,
o balanar cadenciado do vago faziam- no lembrar-se do dia em que, desorientado, louco,
desesperado, embarcou sem rumo, querendo desaparecer, acabar com aquele sofrimento.
Agora, mais sereno, tendo aprendido a ver outros lados da vida, era outro homem, bem
diferente do que tinha sido. Sabia que era melhor enfrentar uma situao desagradvel do
que fugir. Estava disposto a fazer isso. Olhando a paisagem atravs da janela, ele se
perguntava o que aconteceria quando chegasse.
Estava decidido a no procurar a famlia. Seus filhos estavam crescidos, no desejava
perturb-los depois de tanto tempo de ausncia. Quanto  sua me, seria melhor no
procur-la. Para qu? Seu irmo Antnio perdera o emprego por causa do que houve com
Clara e teve dificuldade de arranjar outro. Vivia revoltado e sua me o apoiava. V-los seria
reviver o rancor sem que pudesse fazer nada para ajud-los.
O trem rodava sobre os trilhos e Osvaldo continuava pensando, pensando.
Mais uma vez a vida o chamava para novos acontecimentos. Desta vez, o que desejava
ensinar-lhe? Havia aprendido a confiar na sabedoria divina, que dispe tudo para melhor.
Sabia que, embora o poder de escolha seja de cada um, as oportunidades esto submetidas 
fora das coisas e contra elas  melhor no lutar.
Antnio ensinou a observar os recados que a vida lhe mandava atravs dos fatos do dia-a-
dia, procurando fazer o melhor e aceitando os que no pudesse mudar. Essa forma de ver a
vida dera-lhe serenidade e desenvolvera sua lucidez.
Reconhecia que havia aprendido muito e que esse conhecimento aliviara seu corao
inquieto, fazendo-lhe grande bem..
Ao dedicar-se com Antnio ao esclarecimento e ajuda das pessoas que os procuravam,
notando que elas, da mesma forma que ele, ficavam aliviadas e mais serenas, mais
gratificado.
Agora que ele estava atento procurando compreender como a vida funciona, percebeu o
quanto as pessoas se infelicitavam carregando durante anos algumas crenas aprendidas,
cobrando-se, mergulhando na iluso e sofrendo por descobrir quanto estavam distancia das
da verdade.
105
Ele pretendia resolver os negcios da tia e voltar logo para a vida calma no stio de
Antnio. Ao chegar em So Paulo, o rudo da cidade incomodou-o e mais do que nunca
firmou o propsito de ficar pouco tempo.
Tomou um txi e foi para a casa da tia, onde o advogado o esperava. A bela casa da avenida
Anglica estava igual aos anos de sua infncia. Ao entrar, sentiu o mesmo cheiro de flores
misturado a canela que Ester usava para perfumar todos os cmodos, e pareceu-lhe que ela
a qualquer momento iria aparecer para abra-lo.
O Dr. Felisberto aguardava-o na sala. Vendo-o, levantou-se procurando dissimular a
surpresa com as mudanas que Osvaldo sofrera. Por onde ele andara todos aqueles anos?
Lembrava que ele era um jovem elegante, bem vestido, muito diferente do homem que
estava cumprimentando, que mais parecia um campons.
Em poucas palavras o advogado contou a doena de Ester, que a levara em menos de uma
semana. E finalizou:
-- Ns ramos muito amigos, e eu a visitava sempre. Uma tarde ela me chamou e disse que
queria fazer o testamento. Pensei que fosse um capricho, mas agora sei que ela sabia que
lhe restava pouco tempo de vida.
Em suas cartas ela nunca me disse que estava doente.
Eu tambm no percebi. Parecia bem. Mas insistiu na urgncia e fiz-lhe a vontade. Sou seu
testamenteiro e, como cuidei de seus negcios desde o tempo do Dr. Freire, tenho todos os
documentos em minhas mos para a prestao de contas. Mas voc deve estar cansado da
viagem. Vim para dar-lhe as boas-vindas e marcar um encontro para isso e para a leitura do
testamento.
-- No estou cansado. Pode marcar com as outras pessoas hoje mesmo.
-- No h outras pessoas. S voc. Como sabe, ela no teve filhos. Deixou tudo para voc.
Osvaldo levantou-se admirado:
-- Para mim? Ela tinha outros sobrinhos.
-- Segundo as prprias palavras dela, eles nunca a visitaram tiveram para com ela alguma
manifestao de amizade. Ela gostava voc como um filho. Adorava suas cartas, que
conservava caprichosamente guardadas em uma caixa, relendo-as de vez em quando.
Vrias vezes a surpreendi nesse mister. Ela sorria e falava-me da sua sabedoria e do seu
progresso.
106
Os olhos de Osvaldo brilharam emocionados. Pena no haver descoberto antes o quanto
eles se afinizavam.
-- No sei o que dizer. No esperava isso.
-- Voc herdou tudo que ela possua. Tornou-se um homem rico.
Osvaldo sentou-se de novo, passando a mo pelos cabelos. O advogado continuou:
-- Vamos fazer o seguinte: descanse hoje, e amanh voltaremos a conversar. Cuidei para
que a casa se mantivesse como ela sempre foi. Naturalmente, voc vai morar aqui. Eis as
chaves. No escritrio, na gaveta da escrivaninha, h uma carteira com dinheiro.  um
adiantamento para suas despesas. Voltarei amanh  uma hora para nossa reunio. Os
criados tambm vo participar, porque ela os gratificou no testamento.
Osvaldo concordou e o advogado retirou-se. Jos apareceu na sala perguntando se ele
desejava alguma coisa. Tratava-se de um antigo empregado, ainda do tempo que seu tio era
vivo, que ficou na casa cuidando de tudo com dedicao mesmo depois da morte do patro.
Osvaldo recordava-se dele.
-- Como vai, Jos?
-- Triste com a morte de Dona Ester.
-- Todos estamos.
Ele se remexeu um pouco inquieto, depois perguntou:
-- O senhor no quer um caf, um lanche, uma gua?
-- Vou tomar um banho e depois tomarei um caf.
-- Os outros empregados so os mesmos de antes?
-- No. S minha mulher e eu continuamos. As outras o senhor no conhece. J que tocou
no assunto, senhor, Rosa est inconformada. Alm de sentir falta da amiga de tantos anos, a
quem adorava, est com medo do nosso futuro. Estamos velhos demais para encontrar
trabalho. Se nos despedir, no teremos para onde ir.
Osvaldo olhou srio para ele. Essa era uma realidade que ele teria de enfrentar.
-- No se preocupe, Jos. Farei o que puder por vocs.
-- Obrigado, senhor. Venha comigo. J arrumei o quarto, e sua bagagem est l.
Observando o luxo da casa, Osvaldo lembrou-se de que na cidade as pessoas vestiam-se de
outra maneira. Teria de comprar algumas roupas para representar a tia com dignidade.
107
-- Dona Neusa telefonou perguntando se o senhor j havia chegado.
Osvaldo estremeceu:
-- Ela sabe que eu viria?
-- Sabe. Quando Dona Ester morreu, ela veio e conversou com o Dr. Felisberto. Ficou
sabendo que o senhor viria para a leitura do testamento.
Osvaldo mudou de assunto. Preferia no se encontrar com a me e o irmo.
-- Quero sair e fazer algumas compras.
-- Vou mandar tirar o carro.
Osvaldo lembrou que a tia tinha um motorista sempre  disposio.
-- Est bem.
Depois que Jos saiu, foi ao escritrio, abriu a gaveta da escrivaninha e encontrou a carteira
com dinheiro. Abriu-a e verificou havia mais do que necessitava. Pensava em comprar
pouca coisa, nas o suficiente para alguns dias. Assim que resolvesse tudo, voltaria para o
campo.
Ao sair, Jos acompanhou-o at a garagem, perguntando:
-- A que horas deseja o jantar?
-- Na que vocs costumavam. No quero quebrar a rotina da casa
-- Dona Ester jantava s sete.
-- Para mim est bem.
Vendo-o acomodar-se no carro e sair, Jos foi  cozinha, Rosa o esperava.
-- E ento? -- indagou curiosa.
-- Pode servir s sete.
-- No foi isso que perguntei. Quero saber como ele est.
-- Mudado. Nem parece o mesmo. Mais velho, e parece que determinado.
-- Confirmou se vamos ficar aqui?
-- Disse que vai nos ajudar.
Rosa suspirou triste. Depois disse:
-- Espero que ele no pense em vender a casa e ir embora no, no guarda boas
recordaes daqui. Se Dona Ester no tivesse morrido, no teria voltado.
-- No vamos pensar no pior. Saiu para comprar roupas. Est precisando mesmo. Esse 
um sintoma de que est voltando para a cidade. Vamos fazer tudo para que ele se sinta bem
aqui e deseje ficar.
108
-- Isso mesmo. Eu sempre gostei de Osvaldo. Foi sempre muito educado e nos tratou com
respeito. E um bom moo e no merecia o que a esposa fez.
-- No vamos julgar. Ns no sabemos como aconteceu. Depois, no temos nada com isso.
No  delicado nos metermos nos assuntos dos patres.
-- Ser que ele vai ver os filhos? Dona Ester me disse que Clara nunca mais se casou.
Certamente arrependeu-se do que fez.
-- J disse que no temos nada com isso e  melhor voc no ficar por a comentando sobre
o assunto.
-- Nem precisa recomendar. Sei o meu lugar. Mas vou rezar para ele. E um bom moo e
merece ser feliz.
Jos abanou a cabea e no respondeu. Saiu para verificar a correspondncia. Precisava
cuidar de tudo para que Osvaldo se sentisse confortvel e bem atendido.
109
Captulo 10
Quando o advogado chegou, pouco antes da uma no dia seguinte, encontrou Osvaldo bem
vestido e barbeado.
Depois dos cumprimentos, ele informou:
-- No sei se j entrou em contato com sua me e irmo. Eles viro para a abertura do
testamento.
Osvaldo fez um gesto de contrariedade:
-- O senhor me disse que seramos apenas eu e os criados.
-- Pelo testamento, sim. Mas Dona Neusa insistiu, dizendo que queria estar presente
porque se considerava parente de Dona Ester e esperava que ela a houvesse contemplado no
testamento. Embora sabendo que ela no herdou nada, no pude negar-lhe esse direito.
Parece que isso o contraria.
-- Na verdade, no pensei em reencontrar minha famlia. Sempre vivi afastado deles. Para
mim  suficiente saber que esto bem.
Jos aproximou-se, dizendo que Dona Neusa e Antnio haviam chegado. Osvaldo suspirou
resignado e resolveu:
-- Acomode-os na sala. Iremos em seguida.
-- Pode ir, Sr. Osvaldo. Ficarei no escritrio esperando para reunio.
Quando Osvaldo entrou na sala, Neusa levantou-se da poltrona chorando e dizendo:
-- Meu filho! Finalmente! Por onde andou todos estes anos? Por que no deu notcias? No
pensou em nosso sofrimento?
-- Preferi me afastar. Foi melhor assim.
-- Como pde ser to ingrato? Sou sua me! Voc fala com eu no existisse nem me
preocupasse com voc. Quase morri de desgosto com o que aconteceu. Sem falar que
aquela infeliz afastou as crianas de ns. No permite que nos visitem.
110
Osvaldo fez um gesto enrgico:
-- O passado morreu e no quero falar nele. S voltei porque o advogado pediu. Espero
que se contenha.
-- Est vendo, Antnio? Bem que voc disse que no deveramos vir. Voc foi o mais
prejudicado. Depois de tudo que sofreu, ele nem o cumprimentou.
-- Teria cumprimentado se voc me tivesse dado tempo. Como vai, Antnio?
-- Mal. Depois do que aconteceu, nunca mais consegui um bom emprego. Vocs
destruram minha vida.
Osvaldo olhou com seriedade para eles e disse calmo:
-- Voc est nos dando um poder que no temos. Seria bom prestar mais ateno e
procurar descobrir por que voc no obtm sucesso profissional. Tenho certeza de que
encontrar outras razes, mais verdadeiras.
Apanhado de surpresa, Antnio no respondeu de pronto. Havia um brilho diferente nos
olhos de Osvaldo que o fez ficar calado.
Ele continuou:
-- Quanto a voc, me, j devia estar habituada com minha ausncia. Desde criana vivi
longe de casa. No seria agora, depois de velho, que voc gostaria de ficar a meu lado.
Depois, pensamos de modo diferente. Por isso  melhor continuarmos vivendo um longe do
outro. Agora vamos para o escritrio, O Dr. Felisberto est esperando para a leitura do
testamento.
Os dois se entreolharam, no disseram nada e o acompanharam.
No escritrio j estavam, alm do advogado, os empregados da casa.
Depois que todos se acomodaram, o advogado procedeu  abertura do testamento. Ester
havia deixado boa soma em dinheiro para o motorista e para as duas criadas. Quanto ao
casal, Jos e Rosa, alm da soma em dinheiro, ela deixou uma casa na Vila Mariana. Todos
os outros bens legou para Osvaldo.
Quando Felisberto encerrou a leitura, Neusa no escondia a decepo.
-- Que ingratido! -- comentou amargurada. -- Pensei que ela me fosse reconhecida por
tudo que fiz por ela.
O advogado sentiu vontade de perguntar o que ela havia feito para Ester, mas conteve-se.
Ele no podia expressar opinio. Sabia que Neusa nunca se importou com a cunhada.
-- Estou  sua disposio para as providncias legais. Para quando deseja marcar nossa
reunio? -- indagou Felisberto.
111
Podemos fazer agora?
-- Sim. Tenho em mos todos os documentos.
-- Nesse caso, vamos fazer uma pausa para um caf e depois continuaremos.
Foram para sala e Neusa aproximou-se de Osvaldo, dizendo conciliadora:
-- Voc agora  um homem rico. Tenho certeza de que no se esquecer de sua famlia. O
mal que fizeram a Antnio precisa ser reparado.
Osvaldo respondeu com naturalidade:
-- Nos ltimos dez anos vivi sem dinheiro e posso garantir que foi uma experincia
enriquecedora.
Antnio interveio:
-- No sei como. Tenho sofrido privaes, vivido humilhado.
Osvaldo fitou-o srio:
-- S se sente humilhado quem  orgulhoso.  o orgulho  uma iluso que fecha muitas
portas.
-- No entendo aonde quer chegar. Sou uma pessoa humilde. Se no tivesse humildade,
no teria me rebaixado vindo aqui hoje mendigar ajuda.
-- Se voc fosse humilde, no se sentiria rebaixado.
Neusa interveio:
-- No precisa ofender seu irmo. Pensei que voc estivesse arrependido pelo mal que nos
fez.
Osvaldo levantou-se dizendo com voz calma:
-- Eu nunca lhes fiz mal. Estou em paz. Minha conscincia no me acusa de nada. Quanto
ao destino que darei ao dinheiro que tia Ester generosamente me deixou, ainda no sei o
que farei. Agora, se nos der licena, tenho de conversar com o Dr. Felisberto.
Neusa levantou-se:
-- Est nos mandando embora?
-- Claro que no. Podem ficar, se quiserem.
-- Agora voc vai ficar morando aqui, com certeza -- considerou Neusa. -- Pretende ver
seus filhos?
-- Esse  um assunto meu. No pretendo ficar aqui.
-- Vai sumir de novo?
-- No, me.
-- Pelo menos v nos ver em casa e nos avise para onde vai.
-- Antes de ir embora converso com vocs.
Osvaldo foi para o escritrio com o advogado. Neusa, a pretexto de falar com Rosa, foi 
cozinha, observando tudo com olhos cobiosos. Tanta riqueza!
112
A conversa com Rosa no esclareceu nada. Onde Osvaldo teria ficado todos aqueles anos?
S resolveu ir embora depois de ter percorrido a casa toda e se informado nos mnimos
detalhes do que havia, desde roupas aos objetos de arte. Quanto a jias, no conseguiu
descobrir nada. Ela sabia que Ester possua muitas jias de famlia. Onde estariam?
Quando saram, ela comentou com Antnio:
-- Osvaldo est mudado. Parece outra pessoa: calado, srio.
-- No gostou nada de nos ver. Ele no pretendia nos procurar. Ia embora sem nos ver.
-- No acredito nessa histria de ir embora. Ele sempre gostou do luxo. No ter coragem
de abandonar uma casa to rica. Disse isso para despistar.
-- Para mim h um rabo de saia metido nisso. Ningum me tira da cabea que ele se
arranjou com outra e no quer que ningum saiba.
-- Ser? Depois do tombo que levou, ainda teria partido para outra?
-- Por que no? Osvaldo no  homem para ficar sozinho. Mesmo quando era solteiro,
vivia cheio de namoradas. Sempre deu sorte com as mulheres.
-- J voc, no.
-- Eu  que no quero. Mulher s serve para atrapalhar. Depois, no estou disposto a
trabalhar para sustentar ningum.
Neusa suspirou resignada:
-- Para viver com voc, s uma Amlia mesmo.
-- Eu estava muito bem. Se no fosse pelo que aconteceu...
-- No vamos falar nisso de novo. Agora precisamos ficar de olho aberto. Aquela
desavergonhada continua sozinha. J pensou se ele resolve voltar com ela?
-- Ele no seria to trouxa!
-- Voc  que pensa. Osvaldo sempre foi louco por ela. Ele vai ver os filhos, se encontram,
e a s Deus sabe o que pode acontecer.
Se ele cair nas mos dela de novo, no vai nos dar nada. Ela no vai deixar.
-- Isso no pode acontecer. Voc precisa conversar com ele. Clara est sozinha, mas isso
no quer dizer que tem levado uma vida honesta.
-- Por incrvel que parea, h quem diga isso.
113
-- Temos de fazer com que ele acredite no contrrio. Assim no ir  procura dela.
-- . Posso tentar. Mas voc sabe como : ele nunca me ouve. Precisamos semear. O resto
fica por conta da imaginao dele. Afinal, deve se lembrar do passado. Sabe o que vou
fazer? Falar com Vlter.
-- Para qu? Ele prometeu nos ajudar mas no cumpriu.
-- Ele pode cooperar. Pelo que sei, no esqueceu Clara. Depois que ela no quis mais, ele
ficou morrendo de amores.
-- Depois de tanto tempo!
-- De vez em quando ele ainda fica cercando-a. Se Osvaldo os vir juntos, vai pensar que
continuam se amando.
-- Sabe que  uma boa idia? Pode dar certo.
-- Hoje mesmo vou procur-lo.
Clara chegou em casa cansada. Tivera um dia exaustivo atendendo a uma cliente muito
exigente preocupada com o enxoval da filha. Apesar disso, estava satisfeita. Os negcios
haviam prosperado
Depois que deu toda a mercadoria para o centro esprita, ela e Rita decidiram abrir uma
loja. As clientes de Gino, quando souberam do ocorrido, resolveram colaborar. Logo novas
mercadorias comearam a chegar, no s roupas mas tambm muitos objetos antigos que
elas restauravam para vender.
Abriram uma firma, alugaram por um preo mdico uma casa antiga em um local
movimentado e se mudaram para l. Na parte trrea montaram a loja, e se instalaram no
andar de cima. Assim, Rita poderia cuidar da loja e das crianas. O aluguel da casa de Clara
ajudava nas despesas.
Com criatividade, disposio e pouco dinheiro, restauraram o prdio e abriram a loja com
mercadorias usadas. Foi um sucesso. As clientes do ateli as indicavam para as amigas e
elas mesmas compravam
O movimento aumentou tanto que Clara pensou em deixar o ateli. Gino, porm, no
concordou. Reconheceu quanto ela contribura para o crescimento de seu negcio
oferecendo-lhe uma participao nos lucros igual  que Domnico recebia.
Satisfeita, ela colocou uma empregada para os servios domsticos em casa e uma
balconista na loja.
Quando a viu entrar, Rita comentou:
-- Voc no devia ficar no ateli at esta hora. Est com cara cansada.
114


-- Nada que um bom banho no resolva. H momentos que no d para deixar a cliente.
Voc sabe como .
-- V tomar seu banho enquanto Diva providencia o jantar.
Quando Clara, mais refeita, sentou-se  mesa, Rita sentou-se tambm
-- Tenho uma novidade para contar.
Enquanto se servia, Clara respondeu:
-- Conte. O que ?
Rita hesitou um pouco, depois disse:
-- Voc sabe que Dona Neusa telefona de vez em quando para perguntar das crianas, no
sabe?
-- O que ela quer  bisbilhotar sobre nossa vida. Voc nunca me contou, mas eu sempre
desconfiei.
-- Pois  Afinal, ela  av dos meninos e eu no vi nada de mau em dar-lhe notcias deles.
-- No a estou recriminando. Ela nunca aceitou meu casamento com Osvaldo. Alis, ele
tambm no se afinizava com ela. Nunca fomos muito prximos antes e no vejo motivo
para nos aproximar mos agora, depois que nos separamos.
-- Ela ligou na semana passada. Perguntou se Osvaldo havia nos procurado.
-- Ela pensa que eu sei onde ele est.
-- Desta vez foi diferente. Ela disse que Dona Ester morreu e que ele estava sendo
procurado pelo advogado.
Clara olhou com seriedade para Rita. Depois comentou:
-- Dona Ester foi quem criou Osvaldo. amos  sua casa algumas vezes. Mas, apesar do
respeito que ele tinha por ela, nunca fomos muito prximos. Ela era muito rica e no se
dava com a famlia dele. O que ser que esse advogado deseja?
-- Ela no disse. Apenas comentou que, se ns sabemos onde ele est e no contamos,
estamos prejudicando a justia.
-- Ela est jogando verde.
-- Disse que viu o nome de Marcos na lista dos estudantes aprovados. Ela sabe que ele
entrou na faculdade.
Clara suspirou fundo, depois deu de ombros e comentou:
-- Ainda bem que os meninos se conformaram com a ausncia da famlia do pai. Nunca
demonstraram vontade de procur-los.
-- Mas o pai eles ainda no esqueceram. De vez em quando voltam ao assunto.
-- Comigo eles no comentam. O que dizem?
115
-- Falam da falta que sentem dele. Eram muito ligados a Osvaldo. Preocupam-se com a
falta de notcias.
--  natural. s vezes penso que me culpam pelo que aconteceu. Nunca tocaram no
assunto, mas  claro que sabem por que o pai desapareceu. Quando percebo isso, morro de
vergonha e arrependimento.  doloroso reconhecer que eles tm motivos para me culpar e
envergonhar-se de mim.
-- No pense assim. Eles a amam muito. Sabem como voc tem trabalhado para cri-los.
Depois, voc tem levado uma vida irrepreensvel. Se bem que eu penso que ainda  muito
moa para ficar sozinha. Deveria refazer sua vida.
-- Estou muito bem. Sou livre e vivemos em paz. E s o que desejo agora.
-- Ser que esse advogado vai encontrar Osvaldo?
-- No sei. Depois de tantos anos...
-- Devem ter anunciado no jornal.  o que fazem se o assunto for urgente.
Clara ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
-- Gostaria de saber.
-- Por que no telefona para a casa de Dona Ester e pergunta?
-- No.
-- Por qu? Afinal voc  esposa dele e precisa saber se ele est vivo. Os meninos
gostariam de obter notcias.
-- De fato, esta incerteza  preocupante. Em todo caso, se ele estivesse vivo, teria pelo
menos se interessado em saber dos filhos. Era to apegado a eles! No posso crer que os
tenha esquecido.
-- Vai ligar para l?
-- No saberia o que dizer.
-- Nesse caso eu ligo. Tenho certeza de que Dona Neusa no vai nos avisar se ele voltar.
Ela no gostaria que vocs voltassem a se ver.
-- Disso tenho certeza. Por outro lado, s em falar no assunto sinto-me angustiada. Parece
que o tempo no passou e que de repente Osvaldo vai entrar por aquela porta para me
cobrar. No sei o que faria se isso acontecesse.
-- Se ele no fez isso durante todos estes anos, no o far agora.
-- O tempo apaga muitas coisas.
-- Pois para mim no apagou. O trabalho me ocupa, os filhos me chamam 
responsabilidade, me motivando a reagir. Porm, quando me recordo do que fiz, a
conscincia da minha culpa me atormenta. Eu gostaria de esquecer, mas reconheo que no
 possvel.
116
-- Est sendo muito rigorosa. Voc errou, arrependeu-se, assumiu a responsabilidade pela
famlia com dignidade. No pode se punir pelo resto da vida por haver sucumbido a uma
paixo. Voc  um ser humano. Se cometeu um erro, no  errada por isso. Tenho certeza
de que aprendeu e no o faria novamente.
-- Disso pode estar certa. Se eu pudesse voltar atrs, apagar o passado e comear de novo,
jamais faria o que fiz.
-- Dona Ldia sempre diz que ns aprendemos mais com nossos erros do que com os
acertos.
-- Ela est certa. Muitas vezes tem me ajudado com seus sbios conselhos.  uma amiga
dedicada.
-- Ela fica feliz quando voc vai ao centro assistir suas palestras.
-- Os meninos a adoram. Marcos est sempre l. s vezes tenho receio de que esteja
abusando. Ldia  muito ocupada.
-- Que nada! Ele a tem auxiliado. Sabe o que ele estava fazendo sbado passado?
Ajudando a preparar as sacolas de alimentos para os pobres.
-- Marcos?
-- . Tambm levou Carlinhos e mais dois colegas da escola. Voc precisava ver a alegria
deles separando os alimentos. Eu fiquei observando. No final, Dona Ldia fez uma orao e
serviu um lanche. Sabe o que era? Bolachas dessas mais baratas, refresco e bolo de fub.
-- Eles no gostam dessas coisas.
-- Aqui em casa. L, comeram com vontade e alegria. Se no estivesse vendo, no
acreditaria.
--  surpreendente. Fico contente por eles estarem ajudando Ldia.  muito bom fazer
alguma coisa em favor dos necessitados.
Clara foi para o quarto. Rita procurou na lista o telefone da casa de Ester e ligou. Uma voz
de homem atendeu e ela perguntou:
-- Por favor, o Sr. Osvaldo est?
-- Quem est falando?
Rita hesitou um pouco, depois disse:
--  a empregada de Dona Neusa, a me dele.
-- Aqui  Jos. Ele j se recolheu, pediu para no ser incomodado.  urgente?
-- No. Pode deixar. Era s para saber como ele est.
-- Muito bem.
-- Obrigada.
Ela desligou sentindo o corao descompassado. Imediatamente subiu ao quarto de Clara.
117
-- Acabo de telefonar.
-- E ento? Voc parece que viu assombrao.
-- Ele est vivo, Clara, e voltou!
-- Clara sentiu as pernas bambearem e sentou-se na cama. Tem certeza?
-- Tenho. Perguntei por ele, e um tal de Jos disse que ele j havia se recolhido e pediu
para no ser incomodado.
-- Voc falou que era daqui?
-- Claro que no. Disse que era da casa de Dona Neusa.
-- Ento ele est vivo! Meu Deus! No sei o que dizer.
-- Ser que ele vai aparecer? Vai querer ver os filhos.
-- Nem fale uma coisa dessas! Sinto calafrios s de pensar nisso. Espero que no venha...
--  melhor se preparar. Ele pode aparecer a qualquer momento.
-- No sabe nosso endereo.
-- No ser difcil descobrir.
Clara passou a mo pelos cabelos tentando controlar o nervosismo.
-- Tem razo. Se ele voltou,  possvel que procure os filhos. Precisamos estar preparadas.
--  melhor contar aos meninos.
-- No. Isso no. Eles vo querer procur-lo. O melhor  esperar. Pode ser que ele v
embora de novo sem nos procurar.
-- No creio.
-- Talvez tenha esquecido o passado, refeito sua vida e no queira mais nada com sua
antiga famlia. Ele chegou e no nos procurou.
-- Pode no ter tido tempo.
-- Parece at que voc quer que ele venha.
-- Seria bom. Pelos menos seu desaparecimento seria esclarecido e todos ficariam em paz.
-- Ldia garantiu que ele estava vivo. Ela estava certa.  verdade. Eu me lembro disso.
-- Se ele aparecer, no sei o que fazer.
-- Amanh vou falar com Ldia e pedir ajuda espiritual. Pelo menos voc ficar mais
calma.
-- Faa isso.
Osvaldo olhou para o relgio: passava das oito da noite. Seu pensamento estava nos filhos.
Como estariam? Fazia uma semana que voltara e quanto mais pensava neles mais sentia
vontade de procurar uma aproximao.
118
Sua aparncia modificou-se. Vestia-se com apuro, cortou os cabelos, modernizou-se. Ao
tomar posse dos bens que Ester lhe deixara, descobriu admirado que se tornara rico.
Sentado em uma poltrona na sala de estar, Osvaldo analisava os ltimos acontecimentos e
se perguntava por que Deus o chamara de volta e colocara em suas mos aquela fortuna.
Pressionado pela dor, ele abandonara tudo e se acomodara no ambiente singelo do campo,
em meio aos amigos sinceros, fascinado pela descoberta da espiritualidade, disposto a
dedicar-se  ajuda das pessoas simples daquela regio pelo resto da vida.
De repente, quando menos esperava, tudo se modificou, arremessando-o de volta ao
confronto com um passado que julgava enterrado.
A princpio, pensara em acabar logo com sua tarefa ali e voltar para o stio de Antnio. Mas
que destino dar a casa, aos objetos de estimao de Ester, suas jias e lembranas? E o
dinheiro, o que fazer com ele?
Apesar da vida simples que seus amigos levavam no stio, nada lhes faltava. Viviam
alegres, dando graas a Deus por tudo que possuam. Osvaldo pensava que eles no
precisavam de nada. Ao contrrio. Eram ricos de valores espirituais que esto muito acima
do que o dinheiro pode comprar.
Talvez fosse melhor ele ficar por algum tempo na cidade. Acreditava que os recursos que
lhe chegaram s mos tinham uma finalidade. Precisava descobrir qual.
Lembrava-se de que, quando conheceu Antnio, ele lhe disse que precisava se recuperar
por causa dos filhos. Seria por causa deles que a vida o trouxe de volta? Estariam
precisando dele?
Precisava descobrir. Por outro lado, sabendo-os to prximos, o desejo de v-los se
acentuara. Reconhecia que faltara  sua responsabilidade de pai, abandonando-os. Mas no
se culpava. Fazia tempo que aprendera que a culpa s agrava o problema, impedindo a
soluo.
Tinha sido um fraco por ter se fechado em sua dor, deixando seus filhos. A vida estava
agora lhe devolvendo a chance de retomar essa responsabilidade.
Porm como fazer isso? Fazia muito tempo. Talvez nem se lembrassem dele. Tambm no
queria rever Clara. S em pensar que estavam na mesma cidade, que de uma hora para
outra poderiam cruzar-se na rua, estremecia angustiado.
Claro que no a amava mais. Depois do que ela fez, o nico sentimento com relao a ela
era a mgoa.Tinha conscincia de haver sido um marido amoroso, fiel, sincero.
119
Angustiado, passou a mo pelos cabelos como que tentando afastar os pensamentos
desagradveis.
Por que depois de tantos anos a ferida ainda estava aberta? Acre ditava haver esquecido,
mas agora, seja pela proximidade, seja por saber que o confronto com o passado seria
inevitvel, parecia-lhe que o tempo no havia passado.
Talvez fosse melhor mandar o advogado procur-los. Estava disposto a dividir com eles a
fortuna que herdara. Era o mnimo que podia fazer.
Mas, ao mesmo tempo, a saudade, a curiosidade de saber como eles eram, o que pensavam
da vida, a vontade de reassumir sua funo de pai eram muito fortes em seu corao.
Gostaria de v-los, dizer-lhes que durante aqueles anos todos nunca deixou de pensar neles,
que os amava muito. Pedir-lhes que o perdoassem pela omisso e compreendessem que ele
no tivera foras para agir de outra forma.
Mas at que ponto eles sabiam a verdade? O que Clara lhes teria dito para explicar sua
ausncia? Certamente ocultou sua traio. Era provvel que seus filhos o estivessem
odiando, acreditando que ele se fora em busca de aventuras.
Inquieto, Osvaldo comeou a andar pela sala de um lado para o outro angustiado. Depois
decidiu. No podia continuar cultivando esses pensamentos. Precisava encontrar a paz. S
na paz  que as solues dos problemas aparecem.
Foi para o quarto, sentou-se em uma poltrona, fechou os olhos e comeou a meditar,
buscando jogar fora todos os pensamentos negativos. Aos poucos foi se sentindo melhor.
Depois, evocou a presena dos espritos que sempre o ajudavam.
Sentiu-se como se ainda estivesse na modesta sala do stio de Antnio, desenvolvendo suas
atividades de ajuda. Uma brisa suave, leve, envolveu-o e ele orou pedindo orientao,
lucidez, equilbrio.
Viu formar-se diante de si uma claridade, e de dentro dela apareceu uma mulher linda,
cujos olhos brilhantes e muito lcidos o fixaram com amor. Emocionado, Osvaldo sentiu
que as lgrimas desciam pelas faces.
Ela se aproximou dizendo:
-- A hora  de calma e gratido. Tudo passa e as pessoas amadurecem. No permita que a
mgoa tolde a lucidez do seu esprito, dificultando sua caminhada. Do passado resta apenas
o progresso alcanado na experincia vivida. Todos mudaram. Hoje tudo est diferente.
120
No olhe para trs nem julgue ningum. Deixe falar o corao no amor incondicional e
certamente voc encontrar a paz e a felicidade que procura. Que Deus o abenoe.
A viso desapareceu e Osvaldo comovido orou agradecendo. Sentiu-se calmo e refeito. No
ia decidir nada naquele momento. Trabalharia seu corao para manter o equilbrio e a paz,
cultivando pensamentos otimistas e generosos. Tinha certeza de que encontraria uma boa
maneira para fazer o que deveria.
121
Captulo 11
Clara acordou e, apesar de ser ainda muito cedo, levantou- se. Tivera uma noite pssima,
povoada de pesadelos, onde Osvaldo aparecia nervoso cobrando o passado. Por mais que
ela tentasse escapar fechando portas e janelas, ele sempre conseguia entrar, fulminando- a
com os olhos ora cheios de dio, ora cheios de sofrimento.
Agoniada, ela tentava em vo escapar, porm uma voz a acusava, dizendo:
--Traidora! O que fez de sua vida? Por que jogou fora o amor de um homem bom, honesto,
que a amava tanto?
Ela chorava e repetia:
-- Estou arrependida, foi uma iluso! Eu no sabia o que estava fazendo! Deixe-me em
paz!
Acordava molhada de suor e tentava sair daquela angstia afirmando que era apenas um
pesadelo, como tantos outros que j tinha tido. Tentava relaxar e dormir novamente, porm
cenas do passado reapareciam em sua lembrana e ela se remexia na cama esforando- se
para jogar fora aqueles pensamentos.
Ficou nessa luta interior at que, quando o dia j estava quase amanhecendo, conseguiu
adormecer.
Acordou e olhou para o relgio. Seis horas. Muito cedo para trabalhar. Apesar disso, foi
tomar um banho e preparar-se. Qualquer coisa era prefervel quele tormento.
Angustiada, reconheceu que, apesar do tempo decorrido, o passado continuava vivo em seu
corao, como uma chaga dolorida. Por que no conseguia esquecer? E Osvaldo, como
estaria? Teria esquecido, refeito sua vida, perdoado? Certamente no. Nunca procurou os
filhos. Clara no teve coragem de contar-lhes a verdade. Disse apenas que eles haviam se
desentendido e que Osvaldo partira para sempre.
122
Contudo, desconfiava de que eles soubessem de tudo porque, de pois das indagaes dos
primeiros tempos, nunca mais perguntaram pelo pai. Mas ela sabia que eles sentiam sua
falta. Tentava recompens-los de alguma forma, interessando-se pelos seus problemas,
conversando e apoiando sempre.
Eles a amavam e respeitavam muito, tinha certeza disso. Mas agora, o que fazer se Osvaldo
aparecesse? E se ele contasse aos filhos a razo de sua prolongada ausncia?
A esse pensamento estremecia. Passara todos aqueles anos cultivando o arrependimento,
levando vida irrepreensvel, como querendo provar a si mesma que no era to leviana
como se julgara. A sensao de culpa castigava-a e para ameniz-la ela resolvera tomar-se
uma mulher fechada, dedicando-se exclusivamente ao trabalho e  famlia.
No podia ficar to perturbada com a proximidade de Osvaldo.Precisava reagir, ser natural.
Mas como, se a simples idia de sua proximidade a abalava tanto?
Quando ela desceu para o caf, Rita j estava na cozinha. Vendo-a, tornou:
-- Hmm... Voc est com uma cara! Pelo jeito no dormiu bem.
-- D para notar?
-- D. Ainda  muito cedo. Por que no ficou mais um pouco na cama?
-- Achei melhor levantar. No ia conseguir dormir mesmo.
Marcos entrou na cozinha dizendo alegre:
-- Bom dia! O que esto maquinando logo cedo?
Clara beijou o filho e respondeu:
-- Nada importante.
-- V sentar-se na copa que vou servir seu caf. No pode atrasar-se hoje. No disse que
tinha prova?
-- Disse. Mas ainda  cedo.  bom encontrar as duas juntas para o caf.
-- V indo, Clara, que vou colocar mais xcaras na mesa.
Clara acompanhou o filho, olhando-o embevecida. Marcos completara dezoito anos e
tornara-se um lindo rapaz. Fragilizada pelas recordaes do passado, ela notou a grande
semelhana que havia entre ele e Osvaldo. Os mesmos cabelos castanhos ondulados que lhe
caam pela testa larga embora ele tentasse segur-los no lugar, a pele morena, o corpo alto
elegante e o sorriso cativante mostrando dentes alvos e bem distribudos.
Marcos possua um encanto especial. Era sensvel, amoroso, honesto.
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Estava no primeiro ano da faculdade. Escolhera Letras porque sonhava ser escritor. A
princpio Clara se opusera. Mulher prtica, tendo se habituado a lutar pela subsistncia,
preferia que ele tivesse escolhido outra carreira. Marcos, porm, sabia o que queria e
insistiu. Assim, Clara acabou concordando.
Carlos era diferente do irmo. Mais claro, cabelos castanhos lisos, era alegre, cheio de
entusiasmo. Onde ele estivesse havia risadas, piadas, msica, movimento. Enquanto
Marcos era introvertido, Carlos era o oposto, no gostava de ficar s, vivia rodeado de
amigos. Aprendera a tocar violo e cantar com desenvoltura. Por causa disso era muito
solicitado para festas, ao que Clara costumava dizer:
-- Com esses filhos estou bem arranjada. Um  sonhador, o outro  bomio.
Porm dizia isso com olhos cheios de orgulho, feliz com a alegria que ambos traziam  sua
vida.
Depois que Marcos saiu, Clara comentou:
-- No  justo, Rita.
-- O qu?
-- No  justo que, depois de eu ter lutado tanto para educar os meninos, dar-lhes uma vida
digna, Osvaldo aparea para perturbar nossa paz.
-- Ele ainda no nos procurou.
-- Mas eu sinto que  s questo de tempo. Ele vai procurar os filhos. E, quando isso
acontecer, no sei o que lhes dizer.
-- No diga nada.  natural que um pai queira ver os filhos.
-- Depois de dez anos sem dar uma notcia?
--  difcil responder, porque no sabemos o que lhe aconteceu esse tempo todo.
-- O mais provvel  que tenha refeito sua vida e nos esquecido.
-- Posso perguntar uma coisa?
--O qu?
-- s vezes penso que voc nunca deixou de amar seu marido.
-- Por que diz isso?
-- Porque, quando ficou livre para levar adiante seu romance com Vlter, voc no quis.
Bem que ele insistiu.
-- Eu nunca amei Vlter. Voc sabe disso.
-- Sei. Mas voc teve outras oportunidades. Sei de vrios homens que estiveram
interessados e voc recusou.
-- Fiquei vacinada. Essa histria de amor s serve para nos trazer problemas.
124
-- Voc ainda gosta de Osvaldo. Reconhea.
-- De jeito nenhum. Fico apavorada s em saber que ele pode aparecer de uma hora para
outra. Se o amasse, ficaria feliz.
Rita sacudiu a cabea pensativa. Depois disse:
-- O que voc tem  medo do que ele pode lhe dizer. Mas, passado estivesse esquecido,
talvez pensasse de outra forma.
-- Voc est enganada. Claro que me arrependo do que fiz, mas  por causa dos meninos,
da dor que causei ao Osvaldo, que no merecia.  remorso, apenas isso.
Rita sorriu e no respondeu. Ela sabia que Clara fechara o corao com medo de sofrer e
bloqueara seus sentimentos. Mas acreditava que um dia ela no iria mais conseguir segurar
e a verdade viria  tona com toda a sua fora.
Clara saiu para o trabalho. Chegando ao ateli, foi verificar a agenda. Margarida estava
marcada para as dez. Dez minutos antes ela chegou. Tinha um casamento e queria
sugestes para o que usaria.
Clara recebeu-a com alegria. Era pessoa agradvel e de bom gosto. No comeo queria ser
atendida s por Domnico, mas com o tempo acabou gostando de ser atendida por Clara.
As duas mergulharam no mundo da moda, dos tecidos, dos desenhos que Gino criara
exclusivamente para ela. Estavam entretidas e Clara havia esquecido as preocupaes de
momentos antes. Quando ela parou, fixou-a sria, dizendo:
-- No adianta fugir, Clara. A vida est retomando tudo que ficou inacabado.  hora de
mudana. Fique calma e aceite o que no pode evitar.
Clara empalideceu. Margarida estava diferente do habitual, sua voz modificara-se, seus
olhos estavam parados e perdidos em um ponto distante.
-- Por que est dizendo isso? O que voc sabe?
-- Tudo.
-- Tudo o qu? O que vai acontecer? Conte-me o que est vendo.
-- Estou vendo o passado. H vrias possibilidades para o futuro. O que vai acontecer
depende do livre-arbtrio de cada um. Lembre- se de que a calma facilita a manifestao do
bom senso. No fantasie, prefira a verdade. A dor  fruto da iluso, no entre nela. No
julgue ningum. Ligue-se com Deus, tenha f. Estamos ajudando vocs.
Antes que Clara respondesse, Margarida sacudiu a cabea, passou a mo pela testa e,
fixando-a assustada, perguntou:
-- Aconteceu de novo, Clara?
125
-- Sim. Voc disse coisas como da outra vez.
-- Espero no t-la assustado.
Domnico apareceu na porta e Margarida correu para ele dizendo:
-- Aconteceu de novo, Domnico. Pensei que estivesse equilibrada e isso no se repetisse.
-- Como est se sentindo? -- indagou ele.
-- Bem. Voc sabe: agora estou freqentando um grupo de estudos e treinando minha
mediunidade. Depois que comecei a ir l, nunca mais havia me acontecido. Ser que estou
tendo uma recada?
-- No, Margarida. Acalme-se. Acredito que eles tenham se utilizado de voc para ajudar
Clara. Foi necessidade do momento. Alis, nestes ltimos dias tenho observado que Clara
no est bem. Preocupada, nervosa, alheia.
-- Tem razo, Domnico -- interveio Clara. -- Aconteceram algumas coisas que me
deixaram nervosa.
-- O que me incomoda -- disse Margarida --  que quando isso ocorre eu saio do ar. No
lembro nada. Fico insegura.
-- Voc me deu bons conselhos que procurarei seguir. Obrigada.
-- Viu? -- comentou Domnico. -- Foi o que eu disse. Os espritos usaram sua
mediunidade para ajudar Clara. Essa  sua misso: ser canal dos espritos. Continue
estudando e no tema. Voc est bem protegida.
Depois que Margarida se foi, Clara conversou com Domnico contando o que a estava
incomodando e as palavras que Margarida lhe dissera. E finalizou:
-- Estou apavorada. Se ele aparecer, no sei o que dizer aos meus filhos. Nunca falamos
sobre o passado. Temo que eles me desprezem.
-- Por que se atormenta se nada ainda aconteceu? Se Osvaldo aparecer, diga a verdade,
seja sincera. Seus filhos so adultos, fale com eles com sinceridade. No se antecipe
imaginando o que eles iro pensar ou dizer. Chega de se culpar. Voc errou mas percebeu
isso e tem se portado com dignidade. Pense que voc  uma excelente me e uma mulher
que assumiu suas responsabilidades de famlia com coragem e honestidade.
Clara sentiu os olhos midos e considerou:
-- Obrigada, Domnico. Voc  meu amigo.
-- Estou sendo sincero, Clara. No se perturbe pelo que j foi. Voc  forte, lcida e vai
resolver essa situao muito bem.
As palavras de Domnico tiveram o dom de acalmar a ansiedade de Clara. Porm, no fim
da tarde, ela foi chamada ao telefone.
126


-- Dona Clara de Oliveira? Aqui quem fala  o Dr. Felisberto Antunes, advogado. Estou
representando seu marido Osvaldo de Oliveira e desejo marcar uma entrevista com a
senhora a fim de tratarmos de assuntos que interessam  sua famlia. Quando poderia me
receber?
Clara estremeceu e seu corao comeou a bater descompassado. Ela se esforou para
manter a calma. Respirou fundo e respondeu:
-- Quando quiser.
-- Quer que a procure em casa ou a senhora prefere vir ao meu escritrio?
Ela preferiu ir ao escritrio. No queria que os filhos soubessem. Precisava saber o que
Osvaldo pretendia antes de falar com eles. Marcaram para a tarde seguinte.
Quando desligou o telefone, Clara estava tremendo. Vendo-a, Domnico considerou:
-- Voc est plida! Era seu marido?
-- Era o advogado dele. Tentei ficar calma mas no consegui.
Domnico apanhou uma xcara de ch e ofereceu a ela, dizendo:
-- Beba. Vai fazer-lhe bem.
As mos dela tremiam e ele a fez sentar-se, ajudando-a a segurar o pires. Ela sorveu alguns
goles e tentou sorrir.
-- Sou uma tola mesmo. Ficar deste jeito s porque o advogado dele me procurou. Vai ver
que quer a separao judicial para ver-se livre de mim. Estou aqui me recriminando pelo
passado e pode ser at que ele j tenha esquecido e esteja vivendo com outra.
-- Voc foi avisada que no deveria entrar na iluso. Como pode pensar isso se ainda no
sabe o que aconteceu? Controle-se. Procure o advogado, informe-se e depois, s depois,
tome sua deciso.
-- Tem razo. E que esse assunto me deixa nervosa. Ele nunca deu notcias! Agora depois
de dez anos est de volta!
-- No adianta se atormentar. Seria bom procurar o centro de Dona Ldia e buscar ajuda
espiritual. O passe vai acalm-la.
--  o que farei. A noite passada j dormi mal, preciso descansar para a entrevista de
amanh.
Ela foi ao centro e conversou com Ldia, que repetiu as mesmas palavras de Margarida.
Sentiu-se aliviada e mais calma. Foi para casa, deitou-se e dormiu. Entretanto, acordou s
duas da manh e no conseguiu mais dormir. Ficou revirando na cama, pensando em sua
vida.
As cenas dolorosas do passado vieram-lhe  memria e ela sofreu novamente as emoes
desencontradas j vividas, como se aqueles fatos houvessem acontecido na vspera.
127
Percebeu que o tempo decorrido no a fizera esquecer. E Osvaldo, teria conseguido? Como
estaria sua vida? Estaria sofrendo ainda tanto quanto ela?
A ansiedade reapareceu forte e Clara no conseguiu ficar na cama. Foi  cozinha, fez um
caf e sentou-se, tomando alguns goles e olhando atravs da janela as primeiras luzes do
amanhecer.
Apesar da culpa e do arrependimento que sentia, ela pensou que de certa forma Osvaldo,
tendo abandonado a famlia sem se preocupar com o bem-estar dos filhos, no tinha mais o
direito de recrimin-la pelo seu erro.
Ela falhou em seus deveres, mas ele errou tambm. O que teria sido dos meninos se ela no
houvesse conseguido sustent-los? Esse pensamento deu-lhe coragem para enfrentar a
visita ao advogado e evitar que Osvaldo procurasse os filhos. Ele no tinha esse direito
depois de no haver se preocupado com eles durante dez anos. Por que agora se aproximar
deles novamente? Eles j estavam habituados a viver longe do pai. Uma aproximao agora
no viria perturb-los?
Quando entrou no escritrio do advogado horas mais tarde, Clara estava decidida a resolver
tudo com ele e evitar que Osvaldo se encontrasse com os filhos. Se ele aceitasse continuar
longe dos meninos, ela assinaria o divrcio nas condies que ele quisesse.
Felisberto recebeu-a cortesmente. Convidou-a a sentar-se na poltrona em frente  sua
escrivaninha, sentou-se por sua vez e foi direto ao assunto:
-- Seu marido pediu-me que a procurasse para coloc-la a par de alguns fatos que so do
interesse de ambos.
-- Acho estranho que depois de nos haver abandonado sem nenhuma notcia durante dez
anos reaparea e deseje comunicar-se conosco. Muitas vezes acreditei que ele tivesse
morrido, o que explicaria essa prolongada ausncia. Reconheo que errei e provoquei a
nossa separao, mas nossos filhos no tinham culpa alguma. Durante estes anos todos ele
nunca se preocupou em saber como eles estavam, se bem alimentados, com sade, escola.
No consigo entender por que agora ele aparece do nada e se julga com o direito de nos
procurar.
-- Devo dizer-lhe que ele estava morando no interior de Minas Gerais, no campo, levando
vida simples. A nica pessoa com a qual se correspondia era sua tia Ester, que, como a
senhora sabe, o criou.
-- Estou surpresa. As relaes dele com a tia sempre foram formais.
--  verdade. Fui advogado de Dona Ester e fui seu procurador mesmo depois da morte do
Dr. Freire. Convivi com ela durante anos.
128
Ela ficava muito feliz quando recebia uma carta do Sr. Osvaldo. Vrias vezes comentou que
ele havia mudado muito e seu relacionamento com ele se tomara profundo e amigo. Posso
dizer-lhe que Dona Ester amava-o como um filho. Assim, tornou-o herdeiro de todos os
seus bens, com exceo de algumas doaes aos empregados.
Clara ouvia atenta e esperou que ele prosseguisse:
-- Aps a morte de Dona Ester, chamei-o para a abertura do testamento. A bem da
verdade, ele no desejava voltar. Entretanto, quando ponderei que precisava decidir o
destino das coisas dela, ele resolveu.
-- Quer dizer que ele est em So Paulo?
-- Est morando na casa dela, que agora lhe pertence.
-- Se ele veio apenas para resolver esse assunto, certamente no ficar por aqui -- tornou
ela com certo alvio.
-- Isso no sei. Acontece que Dona Ester possua muitos bens. Seu marido agora  um
homem rico. Talvez ele mude de idia.
-- Por que lhe pediu para me procurar? Deseja o divrcio?
-- No falou sobre isso. Ele pretende cuidar do futuro dos filhos. Deseja v-los para decidir
o que fazer.
Clara levantou-se irritada.
-- Exatamente o que eu no quero. Os meninos eram apegados ao pai e sofreram muito
com a separao. Custaram a acostumar-se com sua ausncia. Agora que esto bem, que
esqueceram tudo, ele volta e quer reabrir uma ferida que j cicatrizou. No posso
concordar. No  justo para eles.
-- Acalme-se, senhora. Estamos aqui para conversar. Aceita um caf, uma gua?
-- gua, por favor.
Ela se sentou novamente, respirando fundo, tentando controlar a raiva.
O advogado chamou a secretria e pediu a gua, que foi servida em seguida. Clara tomou
alguns goles. Felisberto apanhou o mao de cigarros tirou um e perguntou com um sorriso:
-- Incomoda-se se eu fumar?
-- No. Esteja  vontade.
Ele acendeu o cigarro vagarosamente e depois de algumas baforadas colocou-o no cinzeiro.
-- Vocs esto vivendo uma situao delicada. No  fcil resolver os problemas do
corao. -- Ela concordou com a cabea e ele continuou: -- Entretanto h momentos em
que precisamos enfrentar o inevitvel.
129
 difcil julgar, e eu de modo algum me colocaria nessa posio. A senhora se enganou,
arrependeu-se, lutou para criar seus filhos sozinha e receia que seu marido traga de volta
velhos problemas no resolvidos.
-- Ele no tem o direito de reabrir essa ferida.
-- Por outro lado, ele sofreu todo esse tempo  distncia, sem coragem para enfrentar a
volta, talvez pretendendo evitar a dor que ainda machucava seu corao. Era Dona Ester
quem telefonava para sua casa, tinha notcia dos meninos e escrevia a ele contando. Quando
chegou aqui, pretendia voltar o quanto antes. Senti que desejava fugir das lembranas que a
distncia no havia conseguido apagar.
Clara sentiu que as lgrimas ameaavam rolar e baixou a cabea tentando impedi-las.
Felisberto continuou:
-- Porm, de posse da fortuna, desejou procur-los para dividir o dinheiro. Seu marido,
Dona Clara,  um homem de bem. Raramente tenho encontrado algum to generoso. Ele
no tem inteno de perturbar os filhos, mas de tom-los felizes. Por outro lado, a senhora
no pode tomar uma deciso como essa sem que seus filhos saibam. Ns no sabemos
como eles lidaram com a ausncia do pai. Pode ser que essa carncia os esteja infelicitando,
fazendo-os se sentirem rejeitados. Posso garantir que o Sr. Osvaldo os ama muito e acredito
sinceramente que um encontro com eles faria bem a todos, Colocaria as coisas no lugar.
As lgrimas estavam rolando pelos olhos de Clara e o advogado deu-lhe uma caixa de
lenos de papel. Ela apanhou um, enxugou as lgrimas e no respondeu. Felisberto
considerou:
-- No acha que seria mais adequado conversar com seus filhos, que j esto adultos,
contar-lhes a verdade e perguntar se eles desejam ver o pai?
-- O que est me pedindo vai ser muito difcil para mim.
-- No creio. Para urna mulher que conseguiu se levantar, assumir a prpria
responsabilidade, educar seus filhos com respeito e carinho, ser at fcil. Garanto que se
sentir aliviada se fizer isso.
-- Vou pensar, doutor.
--Faa isso. Pense com calma e me ligue quando decidir.
Ele estendeu um carto. Ela o guardou na bolsa e saiu. Felisberto chamou a secretria e
informou:
-- Vou at a casa do Sr. Osvaldo. No voltarei mais hoje. Se precisar, ligue para l.
Durante o trajeto, Felisberto foi pensando no drama daquela famlia.
130
Ester tinha sido para ele uma amiga querida. Na convivncia estreita que haviam tido
depois da morte do Dr. Freire, aprendera a admir-la pela sua inteligncia, fora e dotes de
corao.
Ester costumava desabafar com ele seus problemas e ele a apoiava fazendo o que podia
para que ela ficasse bem. O drama de Osvaldo a comovia e muitas vezes ela lhe dissera o
quanto lamentava. Apesar de estar distante, acompanhava a vida de Clara e seus filhos com
ateno, disposta, se fosse o caso, a auxili-la.
A atitude digna e forte de Clara rompendo com o amante, trabalhando, dedicando-se aos
filhos, impressionou-a e desfez a impresso desagradvel que tinha dela. Quando passou a
corresponder-se com Osvaldo e tornaram-se mais ntimos, Ester ficou sabendo quanto ele
sofrera e ainda sofria.
Nas cartas que escrevia ao filho adotivo, contava a atitude digna que Clara adotara, na
esperana de que ele conseguisse perdoar e voltar ao convvio dos seus.
Apesar de desejar a reconciliao do casal, no tinha muitas esperanas. Sabia que a traio
 difcil de superar, principalmente para um homem.
Felisberto costumava uma ou duas vezes por semana ir tomar o ch da tarde com Ester. Ela
vivia muito s e essas visitas eram sempre prazerosas. Sentavam-se na sala e, entre uma
xcara de ch e outra, trocavam idias sobre todos os assuntos.
Nesses encontros era comum Ester mencionar Osvaldo, contar as notcias que recebera e
comentar sobre quanto gostaria que ele voltasse. Felisberto sabia que o que ela mais queria
era que Osvaldo e Clara se reconciliassem e a famlia pudesse refazer-se.
-- Vou deixar esta casa para Osvaldo. Eu gostaria muito que ele viesse morar aqui com a
famlia -- costumava dizer.
-- Depois de tanto tempo vai ser difcil.
Ela sorria e respondia:
-- Pode ser difcil para ns. Mas sempre coloco esse desejo nas mos de Deus. Para ele
tudo  fcil.
Pensando na amiga, ele se dispusera a fazer todo o possvel para apoiar Osvaldo no que ele
desejasse, embora no acreditasse que ele viesse a reconciliar-se com a mulher.
Osvaldo recebeu-o na sala de estar, e, apesar de todo o controle que se esforava por
manter, Felisberto percebeu logo o brilho ansioso de seu olhar.
Sentado  sua frente foi direto ao assunto:
131
-- Clara esteve em meu escritrio hoje.
Osvaldo remexeu-se na cadeira e perguntou:
-- Como est ela?
-- Nervosa, como era de se esperar.
-- Quero saber tudo.
Felisberto relatou a conversa e finalizou:
-- A reao dela  natural. No conseguiu segurar as lgrimas. Voc sumiu e durante dez
anos ela nunca soube nada. Chegou a imaginar que estivesse morto. Sabe Deus quais
pensamentos passaram pela sua cabea durante estes anos todos. De repente voc reaparece
e deseja ver os filhos.
--  um desejo justo.
-- Ela alega que voc os abandonou e nunca procurou saber deles. Mas eu lhe contei a
verdade: voc estava distante mas informava-se sobre eles. Tenho certeza de que, se eles
tivessem tido algum problema, voc os teria procurado.
-- Com certeza. Sei que fui egosta. Pensei apenas em mim. No nego a minha covardia em
enfrentar a realidade. Confesso que se fosse hoje, com o que tenho aprendido, teria agido
diferente. Fui fraco, mas fiz o que pude na poca. Reconheo que no tinha cabea para
agir de forma mais adequada. Por isso no me culpo.
-- Faz bem. De nada adianta atormentar-se por algo que j foi. Porm nunca deixei de amar
meus filhos e sentir saudade deles. Tem sido muito doloroso estar ausente, no acompanhar
seu crescimento nem ajud-los a enfrentar a vida.
-- Ainda est em tempo. Felizmente, Clara tem sido excelente me. Seus filhos esto muito
bem.
Osvaldo no respondeu mas pelos seus olhos passou um brilho de emoo. Ficou pensativo
por alguns instantes, depois disse:
-- Ela vai conversar com eles, dizer que desejo v-los?
-- Como j disse, a princpio ela no queria que voc os procurasse. No deve ser fcil para
ela falar com eles sobre isso. No sabe mos o que ela lhes teria dito durante todo este
tempo. Mas eu lhe disse que eles tinham o direito de saber que voc voltou e deseja v-los.
Espero t-la convencido. Vai me telefonar para dar uma resposta.
Osvaldo passou a mo pelos cabelos inquieto, depois decidiu:
-- Estou disposto a falar com eles mesmo que no queiram. H muitas coisas que
precisamos esclarecer. No quero deixar uma situao equivocada entre ns.
-- Tem razo. Clara levou um choque com sua volta. Mas vai
132


-acalmar-se, refletir e concordar. Ela me pareceu uma mulher muito lcida, que sabe o que
quer.
-- No  essa a impresso que guardo dela.
-- Ela era muito jovem quando se casaram. Hoje est mais experiente. O tempo passa, a
vida modifica as pessoas. Voc tambm est muito diferente do jovem que conheci: mais
maduro, mais equilibrado,mais seguro.
-- , todos amadurecemos. Reconheo que um encontro entre ns  uma volta ao passado.
A vida nos deu dez anos para aprender a lidar melhor com nossos sentimentos. Se hoje nos
coloca frente a frente,  porque estamos em condies de resolver melhor nossas
diferenas.
-- De fato. Cada um teve tempo para avaliar melhor as atitudes
-- Apesar disso,  um momento penoso que todos precisamos enfrentar.
-- Talvez no seja to penoso quanto pensa.
Osvaldo sorriu levemente e concluiu:
-- Pode ser. Abraar meus filhos de novo me far muito feliz. Mal posso esperar.
-- A vida tem suas compensaes. Agora preciso ir. Assim que tiver a resposta de Clara,
telefonarei.
Depois que o advogado se foi, Osvaldo continuou sentado na sala pensativo. Estremecia s
em pensar que dentro de pouco tempo estaria abraando os filhos.
Felisberto propusera-lhe um encontro com Clara para tratarem diretamente da separao
legal e dos assuntos de famlia. A princpio recusara. No desejava v-la. Felisberto
insistira.
--Vocs precisam conversar. So pessoas civilizadas e podem educamente decidir suas
pendncias. Quando se separaram, estavam em estado de choque, bloqueados pelas
emoes descontroladas. O tempo, como voc mesmo disse, amadurece. Se deseja ter um
bom relacionamento com seus filhos, no pode continuar odiando a me deles.
Ele prometeu pensar. Apesar do tempo decorrido, a mgoa ainda continuava machucando
seu corao. Mesmo sabendo que Clara se arrependera e continuava sozinha, trabalhando
para o sustento dos filhos, ele no conseguia esquecer seu amor trado.
Talvez fosse melhor no v-la. O advogado poderia tratar de tudo.Decidiu no se encontrar
com ela. Sua preocupao era s com os filhos e Eles haveriam de entender seu ponto de
vista.
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Clara chegou em casa nervosa. Rita esperava-a com impacincia. Vendo-a entrar,
perguntou:
-- Ento?
-- Ele voltou e quer ver os filhos.
--  natural.
-- No penso assim. Osvaldo est rico. Tia Ester deixou-lhe toda a sua fortuna. Deseja
dividir o dinheiro com os filhos.
--  justo.
-- Agora? Depois do duro que ns demos para sustentar os meninos, ele aparece do nada e
quer assumir seu lugar de pai! No posso concordar.
-- Voc vai ter de falar com Marcos e Carlinhos.
--  isso que eu quero evitar, O que lhes direi? Que meu marido me surpreendeu aos beijos
com o amante e nos abandonou? No tenho coragem para fazer isso.
-- No precisa se expor desse jeito. Basta dizer que ele se foi por que se desentenderam.
-- Marcos tinha oito anos. Embora nunca tenhamos falado no assunto, ele deve saber a
verdade.
-- Por que no tem uma conversa franca com eles? Diga a verdade. Depois desse deslize,
voc tem levado vida decente. No tem do que se envergonhar.
--Pois eu me envergonho. No sei onde estava com a cabea quando me iludi com Vlter.
--Voc era jovem e isso pode acontecer a qualquer uma. Mas sofreu, assumiu sua vida com
dignidade.
-- Apesar disso, tremo s em pensar que teremos de conversar sobre isso.
-- Pois eu acho que ser muito bom. Voc nunca os esclarecer sobre o passado. Nem
sequer sabe o que eles pensam a respeito. Podem ter guardado impresses erradas a respeito
de vocs. A verdade em qualquer tempo  sempre um bem. No deve temer essa conversa.
Eles j so adultos. Seja sincera, exponha seus sentimentos, diga-lhes como aconteceu.
Tenho certeza de que se sentir aliviada depois disso.
-- Voc acha mesmo?
-- Tenho certeza.
-- Fale com Ldia. Pea-lhe para fazer uma prece por mim.
-- Por que no vai at l falar com ela? Garanto que se senti muito melhor.
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-- Irei depois do jantar. Preciso de foras para enfrentar essa situao.
Clara subiu para tomar um banho e Rita ficou pensando em como a vida muda situaes,
separa ou agrupa pessoas na seqncia interminvel do destino, trabalhando as emoes de
cada um, tentando desenvolver a conscincia, renovando valores, ensinando sempre.
O que ela estaria querendo ao trazer Osvaldo de volta? A resposta estava guardada nos
segredos do tempo, contudo ela sabia que, quando a vida age, sempre faz o melhor.
Captulo 12
Depois do jantar Clara foi procurar Ldia. Esta a recebeu com prazer e levou-a para a sala,
dizendo alegre:
-- Eu a estava esperando.
-- Rita falou que eu viria?
-- No, mas eu sei que alguma coisa aconteceu hoje que a deixou nervosa.
--  verdade. Vim pedir ajuda. Sei que  muito ocupada e no gosto de incomod-la.
-- Ele voltou, no  mesmo?
-- Como sabe?
-- Meus amigos espirituais me contaram. A hora da verdade chegou e voc est com medo
de enfrentar.
Clara baixou a cabea e no conseguiu suster as lgrimas. Estou com medo, Ldia.
-- No h o que temer. Seu marido  um homem bom, ama a famlia. S deseja o bem de
todos.
-- Ele sempre foi bom e amoroso. Eu  que pus tudo a perder. Fui a culpada pela nossa
infelicidade. Terei de conversar com meus filhos sobre isso e no tenho coragem.
Voc nunca se perdoou, no  mesmo?
-- No. Ah, se eu pudesse voltar atrs...
-- No pode.  para frente que se anda. Por que no se v como  agora? Por que continua
se condenando por um erro perdido no passado, esquecendo tudo de bom que fez depois?
No acha que est sendo muito severa consigo?
-- Quanto mais eu penso em como Osvaldo era bom, como ele me amava, como ele nos
tratava, mais eu me culpo. No consigo esquecer. Sinto-me suja, errada, fracassada.
136
-- Voc se iludiu, mas aprendeu. Na vida o que importa  o amadurecimento. Um erro
pode ensinar mais do que muitos acertos. Provoca dor, mudanas, situaes, mas
desenvolve a conscincia, obriga a reavaliar valores. Ningum evolui sem a bno da
experincia. Ela tem um preo, e voc o pagou com juros nesses dez anos de vida digna.
Fale com seus filhos, diga a verdade. Tenho certeza de que eles a amaro mais ainda. Agora
vamos fazer uma prece juntas, pedir a Deus que lhe d discernimento e coragem para
vencer mais essa etapa de sua vida.
Ldia pegou-a pela mo e levou-a at o salo do centro esprita ao lado e indicou uma
cadeira. Ficou em sua frente, colocou as mos sobre sua cabea e murmurou sentida prece
pedindo luz e esclarecimento para ela e todos de sua famlia.
Clara sentiu que uma brisa leve e agradvel a envolvia e aos poucos foi se acalmando.
Quando Ldia terminou, tocou-a no brao e ela se levantou, abraando a amiga:
-- Obrigada, Ldia. Sinto-me aliviada. Deus lhe pague pelo bem que me fez.
Ldia sorriu e respondeu:
-- V em paz, Clara. Venha sempre que precisar.
Clara voltou para casa sentindo-se melhor. A irritao, a revolta e o medo haviam
desaparecido. Ela conversaria com os filhos. Sentia-se preparada.
Esperou que voltassem da escola e jantassem. Depois os chamou e disse:
-- Preciso conversar com vocs. Vamos at a sala.
Depois que se acomodaram, Clara disse com voz que se esforava por tornar natural:
-- Precisamos falar sobre um assunto muito srio. Sinto que deveramos ter conversado
anos atrs, porm no tive coragem. Vocs se conformaram com as explicaes que dei na
poca e nunca mais falamos sobre este assunto.
Fez ligeira pausa, respirou fundo e ficou calada durante alguns segundos. Os dois notaram
seu constrangimento. Marcos adiantou-se:
-- Se vai falar sobre nosso pai, no precisa. Sabemos por que ele foi embora e nunca mais
voltou.
Apanhada de surpresa, Clara sentiu a boca seca e o corao bater mais forte. Esforou-se
para dominar a emoo e respondeu:
-- O que  que sabem? Que eu me iludi, errei, joguei fora o amo de um homem bom que
nos amava?
137
Apesar do esforo por controlar-se, Clara no conseguiu reter as lgrimas. Os dois rapazes
correram a abra-la, emocionados. Carlinhos perguntou com voz trmula:
-- Por que est falando nisso agora? Teve notcias de papai? Ele est morto?
Ela rompeu em soluos abraada aos filhos. Marcos acariciava seus cabelos dizendo:
-- Me, no se torture. Seja o que for que tenha acontecido, ns estamos aqui do seu lado.
O passado no importa, ns a amamos e no queremos que sofra. Por favor, no chore!
Quando ela parou de chorar, sentou-se no sof com um filho de cada lado, segurando a mo
deles. Disse por fim:
-- O pai de vocs voltou.  sobre isso que precisamos conversar. Em poucas palavras Clara
contou-lhes a entrevista com o advogado, finalizando:
-- Ele deseja v-los.
-- Ele quer voltar para casa? -- indagou Carlinhos.
-- No. Deseja falar com vocs.
Carlinhos teve um gesto nervoso. Levantou-se dizendo:
-- Falar o qu? Depois de nos ter abandonado todos estes anos, o que ele quer? Por que no
ficou l de uma vez?
Marcos abraou o irmo e disse:
-- Calma, Carlinhos. No vamos nos precipitar. O que mais ele disse?
-- Quer cuidar do futuro de vocs, agora que est rico. Herdou a fortuna de tia Ester.
Parece que  muito dinheiro.
-- No quero nada dele -- argumentou Carlinhos, irritado. -- O dinheiro dele nunca nos
fez falta. Temos voc, que trabalhou duro para nos sustentar, enquanto ele nunca se
preocupou conosco.
-- No deve julgar seu pai com tanta severidade. No sabemos como foi sua vida estes
anos todos -- disse Clara.
Fez pequena pausa e continuou:
-- At amanh fiquei de dar uma resposta ao advogado. Ele prometeu respeitar a deciso
de vocs. Portanto pensem bem. Tm at amanh para decidir.
-- Por mim j decidi -- tornou Carlinhos com raiva. -- No desejo v-lo.
-- Eu quero conversar com ele. Sinto saudade. Sempre foi amoroso e amigo. Desejo ouvir
o que ele tem para nos dizer. Assim como no me atrevo a julgar o que houve entre vocs
dois, no posso conden-lo sem o ouvir.
138
Por mim, pode dizer que irei. Quanto a voc, Carlinhos, melhor pensar bem antes de
decidir. Voc era mais agarrado a ele do que eu. No creio que sua deciso venha do seu
corao. Pense bem para no se arrepender depois.
-- J decidi. No vou me arrepender. Pode dizer que no quero v-lo. Est decidido.
-- Temos prazo at amanh no fim da tarde. No ligarei antes. Se mudar de idia, me diga.
Quando eles se foram, Rita entrou na sala indagando:
-- E ento, como foi?
-- Penoso. Mas estou aliviada. Marcos quer ver o pai; Carlinhos, no. Est com raiva por
ele ter nos abandonado.
-- Ele era o mais agarrado ao pai.
--  mesmo.
-- Deve ter sofrido muito com a separao.
Clara ficou pensativa.
-- Eles sabiam de tudo -- comentou triste.
-- Claro. Eram grandes j. Marcos algumas vezes tentou conversar comigo. Tambm
sentiu muita saudade do pai.
-- Nunca me disseram nada. Pensei que houvessem esquecido.
-- Viram sua luta para sustent-los. Certa vez, Marcos viu voc chegar acompanhada por
Vlter. Lembra quando ele a seguia por toda parte?
--Ele viu?
-- Viu e ficou muito nervoso. Procurou-me para saber se voc pretendia se casar com ele, e
disse que, se voc fizesse isso, fugiria de casa e nunca mais voltaria.
-- Puxa! Voc nunca me contou isso!
-- Para que preocup-la? Eu sabia que voc no queria nada com Vlter. Conversei com
Marcos, contei-lhe que Vlter gostava de voc mas no era correspondido.
-- Esse Vlter s me trouxe problemas. Ainda bem que nos ltimos tempos desapareceu.
-- Pedi para Dona Ldia interceder e nos ajudar.
-- Talvez por isso ele tenha se afastado. Nunca mais soube dele.
-- Vai ver que arranjou outra, se casou.
-- Antes assim.
-- Voc nunca pensou em voltar a casar?
-- Nunca. Estou bem, no preciso de ningum para me arranjar problemas.
139
-- Diz isso porque nunca se apaixonou novamente.
-- Uma vez foi suficiente para no entrar nessa outra vez.
-- Ainda gosta de Osvaldo?
Clara sobressaltou-se e fitou-a sria. Depois respondeu:
-- No.
-- De vez em quando noto voc triste, distante. Imaginei que estivesse com saudade dele.
-- H momentos em que sinto saudade do passado. Ns tivemos bons momentos juntos.
Depois me recordo do que aconteceu e a culpa me incomoda.
-- Sente falta dele?
-- Sinto falta da segurana daqueles tempos. H muito aceitei o irreparvel. Assumi o que
fiz. Desde ento s conto comigo.
-- Pretende passar a vida inteira sozinha?
-- Por que no? Tenho os filhos e, quando eles se casarem ou se forem, procurarei viver o
resto da vida em paz. E s o que desejo.
Rita olhou para Clara e no respondeu. Vrias vezes se perguntara o que aconteceria se um
dia Osvaldo voltasse. Agora, estava acontecendo.
No dia seguinte, Clara ligou para o advogado e disse que Marcos concordava mas
Carlinhos, no. Ele continuava se recusando a ver o pai.
Felisberto ligou para Osvaldo e comunicou o que ela lhe dissera. Ele pediu que Marcos
fosse  sua casa no dia seguinte. Mandaria o carro busc-lo  hora que desejasse.
Naquela noite antes do jantar, Clara chamou os filhos e disse:
-- Seu pai vai mandar o carro busc-los amanh. A que horas desejam ir?
-- Eu no vou -- respondeu Carlinhos, nervoso.
--  tarde. De manh tenho aula. Pode ser depois das duas. -- Olhando para o irmo,
Marcos continuou: -- No seja teimoso. Est se precipitando. Pelo menos oua o que ele
tem a dizer.
-- No quero. Ele nos deixou e nunca perguntou o que ns pensvamos. Agora  tarde. Ele
que volte para onde estava.
Clara olhou para os dois e disse simplesmente:
-- Faam como quiserem. Vou marcar para amanh s duas da tarde. Voc, Carlinhos, tem
at l para pensar.
Na tarde seguinte, quando o carro chegou, Marcos foi sozinho. Carlinhos continuou se
recusando a ver o pai. No trajeto, Marcos sentia-se inquieto, emocionado.
140
Recordava-se da ltima vez que vira o pai e sentia voltar a angstia daquele dia. Suas
palavras ainda estavam ecoando em sua memria:
"Aconteceram algumas coisas que me foram a ir embora de casa. Quero que sejam sempre
bons meninos e obedeam  sua me."
S ficou sabendo o motivo da partida do pai quando sua av Neusa foi at l e brigou com
sua me. Escondido em um canto da sala, ouviu tudo quanto ela dissera e chorou muito.
Sua me amava outro, por isso seu pai partira. Naquela hora teve certeza de que ele nunca
mais voltaria. O medo de que ela tentasse dar-lhe outro pai incomodou-o durante muito
tempo.
Se ela resolvesse ficar com Vlter, ele fugiria de casa. Ele havia sido o culpado de tudo.
Sua me era casada e ele no tinha o direito de conquist-la.
Por isso, sempre que Vlter telefonava ou procurava Clara, Marcos ficava nervoso, irritado,
escondia-se procurando ouvir o que conversavam. Vrias vezes desabafara com Rita, que o
tranqilizava dizendo que sua me no pensava em casar com Vlter.
Agora, depois de tantos anos, ele se perguntava o que havia acontecido de verdade. Se
Clara amasse Vlter de fato, teria feito o possvel para viver com ele. Sabia que ele estava
muito apaixonado mas ela o recusara. Ento por que se envolvera?
Lembrava-se de que certa vez Neusa o procurara na sada da escola. Depois de pedir o
endereo de Osvaldo com insistncia e ele responder que no sabia, ela continuou:
-- E vocs, como esto vivendo? Vlter d dinheiro para sua me?
Irritado, Marcos respondera:
-- Minha me est trabalhando e ganha o suficiente para nos sustentar. No precisa do
dinheiro de ningum.
-- Vou entrar na justia e pedir a guarda de vocs. Quero que venham morar comigo.
-- No faa isso, v. Nunca vou abandonar minha me.
-- Ela no merece. Seu pai sempre foi um bom marido e ela o traiu.Arranjou um amante.
Voc no pode querer viver ao lado dela depois do que ela fez.
-- Isso no  verdade! A senhora nunca gostou de minha me. Ela  muito boa. No quero
que fale mal dela...
Naquele instante Rita aproximou-se, abraando-o. Olhando para Neusa, disse com voz
firme:
-- O que disse a ele? Deixe o menino em paz.
141
-- Eu s disse a verdade. Quero que eles venham morar comigo. Clara no tem moral para
cuidar deles.
Marcos soluava abraado a Rita, que respondeu irritada:
-- Como se atreve a dizer uma coisa dessas a uma criana? No tem vergonha de fazer mal
a seu prprio neto? Vamos embora, Marcos, sua av no est bem da cabea.
Antes que ela tivesse tempo de responder, Rita puxou Marcos pela mo e foram embora.
No caminho, Rita disse-lhe que Neusa falava aquilo porque no gostava de Clara, s por
implicncia. Ao que Marcos respondera:
-- Meu pai foi embora porque minha me estava namorando Vlter.
Chocada, Rita disse:
-- Ele  um conquistador barato que se aproveitou da ingenuidade de sua me e a
envolveu. Ela nunca amou Vlter. Se isso fosse verdade, depois que seu pai foi embora ela
teria se casado com ele.
Aps esse dia Marcos passou a ficar dentro da escola esperando Rita chegar para sair. No
queria mais ver a av.
O carro parou na entrada da casa e Marcos desceu com o corao aos saltos. Jos abriu a
porta e, vendo-o, no se conteve:
-- Voc deve ser Marcos! Meu Deus, como est bonito! Entre. Seu pai o espera na sala.
Sentindo as pernas bambas, Marcos acompanhou Jos at a sala. Osvaldo levantou-se
imediatamente e abraou-o emocionado.
-- Meu filho! Finalmente posso abra-lo! Que saudade!
Marcos no encontrou palavras para responder. As lgrimas desceram pelas faces e os
soluos brotaram no peito, fazendo transbordarem as emoes tantos anos contidas.
Osvaldo deixou que as lgrimas lavassem o rosto e continuou apertando o filho nos braos.
Aos poucos ambos se acalmaram e por fim Osvaldo disse com voz trmula:
-- Venha, Marcos. Vamos conversar.
-- Por que nos deixou sem notcias? Por que nos abandonou?
-- Tem razo por estar sentido comigo. Reconheo ter sido egosta e haver pensado apenas
em mim. Mas confesso que no tive coragem de voltar. Eu estava muito descontrolado.
Queria desaparecer do mundo. Mesmo agora, depois de tantos anos,  difcil falar sobre
isso Reconheo que fui fraco, deveria ter ficado, enfrentado. Mas no pude. Gostaria que
entendesse isso.
142
-- Voc pensou que mame estivesse amando Outro. Mas no era verdade.
-- No falemos disso agora.
-- Eu preciso falar pai. Minha me pode ter sido ingnua, ter se envolvido, mas ela no
amava Vlter. Durante muito tempo ele a perseguiu, mas ela nunca quis nada. Neste tempo
todo s pensou em trabalhar para nos sustentar.
-- No voltei para cobrar nada de ningum Eu assumo minha fraqueza deixando-os sem
recursos para se manter. Porm eu no tinha nada para oferecer. Ganhava bem, mas era um
empregado. Quando deixei o emprego, fiquei sem recursos.
-- Como viveu estes anos todos?
Osvaldo estendeu as mos calosas, dizendo com simplicidade:
-- Como um lavrador. Apesar de tudo, quero dizer que gosto muito de vocs. Senti muita
saudade. Vrias vezes pensei em voltar para v-los. Tia Ester mantinha-me informado de
tudo que se referia a vocs.
Marcos fitou-o com os olhos midos. Por alguns segundos no conseguiu responder. Seu
pai no os esquecera, como havia pensado. No os havia abandonado.
Vendo-o em silncio, Osvaldo continuou:
-- Durante estes anos, tia Ester foi minha confidente e amiga.
-- Minha me disse que vocs, apesar de viverem na mesma casa, nunca foram ntimos.
--  verdade. Ela era muito reservada, e eu, tmido. Porm, depois que o tio morreu,
passamos a nos escrever e pudemos nos conhecer melhor. Tia Ester era uma mulher
maravilhosa.
-- Nunca nos visitou. Rita  que sempre conversava com ela ao telefone. Mame no
ficava sabendo.
-- Depois que fui embora, tia Ester telefonou para sua me. Queria conversar com ela,
oferecer apoio, mas Rita informou-a que Clara no desejava receber ningum. Ento tia
Ester disse que, se um dia Clara mudasse de idia, ela teria prazer em receb-la. Como ela
nunca a procurou, tia Ester manteve-se afastada. Entretanto, nunca deixou de se interessar
por vocs e sempre me mandava notcias.
-- No sabia que Dona Ester havia nos procurado. Mame sempre nos dizia que ela era
uma mulher muito rica e muito orgulhosa.
-- Ela era reservada. Orgulhosa, no. Respeitava as pessoas e procurava no se intrometer
na vida de ningum. Mas era mulher sensvel, amorosa, digna.
-- Voc a admira.
143
--Muito. Eu aprendi a estim-la de verdade.
-- Vov Neusa  muito diferente dela.
-- Eu sei. Ela deve ter dado trabalho a vocs. E sempre muito inquieta, quer fazer as coisas
do seu jeito. Carlinhos no quis vir. Deve estar magoado comigo.
-- . Ele era muito apegado a voc. Depois que voc foi embora ele deu trabalho. Chorava
muito, perguntava quando voc voltaria. No dormia direito. Dormia na cama da mame,
abraado a ela. Com o tempo foi esquecendo, no falou mais. Quando soube da sua volta,
ficou revoltado.
Foi a vez de Osvaldo ficar calado. A emoo embargou sua voz. Cabea baixa, esforou-se
para controlar-se. Percebendo como ele se sentia, Marcos levantou-se e colocando as mos
nos ombros dele disse com suavidade:
-- Ele ainda est sofrendo. Mas isso vai passar.
Osvaldo abraou o filho, apertando-o de encontro ao peito.
-- Obrigado, meu filho. Sempre amei muito vocs. Estou certo de que um dia ele entender
isso.
-- Ele perguntou se voc iria voltar para casa. Quando mame respondeu que no, ele se
zangou.
Osvaldo puxou Marcos para o sof e sentou-se ao lado dele.
-- Ningum mais do que eu gostaria que tudo tivesse sido diferente, que nada houvesse
acontecido. Mas no foi assim. Apesar de tudo, reconheo que aprendi muito, amadureci.
Conheci pessoas simples, bondosas, iluminadas, que me ensinaram a enxergar a vida com
outros olhos.
-- Voc se casou de novo?
--No. Estou me referindo aos amigos com os quais tenho vivi do desde que sa de casa.
Com eles aprendi que fugir no adianta nada, uma vez que a dor, a saudade, a infelicidade
est dentro de ns e no acompanha em todo lugar. Quando precisei voltar, minha primeira
reao foi de no vir, de continuar vivendo no campo, como at agora mas entendi que a
vida quer que eu aprenda a ser forte e corajoso, que essa  a nica maneira de resolver os
problemas que nos angustiam nos ferem o corao. Por isso estou aqui.
-- No  o que mame pensa. Eu a ouvi dizendo a Rita que voc nunca mais voltaria.
Talvez tivesse se casado e formado outra famlia.
-- Isso nunca passou pela minha cabea.
Marcos calou-se por alguns segundos, depois disse:
-- Voc tem muita raiva de minha me?
144
Apanhado de surpresa, Osvaldo pensou um pouco antes de responder. Depois olhou para
Marcos nos olhos e falou srio:
-- Muitas vezes me perguntei por que ela deixou de me amar, por que me trocou por outro.
Reconheo que sentia frustrao, impotncia, raiva. Mas a vida me ensinou que qualquer
julgamento  errado, uma vez que nossa viso  enganadora e no estamos dentro da pessoa
para saber o que ela sente. Passei muito tempo deprimido, magoa do, sem vontade de viver,
mas a sabedoria e a f de um homem simples e bom fez-me entender quanto estava errado.
-- Como assim?
-- O amor  um sentimento espontneo, aparece independentemente da nossa vontade e,
quando acaba, no h nada a fazer. Eu no tinha o direito de exigir o que sua me no tinha
mais para dar. Ela deixou de me amar, apaixonou-se por outro. Lamento que no tenha tido
coragem para me contar. Embora sofrendo, eu teria deixado o caminho livre. A traio
deixou-me inconformado durante muito tempo. Hoje, porm, percebendo o quanto fui
fraco, fugindo sem coragem de enfrentar a verdade, reconheo que no tenho o direito de
exigir dela um comportamento que eu mesmo no consigo ter.
Marcos abriu a boca e fechou-a de novo sem encontrar palavras para responder. A postura
do pai, sua generosidade emocionaram- no muito. Osvaldo notou e, procurando dar um tom
natural  voz, considerou:
-- Chega de falar do passado. Quero saber tudo sobre voc: o que tem feito, quais seus
planos para o futuro.
-- Voc pretende ficar na cidade?
-- Sim. Tia Ester manteve os negcios do tio e colocou tudo em minhas mos. Estou
assumindo o comando Soube que voc est na faculdade.
-- Estou fazendo Letras. Gosto de escrever.
-- Tia Ester contou-me que voc escrevia para o jornal do colgio desde os dez anos.
--  verdade. Desejo ser escritor. Mame gostaria que eu escolhesse outra carreira porque
essa no d futuro em nosso pas. Pode ser que tenha razo, mas eu j decidi. Prefiro ser
pobre e fazer o que me d prazer a ganhar dinheiro em uma profisso de que no gosto.
-- Voc est certo. A vocao  fundamental para fazer um bom trabalho. Foi bom tocar
nesse assunto, porque agora tudo mudou. Estamos ricos. Voc no precisa se preocupar
com o futuro. Por isso pretendo ficar aqui, assumir os bens que tia Ester me deixou.
145
Osvaldo fez ligeira pausa, hesitou um pouco e depois disse:
-- Fale-me de Carlinhos. Como ele ?
-- Seu temperamento  alegre, brincalho. Vive agarrado a um violo que carrega aonde
vai, gosta de cantar e contar piadas.
-- No fazia essa idia dele. J escolheu uma carreira?
-- Ainda no. Mame tem conversado com ele, tentando orient-lo. Mas ele no leva nada
a srio.
Os dois continuaram conversando e aos poucos Marcos sentia-se alegre e muito  vontade.
Osvaldo contou-lhe que havia aberto uma conta bancria em seu nome e depositado boa
soma em dinheiro. Todo o ms lhe daria uma mesada para as despesas. Pediu-lhe que
assinasse os papis do banco e logo receberia os tales de cheque
-- Carlinhos ainda no pode abrir conta em banco. Mas todos os meses meu procurador ir
 sua casa entregar-lhe o dinheiro
--Diga-lhe isso.      -
-- Ele vai relutar em aceitar.  muito teimoso.
-- Mandarei mesmo assim. Gostaria de falar com ele, contar o que me aconteceu depois
que os deixei, explicar por que no dei notcia Quero pedir-lhe que compreenda e me
perdoe. Sou apenas um homem Se possuo algumas qualidades, tenho ainda muitos pontos
fracos. Ma todo este tempo, jamais os esqueci. Pea-lhe que venha me ver. Faa melhor:
traga-o aqui.
-- Farei o possvel para que ele compreenda.
Passava das dez da noite quando o carro de Osvaldo deixou Marcos em casa. Clara chegara
do trabalho nervosa, preocupada. Sabendo que Marcos estava com o pai, ela no conseguiu
trabalhar direito A tarde custou a passar.
Domnico notou sua inquietao e tentou conversar:
-- O que est acontecendo Clara?
-- Marcos foi encontrar-se com o pai. Liguei para casa e at agora ainda no voltou.
--  natural. Depois de tantos anos, tm muito que conversar.
--  isso que me preocupa. Deve estar com raiva de mim. Certamente vai voltar ao
passado, dar sua verso dos fatos. O que Marcos vai pensar?
-- No dramatize, Clara. Voc no sabe o que est acontecendo de verdade. Se ele ama o
filho, no vai lhe dizer nada que possa causar-lhe mal. Voc me disse que Osvaldo era um
homem bom, educado, muito diferente da megera de sua sogra.
-- . Ele era. Mas depois do que fiz pode ter mudado.
146
--O que a est incomodando  a antiga culpa que nunca a deixou estes anos todos. Quando
vai perceber que o passado morreu? Voc hoje  uma mulher digna que vive do seu
trabalho e no tem nada de que se envergonhar.
-- , tem razo. Mas Osvaldo pode no pensar assim.
-- Deixe de fantasiar. Vou mandar fazer um ch que vai acalm-la. Em sua cabea acho
que j imaginou a conversa dos dois, falando o pior. Quando vai aprender a no se
atormentar com o que ainda no aconteceu? Calma. Tem de primeiro saber a verdade para
depois decidir como agir.
-- Voc est certo. Vou tentar esquecer este assunto.
--Mas, apesar de tentar, no conseguiu. Cada vez que o telefone tocava, ela sentia o
corao bater descompassado, imaginando que seria Marcos. Ao chegar em casa as oito e
saber que ele ainda no havia voltado, ela no conseguiu dominar o medo:
-- Como, Rita, Marcos ainda no voltou? Vai ver que ele vai tentar me tirar os filhos. Acho
que  isso que ele quer. Esperou que crescessem e agora apareceu para roub-los de mim.
--Ainda bem que Carlos no quis ir. Eu no devia ter deixado Marcos comparecer a esse
encontro.
-- Calma, Clara. Osvaldo no far nada disso. Depois de tantos anos,  natural que eles
conversem, matem a saudade.
-- Ele bem que podia ter ficado l onde viveu todos estes anos. Por que voltou? Por qu?
Onde est Carlinhos?
-- No quarto. Disse que tinha de estudar para a prova de amanh. Ele no quis ir ver o pai,
mas ficou triste o dia inteiro. Nem tocou no violo. Adalberto veio cham-lo para ir ao
clube, mas ele no quis ir.
-- Nossa vida estava calma, tudo em seu lugar, e agora virou de pernas para o ar. Tenho
vontade de ir falar novamente com aquele advogado e pedir-lhe que deixe meus filhos em
paz.
-- Voc est com medo de dividir o amor de seus filhos com Osvaldo. Mas ele  o pai.
Tem todo o direito de estar com eles.
-- Eu sei, Rita. E isso que me assusta. Ele tem direito e eu no vou poder fazer nada.
--  melhor aceitar, deixar as coisas correrem normalmente. No h razo para se
preocupar. Ele no quis lhe tirar os filhos naquele tempo, no vai fazer isso agora. Depois,
deve saber que voc tem lutado, trabalhado, mantido seus filhos com dignidade. No h
razo para que ele faa uma coisa dessas.
-- . Acho que tem razo. Vou tomar um banho, me acalmar.
147
Quando Marcos entrou em casa, foi direto para o quarto falar com Carlinhos. Clara, que
estava em seus aposentos, foi ter com eles.
Carlinhos estava deitado e, vendo o irmo abrir a porta, fechou os olhos. Marcos acendeu a
luz, dizendo:
-- Sei que est acordado e louco para saber tudo.
-- Apague a luz. Quero dormir. Amanh tenho prova logo cedo.
Clara entrou dizendo:
-- Puxa, Marcos, voc demorou. Por que no me ligou?
-- Ns ficamos conversando, o tempo foi passando. Jantamos e quando dei por mim
passava das nove e meia.
-- Voc sabe que no gosto que ande pelas ruas  noite.
-- Papai mandou o carro me trazer.
Marcos ficou calado por alguns segundos e notou que, apesar de disfararem, tanto a me
quanto o irmo esperavam que ele contasse tudo. Depois continuou:
-- Nosso encontro foi muito bom. Ele no nos abandonou. Recebia notcias nossas por tia
Ester. Ela lhe escrevia regularmente.
-- Ele diz isso, mas nunca nos procurou. No acredito em nada que ele diz agora -- tornou
Carlinhos com raiva.
-- Voc est enganado. Ele no voltou porque estava muito triste com a separao. No
teve coragem. Pediu perdo por isso.
--O que mais ele contou? -- indagou Clara.
-- Bem... Ele disse que no pensava em voltar nunca mais. Porm quando tia Ester morreu
e deixou-lhe a herana, ele sentiu que precisava assumir esses bens. Fez isso pensando em
ns, em nosso futuro.
--Ns vivemos sem ele todos estes anos e podemos viver o resto de nossas vidas. No
precisamos dele. Mame sempre foi autosusiciente para nos sustentar. Depois, logo
estaremos trabalhando e cuidando das despesas. Ele que volte para o lugar onde viveu este
tempo todo
-- Voc est sendo injusto, Carlinhos. Papai nunca nos esqueceu. Preocupa-se com nossa
felicidade. Agora que est rico, deseja nos proporcionar uma vida melhor.
-- No quero nada dele.
-- Pois ele abriu uma conta no banco em meu nome e vai nos dar todos os meses uma
mesada.
-- O que ele quer  comprar nossa amizade. Pois comigo no funciona. No vou aceitar
nada dele.
-- Apesar disso, ele vai mandar o dinheiro para c todos os meses.
-- Carlinhos tem razo. No precisamos do dinheiro dele. Amanh mesmo falarei com o
advogado dele sobre isso. No queremos nada
148
-- Pois eu aceitei -- retrucou Marcos com voz firme. -- Sinto que papai nos ama, sempre
nos amou e se preocupa com nosso bem-estar. Gosto dele. Sempre foi um pai carinhoso e
um homem de bem. Se foi embora, teve seus motivos. No devemos julgar. Cada um tem
seus pontos fracos. Ele no teve foras para voltar depois do que aconteceu. Agora deseja
compensar sua ausncia, mostrar que sempre nos amou. No vejo por que recusar. Eu vi
suas lgrimas quando me abraou, senti sua emoo ao falar de voc, Carlinhos. Este
encontro me fez muito bem. Reencontrei um pai que havia perdido e um homem muito
generoso que me inspirou respeito e admirao.
Os olhos de Marcos brilhavam emotivos e Clara sentiu um aperto no corao. O que teriam
conversado?
Depois de alguns instantes de silncio, Clara tornou:
-- De fato, seu pai sempre foi um homem bom.
Clara teve vontade de perguntar se ele havia comentado sobre ela, mas no teve coragem.
Marcos percebeu o que ela queria saber, mas no disse nada. Era-lhe difcil mencionar o
deslize de sua me que ocasionara aquela separao. Por isso disse apenas:
-- Agora vou me deitar. Ele me pediu que o convencesse, Carlinhos, a ir visit-lo. Quis
saber como voc era, do que gostava, tudo.
Poderemos ir amanh  tarde.
-- Eu no vou. No quero ir.
-- Vai se arrepender. Est sendo injusto.
-- Cuide de sua vida e eu cuidarei da minha. Agora apague essa luz. Quero dormir.
Marcos e Clara apagaram a luz e saram. Carlinhos remexeu-se na cama, pensando com
raiva:
"Ele no me ama! Se me amasse no teria me abandonado. No vou perdoar. No vou!"
As lgrimas desciam-lhe pelas faces e ele as enxugou com a ponta do lenol, dizendo
rancoroso:
-- Ele vai ver. Tem de sofrer muito para pagar o que me fez.
Clara acompanhou Marcos at a porta do quarto:
-- Filho -- disse por fim --, seu pai falou alguma coisa sobre o passado?
-- Eu  que perguntei se ele ainda sentia muita raiva de voc.
Clara levou a mo aos lbios para abafar uma exclamao assustada:
-- Voc no devia ter perguntado isso.
-- Eu quis saber. Ele disse que muitas vezes se perguntou por que voc tinha deixado de
am-lo.
149
Sentiu raiva, frustrao, mas depois reconheceu que quando o amor acaba no se pode fazer
nada. Disse que aprendeu com a vida que no podia julgar voc, porque sua viso era
enganadora. Ele no estava dentro do seu corao para saber o que voc sentia. Fiquei
emocionado, me. Meu pai  um homem de sentimentos nobres. Por isso no quero que
falem mal dele.
Clara sentiu que as lgrimas estavam prestes a cair e disse emocionada:
-- Voc est certo. Seu pai sempre foi um homem nobre e bom. A nica culpada fui eu. Ele
no merecia o que fiz.
Marcos abraou-a com carinho:
-- Eu penso como ele, me. Voc se envolveu, no pensou no que poderia acontecer. Mas
o passado passou. Voc era muito jovem. No deve se culpar. Ns a amamos muito e a
respeitamos pelo que  e sempre foi. Tenho orgulho de ser seu filho. Sempre a amarei. Pode
ter certeza disso.
Clara, abraada ao filho, deixou que as lgrimas lavassem o rosto e aliviasse sua culpa do
passado. Quando parou de chorar, sentiu se mais calma.
-- Obrigada, meu filho. Eu tambm o amo muito.
Beijou-o com carinho e foi para o quarto. Deitou-se e finalmente conseguiu adormecer.
150


Captulo 1 3
No dia seguinte Clara acordou pensando na conversa que tivera com os filhos. No achava
justo que Osvaldo voltasse depois de tantos anos reclamando seus direitos de pai.
Ele deixou claro que voltara por causa do dinheiro. Se Ester no houvesse deixado a
herana, nunca mais o veriam. Era esse o amor, a saudade que dizia sentir dos filhos?
Ela, abandonada, sem profisso, sem dinheiro, nunca os abandonou. Lutou para sustent-
los. Depois de tudo ele aparecia, usando o poder do dinheiro para seduzi-los.
Carlinhos estava certo: no precisavam dele, no queriam seu dinheiro.
Marcos deixara-se seduzir. Havia sido criado com pouco dinheiro.Se no faltou o essencial,
tambm no puderam permitir-se a nenhum luxo. Um jovem fica fascinado com certas
facilidades que o dinheiro pode comprar. Certamente ele j estaria pensando no que faria
com a mesada que o pai lhe dera.No pretendia recus-la. Seria difcil convenc-lo. Para ela
isso sentava um perigo maior. Com o tempo, Marcos poderia querer viver com o pai.
Pensando nisso, ela sentiu um aperto no peito. Osvaldo no tinha esse direito. Os filhos
eram dela, uma vez que ele os abandonara durante tantos anos.
Iria falar com o advogado e recusar sua oferta.
Desceu para tomar caf e Rita olhando-a perguntou:
-- Voc est bem?
Mais ou menos. No me conformo com tudo isso que est acontecendo.
Como foi o encontro de Marcos com o pai?
151
-- Veio todo entusiasmado s porque Osvaldo vai dar-lhe uma boa mesada. Nem me
consultou e j aceitou.
--  natural.  seu pai.
-- Que nunca se importou com eles. Carlinhos foi taxativo: no quer nada do pai.
Rita no respondeu. Sabia que estava sendo difcil para Clara aceitar aquela mudana.
Clara mal tocou nos alimentos. Rita considerou:
-- Voc no comeu nada. Hoje vai trabalhar o dia inteiro. Precisa alimentar-se melhor.
-- Meu estmago est embolado. Parece que no digeri o jantar de ontem.
-- Voc no digeriu a volta de Osvaldo. Nunca pensou que um dia isso aconteceria?
-- No. Pensei que tivesse morrido, casado de novo, sei l. Quanto mais o tempo passava,
menos eu acreditava que ele pudesse voltar.
-- Mas voltou. Voc precisa aceitar essa realidade.
-- Vou procurar o advogado dele e dizer que no queremos seu dinheiro.
-- No pode fazer isso. Ele tem o direito. Depois, os filhos so seus herdeiros. Voc no
vai poder evitar.
-- Isso  que me apavora. Por que ele voltou, por qu?
-- No adianta questionar. Aconteceu e voc no vai poder fazer nada. Por acaso ele falou
com Marcos sobre o passado?
-- Deu uma de bonzinho. Marcos mencionou o assunto e ele se mostrou compreensivo.
No me acusou de nada.
-- Isso  bom. Ele no tem inteno de colocar seus filhos contra voc.
Isso  pior. Sua generosidade aumenta minha culpa diante deles.
-- Voc est exagerando. Preferia que ele a acusasse? Clara calou-se. A atitude digna do
marido aumentara sua sensao de culpa.
Vendo que Clara no respondia, Rita continuou:
-- Marcos mostrou-se magoado com o passado?
-- No. Ao contrrio: foi carinhoso, disse o quanto me amava.
-- Voc tem dois filhos maravilhosos. No deve se preocupar tanto. Eles a amam muito.
No precisa ter receio da amizade deles com o pai. Seu lugar sempre estar garantido no
corao deles. No quer um pedao deste bolo? Est uma delcia.
152
Quando Clara chegou ao ateli, Domnico logo notou que ela no estava bem. Procurou
conversar, e ela lhe contou o que a preocupava. Depois de ouvir tudo, ele comentou:
-- Rita tem razo. Ele  o pai. Tem o direito de dar o que desejar aos filhos. Desista de
procurar o advogado. No vai poder fazer nada.
-- Mesmo assim quero tentar.  um direito meu.
-- Vai torturar-se inutilmente.
Clara passou o dia inteiro nervosa. Fez imenso esforo para controlar-se, Gino exigia que as
clientes fossem tratadas com carinho e alegria. No podia deixar que seus problemas
particulares prejudicassem seu trabalho.
O dia custou a passar, e Clara esforava-se para controlar a inquietao. No fim da tarde,
quando se preparava para sair, Domnico aproximou-se, dizendo:
-- Voc est precisando de ajuda. Por que no procura aquela sua amiga do centro esprita?
-- Ela no vai poder fazer nada. Estou nervosa por causa da situao com meu ex-marido.
Domnico olhou srio para ela e respondeu:
-- No  apenas isso. H todo um envolvimento espiritual que est agravando o problema.
-- Se ele no tivesse aparecido, eu no estaria deste jeito.
-- Mesmo assim, uma ajuda espiritual vai acalm-la. Voc se sentir melhor.
-- . Pode ser. Dona Ldia  pessoa bondosa, e conversar com ela s pode me fazer bem.
Ao sair do trabalho, Clara foi direto procurar Ldia. Encontrou-a rodeada de algumas
pessoas, separando roupas usadas que deveriam dar a algumas famlias assistidas pelo
centro.
Vendo-a, Ldia foi abra-la, dizendo alegre:
-- Que bom v-la! Vamos entrar.
--Queria conversar um pouco, mas no desejo interromper seu trabalho. Voltarei outro dia.
-- Nada disso. Estamos terminando. Vamos at minha casa to mar um caf.
Clara acompanhou-a. Ldia convidou:
-- Venha at a cozinha.
-- No se incomode com caf.
-- Pensando melhor, acho que seria bom um ch. Voc est precisando. Sente-se aqui
enquanto apanho as xcaras.
153
Clara sentou-se sentindo o aroma delicado do ch que ela colocara nas xcaras e estava
enchendo com gua fervendo da garrafa trmica.
Voc est muito nervosa, Clara. Prefiro que no fale nada agora. Aproveite este momento
para harmonizar seu esprito conturbado. Confie em Deus. Na vida tudo acontece para o
melhor. No se torture questionando o futuro. No desperdice sua fora com coisas que
ainda no aconteceram.
Clara fez meno de falar, mas Ldia no lhe deu tempo e continuou:
-- Hoje quero que volte aqui s oito. No se atrase porque a porta estar fechada. No falte.
-- Est bem. Virei.
-- Sinto que est inquieta, angustiada. Essa sensao poder aumentar  medida que se
aproximar a hora de vir. No tenha medo. Venha mesmo assim.
-- O que est acontecendo? Domnico me disse que h um envolvimento espiritual.
-- verdade. Est na hora de voc comear a compreender a espiritualidade. Temos
conversado. Voc tem tido algumas oportunidades, mas no as aproveitou.
-- Tenho receio.
-- Confie. A vida faz tudo certo. Agora v. Estarei esperando. No se atrase.
Clara saiu pensativa. Chegando em casa, desabafou com Rita:
-- No sei por que as pessoas so to fanticas. Estou nervosa, e Domnico me mandou
procurar o centro esprita. Falei com Ldia e ela me mandou ir  noite  sesso. No tenho
vontade nenhuma de ir.
Rita olhou para Clara e comentou:
-- Pois eu acho que deve ir.
-- Voc tambm? Domnico disse que estou com envolvimento espiritual. Ldia pensa o
mesmo. Essas pessoas tm mania de culpar os espritos por tudo que nos acontece. Estou
nervosa por causa de Osvaldo. No tem nada a ver com espritos.
-- Nesse caso, por que fica to nervosa quando fala nisso?
-- Reconheo que o aparecimento de Osvaldo me tirou o sossego. Mas da a ter de ir ao
centro..
Rita deu de ombros.
-- Se pensa assim, no v. Seja l o que for que acontea, voc pode agentar sozinha
mesmo.
154
-- Do jeito que voc fala, parece que vai mesmo acontecer alguma coisa ruim.
-- Voc est sendo muito pessimista. No aconteceu nada de mau e voc j est vendo tudo
negro.
-- Vocs  que do a entender que, se eu no for ao centro, tudo pode piorar.
Rita sorriu e considerou:
-- Isso no  verdade. Os problemas, os desafios em nossa vida aparecem pela necessidade
que temos de aprender e evoluir. Ningum nem nada os poder evitar. Acontece que, com a
ajuda espiritual, voc poder enfrent-los com mais coragem. Por isso eu disse: se voc
acha que pode fazer isso sozinha, no precisa ir.
-- Voc sabe que no vou conseguir. Estou muito deprimida, inquieta, com medo.
-- Nesse caso deveria buscar ajuda. Por que est sendo to resistente?
-- Gosto de questionar as coisas. Vou tomar um banho. No quero me atrasar.
Rita sorriu satisfeita. Havia muito notava que Clara estava sensvel, nervosa, mesmo antes
de Osvaldo aparecer. Percebia que a sensibilidade dela estava desabrochando. Fizera
algumas tentativas de interess-la no assunto, mas sentia sua resistncia. Por experincia
prpria, sabia que tudo tinha o tempo certo e que deveria esperar amadurecer.
Faltavam cinco minutos para as oito quando Clara entrou no salo do centro, onde Ldia a
conduziu a uma cadeira ao redor da enorme mesa em que na penumbra algumas pessoas j
estavam sentadas, meditando em silncio.
Clara sentia o peito oprimido, uma desagradvel sensao de opresso, uma vontade
enorme de sair correndo, de gritar. Arrepios corriam-lhe pelo corpo, suas mos estavam
geladas e inquietas.
Foi difcil controlar-se enquanto Ldia fazia uma prece, evocando a proteo de Deus e a
ajuda espiritual.
Clara arrependia-se de ter ido. Seu corpo formigava e ela fez meno de levantar-se, porm
suas pernas no lhe obedeceram. Sentia um suor gelado molhando-lhe o corpo e tremia qual
folha sacudida pelo vento.
No suportando mais a presso, deu violento soco na mesa e gritou com voz rouca:
-- O que querem de mim? No acham que j sofri o bastante? Por que me atormentam?
At quando sofrerei pelo meu crime? No acham que j paguei pelos meus erros?
155
--Que justia  essa que exige cada vez mais, sem d nem piedade?
Os soluos irromperam fortes e Clara sentiu que perdia completamente o controle.
Apavorada, quis deixar o corpo, porm Ldia colocou a mo em sua nuca, dizendo com voz
suave:
Acalme-se. Queremos ajud-la.
--  mentira! Querem me expor ao vexame de um julgamento pblico. No vou suportar
isso!
-- No h aqui nenhum juiz. Somos todos amigos e companheiros interessados em seu
bem-estar.
-- No acredito! Minha culpa est mais viva. Por mais que eu tente esquecer, os fatos se
repetem. No suporto mais.
--Peo aos presentes que orem em favor dela.
Os presentes oravam e s se ouviam os soluos de Clara. Ldia continuou:
-- H quanto tempo carrega essa chaga viva em sua alma? Est na hora de libertar-se dela.
-- Como?
-- Perdoando, deixando o passado ir, esquecendo. Impossvel. Ainda est doendo. A
traio no se esquece assim. Acham que fui dura? A vingana era meu prmio. E eu pensei
que com ela pudesse apagar meu sofrimento. Mas foi intil. A culpa tem me atormentado.
-- Desejamos ajud-la. Mas precisamos que coopere conosco. Pense que a vingana s
agravou sua dor e procure perdoar-se compreendendo que errou porque no tinha
entendimento para agir de outra forma. O que faria se tudo acontecesse hoje?
-- Faria tudo diferente. Mas naquele tempo eu no sabia.
-- Compreenda isso e no se culpe mais. A vida est lhe oferecendo uma nova
oportunidade de progresso. Voc  um esprito eterno destinado a viver na luz. A felicidade
 o objetivo maior da vida. Est na hora de deixar o passado e recomear.
-- Ah, se eu pudesse...
-- Voc pode. A seu lado h um amigo que ir conduzi-la a um lugar de refazimento. Deus
a abenoe.
Clara suspirou e estremeceu. Sentiu um brando calor invadir seu corpo. Ldia aproximou-se
colocando em sua mo um copinho com gua. Clara bebeu e sentiu-se muito aliviada.
Quando a sesso terminou, esperou que as pessoas se fossem e aproximou-se de Ldia.
Perguntou:
156
-- Poderia me explicar o que aconteceu comigo hoje?
-- Voc no sabe?
-- Fiquei muito mal. Falei todas aquelas coisas, mas elas no fazem nenhum nexo para
mim. Era como se eu fosse outra pessoa.
-- Isso mesmo. Era outra pessoa falando atravs de voc. Como se sente agora?
-- Muito aliviada. Toda a minha inquietao desapareceu como por encanto.
-- Voc tem mediunidade.
-- Eu?  difcil acreditar. Nunca me envolvi com essas coisas.
-- Por que duvida? Passou pela experincia e continua resistente?
-- Mediunidade  um dom especial. Uma misso. Eu sou uma pessoa comum, nunca fui
dada aos assuntos religiosos.
-- Engana-se. Mediunidade  um dom natural, comum a todas as pessoas. Manifesta-se em
determinadas circunstncias.
-- Sempre ouvi dizer que os mdiuns tm uma misso especial. Confesso que no me sinto
preparada para nada disso.
Ldia sorriu e considerou:
-- A abertura da sensibilidade ocorre por vrios motivos. Problemas emocionais, fraqueza
ou doena fsica, amadurecimento do esprito, necessidade de cuidar dos problemas da
prpria alma sob a ptica espiritual. Voc falou em misso. Cuidado com isso. A
verdadeira misso de cada um  cuidar do prprio desenvolvimento interior, desenvolver a
lucidez, aprender como a vida funciona.
-- Sempre me disseram que a misso de um mdium era dedicar sua vida a ajudar os
outros.
-- Para fazer isso  preciso sentir o amor incondicional, sem o qual ningum est
preparado. Para dar  preciso ter.  sempre muito agradvel pensar que somos melhores do
que os demais porque praticamos o que chamam de caridade. Mas a ajuda verdadeira,
efetiva, que eleva as criaturas ensinando-as a caminhar com as prprias pernas, raramente 
feita. Ao desenvolver a mediunidade, muitos se apressam a fundar obras assistenciais, sem
meios nem recursos prprios para manuteno de seus projetos. Para isso procuram
arrecadar dinheiro, incomodando os outros para que comprem suas rifas e mantenham seu
projeto.
-- Mas a senhora mantm aqui um trabalho de ajuda aos pobres.
-- Mas no peo nada a ningum. Abrimos nossa livraria, que mantm as despesas do
centro. Dessa forma, alm de divulgar os ensinamentos espirituais, no incomodamos
ningum.
157
Apesar do que diz, ainda acho que a senhora tem uma misso especial.  to dedicada!
-- Quando despertamos para a espiritualidade, o bem se torna natural como o ar que
respiramos. Ainda assim, erramos muitas vezes, porque nosso conceito de bem  ainda
precrio. No desempenho das minhas atividades tenho aprendido muito com a vida. A cada
dia descubro uma coisa nova, portanto estou cuidando do meu progresso espiritual, que  o
mais importante para mim. Sabe, a mediunidade nos abre as portas do mundo espiritual,
descortina as infinitas possibilidades que nos esperam no futuro. A noo de eternidade nos
faz olhar o mundo de maneira mais serena. Pense nisso, Clara. Agradea a Deus ter
revelado a voc esse caminho.
Ldia falava com fluncia. Seus olhos brilhavam luminosos e suas palavras vibrantes
tocaram o corao de Clara.
De fato, sinto que alguma coisa mudou em mim. Gostaria de aprender. O que me
aconselha?
-- Estudar o assunto.
-- Quem era a mulher que falou atravs de mim? Senti que era mulher.
-- Um esprito necessitado que voc atraiu. Como assim?
Ela sentia muita culpa pelos erros passados.
-- Mas ento ela era ligada a mim de alguma forma? Por que me procurou?
-- No creio que fosse ligada ao seu passado. Voc ainda no se perdoou pelos erros que
cometeu. Ultimamente essa sensao tornou se mais presente. Ela se aproximou por
afinidade. Viu voc e sentiu se confortada porque pensava igual a ela.
-- Nos ltimos dias tenho estado muito inquieta, nervosa. Tenho dormido mal. Seria por
causa da presena dela?
-- Quando um esprito se liga a algum sensvel, ambos se influenciam, trocam energias.
Com a influncia dela, sua sensao de culpa tornou-se muito maior. Entendeu?
-- Sim. Se eu no me sentisse culpada, no a teria atrado?
--  provvel que no. Mas h outras emoes que poderiam atra-la. O que voc precisa
compreender  que, de acordo com nossos sentimentos, atramos companhia das pessoas. E
isso vale tambm para as pessoas encarnadas.
Clara ficou pensativa por alguns segundos. Depois considerou
-- No sabia disso. Mas noto que  difcil progredir espiritualmente.
158
Se por um lado a conscincia do bem nos faz enxergar melhor nossos erros, por outro a
culpa atrai espritos desequilibrados.
-- No  a conscincia do bem nem o conhecimento da verdade que nos prejudicam, mas a
maneira como encaramos esses fatos.
-- Como assim?
-- Voc alguma vez desejou fazer algo errado?
-- Claro que no.
-- Mas errou mesmo assim.
--  que eu era inexperiente. Hoje teria agido de outra forma.
-- Ento do que se culpa? A inexperincia  natural.
Clara fitou-a admirada. Ldia prosseguiu:
-- Voc sempre fez o melhor que sabia. Mas  claro que no sabia tudo.
--  verdade.
--  difcil admitir que pretendia ser melhor do que . A pretenso  porta aberta ao
desequilbrio.
-- No me julgo pretensiosa..
-- Engana-se. Voc no se conforma em ter errado, continua se punindo. Gostaria de nunca
errar, de fazer tudo certo para ser uma pessoa maravilhosa. Mas acontece que a sabedoria
s se conquista pela experincia. Como experimentar sem errar?
Clara ouvia emocionada. Vendo que Ldia se calara, disse:
-- Reconheo que naquele tempo eu no tinha amadurecimento.
-- Nesse caso, por que exige de si uma coisa que no tinha para dar? Reconhea que voc
foi inteligente o bastante para no repetir o erro. Soube reconquistar sua dignidade,
recuperar sua integridade. Voc transformou um ato leviano numa preciosa lio de vida.
Ganhou muito atravs dela.
Clara levantou a cabea e olhou sria para Ldia. Havia em seus olhos um brilho novo.
-- Entendo o que quer dizer. Tenho perdido muito tempo me criticando pelo que fiz, me
culpando, imaginando como teria sido minha vida se eu no tivesse feito o que fiz. Mas a
verdade  que, por mais que me culpe, por mais que me condene, no poderei voltar atrs.
O passado no tem remdio. O melhor  esquecer.
-- O melhor  compreender. Enquanto conservar a mgoa pelo que fez, pelo que seu
marido fez, no conseguir libertar-se dessa culpa. Torna-se preciso ir fundo na questo.
Assim como voc no soube fazer o melhor e resistir  tentao do momento, seu marido
tambm no conseguiu reagir aos fatos de outra forma. Voc est apreensiva com relao a
ele, sente-se ofendida porque ele desapareceu deixando em suas mos toda a
responsabilidade de manter a famlia.
159
Mas entenda que ele tambm fez o que acreditou melhor para ambos. Certo ou errado,
quem tem condies de avaliar? Eu no me atreveria a faz-lo. Quem poderia entrar dentro
do corao dele e sentir o que ele sentiu?
As lgrimas desceram pelas faces de Clara, que no encontrou palavras para responder.
Ldia abraou-a com carinho, dizendo:
-- Pense nisso, Clara. "No julgueis para no serdes julgados". So palavras de Jesus.
-- Tem razo. Farei isso.
-- Sua sensibilidade se abriu. Voc tem mediunidade. Precisa estudar esse assunto para
entender as leis universais. Lembre-se de que voc  a responsvel por tudo quanto lhe
acontece. Assim, apesar de registrar com mais intensidade as energias que a cercam e
perceber os pensamentos dos outros, dever guiar-se pelo seu bom senso, comandar sua
vida do seu jeito, sem se impressionar com as idias alheias. Estar cercada de energias de
todos os tipos, e  preciso ter discernimento para escolher o prprio caminho.
-- No sei se estou preparada...
-- Se no estivesse, a vida no lhe teria concedido essa capacidade. Tenho alguns livros
bsicos que gostaria de emprestar-lhe.
--Gostaria muito de me informar.
Ldia foi  outra sala e voltou com um livro que entregou a Clara. Ela leu: "O Livro dos
Espritos", de Allan Kardec.
-- Lerei com prazer.
-- Como est se sentindo?
-- Muito mais leve. Parece que me livrei de um grande peso.
-- assim mesmo. Agora v e volte na prxima semana para continuar seu tratamento.
Clara chegou em casa e Rita esperava-a. Vendo-a, disse:
-- Fiz um ch com aqueles bolinhos de que voc gosta. Voc no comeu quase nada hoje.
-- Aqueles de banana?
-- Esses mesmo. Esto quentinhos.
Sentadas na mesa da copa, elas se serviram e Rita considerou:
-- Voc parece muito melhor.
-- Agora. Mas a princpio fiquei muito mal. Nem sei como no sa de l correndo.
-- Em certos casos  assim mesmo. O que importa  o resultado. Clara contou o que havia
acontecido e Rita comentou:
160
-- Bem me pareceu que voc possua mediunidade. Voc tem muita intuio. s vezes
sabe das coisas antes de acontecerem.
--  verdade. Mas acho que sou muito ignorante em relao a esses assuntos. Eles so
muito mais importantes do que eu supunha. Agora quero estud-los. Tenho perdido muito
tempo com coisas que s me prejudicaram.  hora de aprender a conhecer mais da vida
para poder viver melhor.
-- Assim  que se fala. Que bom que entendeu.
Clara foi ver os filhos que estavam dormindo, depois foi se deitar. As palavras de Ldia no
lhe saam da cabea.
Lembrou-se de Osvaldo, de como ele era carinhoso com ela e com os filhos. De seu
envolvimento com Vlter. De como fora ingnua deixando-se levar pela conversa dele.
Pelos elogios que ele fazia de sua beleza, de sua inteligncia. Da proximidade que ele
explorava furtivamente quando no havia ningum por perto. Da mediocridade de sua
sogra, sempre vigiando seus passos, criticando tudo. Osvaldo nunca lhe deu ouvidos. Se ele
pensasse como sua me, no teriam vivido tantos anos juntos.
A recordao provocava nela sensao desagradvel, mas ao mesmo tempo reconhecia que
havia aprendido muito. Ldia tinha razo ao afirmar que a vida ensina.
Acendeu a luz do abajur, levantou-se e foi at uma gaveta da cmoda. Tirou uma caixa
onde guardava as fotos de famlia. Abriu-a e comeou a contempl-las. As fotos dos
meninos desde quando nasceram, as suas, as de seus pais.
Desde que se separara de Osvaldo, havia jogado fora todas as fotos dele, inclusive a do
casamento. O passado era pgina virada, e estava disposta a esquecer.
Levou um susto quando encontrou uma foto dos dois sorrindo. Como ela ficara entre as
outras? Segurou-a disposta a rasg-la, mas ficou olhando. Aquele havia sido um tempo
feliz. Naquele tempo amava o marido. Viu a data: o primeiro aniversrio de casamento.
Tinham ido jantar fora para comemorar.
Olhos perdidos no tempo, Clara recordou-se daquela noite e algumas lgrimas brilharam
em seus olhos.
O que havia feito de suas vidas? Como tinha sido capaz de jogar fora aqueles momentos
felizes?
Ps-se diante do espelho e examinou detidamente seu rosto. Era ainda moa e bonita.
Muitos homens a haviam cortejado depois da separao. Por que nunca mais fora capaz de
amar?
161
Medo de sofrer, de assumir responsabilidades, falta de confiana em si, em seus
sentimentos?
Por que ao pensar no marido sentia um aperto no peito, uma desagradvel sensao de
opresso, de tristeza, de fracasso? Seria arrependimento, culpa?
Apesar de ter errado, ela no era uma fracassada. Estava cuidando da famlia, havia
recuperado a dignidade, sabia que tinha capacidade para sustentar os filhos com conforto.
Tornara-se independente.
Ento, que sentimento era esse que a incomodava? Lembrou-se das palavras de Ldia:
"Voc sempre desejou fazer o melhor. Acontece que no sabia tudo." Era verdade. Ela
havia se iludido com Vlter, mas em nenhum momento pensara em magoar o marido nem
em provocar aquele drama. Reconhecia que fora ingnua e pagara um preo alto por isso.
Em compensao, tornara-se mais consciente, amadurecida. Ldia estava certa. Ela no
tinha culpa de ter sido ignorante nem Osvaldo por no haver encontrado foras de voltar e
enfrentar a situao.
A esse pensamento, Clara sentiu-se aliviada. Ao mesmo tempo, reconhecia que, se Osvaldo
voltara, tinha sido porque decidira encarar a famlia de frente. Estava sendo corajoso, e ela
precisava fazer o mesmo.
Decidiu no intervir mais no relacionamento dele com os filhos.
Com sua leviandade j o punira uma vez. No faria isso de novo. Apanhou novamente a
foto e olhou-a pensativa. Osvaldo era um homem atraente, elegante, inteligente. Depois de
tantos anos vivendo no campo, como estaria?
Respirou fundo, guardou a caixa e deitou-se novamente. Sentia se melhor e desta vez no
demorou a adormecer.
162
Osvaldo olhou para o relgio com certa impacincia. Estava na hora de Carlinhos sair.
Fazia dois meses que ele se encontrara com Marcos e seu relacionamento com ele estava
melhor a cada dia.
Contudo, Carlinhos se negava a encontr-lo, no tocando na generosa mesada que ele
estava mandando. Cansado de esperar, Osvaldo havia tomado uma resoluo. Estava
esperando-o na sada do colgio. Ele teria de ouvi-lo.
Os meninos estavam saindo e Osvaldo observava-os com ateno, tentando reconhecer o
filho. Marcos havia lhe dado algumas fotos.
Depois de uns poucos minutos, ele o viu em companhia de um colega. Conversava
animado. Emocionado, Osvaldo aproximou-se:
-- Carlinhos!
Ele parou surpreendido e empalideceu. O rapaz fez meno de se afastar, mas Osvaldo
segurou-o pelo brao.
-- Quero falar com voc.
-- Mas eu no quero. Vou embora.
O amigo olhava-os surpreendido e perguntou:
-- O que est havendo? Quem  ele?
-- Sou o pai de Carlinhos. Precisamos conversar.
O menino olhou admirado para ambos e tomou:
-- Nesse caso vou indo. At amanh.
Carlinhos no respondeu. Estava plido e nervoso. Osvaldo disse-lhe srio:
-- No suporto mais esta situao entre ns. Temos de esclarecer as coisas.
-- Para mim est muito claro. Vivi at agora sem voc, posso continuar vivendo. Minha
me nunca nos abandonou.
-- Venha. Vamos conversar em outro lugar.
163
Captulo 14
-- No quero. Vou embora.
Osvaldo continuava segurando o brao dele.
-- No vai, no. Venha, vamos at o carro.
-- Voc est me obrigando a fazer uma coisa que eu no quero.
-- No compreende que no podemos deixar como est? Se depois de nossa conversa voc
decidir que nunca mais quer me ver, saberei respeitar. Mas precisa me dar a chance de
explicar o que aconteceu. Vamos.
Carlos no respondeu e acompanhou-o. Uma vez no carro, Osvaldo considerou:
-- O que vou lhe dizer no significa uma crtica  sua me. Reconheo que o amor
independe da nossa vontade. Assim como ele vem, pode ir embora. Foi o que nos
aconteceu. Sua me apaixonou-se por outro e no teve coragem para me dizer.
-- Isso no  verdade. Depois que voc nos abandonou, ela no quis nada com ele.
-- Ela tomou essa deciso depois. Mas, quando os surpreendi juntos, fiquei louco. Essa
possibilidade nunca havia passado pela minha cabea. Eu continuava a am-la como no
primeiro dia.
-- Do jeito que voc fala, ela foi a nica culpada. Mas eu no penso assim. Mame tem
sido maravilhosa. Trabalhou muito para nos manter enquanto voc no se importou com
nossas necessidades.
-- Voc tem razo, mas eu tambm no tinha como sustent-los. Minha cabea estava
perturbada. Havia abandonado o emprego e no podia pensar em nada que no fosse a dor
que me atormentava. Voc no pode saber o que  esse inferno: o cime, a sensao de
fracasso, a perda da confiana e at da vontade de viver.
-- Voc fugiu, no teve coragem de enfrentar. Desapareceu quando ns mais precisvamos
de voc.
-- Reconheo que fui fraco. No me culpo, porque sei que naquele momento estava
impossibilitado de fazer outra coisa. Meu mundo desabou de tal forma que perdi o senso.
Pensei em morrer.
Carlos olhou para ele assustado. Osvaldo continuou:
-- Minha famlia me cobrava uma atitude. Queriam que matasse meu rival, mas sou contra
qualquer tipo de violncia. No desejava me vingar. Resolvi desaparecer. Tomei um trem,
mas meu tormento era tanto que em um momento de irreflexo quis morrer e pulei do
vago em movimento.
Carlinhos ouvia em silncio, mos crispadas, rosto ansioso. Osvaldo, olhos perdidos em
suas lembranas, prosseguiu:
164
-- Deus quis me poupar de cometer esse desatino. Fiquei desacordado e fui salvo por um
campons e seu filho que passavam pela estrada e me recolheram. Sua famlia, gente
simples e boa, fez tudo para salvar minha vida. Foi Antnio, um curandeiro da roa, quem
me fez voltar  vida e cuidou de mim. Mais tarde, fui morar com a famlia dele em seu stio,
onde ele me ensinou muitas coisas.  um homem sbio, que muito me ajudou a retomar aos
poucos a coragem de continuar vivendo. Eu gostaria de ter agido diferente, mas no pude.
As lgrimas lavavam o rosto de Carlos e ele no conseguia falar.
Emocionado, Osvaldo continuou:
-- Durante esse tempo todo senti muita saudade de vocs, da nossa vida juntos, mas no
tinha coragem de voltar. Pretendia viver o resto dos meus dias naquele ambiente simples,
com aquelas pessoas que me ensinaram a bondade, uma vez que eles vivem ajudando todos
que os procuram. Porm no suportei a saudade e, uma tarde em que fomos  vila, telefonei
para tia Ester. Ento fiquei sabendo como vocs estavam. Desde ento, passamos a nos
corresponder. Tia Ester falava com Rita para saber de vocs, depois me escrevia contando.
Soube que vocs me davam por morto. Achei melhor deixar assim. Mas tia Ester morreu e
me encarregou de cuidar de tudo que possua. Fez-me seu herdeiro e decidi voltar. Pensei
que podia dividir esses recursos com vocs e compens-los de alguma forma pelo tempo
que ficamos separados.
-- Ns no precisamos do seu dinheiro -- disse Carlos com voz magoada.
-- No  apenas isso que vim lhes oferecer. No entende como me sinto? Vivi todo o
tempo sem nenhum recurso financeiro, e isso pouco me importava Voltei para dizer que
sempre amei vocs, que no pude fazer melhor do que fiz porque sou fraco. Mas o amor
que existe em meu corao continua o mesmo. No houve um dia sequer que eu tenha
deixado de pensar em vocs, em como gostaria de abra-los e dizer o que me vai no
corao.
Carlos esforava-se para manter-se firme, mas no pde conter os soluos. Osvaldo
abraou-o, beijando seus cabelos com carinho, misturando suas lgrimas.
-- Filho, como desejei abra-lo como agora! Diga que me perdoa e no me negue o
conforto da sua amizade.
Carlos no pde responder de pronto. Continuaram abraados durante alguns instantes.
Depois ele respirou fundo e respondeu:
-- Perdoe-me, pai. Eu tambm sofri muito por no ter voc e no saber onde se encontrava.
Muitas vezes acordava durante a noite e no conseguia mais dormir pensando onde e como
voc estaria, se havia morrido, se estava doente, passando necessidade. Foi horrvel.
165
Osvaldo apertou-o de novo em seus braos e beijou-lhe a testa, dizendo:
-- Esse tempo passou, meu filho. Eu voltei e pretendo nunca mais deix-los.
-- Voc vai voltar para casa?
-- Isso no  possvel. Mas estarei sempre com voc e seu irmo.
-- Voc no perdoou mame. Ainda guarda ressentimento do passado.
-- Eu no a condeno. Assim como eu, ela fez o que pde diante do que sentia. Mas
compreenda que nosso relacionamento rompeu- se naquele tempo e no tem volta. Ela no
me ama mais. Depois, muitas coisas aconteceram todos estes anos. Nossos caminhos so
diferentes. Mas isso no muda em nada o fato de que vocs so meus filhos e eu os amo
muito.
-- Voc no a ama mais?
Apanhado de surpresa, Osvaldo no soube o que dizer. Ficou calado por alguns instantes, e
Carlinhos continuou:
-- Voc diz que ela no o amava mais. Contudo, ela nunca arranjou outro. Teve
oportunidade. Eu vi. Mas nunca quis. Sempre pensei que ela nunca o esqueceu.
-- No alimente iluses, meu filho. O que passou no volta, por mais saudade que
tenhamos.
-- Voc tem outra mulher?
-- No.
-- Vocs so novos ainda. Por que continuam sozinhos?
-- Talvez porque uma vez foi o bastante para no desejar repetir a dose. Mas falemos de
voc. Gostaria que me falasse do que gosta, quais seus planos para o futuro.
Osvaldo sentia-se feliz por ter rompido a barreira que o separava do filho. Dali para frente,
ele poderia tomar-se mais amigo deles, ajud-los a viver melhor, com mais conforto, amor
e alegria.
Deixou o filho em casa com a promessa de se encontrarem para um jantar no fim de
semana.
-- Vou ligar para Marcos e combinar -- disse ele na despedida.
Carlos entrou em casa e Rita fixou-o admirada.
-- Aconteceu algo? -- indagou, notando seus olhos vermelhos
-- Papai estava me esperando na sada da escola. Estivemos conversando.
166
Rita parou o que estava fazendo e disse:
-- Vocs se entenderam?
-- Sim. Ele me explicou muitas coisas e fez-me mudar de idia.
-- Fico feliz. O Sr. Osvaldo foi sempre um homem bom, um pai amoroso.
-- Acho que ele ainda ama mame.
-- Pode ser. Ele era muito apaixonado por ela.
-- Bem que eu notei. Quando ele falava nela, seus olhos brilhavam. Mas ele disse que no
pretende voltar para casa.
--  melhor voc no se envolver nesse assunto. Sua me pode no gostar.
-- Ela j chegou?
-- Ainda no. Mas ela tem estado nervosa. Teme que vocs se apeguem a ele e a deixem.
-- Isso nunca vai acontecer. O lugar dela  sagrado. Tanto eu quanto Marcos sabemos
como ela nos quer bem e tem se esforado para nos dar conforto e amor.
Rita sorriu e passou a mo no rosto dele, acariciando-o.
-- Eu sei disso. Vocs so os melhores filhos do mundo. Agora v tomar banho que sua
me logo estar aqui para o jantar.
Enquanto ele subia contente, Rita no continha a alegria. Depois de tantos anos, as coisas
estavam comeando a voltar aos devidos lugares. No acreditava na reconciliao de
Osvaldo e Clara. Mas achava muito bom que os meninos pudessem conviver com o pai,
usufruindo seu carinho e proteo.
Clara chegou em casa uma hora depois e Marcos j estava presente. Rita mandou servir o
jantar e no lhe contou nada. Preferia que Carlinhos o fizesse.
Depois do jantar, Carlos chamou a me, dizendo:
-- Aconteceu uma coisa que preciso lhe contar.
-- O que foi? -- indagou Clara, preocupada.
-- Vamos nos sentar na sala.
Depois de acomodados, ele continuou:
-- Papai foi me esperar na escola e tivemos uma conversa.
Clara empalideceu, mas esperou que ele prosseguisse.
-- Ele me contou tudo que lhe aconteceu depois que saiu de casa.
Com voz emocionada, Carlos relatou o que Osvaldo lhe contara. Clara sentia o peito
oprimido, enquanto a sensao de culpa reaparecia com toda a fora.
As lgrimas comearam a cair e ela disse em tom amargurado:
167
--Eu sei que fui culpada de tudo. Voc deve estar me odiando. Se soubesse como me
arrependo! Mas agora  tarde. O mal j est feito e no h como voltar atrs.
Carlos abraou-a com carinho:
--No se culpe, me. Papai fez-me entender que tanto voc quanto ele eram muito jovens e
no tinham maturidade para agir de outra forma. Ele no a condena. Ao contrrio. Aceita os
fatos como so. Disse que ningum manda no corao, que voc deixou de am-lo,
apaixonou-se por outro e no teve coragem para dizer a verdade.
Clara levantou o rosto lavado em lgrimas e perguntou admirada:
-- Ele disse isso mesmo? No me odeia pelo que fiz?
-- No vi dio nem ressentimento em seus olhos. Notei s amor. Cheguei a pensar que ele
ainda ama voc. Ele tambm no se casou mais. Vive sozinho.
Clara ficou calada por alguns instantes. A postura nobre do marido a comovia. Era a
primeira vez que via um homem trado, da forma como aconteceu, no guardar rancor.
-- Pode ser que ele no me odeie. Mas amar no, acredito. Voc est exagerando. O que eu
fiz, nenhum homem perdoa. O que mais ele lhe Contou?
-- Mais nada. S disse que o relacionamento de vocs no tem nada a ver com seu amor de
pai. Ele quer conviver conosco, nos apoiar e proteger. Por fim, combinamos jantar no
sbado.
Clara suspirou resignada. O aperto no peito continuava, mas e sentia que no poderia
impedir Osvaldo de conviver com os filhos. Seria puni-lo duas vezes.
Vendo que ela continuava pensativa, Carlos abraou-a, dizendo que Papai  um homem
bom e eu gosto dele. Mas voc vem em primeiro lugar. No pense que vou esquecer o que
tem feito por ns. Beijou-a na testa e continuou: -- No fique triste por ele ter voltado
Tenho Certeza de que vamos viver muito melhor sem aquela mgoa no corao. Eu
gostaria muito que voc tambm esquecesse o passado. Chega de culpar-se, de ficar
lembrando o que j foi e no tem remdio. Me, de agora em diante, vamos comear uma
vida nova.Meu maior desejo  v-la feliz.
Clara apertou o filho nos braos, beijando-o na face.
-- Obrigada, meu filho. Voc tem razo. Precisamos enterrar passado de uma vez. Vocs
so jovens, precisam viver em um ambiente alegre e merecem ser felizes. Nunca mais
voltaremos a este assunto
-- Agora gostei! -- disse Marcos, que havia alguns minutos estava parado na soleira
ouvindo a conversa sem querer interromper.
168


--Finalmente vocs entenderam. O passado est morto e no tem volta vamos tocar nossas
vidas para frente com alegria. Nossa felicidade  de como olhamos a vida. Vamos pensar
sempre no melhor.
Clara abriu os braos e os trs juntaram-se no mesmo abrao.
Mais tarde, quando os rapazes se recolheram, Rita, satisfeita, aproximou-se de Clara.
-- Agora est tudo bem.
--No sei. Ainda sinto meu peito oprimido.
--Deveria sentir-se aliviada. Estava com tanto medo!
--Ainda estou. Voc acha que Osvaldo pode estar fingindo?
--Como assim?
--Dizendo aos meninos que no me odeia. Isso no  natural. No fundo ele deve estar com
raiva, me culpando.
--Voc est fantasiando. No sabe o que vai no corao dele. Osvaldo sempre um homem
muito bom.
--Nenhum homem perdoa o que eu fiz.
--Voc tambm precisa parar de culpar-se. Voc se odeia pelo que fez por isso no aceita
que ele no faa o mesmo. Quer dividir sua culpa com ele. S que ele entendeu diferente.
Carlinhos me contou reconhece que vocs eram imaturos. Cada um foi fraco em um ponto,
e deu no que deu. Alis, j ouvi Dona Ldia falando sobre isso.Ela pensa como ele. Clara
suspirou pensativa.
--Ele sempre foi melhor do que eu. Pode ser mesmo que tenha do no guardar rancor.
--Assim  melhor. Voc no pode julgar os outros por voc.
Cada pessoa tem seu prprio modo de ver e sentir as coisas. -- Fez pequena pausa e
comentou: -- Deu para perceber que voc continua gostando de Osvaldo.
-- verdade. Eu o admiro e desejo muito que ele seja feliz. Carlinhos disse que ele tambm
no se casou mais. Depois do que passamos no d para comear tudo de novo. Eu nunca
mais quero ningum.
Naquele momento em sua casa, Neusa, me de Osvaldo, preparava-se para dormir quando
Antnio bateu na porta do quarto e foi entrando:
-- Me tenho uma novidade.
Ela interessou imediatamente:
--O que ?
169
-- Hoje fui ao bar de Jos e encontrei Vlter.
-- Aquele sem-vergonha?
Antnio deu de ombros e disse malicioso:
-- Homem  homem. Clara  que foi sem-vergonha. Se ela no desse trela, ele no teria
feito nada.
-- Os dois so farinha do mesmo saco. J disse que no gosto voc converse com ele.
-- De vez em quando nos encontramos, e no posso evitar. A final, ele  meu amigo,
sempre foi bom para mim. Arranjou aquele emprego que eu nunca deveria ter largado.
Nunca mais arranjei emprego to bom. Temos vivido mal. Para dizer a verdade,  Vlter
que ai tem me arrumado uns bicos para ganhar algum. No posso perder amizade por causa
de um irmo que nunca se importou conosco. Agora que voltou rico, bem que podia nos
ajudar. Mas at hoje nem perguntou se precisamos de alguma coisa.
-- Deixe seu irmo em paz. Ele sempre foi ingrato mesmo.Mas temos de engolir tudo e nos
aproximarmos dele. Uma hora ele vai ver quanto precisamos de dinheiro e vai nos ajudar.
-- Tomara. Mas Vlter ouviu falar sobre a herana de Osvaldo me procurou para saber dos
detalhes. Estava muito irritado. Disse que tia Ester deveria ter deixado esse dinheiro para
ns, no para Osvaldo.
-- Conheo aquele bajulador. Disse isso para agradar, e voc entrou logo na dele.
-- Ora, me, que interesse ele pode ter?  ele quem tem no ajudado. Sabe o que ele me
disse?
Neusa balanou a cabea negativamente e ele continuou:
-- Que ainda ama Clara. Est disposto a casar-se com ela.
-- Casar como, se ela j  casada?
-- H jeito para tudo. Basta ter dinheiro. Conheo gente desquitada que se casou por
contrato ou em outro pas e hoje vivem muito bem, criaram famlia e so respeitados.
-- Ele nunca deveria pensar em fazer isso com Clara. Assim ela traiu Osvaldo, pode fazer o
mesmo com ele.
-- Foi o que eu disse a ele. Mas Vlter acredita piamente na honestidade dela. Tem vigiado
seus passos e disse que ela nunca saiu com ningum. Nem com ele.
-- Ainda bem. J pensou nos meninos?
-- So seus netos, mas nunca nos visitam. Ela no deixa.
-- Por isso no a perdo.
-- Eu acho que Clara no vai dar mais confiana a Vlter.Se no ficou com ele quando
estava sem saber de Osvaldo, agora que ele voltou rico vai querer dar em cima dele de
novo.


170
Neusa ps as mos na cabea.
-- Deus nos livre e guarde! Tudo menos isso!
O pior, me,  que aquele bobo pode bem cair nessa. Nunca vi ningum mais mole do que
ele.
-- Amanh mesmo vou fazer-lhe uma visita. Preciso sondar o que ele pensa e, se for
preciso, abrir-lhe os olhos.
-- Tempo perdido. Ele nunca nos ouviu!
-- Mas vou tentar.  meu dever de me.
No dia seguinte, Neusa foi  casa de Osvaldo. Jos atendeu-a e informou que o patro
estava tomando caf na copa. Ela foi entrando sem esperar que ele o avisasse. Jos seguiu-a
contrariado.
Quando entraram na copa, ele foi logo dizendo:
-- Desculpe, mas no pude evitar.
-- Est tudo bem -- respondeu Osvaldo, levantando-se para cumprimentar a me.
-- Meu filho! Eu vim porque estava com saudade. Voc nunca vai nos visitar, saber como
estou.
-- Sei que est muito bem. J tomou seu caf?
-- J. Mas  claro que no foi to farto quanto este. Antnio est desempregado desde...
Hesitou um pouco. Depois, vendo que Osvaldo continuava calado, continuou: -- Voc
sabe: ele perdeu aquele timo emprego por causa de Clara. Nunca mais conseguiu outro
igual.
Osvaldo havia se sentado novamente, levou a xcara de caf com leite aos lbios e disse
calmo:
-- Se ele se esforar, poder arranjar outro melhor.
-- Eu sou testemunha de como ele tem se esforado. Mas est difcil.
-- Sirva-se  vontade -- disse ele.
Ela se serviu de caf com leite e uma generosa fatia de bolo, dizendo com voz queixosa:
-- Ainda bem que voc voltou. Precisa saber como temos sofrido todos estes anos. H dias
em que no temos nada para cozinhar. Suspirou resignada e concluiu: -- Mas eu no vim
aqui para me queixar nem lhe trazer problemas.
--  bom saber disso.
-- Vim para dizer que Antnio esteve com Vlter e ficou sabendo muitas coisas.
Osvaldo olhou para ela com seriedade e respondeu:
171
-- No quero falar sobre esse assunto.
-- Mas eu preciso dizer. Ele ainda est apaixonado por Clara, deseja casar-se com ela, por
contrato ou sei l como. Est achando que ela no vai aceit-lo porque voc voltou rico. Ela
agora vai preferir voltar para voc. Isso seria uma vergonha. Voc no pode concordar com
uma coisa dessas.
Osvaldo trincou os lbios, procurando conter a raiva. Fitou-a s rio e respondeu:
-- Eu disse que esse assunto no me interessa. Voc insiste, e isso me irrita.
--  que eu sou sua me. No posso permitir que voc volte para ela. O que os outros vo
dizer? Diga-me que no pretende perdo-la. Ela infelicitou toda a nossa famlia e merece
ser castigada.
Osvaldo levantou-se tentando manter o controle.
-- No lhe dou o direito de meter-se em minha vida, muito menos dizer o que devo ou no
fazer. Este assunto diz respeito apenas a mim e a meus filhos. No admito que se intrometa.
-- Apesar de tudo, voc ainda a defende! Antnio tem razo: se ela quiser voltar, voc vai
cair feito um bobo.
-- Eu lhe disse para no falar nisso, mas voc insiste. No vou ficar ouvindo. Tome seu
caf e depois v embora. Enquanto estiver pensando dessa forma, no venha mais aqui.
-- Meu filho! Est expulsando a mim, que sou sua me, para de fender aquela
desclassificada? No posso acreditar.
-- Acredite -- disse ele com voz fria. -- Agora preciso sair. Se for para falar do passado,
no venha mais me visitar.
Ele saiu, deixando Neusa, que estava com cara chorosa mas logo mudou a fisionomia e
tratou de saborear as guloseimas que havia sobre a mesa. Jos observava-a furtivo e no
conteve o riso. Conhecia Neusa o suficiente para saber o quanto era fingida. Considerou
que felizmente o patro no se deixara envolver pelas palavras dela.
Osvaldo fechou-se no escritrio pensativo. Apesar de no levar a srio nada do que Neusa
dizia, no conseguiu deixar de pensar em suas palavras. No acreditava que Clara aceitasse
casar-se com Vlter. Se ela gostasse dele, teria ficado a seu lado quando se separaram.
As informaes que lhe deram eram de que Clara rompera com Vlter havia muitos anos,
demonstrando claramente que no desejava viver com ele. Por que agora, tantos anos
depois, quando a vida o trouxe de volta, Vlter reaparecia insistindo no mesmo propsito?
E se desta vez Clara se dispusesse a aceit-lo? Osvaldo sentiu um aperto no peito e
levantou-se nervoso.
172
Ele no tinha mais nenhum direito sobre Clara. Ela era livre para fazer o que quisesse com
sua vida. Por que ento essa inquietao, esse medo? A mgoa que tentara eliminar e
julgava extinta ainda estaria em seu corao?
Lembrou-se dos filhos. Era por isso que ele no desejava que eles reatassem. S pelos
filhos.
Esse pensamento o acalmou. Clara era dona de si e no lhe de via nenhuma explicao.
Mas a idia de que Vlter a estivesse procurando para reatar deixava-o irritado.
-- Qualquer um, menos ele -- pensava nervoso.
Habituado a estudar os acontecimentos do dia-a-dia na tentativa de compreender o que a
vida desejava ensinar-lhe, pensava que o fato de sua volta ter reacendido o interesse de
Vlter por Clara precisava ser analisado.
Sentia que a vida os estava reunindo, trazendo o passado  tona por alguma razo. Mas para
qu?
Se ele no odiava ningum, se havia conseguido compreender a atitude de Clara, se via em
Vlter um conquistador como tantos outros que se prevaleceu da fraqueza de uma mulher,
por que tinha que rever tudo outra vez?
Sabia que, quando uma situao est espiritualmente resolvida, ela no se repete e as
pessoas envolvidas s voltam a se encontrar se o quiserem. Se o passado estava de volta, se
a vida estava reunindo as pessoas, era porque ainda havia problemas inacabados, fatos a
serem esclarecidos.
Osvaldo suspirou fundo. Bem que ele gostaria de no voltar a esse passado, mas ao mesmo
tempo sentia que, se a ferida doa, ainda estava preso a ele.
Seu primeiro impulso foi de ir embora, voltar para o interior, onde a vida era simples e
calma. Daria toda a sua fortuna para os filhos e viveria o resto de seus dias trabalhando com
Antnio. Tinha saudade dos momentos de orao e da alegria de viver entre pessoas
amorosas e sinceras.
Sentou-se na cama e passou a mo pelos cabelos angustiado. Lembrou-se dos filhos, de
seus encontros com eles e o prazer que havia sentido em estar a seu lado. Lembrou-se dos
projetos que haviam feito. Ele no queria separar-se deles de novo.
Fugir no era soluo. Onde quer que fosse viver, os problemas no resolvidos iriam junto,
dentro do seu corao.
Enquanto trabalhava com Antnio, muitas vezes tinha sido procurado por pessoas que em
meio aos prprios problemas emocionais buscavam a ajuda espiritual para um conselho,
uma palavra de esclarecimento.
173
Ele as ouvia com ateno e sob a inspirao dos amigos espirituais procurava tornar clara a
situao, analisando-a sob a ptica da espiritualidade.
Respeitando o livre-arbtrio de cada um, esclarecia as possibilidades, nunca opinando sobre
o que deveriam fazer.
Algumas frases que os amigos espirituais costumavam dizer vieram-lhe  mente:
"Cada um  responsvel por tudo quanto lhe acontece. Como  que voc atraiu tudo isso?"
Reconheceu que era mais fcil ser canal dos espritos, aconselhar os outros, do que fazer.
Uma coisa era certa: fugir seria repetir o mesmo erro. No. Ele precisava ficar e enfrentar o
que viesse. Sentia-se arrastado de volta ao passado. Nos fatos que tanto o infelicitaram
ainda havia lies que ele no aprendera. Por isso a vida o chamava a recapitular.
Emocionado, Osvaldo ajoelhou-se e orou pedindo aos amigos espirituais que o inspirassem
para que conseguisse perceber a verdade.
De repente sentiu-se forte, disposto a enfrentar o futuro e aprender as lies que lhe
faltavam. Certa vez firmara interiormente o propsito de trabalhar a favor das energias da
vida.
Sabia que, para isso, teria de ficar atento aos sinais que ela lhe daria. Para segui-los era
preciso no julgar ningum, estar aberto aos acontecimentos, olhar os fatos sempre pelo
lado positivo.
Para trabalhar a favor da vida  indispensvel acreditar que ela sempre faz o melhor,
visando o progresso de todos.
Osvaldo levantou-se sentindo um brando calor dentro do peito.O aperto e a angstia haviam
passado.
174
Captulo 15
Passava das sete quando Clara saiu do trabalho. A noite j havia descido e estava fria. Ela
estugou o passo procurando cobrir parte do rosto com a echarpe, pois o vento estava
gelado.
De repente, algum segurou seu brao. Ela se voltou e deparou com Vlter.
-- Clara! Temos de conversar!
-- No tenho nada para falar com voc -- disse ela soltando o brao em um gesto brusco.
-- Por favor! No seja rancorosa. Em nome dos velhos tempos, oua o que tenho a dizer.
-- Tenho pressa.  tarde e estou cansada.
-- No faa isso comigo. O que tenho a lhe dizer  importante. Vamos entrar aqui, tomar
um caf ou um chocolate.
Ela o fitou sria e indagou:
-- Aconteceu alguma coisa?
-- Sim. Venha comigo.
Desta vez ela concordou. Ele estava abatido, e Clara resolveu ouvi-lo.
Sentaram-se em um canto discreto, e ele pediu chocolate quente para os dois.
-- E ento? -- indagou ela, inquieta.
-- Estive com Antnio e ele me informou que Osvaldo voltou.
Vendo que ela continuava calada, ele continuou:
-- Disseram-me que ele foi procur-la. Fiquei receoso. Ele pode querer se vingar de ns.
-- No se preocupe. O passado est morto.
-- Mas ele agora est rico. Tem estado com seus filhos. Vai querer voltar para voc.
175
-- Pare de fantasiar os fatos. No sei o que Antnio ou Neusa lhe disseram.  verdade:
Osvaldo voltou, procurou os filhos. Tem todo direito de estar com eles.  s isso. Nada
mais.
-- Mas ele est sozinho. Tenho certeza de que deseja voltar para voc.
--Esse  um problema meu e voc no tem nada com isso. No tenho nenhum
compromisso com voc e no gosto que fique se intrometendo em minha vida. O que houve
entre ns foi um acidente do qual estou muito arrependida e gostaria de esquecer. No
quero que voc se envolva em minha vida particular.
--Isso quer dizer que, se ele desejar voltar, voc o aceitar?
-- No tenho de lhe dar satisfaes.
-- Eu sei. Voc ainda ama Osvaldo. Por isso me mandou embora de sua vida. Eu que
sempre a amei, que durante estes anos todos no tive outra mulher e desejo me casar com
voc.
--Pare com isso -- tornou ela irritada. -- Eu no amo voc. Nunca o amei. Tivemos um
caso que, agora sei, foi apenas uma fantasia para mim. Eu era muito jovem, imatura. Se
fosse hoje, no teria me envolvido com voc.
-- Voc diz isso agora. Mas naquele tempo bem que gostava! Estremecia quando eu a
tocava. Acha que esqueci?
-- Pois trate de esquecer.
-- Eu vim falar com voc porque desejo que reconsidere. Continuo querendo me casar.
-- Eu ainda estou casada legalmente.
-- Isso me intriga muito. Voc nunca pediu a separao legal por que tem esperanas de
que ele volte e reate o casamento.
Clara levantou-se:
-- Voc est louco. Preciso ir embora.
O garom trouxe o chocolate e Vlter pediu:
--Sente-se. Tome seu chocolate. Ainda no terminei. Oua o que tenho a dizer.
Ela se sentou novamente.
-- Seja breve. Se for para continuar o mesmo assunto, no vou ouvir.
-- Estou preocupado. Osvaldo pode ter voltado para vingar-se.
-- Agora voc mudou. Primeiro ele ia voltar para mim, agora vai se vingar.
-- Claro. Ele deseja voltar no por amor mas para se vingar. Se voc o aceitar, ele a far
sofrer muito. At a famlia dele pensa isso.
176
-- No acredito em nada disso.
-- Pois devia acreditar. Por esse motivo a procurei. Desejo proteg-la. Voc ainda  casada
legalmente, mas est separada h muitos anos. Poderemos requerer o desquite e nos
casarmos no Uruguai. Comigo do seu lado, ele no se atrever a assedi-la. Estou disposto
a tudo para provar-lhe quanto a amo. Apesar de dizer que no me quer, sei que sob as
cinzas do seu corao ainda h uma chama que devidamente alimentada voltar a arder.
Clara suspirou fundo e levantou-se, desta vez disposta a ir embora.
-- O que voc diz no tem cabimento. No quero casar com ningum. Sou auto-suficiente
para cuidar de minha vida e de minha famlia. No preciso de homem algum que me
defenda, muito menos de voc. Por favor, deixe-me em paz. No me procure, porque ser
intil.
-- Pelo menos pense no que eu lhe disse. No responda agora. Dentro de uma semana
voltarei a procur-la.
-- No volte, porque no desejo mais v-lo.
Ela saiu rapidamente e Vlter acompanhou-a com os olhos at que ela desaparecesse. A
semente estava lanada. Amava aquela mulher. Durante aqueles anos tivera outros
relacionamentos sem expresso. Nenhuma mulher era como ela. Depois, o fato de Clara o
haver repelido estimulava sua admirao.
Sempre tivera sucesso com mulheres. Por que Clara resistia?
Apesar da resistncia dela, estava convencido de que, se insistisse, poderia reconquist-la.
Continuou tomando seu chocolate, pensando em qual seria o prximo passo para alcanar
seus objetivos.
Clara chegou em casa nervosa. Rita notou logo:
-- Aconteceu alguma coisa? Voc est com uma cara!
-- Estou cansada e tive de aturar Vlter.
-- De novo?
-- Pois . Uma desgraa nunca vem s. J no chega Osvaldo, agora Vlter.
-- O que ele queria?
-- Veio com uma conversa de que precisa me proteger de Osvaldo, que ele vai querer
voltar para mim s para se vingar. Quer fazer um contrato de casamento no exterior, disse
que me ama. Tive vontade de atirar a xcara de chocolate na cara dele.
-- Ser que ele pensa mesmo isso?
-- Esteve falando com Antnio e Neusa. Certamente eles tambm temem que Osvaldo
volte para a famlia.
-- Principalmente por causa do dinheiro que ele tem.
177
-- Eles esto todos fora da realidade. Osvaldo nem sequer deseja falar comigo. Nunca me
procurou, nem vai procurar. Quando est com os meninos, no toca no meu nome. So eles
que falam, e ele, para no os magoar, desconversa e no fala mal de mim.
Rita olhou para Clara com seriedade e tornou:
-- E se ele quisesse voltar, voc o aceitaria?
Clara estremeceu:
-- Voc tambm?
-- Trata-se apenas de uma hiptese. Se acontecesse, o que voc faria?
-- Isso nunca acontecer. Nosso relacionamento acabou no dia em que ele nos apanhou
juntos. Essa  a verdade. No gosto que fiquem fantasiando sobre isso. Os meninos podero
iludir-se. Sinto que eles, apesar de tudo, continuam acariciando a idia de ter o pai de volta
em casa. Quero que eles vejam as coisas como so. Era isso que eu temia quando Osvaldo
decidiu se aproximar deles.
-- At agora ele tem se mostrado muito discreto.
-- Mais uma razo para os meninos no ficarem pressionando. Para mim  muito
desagradvel. Osvaldo me deixou e nunca mais me procurou. O amor que sentia por mim
transformou-se em decepo, raiva, desencanto. Por delicadeza ele no fala mal de mim
com os meninos, mas  claro que seus sentimentos por mim no podem ser amistosos
depois do que lhe fiz.
-- Voc est prejulgando sem saber o que se passa no corao dele.
-- Tenho certeza de que  isso que ele pensa. No quero que os meninos fiquem puxando-o
para aproximar-se de mim. No tenho nenhuma vontade de encontrar-me com ele. Alm de
embaraoso, seria horrvel. S em pensar nisso, fico angustiada.
-- Ento no pense. Afinal, no sabemos o futuro. Mas estou intrigada com a volta de
Vlter. Parece que a vida tem algum motivo especial para reuni-los de novo.
-- Deus me livre! No diga uma coisa dessas! Mas j deixei claro que no quero nada com
ele. Pedi que no me procure mais.
-- Se ele tem alguma coisa em mente, vai procur-la de novo.
-- Pois est perdendo tempo. Ele que cuide de sua vida. No me pareceu bem. Estava
abatido, com cara de doente.
-- Ele deseja comover voc.
-- Pois pode desistir. Por que ser que as pessoas teimam em viver no passado? Eu no
gosto nem de lembrar o que passou. O que eu quero  ser livre, encaminhar meus filhos na
vida, viver em paz.
178
O passado est morto, enterrado. Tanto Vlter quanto Osvaldo precisam entender isso.
Agora vou subir, tomar um banho.
Depois que Clara se foi, Rita ficou pensativa. Sabia que as pessoas decidem mas que quem
determina os fatos  a vida. Se ela estava aproximando os trs, retomando problemas
passados, era porque eles no estavam resolvidos.
Sabia tambm que quando isso acontece  porque todos esto amadurecidos o bastante para
solucion-los de forma satisfatria.
Restava saber como cada um reagiria tendo de reviver fatos dolorosos que os fizeram
sofrer. Sentiu que Clara precisava ser paciente, prestar ateno aos acontecimentos, no
tomar decises apressadas.
Claro que esse reencontro era uma excelente oportunidade para lavar as feridas da alma,
reconquistar o equilbrio perdido, amadurecer. Clara teria calma suficiente para aproveit-
la?
-- Precisamos confiar em Deus! -- murmurou ela. -- Ainda bem que Clara comeou a
entender a vida espiritual. Isso vai ajud-la a ver as coisas de uma forma melhor.
Carlinhos entrou na cozinha:
-- O que foi, Rita, falando sozinha?
-- Estava pensando alto. Ainda no estou caducando.
Ele a abraou, beijando-a delicadamente na face:
-- Eu no quis dizer isso. Como voc vive falando de espritos, pensei que estivesse
conversando com eles.
-- Tambm. Ou voc acha que est sozinho s porque no  capaz de v-los?
-- Bem que eu gostaria, mas eles se escondem de mim. Acho que  porque duvido que eles
estejam  minha volta.
-- Qualquer dia destes voc vai ver um bem ao lado de sua cama.
Carlinhos olhou para o lado e disse em tom jocoso:
-- Por favor! Vocs sabem que eu acredito. No precisam ir me visitar no quarto. Retiro
tudo que disse.
-- Tambm no precisa ter medo. Aqui em nossa casa s aparecem espritos de luz.
-- No foi o que me pareceu. Voc estava com uma cara! Mas eu acho que foi a conversa
com mame.
Rita olhou sria para ele:
-- Voc ouviu nossa conversa?
-- Ouvi. Mas foi sem querer. Eu estava na sala ao lado e vocs falavam alto.
179
Vou conversar com Marcos.Esse Valter no pode vir amolar a mame de novo.J chega o
mal que nos fez.Se voltar a procur-la vamos ter de falar com ele. Temos de defender a
mame.
Rita aproximou-se de Carlos,colocou a mo em seu brao e disse sria:
-- Voc no far isso. Se sua me souber, ficar muito zangada.
--Ele no pode ficar amolando-a. Ns agora somos grandes podemos defend-la. Ele
precisa saber que ela no est sozinha.
-- Voc no vai fazer nada. Sua me sabe se defender muito e no precisa que vocs se
intrometam. Depois, ela no quer nada dele. Disse-lhe isso com firmeza. Duvido que ele
volte a incomod-la.
Carlos cerrou os punhos e disse com raiva:
--Ele que no volte mesmo. Se ele insistir,Vai se ver comigo!
O tom de voz assustou Rita, que respondeu:
-- O dio  muito ruim e pode causar muito mal. No abrigue sentimento em seu corao.
-- H muito tempo eu tenho raiva desse sujeito.
-- Voc vai me prometer que se esforar para tirar isso de seu corao.
-- No posso. Ele foi culpado de tudo. E agora, quando nosso pai volta, ele reaparece.
Desta vez no vou permitir que ele nos perturbe de novo.
Rita tentou faz-lo mudar de postura, mas foi intil. Ela no imaginou que ele guardasse
tanta raiva do passado. Seu temperamento alegre, jovial, encobria o que lhe ia na alma.
Esse era um perigo ela desconhecia. Quando ele se afastou, ela ficou pensando se iria ou
no contar a Clara.
Achou melhor poup-la e conversar com Ldia, pedindo orientao e ajuda espiritual.
No sbado, Osvaldo mandou o carro apanhar os filhos para um almoo em sua casa. Depois
da visita de sua me, Osvaldo havia sentido inquieto e preocupado.
As palavras dela trouxeram cenas do passado que julgava esquecidas. Viu Clara nos braos
de Vlter, recordou-se da dor, da mgoa, da viagem de trem, de tudo que havia passado.
Procurou conforto na prece, pedindo ajuda aos seus amigos espirituais. Depois disso,
sentiu-se mais calmo.Os filhos chegaram trazendo de volta a alegria. Junto a
eles,interessando-se pelo que diziam, Osvaldo sentia-se revigorado.
180
Depois do almoo, sentados na varanda, Osvaldo notou que Carlos estava mais quieto do
que o costume.
-- Aconteceu alguma coisa? Voc hoje est muito quieto.
-- No aconteceu nada -- apressou-se Marcos a responder.
-- No  o que parece. O que h, meu filho? Se tem algum problema, fale. Vamos tentar
resolver juntos.
Carlos continuou calado e foi Marcos quem respondeu:
-- Ele est com algumas idias bobas na cabea. Nada de mais. Logo vai passar.
Osvaldo no insistiu. Notou que Carlos cerrara a boca com fora, como que para se impedir
de falar.
Esperou um tempo e, quando Marcos se distraa na biblioteca procurando alguns livros
antigos dos quais gostava, Osvaldo aproximou-se de Carlos e alisou-lhe os cabelos com
carinho.
-- Sinto que voc no est bem. Fale o que o est incomodando. Estou aqui para apoiar.
Abra seu corao. Sou seu pai, gosto muito de voc.
-- Se eu falar, voc vai brigar comigo. Depois, no  justo trazer esse assunto a voc,
depois de tudo.
-- Fale meu filho. Confie em mim. Nunca vou ficar bravo com voc. O que ?
-- Outro dia, sem querer, ouvi uma conversa de mame com Rita. Isso me deixou com
muita raiva.
-- Continue.
-- Aquele sujeito est perseguindo mame outra vez.
Osvaldo empalideceu.
-- Que sujeito?
-- Vlter. Ela no quer, mas ele est atrs dela de novo. -- Carlos cerrou os punhos com
raiva. -- Se ele continuar, vai se ver comigo!
Osvaldo tentou controlar a emoo. Respirou fundo, depois respondeu:
-- Tem certeza?
Tenho. Houve um tempo que ele ia esper-la na sada do trabalho, mas ela nunca quis nada
com ele. Chegava nervosa, irritada, dizia que no podia nem ouvir o nome dele. A ele
acabou desistindo. Mas, agora, comeou tudo de novo. Ele foi o culpado de tudo quanto
nos aconteceu. Por causa dele voc nos deixou, estivemos separados. Agora que est de
volta, no vou permitir que ele faa tudo de novo.
-- Acalme-se, meu filho. Ela no o quer, e ele acabar desistindo outra vez.
181
-- Foi o que ela disse a Rita. Mas eu sei que ele no vai desistir. Vai infernizar nossa vida
de novo.
Marcos, de volta  varanda, ouviu parte da conversa e interveio:
-- Eu disse para ficar calado. Papai no merece passar por isso.
-- Deixe-o, Marcos. Ele fez bem em abrir o corao.
-- Mame no gosta desse sujeito. Tenho certeza de que vai sumir outra vez. No precisava
perturbar voc com esse assunto.
-- Estou aqui para apoiar vocs em tudo. Haja o que houver, acontea o que acontecer,
podem contar comigo. Gostaria, Marcos que no me escondessem nada. Podem ter certeza
de que farei o puder pelo bem-estar de minha famlia.
Alisou os cabelos de Carlos com carinho e continuou:
-- Quero que voc se esforce para banir a raiva do seu corao e Cuidado com o
julgamento. As pessoas erram porque no sabem fazer melhor. No atire toda a culpa do
passado sobre Vlter. No aconteceu, todos tivemos nossa parcela de culpa. Ele, por desejar
seduzir uma mulher comprometida; ela, por se deixar envolver; eu, no ter sabido manter
acesa a chama do amor que um dia nos uniu. Pense nisso, meu filho, e esquea o passado.
Marcos sentiu que as lgrimas afloravam, enquanto Carlos dizia emocionado:
-- Pai, como voc  nobre! Voc no merecia o que lhe fizemos.
-- Engano seu. Se eu no merecesse, no teria acontecido.Saiba que cada um  responsvel
por tudo que lhe acontece. Nossas atitudes determinam os fatos em nossas vidas. Embora
cada um tenha parcela de responsabilidade, de minha parte sei que amadureci e aprendi
muito com essa experincia. Meu esprito enriqueceu. Conheci vida espiritual, aprendi
outros valores mais verdadeiros e eternos isso, meus filhos, no lamentem meu sofrimento.
Ele foi necessrio abenoado.
Os trs se uniram em um abrao e por alguns instantes os dois rapazes no conseguiram
articular palavra. A postura digna de Osvaldo emocionava-os mas ao mesmo tempo fazia-
os notar a diferena de atitudes entre ele e Vlter.
Carlos no se conteve:
-- Vlter no tem o direito de interferir em nossa vida.
-- Eu no diria isso. Agora sua me est separada,  livre. Se quiser viver com ele,  um
direito dela.
-- Eu no quero. Odeio aquele sujeito! -- tornou Carlos com raiva.
182
-- Ela no far isso! -- interveio Marcos em tom conciliador. -- Tenho certeza de que ele
est perdendo seu tempo.
-- Seja como for, vocs no devem preocupar-se. Ela j afirmou que no gosta dele. Por
isso,  melhor deixarem de pensar nisso -- disse Osvaldo tentando acalm-los.
Apesar disso, ele sentia o peito oprimido. Dissimulou tentando aparentar calma e
satisfao. Contudo, depois que os rapazes se foram, sentou-se na biblioteca, colocando a
cabea entre as mos.
O que dissera era verdade. Se Clara decidisse viver com Vlter, ele no poderia intervir.
Estava de mos amarradas. Depois de desaparecer durante dez anos, no tinha o direito de
intrometer-se na vida dela.
Tentou acalmar-se, pensar que ela era livre, que o melhor era esquecer esse fato, mas no
conseguia tirar a tristeza e a dor que lhe causava a idia de que Clara pudesse ir morar com
Vlter.
Inquieto, comeou a andar de um lado para o outro, esforando-se para libertar-se desse
receio. Jos aproximou-se dizendo:
-- Est se sentindo bem?
Arrancado de seus pensamentos ntimos, Osvaldo olhou para o velho empregado e
respondeu:
-- Estou um pouco esgotado. Vou para o quarto descansar. Depois que ele se afastou, Jos
meneou a cabea pensativo. Sabia que no estava sendo fcil para Osvaldo enfrentar o
passado. Desejava de corao que ele conseguisse esquecer.
Uma vez no quarto, Osvaldo sentou-se na cama e lembrou-se de Antnio. Sentiu saudade
da presena do amigo querido que, quando Osvaldo estava com problemas, dizia as
palavras certas que o faziam retomar a calma, a alegria.
Naquele momento estava se sentindo sem cho, pensamentos contraditrios o
atormentavam. Que bom se pudesse estar com ele naquele momento!
De repente decidiu. Iria v-lo. Levantou-se e foi ter com Jos.
-- Avise o motorista que prepare o carro. Amanh ao raiar do dia viajaremos para Minas.
-- Est bem. Vou dizer a Rosa para arrumar sua mala. Quanto tempo vai ficar?
-- Trs ou quatro dias.
Jos tratou de cumprir a ordem. Depois de avisar o motorista, foi conversar com Rosa:
-- Osvaldo vai viajar. Voc precisa arrumar a mala dele. Disse que ficar uns quatro dias.
183
-- Sabe para onde ele vai?
-- Para Minas.
-- Ser que ele deixou alguma mulher por l?
-- No creio. Ele est preocupado com alguma coisa e vai pedir conselho quele curador
que  seu amigo.
--  algo com Carlinhos. Ele estava triste, abatido, nem brincou comigo. Tomara que no
seja nada grave.
-- V logo, porque ele quer sair muito cedo amanh.
Depois que Rosa arrumou a mala e se foi, Osvaldo fez uma lista Pretendia parar em algum
lugar e comprar presentes para os amigos. No queria esquecer ningum.
Depois, levou seu pensamento a Deus, pedindo ajuda para retomar sua paz, deitou-se e
tentou dormir. Mas no conseguiu. As cenas do passado reapareciam e ele se esforava para
mudar o teor de seus pensamentos. Entretanto, eles voltavam, ora revendo a cena do beijo
entre Clara e Vlter, ora a despedida dos filhos, as palavras de sua me incentivando-o 
vingana. At o rosto de seu irmo Antonio irnico, acusando Clara por prejudic-lo no
emprego.
Quando se esforava para pensar em outras coisas, o rosto raivoso de Carlos e suas palavras
reapareciam. Ele no podia deixar-se envolver por esses pensamentos negativos. Precisava
confiar na vida Sabia que ela faz tudo certo, que precisava enfrentar os fatos com coragem
e determinao.
Contudo, a descoberta de que ainda continuava vulnervel, que apesar do esforo feito, do
que aprendera sobre espiritualidade, ainda se impressionava com o passado, um sentimento
de medo, de insegurana o atormentava, deixava-o deprimido e insatisfeito.
Ele voltara certo de que tendo observado os fatos sob a ptica espiritualidade havia vencido
o passado. No obstante, a sensao insegurana, o medo do futuro, a dor pressionando seu
peito como nos primeiros dias demonstravam que ele conhecia melhor a situao mas ainda
no a havia assimilado. Compreendia mas no vivia que sabia.
Ele que desejava progredir espiritualmente, que pretendia tornar-se mais evoludo para
viver melhor, ser mais feliz, voltara  estaca zero.
Ao pensar nisso, sentia-se fraco, infeliz, desanimado. Remexei se na cama e s muito tarde
conseguiu dormir. Quando Jos bateu na porta do quarto para acord-lo, levantou-se
sobressaltado.
Ao descer para o caf, o dia estava comeando a clarear. Vendo seu rosto abatido, Rosa
observou:
184
-- Voc precisa alimentar-se bem. O po est quentinho, e fiz aquele bolo de que gosta.
-- Obrigado, mas estou sem fome.
-- Nada disso! A viagem vai ser longa, e no pode ir de estmago vazio.
Ela mesma passou manteiga no po, juntou uma generosa fatia de queijo, ps caf com leite
na xcara e tomou:
-- Se no comer, vou ficar triste. Onde j se viu sair assim?
Osvaldo resolveu experimentar e comeu tudo. Ela colocou boa fatia de bolo no prato e
pediu:
-- Experimente e veja se est bom.
Ele sorriu. Rosa observava-o atenta.
Ele comeu o bolo e disse sorrindo:
-- Esse ficou o melhor de todos.
-- Voc sempre diz isso. Vou fingir que acredito.
--  verdade.  to bom que s posso dizer isso.
O carinho de Rosa e a perspectiva de rever os amigos dos quais tanto gostava o fizeram
sentir-se mais animado.
Estava entardecendo quando finalmente chegaram ao stio de Antnio. Nequinho, que
estava na beira da estrada, aproximou-se curioso.
Osvaldo, vendo-o, mandou parar o carro, abriu a porta e disse:
-- Ento, Nequinho, no conhece mais os amigos?
-- Nossa!  o seu Osvaldo! Quando vi o carro me assustei. Puxa, todo mundo vai ficar
alegre!
Osvaldo ria da cara do rapaz, que gesticulava sem parar.
-- Abra a porteira e entre no carro.
Nequinho obedeceu. Esperou o carro passar, fechou a porteira e entrou no carro.
-- Que beleza! Eu nunca vi um carro de luxo como este!
Osvaldo sorriu alegre. No terreiro, desceram. Zefa e dois rapazes aproximaram-se
admirados. Osvaldo abraou-a e logo Antnio apareceu na varanda:
-- Mas  meu amigo Osvaldo! Que surpresa boa!
Correu a abra-lo, e Osvaldo sentiu a voz embargada. Um brando calor inundou seu peito
enquanto apertava o amigo em seus braos.
-- Que bom estar aqui!
O motorista esperava ao lado do carro. Osvaldo apresentou-o:
-- Este  Justino, trabalha comigo.
185
Depois dos cumprimentos, foram entrando. As panelas fumegavam no fogo e Osvaldo
aspirou com satisfao o cheiro gostoso familiar da comida de Zefa. Ningum fazia um
feijo e arroz como ela.
 Justino colocou as malas do patro no quarto e esperou. Osvaldo disse-lhe com
simplicidade:
-- Pode colocar suas coisas ao lado das minhas. -- E voltando para Antnio: -- Aquelas
camas no esto ocupadas?
-- Sabe que no? Ainda na semana passada estava l o Ernesto do stio de Dona Eunice.
Ficou para tratamento, mas j sarou e foi embora ontem.
-- Estou com sorte. No queria ter de ir para o hotel na vila e ficar longe de vocs.
-- E acha que eu ia deixar? -- disse Zefa com largo sorriso. --Hoje  dia de festa e de
alegria.
-- Nesse caso, Justino pode ficar no meu quarto comigo. H camas l.
Justino remexeu-se inquieto.
-- O que foi, Justino? -- perguntou Osvaldo.
O motorista hesitou um pouco, depois disse:
-- No precisa se incomodar comigo, seu Osvaldo. Posso dormir em qualquer lugar. At no
carro, se for preciso. Assim o senhor fica mais  vontade.
-- No se preocupe com isso, Justino. Na cama vai ficar mais bem acomodado.
--  que no fica bem, o senhor  meu patro.
-- Eu entendi. Voc no se sente  vontade de dormir no mesmo quarto comigo.
Antnio interveio:
-- Ele pode dormir com Nequinho. O quarto dele tem duas camas
-- Obrigado, seu Antnio. Sinto-me melhor assim. No quero incomodar seu Osvaldo.
Enquanto esperavam o jantar, Osvaldo abriu as malas e distribuiu os presentes com alegria.
Depois do jantar, enquanto Zefa lavava os tratos e Nequinho ajudava, os colonos e Justino
se recolheram, Antonio acompanhou Osvaldo at o quarto e sentaram-se para conversar.
Osvaldo quis saber tudo sobre os conhecidos, principalmente sobre a famlia de Joo.
Soube que Aninha estava namorando um prspero sitiante da regio e todos estavam muito
bem.
-- Estou com muita saudade. Amanh iremos at l. Nunca esquecerei o que fizeram por
mim.
186


Antnio tirou do bolso um pedao de fumo e uma palha de milho e comeou a preparar um
cigarro, como sempre fazia. Depois de acend-lo e tirar algumas baforadas, disse com
naturalidade:
-- Estava esperando voc. Sabia que viria.
Osvaldo respirou fundo e respondeu:
-- As coisas no esto fceis. Depois de tudo que vocs fizeram por mim, cheguei a pensar
que havia aprendido como as coisas so. Mas no era verdade. Vocs perderam tempo
comigo. No aprendi nada. Continuo sendo inseguro, desequilibrado, incapaz.
-- Por que pensa isso?
Osvaldo contou-lhe detalhadamente tudo que aconteceu desde que voltara a So Paulo.
Antnio ouvia em silncio, atento, fumando seu cigarro de quando em quando.
-- Eu entendi os fatos passados, reconheci minha parcela de culpa, pensei que tivesse
dissolvido a mgoa, mas ontem descobri que estava me iludindo. A ferida ainda est aberta.
Tenho medo do futuro. Sou um fraco que, mesmo trado, ainda sente cime. No nego que,
s em pensar que Clara pode ir viver com Vlter, fico desesperado. As lembranas ruins
reaparecem com fora, e est difcil aceitar isso. Pensei em voltar para c definitivamente.
Mas h meus filhos. Agora que eles esto me aceitando, que me perdoaram, como
abandon-los de novo? Por isso vim buscar ajuda. Sinto que  preciso continuar l, mas
terei coragem? Pode chegar uma hora em que eu no consiga me controlar e acabe por
intrometer-me na vida de Clara. No tenho esse direito. Estamos separados e ela  livre.
-- Voc  muito forte e corajoso, meu filho. Est tomando a deciso certa. Fugir  intil,
porque as emoes esto dentro de voc. Iro junto para onde voc for. Agora  hora de
enfrentar seus medos.
-- Mas sinto-me fraco, vulnervel.
-- Porque est analisando a situao de forma errada.
-- Voc acha?
-- Est colocando sua fora contra voc, julgando-se fraco, incapaz, s porque no
consegue entender como a vida trabalha. O desenvolvimento da conscincia, o progresso do
esprito, isso demanda tempo. O fato de conhecer algumas leis naturais no significa que
tenha terminado seu trabalho. O conhecimento ilustra, mas a experincia assimilada traz a
sabedoria. Quem estuda pensa que sabe; quem experimenta descobre quanto ainda precisa
aprender.
-- Mas, depois de ter entendido, pensei que nunca mais fosse sentir o que estou sentindo.
Descobri que no aprendi nada, que no aproveitei a oportunidade que Deus me deu. Ao
contrrio: dei um passo para trs.
187
-- Mais uma vez voc est enganado. A cabea compreendeu, mas o corao ainda no.
-- Acho que nunca aprenderei.
-- No  verdade. Voc tem aprendido muito. Est muito diferente de quando chegou aqui.
Mas, apesar disso, ainda h muitas coisas mal resolvidas dentro de voc. Por isso a vida
juntou vocs. Essa  uma boa oportunidade para que possam se libertar do peso que
carregam no corao.
-- Reconheo que cheguei aqui destrudo, amargurado, sem vontade de viver, e vocs me
devolveram a paz, a alegria. Mas agora estou confuso. Sinto o peito oprimido. Vim em
busca da paz que perdi.
-- Assim como dentro de voc esto os problemas no resolvidos, h tambm a f em
Deus, a sua fora de esprito eterno. No tema o futuro. Renove sua f na vida. Os desafios
aparecem quando se est em condies de venc-los. Voc tem tudo para isso.
-- Deus o oua. Suas palavras tiveram o dom de me acalmar. Era disso que eu estava
precisando. -
-- Reflita, meu filho. Tudo que precisa est dentro de voc. E s prestar ateno. Com
pacincia e bom senso, encontrar todas as respostas.
-- O que me angustia  no saber o que fazer com meus sentimentos. Como me livrar da
mgoa que ainda sinto? Como trabalhar o medo que me atormenta?
Antnio tirou algumas baforadas do cigarro devagar, depois disse:
-- Se passar por cima do orgulho, encontrar a resposta.
-- Joguei fora o orgulho quando aceitei minha parcela de culpa na traio de Clara. Quando
reconheci que ela no era culpada por ter deixado de me amar.
-- Mas  o orgulho que o impede de ver com clareza o que se passa em seu corao.
--  um sentimento opressivo, desagradvel, que me traz sofrimento. Quero me ver livre
dele.
-- Nesse caso, a pressa atrapalha. Tenha pacincia com voc mas no se poupe. Se deseja
entender o que sente, precisa mergulhar fundo nessa energia e ir prestando ateno em
como ela . A chave est dentro de voc.
-- No tenho dormido bem, venho andado confuso.
-- Sabe, meu filho,  difcil para um homem, da forma como  educado e de como a
sociedade pensa, aceitar que, apesar da traio, o amor ainda continua l.
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Osvaldo sobressaltou-se. Ia retrucar, mas Antnio no lhe deu tempo:
-- Bem que voc gostaria de ter matado esse sentimento naquele dia. Mas isso no
aconteceu. O amor verdadeiro  indestrutvel. Apesar de tudo, voc ainda ama Clara.
-- Isso no  verdade. No posso am-la. Clara morreu para mim. Ela no me quer. Sinto-
me o pior dos homens por sentir cime dela.Isso no  justo.
As lgrimas desciam pelo rosto de Osvaldo sem que ele tentasse det-las. Antnio colocou
a mo em seu brao e disse com simplicidade:
-- Chore. Fale da sua dor. Reconhea que ainda gosta dela.
-- No posso. Ela no merece. Seria a humilhao maior.
-- O orgulho no vai lhe dar a paz que procura. Ao contrrio: ele toma seu amor
mesquinho e mascara o que . Voc ama Clara. Sempre a amou. No  verdade?
Osvaldo soluava desconsolado enquanto Antnio, colocando a mo sobre sua cabea,
orava em silncio. Aos poucos ele foi se acalmando.
Vendo-o mais calmo, Antnio continuou:
-- No tenha medo da verdade. O verdadeiro amor  incondicional. Nada que Clara tenha
feito vai mudar isso.
-- Mas esse amor sem esperana est me tirando a paz. Estou cansado e no quero mais
sofrer.
-- O que tira sua paz  negar o que sente.  fato de pensar que amando Clara voc se
diminui.O amor  bno que nos torna melhores. No combata esse sentimento. Ao
contrrio, deixe-o fluir livremente.
-- No posso. Esse amor  impossvel!
-- Saia da iluso. Esse amor est a, dentro de seu corao. No adianta negar. Reconhea
que ama Clara. Diga isso agora em voz alta para que tome conscincia.
Osvaldo hesitou um pouco, lembrou-se de Clara, reviu seu rosto jovem e bonito, lembrou-
se do tempo de namoro e sentiu um calor agradvel no peito. Ento disse com voz
apaixonada:
-- Eu amo Clara! Sempre a amei!
-- No  errado amar. Lembre-se disso.
-- Sinto que ainda a amo como no primeiro dia. Reconhecer isso vai ser meu castigo pelo
resto da vida.
189
-- Ao contrrio: vai libert-lo do orgulho, das convenes ilusrias do mundo. Como se
sente agora?
Antnio falava com voz modificada, suas palavras eram muito diferentes da sua forma
habitual de expressar-se.
-- Melhor. A opresso desapareceu.
No tenha medo do que sente. Permita-se am-la embora estejam separados. Aos poucos
notar que seu amor apenas pede que o deixe fluir naturalmente. Fazendo isso,
reconquistar sua paz.
Antnio apanhou o cigarro que ficara esquecido sobre a mesinha e acendeu-o novamente.
Depois levantou-se, dizendo:
-- Deite-se. Vou buscar um ch especial. Voc vai dormir muito bem esta noite.
Osvaldo sentiu-se exausto. Preparou-se para dormir, deitou-se. Antnio trouxe o ch:
-- Beba tudo.
Ele obedeceu. Depois disse sorrindo:
-- O que estava faltando era seu carinho. J estou muito bem.
-- Bobagem, meu filho. Voc j pode andar sozinho. Eu  que estava precisando de voc.
Hoje estou feliz. Deus o abenoe.
Ele se foi e Osvaldo virou-se de lado. Depois de alguns instantes, mergulhou em um sono
tranqilo e reparador.
190
Captulo 16
Clara apressou o passo, procurando vencer rapidamente a distncia que faltava para chegar
ao ateli. Mas no conseguiu escapar de Vlter, que a alcanou, segurando seu brao.
-- Espere. Est fugindo de mim?
-- Estou atrasada. No posso perder tempo.
-- Temos de conversar.
-- No tenho nada a falar com voc.
Ela puxou o brao e continuou caminhando depressa. Vlter a seguiu:
-- Vou esper-la no fim da tarde. Hoje no me escapa. Vai ter de me ouvir.
-- No quero. Deixe-me em paz.
-- No posso. Voc no sai do meu pensamento. Iremos conversar em algum lugar
discreto. E importante para nosso futuro.
-- Meu futuro no tem nada a ver com voc. Tire essa idia da cabea.
Haviam chegado a seu destino, e Clara entrou no prdio quase correndo.
Domnico, vendo-a chegar ofegante, perguntou:
-- Aconteceu alguma coisa? Voc est plida.
-- O de sempre. Vlter agora deu para me perseguir.
-- De novo? Ele havia desistido.
-- Tambm pensei isso. Mas agora no sei o que deu nele, cismou comigo outra vez.
Domnico olhou pensativo para ela, depois disse:
-- Voc continua indo quele centro esprita?
-- Sim. Por qu?
-- Voc est nervosa, e a ajuda espiritual lhe trar calma.
191
-- Nos ltimos tempos minha vida estava tranqila. Consegui esquecer o passado, manter
minha famlia, pensei que tudo continuaria assim. De repente as coisas mudaram. Primeiro
Osvaldo apareceu do nada querendo ver os filhos. Agora Vlter, com quem em m hora me
envolvi e estraguei minha vida, reaparece como naqueles tempos me perturbando. No sei o
que pensar.
Domnico olhou em seus olhos e disse:
-- Para mim est muito claro. O passado est de volta para permitir que vocs se entendam
melhor.
Clara sobressaltou-se:
-- Entre ns  impossvel qualquer entendimento. A presena de Osvaldo me incomoda,
torna maior a conscincia da minha culpa; a de Vlter lembra quanto fui ingnua e vulgar.
Desejo ficar distncia tanto de um quanto de outro. Chega de sofrer por um passado que
no tem remdio. No posso voltar atrs e apagar o que j foi. Acho que j sofri bastante,
paguei caro por minha ingenuidade. Tenho direito de desfrutar de paz e de tranqilidade.
-- Enquanto no olhar os fatos de frente, no conseguir o que deseja.
-- Tudo que podia fazer a respeito, j fiz. Agora desejo esquecer
-- No vai conseguir enquanto conservar a culpa no corao.
-- Voc est dizendo que a situao no tem remdio?
--Claro que tem. Mas se voc foge, recusa o remdio, como quer sarar? A evoluo
caminha em ciclos. A vida deu-lhes vrios anos para meditao e agora os est
aproximando.  sinal de que pode trabalhar seus sentimentos e procurar alternativas de
convivncia que aos poucos vo diluindo o antagonismo que ainda sentem.  a chance de
se libertarem de todas as mgoas e seguirem adiante. Quando isso acontecer, cada um
trilhar o prprio caminho em paz.
Clara sacudiu a cabea negativamente.
-- No. Se isso precisa ser assim, ainda no estou pronta.
-- Se no estivesse, a oportunidade no viria. Do jeito que voc fala, no tenho sada.
-- Claro que tem. S que deixar para depois  como jogar a sujeira para debaixo do tapete:
a sujeira no aparece mas continua l. Para voc se acalmar, preste ateno no que sente.
-- Ao contrrio, O que mais desejo  jogar fora esta sensao de perigo que me amedronta,
esta culpa que me oprime, esta cobrana que aparece forte quando recordo o passado. Sinto
raiva por Osvaldo ser sempre o marido bom, dedicado, que, apesar de haver sofrido a ponto
de tentar o suicdio, no fala mal de mim.
192
Preferia que ele me condenasse, me odiasse, at me perseguisse. Ele  sempre impecvel,
enquanto eu...
Domnico colocou a mo sobre o ombro dela, dizendo com voz firme:
-- No sabia que voc era to moralista.
-- Moralista, eu?
-- Sim. Ao invs de criticar seu marido por ser do jeito que , seria melhor admitir que
voc ainda no perdoou seu erro passado. Aconteceu h tanto tempo e voc ainda deseja
continuar sendo castigada. Ou melhor, est se castigando, sofrendo, exagerando os fatos.
No faa isso com voc.
-- No  to simples como voc diz.
-- , sim. Osvaldo voltou, mas, pelo que me contou, est sendo discreto e educado. No a
incomodou em nada. Ao contrrio: desejada apoiar os filhos, melhorar a condio
financeira deles. Nem se quer a procurou. Quanto a Vlter, no pode obrig-la a fazer o que
no quer. Diga no com firmeza e ele acabar desistindo como da outra vez.
-- Ento tudo continuar como est. Voc disse que a vida nos reuniu para entendimento.
Isso eu no quero.
-- Entendimento no significa que voc deva viver ao lado deles, mas apenas que podem
conversar, esclarecer pontos obscuros e acabar com a mgoa que os incomoda. Entender
significa analisar as coisas do ponto de vista espiritual, compreendendo as diferenas de
cada um, aceitando sua parte de responsabilidade, seus limites e a parte deles. Feito isso,
notaro que o passado passou e tudo ser diferente. Podem ou no desejar conviver. Mas
isso no ser penoso como agora. Dependendo de como as coisas flurem, pode at ser
agradvel estar junto.
-- Voc diz isso com uma certeza!
--  assim. As coisas dependem de como voc as v. Quando se olha do ponto de vista
espiritual, que abrange a felicidade de todos, fica mais fcil. Pense, Clara. Aceite a presena
deles em sua vida como uma necessidade do momento, apesar de desejar desligar-se deles.
-- S em pensar nisso fico angustiada.
-- Ento no pense. Seja natural. No os procure, mas, se for procurada, converse, tente
dizer o que sente. Isso pode ajudar. Lembre-se que se atormentar, como est fazendo, torna
tudo mais difcil. Voc diz que sabe o que quer. Ento no tem o que temer.  esclarecer e
posicionar-se. Apenas isso.
193
-- Vou pensar no que me disse.
-- Pense. Voc tem bom senso. Logo estar melhor.
-- Obrigada. J me sinto melhor.
No fim da tarde, quando Clara saiu do trabalho, encontrou Vlter  sua espera. Seu primeiro
impulso foi fugir, mas lembrando-se das palavras de Domnico resolveu enfrentar.
Clara, vamos conversar ali na confeitaria.
-- Estou com pressa. Tenho de ir para casa.
-- Por favor, no tomarei muito tempo.
Resignada, ela o acompanhou. Talvez, se o ouvisse e explicasse de novo o que pensava, ele
a deixasse em paz.
Uma vez sentados em uma mesa, ele pediu suco e alguns petiscos. Depois olhou para ela
com olhos apaixonados e disse:
-- Clara! Tenho sofrido tanto. No posso esquecer o que houve entre ns!
-- Sinto muito. O passado acabou. Prefiro no recordar. Gostaria que entendesse que no 
possvel nada entre mim e voc.
-- Por qu? Somos moos ainda. Temos muitos anos pela frente. Por que ficarmos
separados, sozinhos, se podemos reatar nosso amor?
-- Eu no amo voc. Depois, estou muito bem. Tenho meus filhos, nunca me senti s.
Vlter trincou os lbios com raiva e respondeu:
-- Ele voltou! Por isso est me rejeitando. Agora ele est rico voc est arrependida de ter
se separado.
Clara levantou-se irritada. Vlter levantou-se tambm, dizendo nervoso:
-- Sente-se, Clara. Estou desesperado. Se no me ouvir, vai arrepender.
Havia algo na voz dele que a fez sentar-se de novo, assustada. Resolveu contemporizar:
-- Voc est enganado. Essa idia nunca me passou pela cabea Nunca mais vi Osvaldo e
no pretendo ver. Se  isso que o incomoda, saiba que nossa separao  irreversvel.
-- Voc diz isso agora. Mas sei que ele tem sado com os filhos. Est rodeando para se
achegar.
Clara sacudiu a cabea energicamente.
-- No sei de onde tirou isso. Ele nem procurou me ver, o achei muito bom. Quanto aos
filhos, nada posso fazer. Ele tem direito de v-los.
194
-- Sei que ainda esto casados legalmente. Isso me atormenta.
-- No vejo por qu. Ns no temos nenhum compromisso. Sou uma mulher livre.
Trabalho para me sustentar. No preciso do dinheiro dele para nada. S no posso impedir,
nem seria razovel, que ele sustente os filhos.  um direito deles. Gostaria que me deixasse
viver em paz. Chega de intervir em minha vida. Garanto a voc que no tenho nenhuma
inteno de viver com ele e muito menos com voc. Estou muito feliz assim. O que eu
quero  cuidar de minha vida e dos meus filhos, nada mais. Pode entender isso?
-- No. Eu amo voc. Depois que Osvaldo nos surpreendeu juntos, nunca mais minha vida
foi para frente.  verdade que tenho algum dinheiro, mas a vida amorosa est estragada.
No consigo me relacionar com outra mulher. Voc no sai do meu pensamento. S de
imaginar que ele  seu marido e que, se quiser voltar para voc, nada o impedir, fico
louco.
Ela abanou a cabea desanimada.
-- Acho que deveria procurar a ajuda de um mdico. Sua cabea no est bem. Depois que
Osvaldo me deixou, nunca mais tive nada com voc. Por que no aceita que foi tudo uma
iluso da nossa juventude? Por que teima em querer uma coisa que nunca ter?
-- No pode ser verdade. Voc me amava. Correspondia aos meus carinhos. Lembra-se?
-- Eu estava iludida. Se o amasse, teria ido viver com voc.
-- Eu agora sou empecilho  sua reconciliao com ele. Enquanto eu estiver vivo, ele no
vai esquecer.
-- No  nada disso. Est ficando tarde, tenho de ir. No adianta ficarmos aqui repetindo a
mesma coisa. Voc est resistente. No quer ver a verdade. V para casa, pense bem,
reconhea que o melhor ser no nos vermos mais.
Ele segurou a mo dela com fora e disse com voz rancorosa:
-- No vou desistir. Se um de ns precisar morrer para conseguir o que quero, garanto que
no serei eu.
Clara empalideceu e disse nervosa:
-- Voc est louco! No pode estar falando srio. No h motivo para violncia.
-- Vai depender de voc. Estou no limite da minha pacincia.
Clara levantou-se decidida. Estava muito assustada. No podia ficar ali ouvindo aquelas
ameaas.
-- Nem ouse fazer nada contra Osvaldo. Ele foi a vtima nisso tudo e nunca tentou nada
contra voc.
195
-- Estou impressionado em ver como o defende! Ainda diz que no pensa em voltar com
ele!
-- Vou embora. No d para ficar aqui ouvindo suas ameaas. Ela se voltou rpida e saiu
quase correndo. Ele a deixou ir, seguindo-a com os olhos. Naquele momento, duas sombras
escuras o abraaram alegres enquanto ele pedia uma bebida forte ao garom.
Clara chegou em casa abatida. Domnico tinha razo ao aconselh-la a ouvir o que Vlter
queria dizer. Apesar de aterrorizada, descobrira o quanto ele estava perturbado. Estaria
mesmo pensando em matar Osvaldo ou disse aquilo apenas para pression-la!
Difcil saber, mas havia muito rancor em sua voz. E se fosse verdade? E se ele estivesse
louco a ponto de agredir Osvaldo!
Vendo-a entrar, Rita assustou-se com sua palidez.
-- Clara, o que aconteceu!
-- Vlter. Ele enlouqueceu.
Em poucas palavras contou o que haviam conversado, e Rita considerou:
--  um homem sem escrpulos. Nunca se sabe de suas intenes. Clara torceu as mos
nervosa.
No sei o que fazer. E se ele for procurar Osvaldo?
-- No sei se teria coragem de agir frente a frente. Pode armar alguma cilada.
-- Que horror! Nem diga uma coisa dessas.
-- Trata-se de um homem que se vale de jogos e manipulaes para conseguir seus fins.
-- Por isso no sei at que ponto sua ameaa  real.
-- Voc precisa fazer alguma coisa. No pode facilitar. E se estiver mesmo pensando em
agredir Osvaldo? Voc precisa avis-lo que fique atento.
-- Tenho medo de piorar as coisas. Ele pode ficar com raiva e tomar a iniciativa. No sei o
que poderia acontecer. Meu Deus nunca ter fim!
-- Calma, Clara. No adianta ficar assim. Temos de ter a cabea lcida para pensar no que
fazer.
-- No posso falar com os meninos, porque eles poderiam querer fazer alguma coisa por
conta prpria. Principalmente Carlos no pode nem saber.
-- Nesse caso, voc  quem ter de ir procurar Osvaldo.
Clara sobressaltou-se:
-- Eu? Voc enlouqueceu? No quero v-lo. Seria uma situao muito constrangedora.
196
Depois, nem sei se ele me receberia. Nunca quis e ver. No. Isso  impossvel.
-- Ento no sei o que fazer. Ele precisa ser avisado. Se acontecer alguma coisa, voc
nunca se perdoar.
-- J chega a culpa que carrego no corao.
-- Por que no fala com Dona Ldia?
-- Estou me sentindo exausta. No vejo hora de ir me deitar.
-- Nada disso. Voc vai tomar um banho e jantar muito bem. No pode ficar sem se
alimentar. Depois iremos juntas ver Dona Ldia. Se no procurar ajuda espiritual, vai passar
a noite em claro. Pode cair doente. Tome um banho morno e se sentir melhor.
Clara pensou um pouco e resolveu ir. Depois do banho, ficou mais calma. Rita insistiu, e
ela comeu um pouco, sentindo-se mais forte.
Elas chegaram  casa de Ldia pouco antes de comearem as reunies do centro. Ldia
abraou-as com carinho. Informada do que acontecera, disse com voz calma:
-- Voc precisa reagir. No pode entregar-se ao desnimo. Vamos pedir ajuda aos amigos
espirituais. Mas devo esclarecer que eles trabalham com as suas energias. Voc vai precisar
ser o ponto de apoio da ajuda deles. Sem isso, no podero fazer nada.
-- Vai ser difcil. Estou muito assustada.
-- Onde est sua f? Voc merece ser feliz. Depois, seu marido  um homem de bem, ter
proteo. Voc precisa confiar na vida.
-- Parece que o tempo no passou. S que a situao est invertida . Osvaldo foi a vtima e
Vlter ainda quer atingi-lo. No  justo.
-- Mais uma razo para confiar na vida. O que voc precisa  enfrentar o medo. A certeza
de que est sendo protegida pelas foras do bem a ajudar a conseguir isso.
-- Sinto o peito oprimido, tenho a sensao de que vai acontecer alguma coisa ruim.
-- E s uma impresso, que voc no deve alimentar. Pense que a pode estar sendo
sugerida pelo seu medo ou ate mesmo por entidades desencarnadas que desejam
desequilibr-la para poderem sugar energias.
-- Pensei que fosse intuio de algo que vai ocorrer.
-- Impresso  muito diferente de intuio. Quando voc pensa, ouve ou v alguma coisa,
pode impressionar-se com ela. Essa impresso poder ser leve e passageira ou forte e
constante. Depende do grau de importncia que lhe der. Certamente nunca acontecer o que
teme, no ser que se obstine tanto e acabe atraindo exatamente o que no deseja.
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J a intuio  a linguagem da alma. Quando ela fala, voc se: sente que  verdade. Sabe
que aquilo  do jeito que ela lhe mostra.
-- Tenho andado confusa. Como diferenciar uma coisa da outra -- E fcil. Quando se
impressiona, est olhando com os olhos mundo, das aparncias, do que h fora de voc. Na
intuio, est observando a vida com os olhos da alma.
-- Gostaria de entender melhor.
Voc se impressionou muito com o que Vlter lhe disse, apesar de reconhecer que ele pode
querer apenas pression-la. Na sua cabea j formulou vrias desgraas e ficou muito
assustada.
 que ele pode estar falando srio.
-- Pode. Mas seu descontrole no vai ajudar em nada. Ao contrrio: est confundindo sua
cabea, impedindo-a de encontrar una soluo boa.
-- Isso  verdade. O que me aconselha?
-- No saberia dizer. Mas eu, quando sinto que no tenho como resolver um assunto
desagradvel, fao minha prece com humildade coloco o caso nas mos de Deus. Depois,
procuro fazer minha parte melhorando meu padro de pensamento.  o mnimo para que
nos amigos espirituais possam me inspirar e ajudar. Para isso eles precisam me encontrar
serena, confiante, disposta a fazer o que for necessrio Quando menos espero, a situao
fica mais clara e tudo se resolve
-- Gostaria de ser como a senhora -- tornou Clara.
-- Voc  uma mulher forte, corajosa. Tenho certeza de que ir fazer isso melhor do que
eu.
Vou experimentar.
-- Ns podemos receber ajuda espiritual? -- indagou Rita.
-- Claro. Ia sugerir que tomassem um passe.
Elas foram para uma sala iluminada por delicada luz azul, havia algumas pessoas em prece
e msica suave. Clara sentou-se no lugar que lhe foi indicado e, enquanto uma pessoa em
sua frente trabalhava suas energias, ela orou fervorosamente pedindo inspiraes fora para
fazer o melhor.
Lgrimas lavavam seu rosto e aos poucos a opresso no pensamento desapareceu, enquanto
uma brisa suave e delicada dava-lhe agradvel sensao de conforto.
Depois de beber a gua que lhe ofereceram, Clara saiu em silncio. Sentia-se mais calma.
-- Este lugar  uma bno -- comentou Rita ao sarem.
--  verdade. Sinto-me muito melhor.
198
No dia seguinte, na mesa do caf, depois que os meninos saram, Clara considerou:
-- Estive pensando, Rita. Voc tem razo: Osvaldo tem de ser prevenido.
-- Voc ir procur-lo?
-- No. Voc ir em meu lugar.
-- Eu?
-- Sim. Contar a ele o que est ocorrendo para que fique atento.
-- Est bem, irei.
-- Precisa tomar cuidado com o que vai dizer. Diga apenas que Vlter est com raiva dele e
ns desconfiamos que ele pode querer prejudic-lo de alguma forma. No convm dizer
que ele o ameaou at de morte.
-- Terei de falar a verdade, seno ele no vai tomar cuidado.
-- Vai ter de notar como ele reage. No quero provocar um mal maior. Se ele ficar muito
revoltado, suavize o caso.
-- Quando quer que eu v?
-- Hoje mesmo. Ligue para a casa dele e combine a hora.
Acertaram que ela iria a casa dele s duas horas.
Foi com impacincia que Osvaldo esperou que Rita chegasse. Ele sabia que ela continuava
morando com a famlia, e os meninos falavam muito bem dela.
Quando Jos a introduziu a sala onde Osvaldo esperava, ele se levantou emocionado. Ela
estava mais cuidada, bem vestida, mas seu rosto pouco havia mudado. Ele a abraou com
prazer.
-- Rita, o tempo no passou para voc! Est mais bonita.
-- O senhor tambm, continua o mesmo.
-- Sente-se, mas, por favor, no me chame de senhor.
Ela sorriu levemente e respondeu:
-- Sempre o chamei assim.
-- Depois do que tem feito pelos meus filhos, voc  como se fosse da famlia.
-- Obrigada.
Vendo que ela hesitava um pouco, ele tomou:
-- Sua visita me d muito prazer. Mas percebo que voc tem alguma coisa para me dizer.
--  verdade. Nem sei como comear. Aconteceram algumas coisas que nos deixaram
apreensivas. Clara me pediu que viesse aqui para lhe contar.
199
Osvaldo esforou-se para conter a emoo. Clara a enviara!
-- Alguma coisa com os meninos?
-- No. Eles esto muito bem. Mas o assunto  delicado e por isso Clara preferiu deix-los
fora disso.
-- Do que se trata?
-- Bem, no sei se o senhor... se voc sabe o que aconteceu em nossa casa depois que foi
embora.
-- Os meninos contaram como sobreviveram. Sei como voc ajudou Clara a manter a
famlia. Sei que agi mal abandonando-os daquele jeito. Mas fiquei transtornado, Rita, quase
perdi a razo.
-- No precisa explicar nada. Eu sabia que minha presena o faria se recordar do passado.
Mas vim para lhe falar do presente.
-- Vocs esto precisando de alguma coisa? Eu disse ao advogado que se colocasse 
disposio de Clara.
Tambm no  isso. No estamos precisando de nada. Clara tem um bom emprego e temos
nossa loja. Nada nos falta financeiramente. Depois que nos deixou, Clara se arrependeu
muito do que fez e rompeu com Vlter definitivamente. Ele a perseguiu durante muito
tempo. Por fim, vendo que ela no o queria, deixou-a em paz.
-- Eu sei. Marcos me contou.
-- E agora, depois que voc voltou, ele recomeou a persegui-la.
Osvaldo crispou as mos irritado:
-- O que ele pretende, uma vez que ela no o quer?
-- Deseja viver com ela.
Osvaldo empalideceu, mas controlou-se e no respondeu. Rita continuou:
-- Ela no quer. No gosta dele. Ao contrrio, diz que sua presena a faz recordar o erro,
sentir-se mais culpada. Ele vai esper-la na sada do trabalho e insiste. Ontem ela
concordou em ouvi-lo. Pensou que, se explicasse a verdade, ele desistiria. Ele, porm, est
muito desequilibrado. Tem medo de que vocs se reconciliem, tem cime, ameaava de
matar voc e... -- ela hesitou um pouco e depois concluiu: -- Clara ficou com medo de que
ele o procure e o prejudique de alguma forma
Osvaldo levantou-se e comeou a andar de um lado para outro nervoso. Era o cmulo. O
homem que lhe roubara o amor de Clara, que destrura sua vida e sua famlia, ainda tinha o
desplante de chantagea-la e ameaar a paz que eles to duramente estavam tentando
reconquistar.
-- Clara mandou dizer que tenha cuidado, que fique atento est muito perturbado e  capaz
de tudo. Ela teme por sua segurana.
200
Osvaldo parou e olhou para ela emocionado. Apesar de tudo, Clara ainda se preocupava
com ele. Sentiu um brando calor no peito e esforou-se para dominar a emoo. Quando se
viu mais calmo, disse:
--Agradea a ela por ter enviado voc para me avisar. Mas diga lhe que no tenha medo.
Sei me cuidar. Depois, penso que esse sujeito no ter coragem de vir me enfrentar.
-- Bem, o recado est dado. Espero que no fique aborrecido por eu ter vindo. Sabia que
minha presena o faria recordar-se do passado.
-- No. Foi muito bom ver voc.
-- Posso fazer-lhe uma pergunta?
-- Faa.
-- Voc ficou muito tempo longe. Conseguiu reconstruir sua vida?
-- Consegui com muito esforo compreender os fatos. Vivi no inferno, mas encontrei
amigos dedicados que me ajudaram e me ensinaram a olhar a vida de outra forma. Eu era
uma pessoa sem Deus. Foi preciso o vendaval que me abateu para que eu me voltasse para
Ele. Assim consegui sobreviver em paz.
-- Voc nunca foi religioso.
-- E no sou. Mas creio na espiritualidade.
Rita levantou-se e Osvaldo pediu:
-- Por favor, no v ainda. Fique. Tome um ch comigo. Gostaria de conversar, contar-lhe
o que tem sido minha vida agora.
Ela concordou. Ele mandou Jos servir um lanche e, enquanto tomavam o ch, Osvaldo
contou-lhe tudo que havia acontecido com ele desde que sara de casa.
Rita ouvia emocionada, bebendo suas palavras, sensibilizando-se com o drama que ele
vivera. Osvaldo no omitiu nada e finalizou:
-- Agora j sabe de tudo. Tem sido difcil voltar aqui, onde o passado ainda me constrange.
Muitas vezes pensei em voltar para o interior, continuar meu trabalho espiritual, reencontrar
minha paz.
-- Pretende ir embora de novo?
-- Quando Carlos me contou que Vlter voltou a assediar Clara, fiquei perturbado. No sei
se teria condies de suportar tudo de novo. Fui procurar Antnio em busca de conselho.
-- Carlos me disse que voc havia viajado.
-- Voltei ontem. Estive l durante uma semana, visitei os amigos. Antnio fez-me
compreender que s enfrentando meus medos conseguirei vencer meus desafios.
-- Esse seu amigo deve ser muito inteligente.
-- Ele, alm de ser um homem bom,  um excelente mdium curador.
201
Suas palavras so inspiradas por espritos de luz que irradiam energias de refazimento e
paz.
-- Quer dizer que ele o aconselhou a ficar aqui?
-- No. Ele me fez sentir que eu preciso ficar aqui. H tambm os meninos. No desejo
mais separar-me deles.
--Fico feliz que seja assim. Eles so rapazes inteligentes, bem-educados e apoiados pela
me, mas precisam do pai. Voc desenvolveu mediunidade, estudou a vida espiritual.
Agora entendo por que apesar do que aconteceu, conseguiu no guardar rancor de Clara.
Osvaldo fez um gesto largo:
-- Ningum pode obrigar uma pessoa a sentir amor. Ela deixou de me amar, interessou-se
por outro. S lamento que no tenha tido coragem de me contar. Apesar de sofrer, eu a teria
deixado ir. Ns nos amvamos. Muitas vezes tenho me perguntado como foi que eu a perdi,
que atitudes tomei que a decepcionaram. Mas agora isso  intil.
-- Voc precisa saber o que tem sido nossa vida desde que nos deixou. A princpio ela
ficou destruda, inconformada, com medo. Dona Neusa e seu irmo Antnio a ameaaram,
querendo saber onde voc se encontrava. Muitas vezes os atendi ao telefone. Eles diziam
que iriam  justia para lhe tirar os filhos. Uma vez Dona Neusa insultou Clara, que a ps
para fora.
-- Eu no sabia.
-- Minha irm foi embora para o interior e eu passei a morar na casa de Clara.
-- No meu tempo voc no dormia em nossa casa. Ainda bem que foi ficar com eles.
-- Foi bom para mim tambm. Clara no saa de casa e queria ver ningum. Sua me e
irmo apareceram l, mas eu no deixei entrar. Vlter estava apavorado, com medo de sua
reao. Procurou-a para dizer que precisavam dar um tempo at que tudo se acalmasse.
Clara achou bom. Tambm no queria v-lo. Aquela atrao que a fizera fraquejar
desapareceu no dia em que voc os surpreendeu. Ficou apenas a conscincia de sua culpa.
Ela chorou muito e foi difcil acalm-la. Por fim, o dinheiro de reserva acabou e ela
resolveu reagir.
Rita continuou contando, e a cada palavra Osvaldo ia imaginando as cenas, como em um
filme.
Confortava-o saber que Clara no continuara seu romance com Vlter.
-- Voc pode imaginar como foi difcil para uma mulher que era s dona de casa encontrar
um jeito de ganhar a vida.
202
Mas, por outro lado, foi uma forma de sair da depresso e lutar para sobreviver. Seu amor
pelos filhos a motivou. Depois, Clara  inteligente, trabalhadora -- finalizou Rita.
-- Voc disse que Clara est estudando a mediunidade. Isso  bom.
-- Sim. O conhecimento da espiritualidade nos tem ajudado muito. Dona Ldia, a dirigente
do centro,  pessoa muito boa, ligada aos espritos de luz. Tem nos aconselhado sempre que
precisamos.
Osvaldo fechou os olhos por alguns instantes, depois disse:
-- Tem razo. Atrs de sua aparncia modesta esconde-se um esprito iluminado que veio
com mandato espiritual.
-- Voc esteve com ela?
-- Ainda no.
-- Como sabe isso?
-- Enquanto voc falava eu a vi.  uma mulher forte, meia-idade, veste-se sempre de cores
alegres, cabelos louros, curtos, ondulados, rosto redondo e simptico. Quando sorri
aparecem duas covinhas na face. Seus olhos so penetrantes e firmes.
Rita admirou-se:
-- Isso mesmo. Ela  assim. Voc  mdium mesmo.
Osvaldo sorriu:
-- Eu lhe disse que tenho trabalhado com os espritos.
-- Tem freqentado algum lugar aqui?
-- Ainda no. Mas tenho mantido contato com meus amigos espirituais. Foram eles que me
avisaram que voc viria.
-- Que bom! O conhecimento espiritual nos ajuda a compreender melhor o que nos
acontece. J conseguiu perdoar Clara?
Osvaldo estremeceu, ficou calado alguns instantes. Por fim disse:
-- Consegui entender como aconteceu. Pensei que houvesse perdoado, mas o perdo liberta
e toma possvel esquecer. Alguns dias notei que a antiga ferida ainda sangra de vez em
quando. S posso dizer que continuo me esforando. Um dia conseguirei.
-- Mas voc no a condena.
-- No. Isso no. Entendo que toda pessoa  livre para amar quem quiser, tem o direito de
escolha.
-- Nesse caso, por que a mgoa?
-- Porque ela no foi sincera. Se tivesse me contado o que sentia, teramos resolvido tudo
de maneira civilizada.
-- Clara teve medo da sua reao.
Osvaldo respirou fundo e respondeu:
203
-- Teria sido doloroso de qualquer forma. Mas eu teria me afastado e deixado o caminho
livre.
-- Voc teria sido capaz disso?
-- Teria. Eu a amava e desejava sua felicidade acima da minha.
-- Desculpe tocar em assunto to ntimo. Eu acompanhei o sofrimento dela e das crianas.
So como minha famlia. Farei o que puder para que sejam felizes.
-- Tenho certeza disso. Admiro sua dedicao.
--H muito que Clara deixou de ser minha patroa. Tomou-se mais que uma amiga querida,
mas uma irm. Fico tranqila sabendo que voc no cultiva nenhum rancor.
-- Amo meus filhos. O que puder fazer pelo bem-estar deles, farei. Voc pode contar
comigo para o que precisar.
Estava escurecendo quando Rita deixou a casa de Osvaldo. Depois que ela se foi, ele se
sentou na sala pensativo. Clara havia se preocupado com ele! Sua raiva por hav-los
abandonado sem recursos teria passado?
O que haveria de verdade na ameaa de Vlter? Teria sido apenas uma maneira de
pressionar Clara? Era provvel que sim. Mas a idia de que a presena de Vlter
incomodava seus filhos o fazia sentir que precisava tomar alguma providncia. Talvez fosse
prudente investigar a vida de Vlter, saber como ele agia, o que fazia. Olhou para o relgio:
passava das seis. Ligou para Felisberto e convidou-o para jantar em sua casa, precisavam
conversar.
Felisberto, por sua postura tica, a lisura com que tratara os negcios de Ester durante tanto
tempo, granjeara no s sua confiana mas tambm sua amizade.
Depois do jantar, sentados na sala de estar, Osvaldo contou ao advogado o que estava
ocorrendo. Finalizou:
-- Talvez no signifique nada. Acha que eu deveria tomar alguma ma providncia?
-- Sim. Clara se preocupou. Pode ter notado algo mais srio.
-- Foi o que pensei. Mas no sei o que fazer.
-- O melhor seria investigar a vida desse Vlter. Saber como  pode nos dar uma idia mais
verdadeira. Conheo um investigador de confiana que faria isso para voc. De posse
desses dados, daremos o passo seguinte.
-- Bem pensado. Gostaria de falar com ele amanh mesmo.
-- Est bem. O nmero de seu telefone est em minha agenda de casa. Hoje mesmo falarei
com ele.
204


-- Estarei esperando.
Depois que Felisberto se foi, Osvaldo sentiu-se mais calmo. Vlter havia machucado sua
famlia uma vez, no iria permitir que fizesse isso de novo.
Na hora de dormir, Osvaldo sentou-se na cama, fechou os olhos e evocou a presena de
seus guias espirituais. Sentiu uma brisa leve e um brando calor  sua volta e orou pedindo
proteo e ajuda para aqueles que amava. Depois se acomodou, sentindo-se calmo, e logo
adormeceu.
Captulo 17
Quando Rita chegou em casa, j encontrou Clara esperando.
-- Puxa, voc demorou.
-- No pensei que voc j estivesse em casa.
-- Vim mais cedo. Estava ansiosa para saber tudo. Como foi?
-- Bem. A princpio eu estava constrangida. No sabia como ele iria reagir. Mas nossa
conversa foi melhor do que eu esperava.
-- Como assim?
Rita ficou pensativa por alguns segundos, depois considerou:
-- Osvaldo est mudado. Parece outra pessoa.
-- Mudado como? Est mais velho, magro, abatido ou o qu?
-- Nada disso. Fisicamente est at melhor.
-- Explique-se.
-- No sei dizer. Seus olhos, sua postura, seu jeito, est diferente.Tambm Est mais
bonito, elegante. Apesar de o nosso assunto ser delicado, ele me pareceu mais seguro,
firme. Nossa conversa foi franca, e senti que ele est mais verdadeiro, mais amadurecido.
-- Por que demorou tanto?
-- Bem, ele me tratou com muito respeito e considerao. Conversamos muito e o tempo
foi passando. Quando eu quis vir embora ele me pediu para ficar mais um pouco.
-- Deu meu recado sobre Vlter? O que ele disse?
-- Sim. Ele me pediu que lhe contasse tudo que nos aconteceu durante o tempo que ele
esteve ausente.
-- No foi para isso que voc foi l.
-- Eu no queria tocar no passado. Sabia que seria dolorido para ele. No queria que me
interpretasse mal. Mas Osvaldo se mostrou interessado. Emocionado, notei que se
esforava para manter controle.
206
-- No sei se foi bom ter pedido a voc para procur-lo.
-- Ao contrrio. Foi timo. Adorei ter ido.
Clara ficou calada por alguns instantes. Depois perguntou:
-- Sobre o que mais falaram?
-- Ele ficou emocionado quando soube que foi voc quem me mandou l, e nervoso
quando contei que Vlter continuava perseguindo-a. Mandou dizer que no precisa se
preocupar. No vai deixar que ele faa nada.
-- No disse o que pretende fazer para impedir isso? E se for procurar Vlter?
-- Osvaldo no far nada disso.
-- Por que tem tanta certeza?
-- Agora ele conhece a espiritualidade. Desenvolveu mediunidade, trabalha com os
espritos.
Clara surpreendeu-se:
-- Ele? Nunca se interessou por religio.
-- Voc j sabe a histria. Carlos contou. Quando ele se jogou do trem, foi socorrido e
assistido por um curador.  assim que so chamados os mdiuns no campo. Ento, tudo
aconteceu. Tenho certeza de que Osvaldo  dos bons.
-- Por qu?
-- Quando mencionei Dona Ldia, descreveu-a minuciosamente. Ele a viu mesmo.
-- Como pode ser isso?
-- Vidncia. Garanto que muito verdadeira. Acertou tudo. Isso me acalmou. Tenho certeza
de que ele no far nada errado. Depois, ele olha nos olhos quando fala e inspira muita
confiana.
Clara no respondeu de pronto. Rita continuou:
-- Voc no precisa ter medo da convivncia dele com os meninos. Ele s far o que for
bom.
Clara hesitou um pouco, depois perguntou:
-- Ele falou alguma coisa de mim?
-- Falamos do passado, de tudo.
-- Ele... conseguiu esquecer, refazer sua vida afetiva?
-- No. Quando lhe perguntei se havia perdoado voc...
-- No devia ter perguntado isso... -- interveio Clara, aflita.
-- Ele me deu abertura, e eu quis saber. Respondeu-me que durante todos estes anos
pensou que tivesse conseguido perdoar. Mas agora descobriu que a ferida ainda sangra. A
mgoa ainda est l.
Clara levantou-se nervosa:
207
-- Ele ainda me odeia! Eu sabia! Suas palavras para os meninos no eram verdadeiras.
-- Em nenhum momento ele pareceu odi-la. Ao contrrio. Fala em voc com respeito e
certa deferncia.
-- No creio. Se no me odiasse, teria perdoado e esquecido. Se ainda sofre,  porque me
odeia.
-- Ou ama. Um amor impossvel tambm di.
-- Voc est fantasiando.
-- Se eu fosse voc, iria conversar com ele.
-- Est louca?
-- No. Tenho certeza de que a conversa seria muito oportuna e elucidativa. Vocs teriam
muito a se dizer e, quem sabe, poderiam resolver todas as pendncias do passado.
-- Eu no teria coragem para isso. J chega a conscincia de minha culpa. No preciso
ouvir as acusaes dele.
-- Lembre-se de que todo assunto mal resolvido retorna para dar a chance a que os
envolvidos se libertem. A volta dele  uma excelente oportunidade para isso.
--No quero ouvir mais nada sobre esse assunto. Fiz a minha parte avisando-o. Agora
posso ficar em paz.
Rita no respondeu. Ficou olhando para ela at que desaparecesse na curva da escada.
Depois dirigiu-se  cozinha para cuidar do jantar. Sentia-se leve, alegre, como se tivesse se
libertado de um grande peso. Cuidando dos afazeres, chegou at a cantarolar.
Carlos, que chegava, observou:
-- Que bom! Cantando, o jantar vai ficar mais gostoso.
-- Vou fazer aquela sobremesa de que voc gosta.
-- Oba! Mas voc s faz em dia de festa.
-- Pois vou fazer hoje.
-- O que vamos comemorar?
-- Nada. Estou alegre, s isso.
-- Ento voc deveria ficar alegre mais vezes.
-- V tomar banho, que logo o jantar estar pronto.
No dia seguinte, Vlter foi procurar Antnio em casa. Convidado a entrar, Neusa apareceu
logo e olhou contrariada para ele.
Antnio explicou:
-- Vlter veio nos ajudar. Estamos precisando, uma vez que quem deveria no faz nada.
Neusa mordeu os lbios com raiva.
208
-- Os filhos so ingratos mesmo.
-- Como vai a senhora, Dona Neusa?
-- Como Deus quer. H pessoas que nascem para sofrer...
-- Sente-se, Vlter -- interrompeu Antnio, maneiroso. -- Voc precisa entender, me,
que Vlter nunca deixou de ser meu amigo.
-- Por causa dele voc perdeu o emprego.
-- Por causa dela, isso sim. Homem  homem. A sem-vergonha foi ela.
-- No falemos do passado. Vim aqui como amigo. Ns sempre fomos amigos.
-- Me, v fazer um cafezinho para ns. Queremos conversar.
Depois que ela foi para cozinha, Vlter disse baixinho:
-- Vim aqui para ajudar mesmo.
-- Tem algum emprego para mim?
-- Ainda no. Mas estou procurando. Quero encontrar alguma coisa  sua altura. Voc
precisa ser valorizado, no explorado. Ter de ganhar bem e trabalhar pouco.
--  exatamente o que tenho procurado todos estes anos.
-- Sabe que no  fcil. Mas, se me ajudar, tenho certeza de que conseguirei.
-- Farei qualquer coisa para ter uma renda boa.  horrvel viver sem dinheiro. Minha me
est velha, cansada, precisa de conforto.
-- No pensei que estivessem passando necessidade. Seu irmo voltou rico.
Antnio levantou-se nervoso
-- Pois ele no d nada.  como se no existisse. Nem parece da famlia.
-- Por que no mandou sua me falar com ele?
-- Ela foi, mas ele no fez nada.
-- Isso  que  ingratido. Voc perdeu o emprego por causa de Clara.
-- No me conformo.
-- No fiz de propsito. Aquela mulher me alucina.
-- Ainda gosta dela?
-- Nunca consegui esquec-la. Daria tudo para que me aceitasse. Eu estava quase
conseguindo, mas ento Osvaldo voltou, rico,bem-posto, dando tudo para os filhos e para
ela. Ento ela me rejeitou. No quer mais saber de mim. Estou desesperado.
-- Por que no tenta esquecer? Ela no quer nada com voc mesmo.
209
-- No consigo. Tenho certeza de que, se ele no tivesse aparecido, ela me aceitaria.
Antnio pensou alguns segundos, depois disse:
-- Voc acha que ele vai voltar a viver com ela depois de tudo?
-- Acho. O tempo passou e ele era louco por ela. Pode querer isso mesmo. Por que
resolveu voltar?
-- Eu Custo a crer que ele tenha o desplante de viver com ela como se nada houvesse
acontecido. Precisaria no ter vergonha na cara.
-- A paixo  cega. Olhe, preciso que voc descubra em que p esto as coisas entre eles.
--  difcil. Nosso relacionamento no  bom. Ele nem sequer me ouve.
-- No ouve porque voc no sabe chegar. S reclama. V l como quem no quer nada,
aproxime-se dele. Fale nos laos de famlia, diga que so irmos e precisam entender-se
melhor, que sua me sofre por ver que vocs no se do. Enfim, mostre-se arrependido por
haver brigado com ele. Pea apoio, ajuda. Mostre desinteresse. No fale em dinheiro, por
favor.
-- No sei se poderei fazer isso. No  do meu feitio.
-- Eu sei. Mas preciso que descubra o que quero saber. Em troca arranjo um emprego
daqueles para voc. Dinheiro no bolso todo ms.
Pouco esforo.
--A oferta  tentadora. Verei o que posso fazer.
-- Nada disso. Voc vai comear hoje mesmo.
Neusa chegou com o caf e serviu-os em silncio. Havia ficado escondida ouvindo a
conversa. Depois que Vlter se foi, ela comentou
-- Ele est louco. No sabe o que diz.
--Voc ouviu?
-- Tudo. No acredito que Osvaldo esteja pensando em voltar com ela.
-- No sei, no. Ele era louco por Clara, lembra?
-- Lembro. Voc vai fazer o que ele pediu?
-- Estou pensando...
-- Seria bom. Ele est com cime. Mas o bobo do Osvaldo bem pode estar pensando
mesmo em ir viver com ela. Por outro lado seria bom voc se aproximar dele, tentar
conquistar sua amizade. Assim, ele acabaria por nos ajudar. Seria bom, porque no temos
dinheiro nem para o essencial.
-- Vou tentar, me. Voc sabe que sou bom para representa ser um papel e tanto.
210
Valter deixou a casa de Antnio satisfeito. Antnio era fcil de manipular e lhe traria todas
as informaes sobre o rival. Ento faria o plano para tir-lo do caminho definitivamente.
Uma semana depois, no fim da tarde, Osvaldo, sentado em seu escritrio em casa, meditava
sobre sua vida. Rever os amigos no interior havia sido maravilhoso, mas ele sentia que
aquele tempo havia acabado. Estava na hora de retomar a vida na cidade.
Alm disso, havia os filhos. Eles tinham dado novo sentido  sua vida. No se sentia com
foras para deix-los. A cada dia, mais se sentia feliz por estar com eles, descobrindo um
pouco mais dos seus gostos e preferncias, apoiando-os com carinho e firmeza. Esse
carinho preenchera sua solido.
Independentemente disso, desejava trabalhar, ocupar-se, sentir-se til. Ainda no decidira o
que fazer, mas tinha certeza de que seria alguma coisa voltada  espiritualidade.
Acreditava que a vida lhe colocara nas mos uma fortuna, para que a usasse em favor do
progresso seu e de todos. Nunca tivera ambies prprias. Ao contrrio: depois do drama
que vivera, acostumara-se a viver na simplicidade do campo, satisfazendo-se com quase
nada. Bastavam-lhe o carinho dos amigos, as belezas da natureza, o trabalho com os
espritos cuja sabedoria e bondade o enterneciam.
As mudanas que ocorreram mostravam que ele precisava mudar o rumo e seguir adiante.
Agora estava vendo claro.
Assumir conceitos de espiritualidade significava viver de acordo com eles todos os
instantes de sua vida. S assim poderia sentir-se verdadeiramente feliz, realizado.
Nos ltimos anos, atendendo s pessoas, assistindo ao sofrimento humano, pudera perceber
claramente que a infelicidade do homem  causada pelo desconhecimento das leis
csmicas. Descobriu que a ingenuidade tem um preo caro e no isenta ningum da
responsabilidade de suas atitudes.
Estava certo de que a harmonia, a felicidade que o homem deseja s vir quando ele
aprender e respeitar as leis csmicas, olhar a vida como , desenvolver a conscincia
vivenciando os valores eternos da alma. Ningum a pretexto de assumir uma religio, seja
qual for, encontrar o equilbrio interior cumprindo regras em sua maioria originadas de
crenas sociais, distorcidas da verdade. A conquista da espiritualidade  um trabalho
interior incessante,  o reconhecimento do prprio potencial, o esforo paciente de se ver
sem mscaras ou subterfgios, aceitando tanto as qualidades como os pontos fracos, sem
culpas ou reprimendas, procurando venc-los com bondade e firmeza.
211
 fazer o possvel para essa conquista, mas aceitando todas as determinaes da vida que
no pode mudar, procurando tirar delas todo bem que conseguir perceber. A confiana na
vida  fundamental para quem deseja cuidar do seu mundo ntimo e harmonizar-se com as
foras positivas do universo.
Osvaldo tinha profunda conscincia de todas essas coisas. Suas experincias com os
espritos, os desafios que enfrentou na vida, a ajuda que recebeu de Deus quando descrente
e incapaz de pensar com clareza, a proteo divina que nunca o abandonou nesses
momentos infundiam-lhe a certeza de que a conquista da felicidade era questo de tempo e
de bom desempenho. Ele sentia que estava descobrindo como fazer isso.
Mostrar tudo s pessoas, ensin-las a observar a vida, buscar caminhos novos de
aprimoramento e equilbrio interior, tudo isso seria a forma de realizar a profilaxia da dor,
dos sofrimentos.
Ajudar quem est sofrendo em um leito de dor, mitigar a fome dos miserveis so tentativas
vlidas de ajudar, so bnos de amor que do mais ao que faz do que ao que recebe.
Contudo, poder evitar a dor antes que ela chegue  dar a cada um o poder de saber que  o
criador do prprio destino.  torn-lo consciente do prprio poder,  colocar em suas mos
meios de viver melhor, de conquistar a sabedoria, de tornar-se lcido e seguro em seus
passos.
Essa  a maior ajuda que se pode dar. Porm no  a mais fcil.  preciso que a pessoa
queira e se disponha a enfrentar seus medos e suas crenas erradas do passado, deixar o
conforto do comodismo para experimentar o novo, recomeando sempre, corrigindo rumos,
buscando compreender melhor.
Osvaldo perguntava-se como fazer isso. Os espritos lhe haviam dito atravs de Antnio, na
reunio de despedida que fizeram antes de seu retorno, que sua tarefa maior era a de cuidar
da prpria evoluo, estudando a vida, estudando a si mesmo. S assim estaria pronto para
um dia realizar seu desejo de ajudar efetivamente o progresso da humanidade.
Os conflitos que ainda se debatiam dentro dele informavam-no que estava longe de
conseguir o prprio equilbrio. No seria cedo para iniciar um trabalho de ajuda espiritual
s pessoas? Ele havia feito isso sob a orientao e proteo de Antnio. Sozinho,
conseguiria o mesmo sucesso?
212
Mas ao mesmo tempo sentia-se muito motivado. Fechou os olhos e evocou seu guia
espiritual. Queria orientao. Sentiu um calor agradvel no peito e nas mos e uma paz
confortadora. Continuou absorvendo essas energias alguns instantes e de repente ou viu
distintamente:
-- Quando o trabalhador est pronto, o trabalho aparece. Confie e espere.
Tudo desapareceu e ele abriu os olhos e entendeu que precisava ficar atento e perceber
quando as coisas comeassem a acontecer. A vida fala com as pessoas atravs de sinais aos
quais  preciso saber observar. Seus recados so claros, mas h que ter olhos de ver.
O telefone tocou e Jos entrou dizendo:
--  Rita, quer falar com o senhor.
Ele atendeu em seguida. Depois dos cumprimentos, ela tornou:
-- Ontem fui ao centro e conversei com Dona Ldia. Ela se interessou muito pelos
trabalhos de cura que voc fazia com o curador no interior. Disse que gostaria muito de
conhec-lo.
Osvaldo sentiu uma sensao agradvel e respondeu:
-- timo. Eu tambm gostaria muito. Ela disse quando pode ser?
-- Quando quiser.
-- O mais rpido possvel.
-- Bom, hoje ela comea o atendimento s oito. Se chegar antes, podero conversar com
tranqilidade.
-- Agora so seis e meia. Acha que  muito cedo?
-- No. Pode ir.
Passava um pouco das sete quando Osvaldo chegou  casa de Ldia. Ela o recebeu com
alegria e conduziu-o a uma pequena sala onde poderiam conversar  vontade.
Osvaldo gostou dela imediatamente. Seu rosto simptico, sua maneira de sorrir e olhar nos
olhos das pessoas transmitiam confiana. Seu jeito simples deixou-o logo  vontade.
Depois de sentarem-se no sof, ela tornou:
-- Havia muito o esperava. Sabia que viria, Isso me d muito prazer.
-- Obrigado. Estou contente por encontr-la. Ainda h pouco, pedia ao meu guia espiritual
urna orientao.
-- O trabalho espiritual  uma bno para o mdium. Traz alegria, alimenta a alma. Quem
o experimentou um dia no consegue mais viver sem ele.
213
-- Tem razo. Recebi tanto bem, tantas alegrias nos contatos com os trabalhadores do bem
que estou ansioso para recomear. Nos ltimos dias tenho me debatido na dvida. Deixei a
proteo e os cuidados do meu amigo e mestre Antnio, voltei para a cidade, envolvi-me
nos conflitos mal resolvidos do passado. L no interior, sentia-me seguro, apoiado, distante
de tudo. Cheguei a imaginar que havia vencido as angstias que me levaram para l.
Entretanto, os conflitos ainda me afligem. Penso que ainda no estou pronto para os
trabalhos espirituais.
-- Voc teve uma pausa, que o aliviou temporariamente para que pudesse entender a vida
como ela , jogar fora crenas erradas, descobrir o mundo dos espritos, encontrar seu
mundo interior, suas necessidades como esprito eterno que esto acima dos problemas
materiais.  preciso viver no mundo, mas acima de tudo  preciso usar as experincias do
mundo para amadurecer o esprito, tornar-se mais espiritual.
Osvaldo estava comovido. Os olhos de Ldia brilhavam irradiando uma luz que ele sentiu
como um banho de energia positiva em seu corpo. As lgrimas comearam a descer pelo
rosto e ele as deixou cair.
--  isso que tenho procurado fazer. Mas s vezes ainda confundo meus sentimentos,
misturo emoes, sinto-me perdido.
-- Voc foi provado no ponto mais difcil. A vaidade cega e complica tudo. Sem ela, voc
h muito teria percebido a verdade e talvez j houvesse encontrado a felicidade.
H muito que perdi a vaidade. No campo, vivi na mais absoluta pobreza, convivi com a
vida bem simples, onde a vaidade  esquecida.
Apesar disso, a mgoa ainda o desafia. No  fcil deixar os conceitos do mundo. As
regras, as convenes de uma sociedade materialista tm a fora de crena da maioria,
assim tomam-se barreiras difceis de serem derrubadas. s vezes  preciso muito
sofrimento, muita dor, muitas perdas para que a pessoa se d conta de que a vida tem outros
conceitos, mais verdadeiros.
Eu mudei muito. Antes eu era um homem tranqilo, seguindo as regras da sociedade,
julgando-me inteligente por haver escolhido o caminho da honestidade, da famlia, do
trabalho. Sempre cumpri com todas as regras e era muito respeitado por todos.
-- Mas voc precisava crescer. Deixar o comodismo de uma situao conquistada, segura,
e buscar os desafios do desenvolvimento.Por isso foi submetido a esse teste. Precisava
despertar para a espiritualidade.
214
Estava na hora de olhar a vida real, como , sem as iluses acomodadas do mundo. Por isso
se casou com uma mulher que, apesar de valorosa, deixou-se levar pelas iluses da vaidade.
Viu-se admirada, sentiu-se valorizada, curiosa, diante dos apelos do sexo. Tambm ela
precisava aprender os verdadeiros valores espirituais. Ela mudou, amadureceu. Reconhea
que ambos cresceram.
-- Isso  verdade. Mas agora que meus filhos compreenderam que eu os amo muito e
perdoaram os anos de ausncia, sinto que no estou to s. Tenho boa situao financeira,
mas quero trabalhar, ser til. E, embora no me sinta preparado, preciso do trabalho
espiritual. Mas ainda no sei o que e como fazer.
-- No se apresse. A vida lhe mostrar o caminho quando chegar o momento. Agora,
quanto ao trabalho espiritual, est mais do que preparado para recomear.  isso que est
me dizendo Alberto. Voc o conhece?
--  um dos espritos que nos ajudava a atender s pessoas l no interior.
-- Ele o aconselha a rever seus conhecimentos de cura memorizando e procurando ter um
lugar onde possa fazer exatamente o que fazia l, do mesmo jeito e com as mesmas coisas.
Quando tiver feito isso, o resto vir naturalmente. Est dizendo tambm que confie em voc
e no se deixe levar pelas sugestes de espritos perturbados. Voc tem conhecimento e
domnio, f e coragem para no se deixar envolver. Recuse os pensamentos negativos de
qualquer tipo. Procure olhar todos os acontecimentos de forma positiva. Voc sabe que s o
bem  real. Fora dele, no existe mais nada. O mal  iluso.
Ldia levantou-se e colocou a mo sobre a cabea de Osvaldo, dizendo:
-- Que Deus o abenoe. Lembre-se de que estaremos a seu lado e o ajudaremos sempre,
desde que faa sua parte, conservando pensamentos positivos. Eles so nosso ponto de
ligao porque nos permitem ter acesso ao seu mundo interior. Alberto.
Ldia calou-se e Osvaldo emocionado abriu os olhos sentindo-se aliviado como h muito
no se sentia.
-- Obrigado, Dona Ldia. Deus a recompense pelo bem que me fez.
Ela o abraou comovida e respondeu:
-- Eu que agradeo pela oportunidade de conhecer voc e um esprito como Alberto.
Em seguida ela lhe pediu que explicasse o trabalho que ele e Antnio realizavam, e
Osvaldo contou tudo nos mnimos detalhes.
215
Quando ele se despediu, estava sereno e contente, pensando no que fazer para atender ao
que Alberto lhe pedira.
Passava das oito quando chegou em casa e Jos o esperava para servir o jantar. Enquanto
comia, continuava pensando. Jos comentou;
-- Aconteceu alguma coisa? O senhor est calado, parece preocupado.
-- No. Estou bem. Mas gostaria de retomar minhas experincias com as ervas, como fazia
no interior. J lhe falei sobre isso.
-- Boa idia.
-- No  fcil. Estamos na cidade.
-- Mas pode fazer isso no stio. Nunca esteve l? Dona Ester adorava ir l, passava dias
cuidando das flores. Esse stio  seu agora.
Osvaldo admirou-se;
-- , h um stio. Como me esqueci disso? Onde fica?
-- No levar uma hora para chegar l.
-- Voc sabe onde ?
-- Claro.
-- Amanh mesmo iremos at l. Quero conhecer o lugar. Puxa, como no pensei nisso
antes?
Jos sorriu alegre e respondeu:
-- Tudo vem na hora certa!
Osvaldo olhou srio para ele e disse:
-- Deus falou pela sua boca. Como  esse lugar?
-- No escritrio h documentos, fotos, plantas, tudo. Se quiser, podemos ver agora.
Osvaldo concordou com entusiasmo. No escritrio, Jos abriu um armrio e entregou-lhe
volumoso pacote que Osvaldo abriu curioso. Tratava-se de uma propriedade de vinte e
cinco alqueires, muito bem cuidada, tendo a casa principal mais a do administrador e
algumas casas de empregados, um lago, muitas rvores e flores.
-- Iremos para l amanh bem cedo.
-- Rosa pode ir conosco? Ela adora aquele lugar. Dona Ester quando ia sempre nos levava.
Osvaldo sorriu e considerou:
-- Claro. Sairemos ao clarear do dia.
-- Combinado. Deixaremos tudo pronto ainda hoje. Vou pedir a Rosa que arrume sua mala.
-- No precisa. Eu mesmo fao. De stio eu entendo.
Osvaldo foi para o quarto, arrumou a bagagem, depois preparou- se para dormir.
216
Deitou-se emocionado, lembrando-se dos ltimos acontecimentos. Sentia em tudo que
acontecera a mo invisvel dos amigos espirituais mostrando-lhe o caminho a seguir.
Uma onda de alegria banhou seu corao. Tinha certeza de que estava sendo abenoado
pelas foras do bem e conduzido para uma vida melhor.
Naquele instante, em pensamento agradeceu a Deus por tudo que estava recebendo e fez
intimamente o voto de dedicar-se ao trabalho espiritual com disposio e sinceridade.
Depois, sentindo-se tranqilo e alegre, adormeceu.
217
Captulo 1 8
-- E ento, nada ainda? -- perguntou Vlter irritado.
-- Nada. No consigo encontrar Osvaldo.
-- Acho que voc est com m vontade. Desse jeito no d. Uma semana e no conseguiu
nada. Afinal  seu irmo. Ele se recusa a falar com voc?
-- No  isso. Ele tem viajado muito. Fui l a semana passada e me disseram que ele tinha
ido para o stio em Jundia.
Vlter olhou desconfiado:
-- Que stio  esse?
-- O stio de tia Ester. Ele agora deu para ficar l o tempo todo. Veio  cidade duas vezes
nesta semana, fez compras e voltou no mesmo dia.
-- No est me enganando?
-- Claro que no. Estou desesperado para ter aquele emprego que voc me prometeu.
-- S depois de conseguir o que eu preciso. Por que no vai at l?
-- Eu? Nunca estive naquele lugar, nem sei onde fica.
-- Como no sabe? Esse stio no era de sua tia?
-- Era, mas ela nunca nos convidou para ir l. Voc sabe que ela no ligava para ns.
-- Hmm... ela devia ter seus motivos -- resmungou ele.
-- Ela era orgulhosa s porque era rica. Sabe como ...
-- Sei. Voc tem ao menos uma idia de quando ele vai voltar.
-- No. Mas deixei o recado para a empregada me avisar assim que ele chegar.
-- Acha que ela far isso?
-- Claro. Eu disse que era urgente, que mame est doente e precisando de ajuda.
-- E se ele no se importar?
218
-- Ele  duro, mas vai querer saber o que ela tem. Fique calmo. Ele volta e cumprirei
minha palavra.
-- Espero que seja logo.
Quando Vlter se foi, Antnio entrou em casa. Vendo-o, Neusa indagou:
-- Vlter estava esperando voc. Est impaciente. Ainda no falou com Osvaldo?
-- No. Ele foi para o stio e no voltou ainda. Eu contei isso para Vlter.
Neusa deu de ombros. No gostava de Vlter, mas precisava suport-lo por causa do
emprego que ele conseguiria para Antnio. Por isso concluiu:
-- Espero que ele no demore muito. Em breve no teremos nada nem para comer.
-- Vou ver se arranjo um bico enquanto isso. Talvez volte a ajudar Miguel no bar. No
gosto daquele servio, mas em ltimo caso...
-- Faa isso, pelo menos.
Vlter saiu nervoso do encontro com o amigo. Sentia-se inquieto. Pensava em Clara, e as
imagens dos momentos de amor que viveram juntos no passado voltavam  sua lembrana,
exasperando-o.
No podia compreender por que ela o recusava depois de ter trado o marido por sua causa.
Agora ela se tomara mais bonita, tinha mais classe, no era mais aquela jovem insegura,
ingnua. Transformara-se em uma mulher atraente, e sua recusa s aumentava seu
interesse.
Conquistar Clara tomou-se para ele uma obsesso. A noite imaginava fantasias sexuais com
ela e acabava insone, insatisfeito, O que ele no sabia era que seus pensamentos atraram a
presena de alguns espritos que se alimentavam das energias sexuais e que o excitavam
ainda mais a fim de conseguirem o que pretendiam.
Algumas vezes ele acabava se levantando e saindo em busca de algum com quem pudesse
satisfazer sua vontade, percorrendo o mundo dos escravos do sexo, dando vazo ao que
sentia. Depois, ao alvio temporrio se seguia a depresso, a raiva, e a insatisfao
continuava. A sede no se apagava, e no dia seguinte tudo recomeava.
Era o inferno, e ele culpava Clara acreditando que, quando ela o aceitasse, tudo se
resolveria. S ela seria capaz de matar sua sede de amor, de acabar com aquela insatisfao
que o atormentava.
Nessa fantasia, ele ficava a cada dia mais e mais envolvido por espritos perturbados que
somavam seus desequilbrios aos dele em uma simbiose de difcil soluo, uma vez que se
alimentavam mutua mente, misturando suas energias, numa cumplicidade absoluta.
219
Clara tambm sentia-se inquieta, perturbada. No dormia bem,tinha pesadelos nos quais
sempre havia um homem querendo agarr-la, dizendo obscenidades, inspirando
pensamentos mrbidos.
Ela havia conversado com Ldia, que a aconselhara a continuar freqentando o tratamento
espiritual. Ela havia emagrecido e no se alimentava bem.
Domnico, conversava com ela tentando ajud-la a sair desse estado aconselhando-a a
resistir, colocando sua fora interior em ao para rechaar essas energias.
Ela tentava e, ao fazer isso, sentia-se melhor, porm os pensamentos depressivos e a culpa
do passado reapareciam e ela voltava ao estado anterior.
Quando ela chegou ao centro naquela noite, Ldia esperava-a e levou-a at a sua sala,
dizendo:
-- Sente-se, Clara. Ontem  tarde conheci seu marido.
Clara sobressaltou-se:
-- Ele veio aqui? No desejo encontr-lo.
Acalme-se. Ele veio, conversamos s isso.
Clara levantou-se
-- Vou embora. Osvaldo pode aparecer de novo. No quero encontr-lo.
-- No se preocupe. Ele no vir.
-- O que ele veio fazer aqui? Falar sobre nossos problemas?
-- No. Sente-se, por favor. Estou lhe contando porque pensei que gostaria de saber. Ele
veio conversar sobre mediunidade. Rita falou- lhe sobre nosso trabalho e ele nos fez uma
visita.
Clara ficou calada por alguns segundos, depois tornou:
-- Pode ser apenas um pretexto para se aproximar. Osvaldo nunca se interessou por esse
assunto. No creio que seja mdium.
-- Faz mal. Ele no s tem muita sensibilidade como assumiu voluntariamente o trabalho
espiritual.
--  difcil crer.
-- Seu marido  homem de extrema sensibilidade e experincia no trato com os espritos.
Conversamos sobre espiritualidade. Contou-me os trabalhos que realizava no interior em
companhia de um Sr. Antnio. Aprendeu a utilizar-se das ervas e dos elementos naturais e,
sob a orientao de espritos iluminados, trabalhava na cura e orientao das pessoas,
ajudando-as.
220
-- No sei o que dizer. Para mim  difcil imagin-lo como um missionrio, prestando
socorro.
-- Ele fazia esse trabalho no interior e no sabia se deveria dar continuidade a ele aqui, na
cidade.
-- Se os espritos de luz o acompanhavam, deveriam dizer-lhe o que fazer.
-- Eles no fazem isso nunca. Inspiram e esperam a pessoa decidir o que deseja fazer.
Depois, Osvaldo confessou-me que as emoes que tem experimentado depois que voltou 
cidade o deixavam em dvida se estava preparado para o desempenho da mediunidade.
Clara baixou a cabea tentando dominar a emoo. Falar de Osvaldo, saber como ele estava
depois de tantos anos, conhecer o que ele sentia, deixava-a comovida. Ldia continuou:
-- Gostei de conhec-lo e tambm ao seu mentor espiritual, que se manifestou naquele
momento. Foram momentos de iluminao e paz. Estou lhe contando para que no se deixe
dominar pelas emoes do passado. Seu marido  um homem bom, amadurecido, de
sentimentos elevados. Queria que soubesse que pode confiar nele.
Clara levantou-se.
-- Falar sobre ele ainda me perturba -- disse ela tentando sorrir.
-- Apesar disso, obrigada por ter me contado.
Quando Clara deixou o centro depois de receber o tratamento espiritual, no conseguia
esquecer as palavras de Ldia.
Osvaldo seria mesmo um mdium, um iniciado nas coisas do esprito? Estaria sendo
sincero? Ela sabia que Ldia era uma pessoa sria, tinha conhecimento e no iria prestar-se
a uma mentira. Depois, se ele estivesse fingindo, ela saberia.
Aps tantos anos, como Osvaldo estaria? Lembrou-se de seu rosto jovem, descontrado, seu
sorriso bonito que cavava duas covinhas em sua face morena. Lembrou-se de como ele era
bonito e de como haviam se amado nos primeiros tempos.
Estava quase em casa quando sentiu que algum a segurava tentando abra-la.
Desvencilhou-se assustada:
-- Vlter! Voc me assustou. O que faz aqui a esta hora?
-- No deveria andar por estas ruas sozinha  noite. Quando quiser sair, posso acompanh-
la.
-- Obrigada mas no  preciso. Fui perto e sei cuidar de mim.
-- Estou aqui para cuidar de voc. Venha, vamos para algum lugar onde possamos
conversar.
Tentou abra-la, e Clara empurrou-o com fora.
221
-- No se atreva a tocar em mim. No vou a nenhum lugar com voc. Ainda no se
convenceu disso?
-- Voc fala, mas  difcil acreditar. Olhe, tenho sonhado com voc em meus braos, como
naqueles tempos, trocando beijos, carinhos. Venha, vamos nos amar...
Tentou agarr-la, mas Clara empurrou-o com tanta fora que ele perdeu o equilbrio. Ela
aproveitou o descontrole dele e correu para casa. Entrou e fechou a porta com chave,
respirando fundo.
Marcos apareceu no hall:
-- O que foi, me? Aconteceu alguma coisa?
-- Nada. Um homem parecia estar me seguindo e me assustei.
--  melhor no sair  noite sozinha.
-- A casa de Dona Ldia  perto. No h perigo.
-- Quando quiser ir l, posso acompanh-la.
-- Obrigada, meu filho. Mas no  preciso. Venha, vamos tomar um lanche na cozinha.
Marcos abraou-a olhando srio, como que desejando perceber o que estava acontecendo.
Clara sorriu procurando tranqiliz-lo.
-- No se preocupe. No foi nada.
-- No  o que parece. Est plida.  aquele sujeito outra vez?
-- No.
-- Se ele continuar importunando, darei queixa  polcia. Nunca pensou em fazer isso?
-- No  o caso. Ele  inofensivo. Sabe que nunca vou aceit-lo.Logo desistir.
Marcos ficou silencioso por alguns instantes, depois disse:
-- Vou ficar atento. Se notar que ele a est seguindo outra vez tomarei providncias.
Clara sorriu tentando fingir-se despreocupada.
-- O que  isso? J disse que sei cuidar de mim. Voc no pensa se envolver.
-- No vou deixar que ele estrague nossa paz.
Enquanto comiam o lanche, Marcos pensava na promessa que fizera ao pai de ficar atento e
pedir-lhe ajuda caso precisasse.
Uma semana depois, Osvaldo entrou em casa apressado. Voltou do stio para um encontro
com os filhos. Queria tomar um banho e ver se tudo estava em ordem para o jantar.
Ele estava empolgado com o stio. Fizera algumas mudanas, adaptando-o para o trabalho
que pretendia fazer. Escolhera uma rea frtil onde plantara as ervas que costumava usar.
222


Havia escrito para Antnio, contando seus planos e pedindo ajuda na compra de algumas
mudas que no conseguira encontrar. Mandara dinheiro e estava esperando que elas
chegassem.
Depois que decidiu iniciar esse trabalho, seu sexto sentido ampliou-se. Comeou a ver a
aura das pessoas, a ouvir seus pensamentos, a ver os espritos que as rodeavam.
Emocionado, Osvaldo no contava nada a ningum, procurando compreender o que via,
guardando na intimidade do corao seus contatos mais profundos com a espiritualidade.
Ao contato com as energias mais puras dos espritos de luz, no continha as lgrimas de
alegria, mas, ao mesmo tempo, sentia que essas ddivas lhe estavam sendo feitas para que
ele pudesse ser um canal derramando-as sobre as pessoas.
Em um desses momentos, viu Alberto aproximar-se em um halo de luz com tal realismo e
beleza que ele se ajoelhou dizendo entre lgrimas:
-- Meu Deus! Permita que eu fique para sempre assim, nessa luz. Alberto sorriu e
respondeu:
-- Voc ser nosso canal. Seu trabalho ser conviver com as trevas do mundo mantendo
essa luz no corao. No  um trabalho fcil. Vai depender de voc, de suas escolhas e
atitudes, para conseguir realiz-lo. Momentos haver em que o passado, as emoes vo
cobrar seu preo no caminho do seu amadurecimento. No entanto, voc tem tudo para sair
vencedor. O trabalho de alvio do sofrimento humano a que se props antes de nascer ser
uma ferramenta de apoio na sua jornada. As bnos dos que forem aliviados em suas dores
o acompanharo, fortalecendo sua f. Estaremos do seu lado. Confie e espere.
-- Qual ser o prximo passo? Estou pronto para comear a atender s pessoas?
-- Continue se preparando. Quando for a hora, tudo acontecer naturalmente.
Depois do banho, Osvaldo desceu e Jos entregou-lhe a correspondncia. Havia uma carta
de Antnio informando que estava preparando pessoalmente as mudas e que as enviaria
assim que estivessem prontas. Estava contente por v-lo realizar esse trabalho. Osvaldo
sentiu-se feliz com as palavras dele.
Havia um recado do detetive encarregado de obter informaes sobre Vlter. Ele desejava
v-lo. Iria procur-lo no dia seguinte.
Os meninos chegaram e Osvaldo abraou-os com carinho.
223
-- Que histria  essa de ficar no stio? -- indagou Marcos. -- Est com saudade do
campo?
Osvaldo sorriu e respondeu:
--  um lindo lugar. Vocs precisam conhecer. Quando estou l, esqueo de tudo, no
tenho vontade de voltar.
-- Espero que no nos deixe por causa disso tornou Carlos.
-- Nada disso. Vocs nunca mais se livraro de mim. Estarei sempre com vocs.
-- Ainda bem -- disse Marcos. -- Sentimos muito sua falta.
-- Estou fazendo algumas reformas, por isso tenho me demorado l. No ser sempre
assim.
Depois do jantar agradvel, em que Osvaldo quis ouvir tudo sobre o que cada um estava
fazendo e pensando, ele perguntou:
-- E em casa, tudo em paz?
Marcos trocou um olhar com Carlos, depois disse:
-- Nem tanto. Desconfio que aquele sujeito continua importunando mame. Ela encobre
para no nos preocupar. Mas h alguns dias ela chegou em casa correndo, plida, e tenho
certeza de que foi por causa dele.
Carlos cerrou os punhos dizendo entre dentes:
-- Se eu pego aquele sujeito..
Osvaldo interveio:
-- Nada disso. Vocs no vo fazer nada. Eu estou tomando providncias. S quero que
fiquem atentos, que me contem tudo que souberem. O resto, deixem comigo.
No dia seguinte, Osvaldo recebeu a visita do detetive com o relatrio contendo os
antecedentes de Vlter bem como seus passos nos ltimos dias.
Descobriu que ele continuava trabalhando para a mesma empresa, ganhava bom salrio,
mas vivia endividado porque gastava em noitadas, com mulheres. Tinha justificada fama de
bomio, porquanto continuava solteiro apesar das muitas mulheres com quem mantivera
relacionamento.
Embora fosse muito conhecido nas rodas que freqentava, no tinha amigos mais ntimos.
Havia a relao de tudo que ele fizera nos ltimos dez dias.
Osvaldo ficou sabendo que ele ia quase todas as tardes esperar Clara na sada do trabalho.
-- Como pode ver, nem sempre ele a aborda. Quando o faz, ela o repudia, no dando
chance de conversar.
224
Ele fica muito irritado e tenta ret-la. Como voc pediu que interferssemos apenas no caso
em que ele se tornasse mais agressivo, ns s os observamos.
-- Eles nunca notaram a presena de vocs?
-- Nunca. Temos sido atentos mas discretos. Ela no quer nada com ele. D para notar que
fica muito nervosa ao v-lo. Se ele continuar insistindo, seria bom tomarmos uma
providncia mais sria.
-- O qu, por exemplo?
-- Dar queixa  polcia.
--Eu no poderia fazer isso. Seria intrometer-me na vida dela.
-- Ela  quem deveria dar a queixa.
-- Clara s tomaria uma atitude dessas se estivesse correndo algum risco.
-- Pelo que observei, ela pensa que pode lidar com o problema sozinha. No acredita que
ele possa tornar-se mais agressivo. Mas eu noto que a cada dia ele parece mais irritado.
Conquist-la tomou-se uma espcie de obsesso. Da a perder o controle  um passo muito
pequeno.
-- Concordo. Quero que continue vigiando seus passos e, se for preciso, intervenha.
-- Est bem. Eu o manterei informado.
Depois que o detetive se foi, Osvaldo lembrou-se da cena de amor que surpreendera entre
Clara e Vlter. A expresso apaixonada de Clara havia sido substituda pelo terror quando
os surpreendeu. Naquele dia, teve certeza de que ela amava Vlter.
Apesar de sua revolta pela traio, da dor pela rejeio, dos conselhos do irmo e da me
querendo que ele se vingasse, havia preferido desaparecer, deixar o caminho livre para que
ela fosse feliz com o homem pelo qual havia atirado fora um casamento estvel, colocando
em jogo a estima e o respeito dos filhos.
Era preciso muito amor para que ela arriscasse tudo. Agora se perguntava onde estava esse
sentimento? O caminho continuava livre. Por que ela agora repudiava o homem pelo qual o
havia trocado?
Rita dissera que Clara nunca havia amado Vlter. Deixara-se seduzir, envolvera-se, porm
arrependera-se em seguida. Depois da separao no se envolvera com ningum.
Esse pensamento fazia seu corao bater mais forte. Eles haviam vivido bons momentos
juntos. Durante os ltimos anos, Osvaldo recordava-se deles com saudade, mas ao mesmo
tempo perguntava-se quando e por que ela deixara de am-lo.
225
Sempre que esses pensamentos reapareciam, Osvaldo reagia. O fato de Clara no querer
Vlter no significava que ainda se recordasse com saudade dos momentos que estiveram
casados.
Estava conformado com o fato de Clara no o amar mais. Reconhecia que o amor acontece,
independe at da vontade. Houve tempo em que havia feito tudo para banir esse sentimento
do corao, porm ele havia resistido, continuava l. Aprendera a conviver com ele sem
esperar retribuio.
Apesar de no querer admitir, o fato de Clara repelir Vlter, de continuar sozinha,
confortava-o.
No dia seguinte foi procurar Ldia, levando algumas garrafadas que havia feito. Recebido
com alegria, detalhou seus projetos, finalizando:
-- Pretendo voltar para o stio dentro de dois dias. Gostaria muito de receber sua visita. Se
quiser ir, mandarei meu motorista busc-la.
Est bem. Assim que puder, combinaremos a data.
-- Preparei essas garrafadas do jeito que fazamos no stio de Antnio. No sei se deveria,
na cidade as pessoas pensam de outra forma. Se no quiser usar, pode jogar fora.
-- De forma alguma. S preciso aprender a utiliz-las. Aqui, como no campo, h pessoas
muito pobres, que no podem comprar remdio. Quando tenho um caso desses, os espritos
tentam ajudar, indicam algumas ervas. Mas fica difcil para mim, porque sempre vivi na
cidade. No tenho nenhum conhecimento.
Osvaldo explicou para que servia cada uma das garrafadas.
-- Coloquei um rtulo, no h como se enganar. Gostaria que as experimentasse quando
houver um caso desses. No ignoro que h leis severas com relao a isso, para evitar
abusos. Estou criando um laboratrio, no stio, onde desejo ter profissionais capacitados.
Quero fazer tudo dentro da lei.
Ldia sorriu satisfeita.
-- Faz bem. A sociedade tem regras que preservam a sade, e ns precisamos respeitar.
-- Os espritos deram-me essa orientao. Sugeriram tambm que eu monte um grupo de
pesquisa. Dizem que a natureza tem tudo para curar qualquer doena. Afirmam que no h
molstia incurvel. O que h so pessoas resistentes, repetindo os mesmos erros, obtendo
os mesmos resultados. Os remdios aliviam e ajudam, mas a chave da cura est em
descobrir a atitude causadora, procurar sane-la. Claro que isso s acontecer se o paciente
cooperar.
-- Est certo.  ele quem deve aprender com essa experincia
226
-- Em nossa pesquisa precisaremos considerar no s os elementos materiais das plantas
mas tambm seu potencial energtico. H casos em que  preciso atingir as camadas mais
profundas e delicadas do corpo astral.
-- Trata-se de um trabalho maravilhoso. Se me permitir, gostaria de acompanhar todos
esses processos.
-- Quando eu tiver tudo organizado, poderemos tratar de alguns casos.
-- Fao votos de que seja logo. Tenho alguns pacientes que gostaria de ajudar.
-- Nesse caso, vou inclu-los em minhas meditaes. Talvez Alberto nos instrua a respeito.
-- Que boa idia! Isso mesmo. Vou anotar os nomes para voc.
Osvaldo voltou para casa alegre. Tinha certeza de que estava fazendo a escolha certa.
Conversou com Felisberto, que o orientou quanto s exigncias da legislao.
-- Voc precisa pensar em como manter esse empreendimento. Ele precisar tomar-se
rentvel para manter sua continuidade. Depois, toda pesquisa  cara. Voc precisa do
retorno do seu capital. Do contrrio, em pouco tempo no ter como sobreviver.
-- O trabalho com os espritos no pode ser cobrado.
-- Concordo. Mas voc vai empregar pessoas especializadas no s para as pesquisas mas
tambm para o laboratrio. Precisa pensar em uma forma de renda que mantenha as
despesas.
-- No stio, Antnio no precisava nada disso.
-- No interior eu entendo. Mas aqui as leis so rigorosas. Alm das exigncias trabalhistas,
h fiscalizao da Sade, etc. Se deseja fazer uma obra bem-feita, precisa perder o
preconceito que tem com o dinheiro.
Osvaldo assustou-se:
-- No sou preconceituoso.
-- Tenho notado que no valoriza o dinheiro. Claro que ele no  o valor mais importante,
mas sem ele nenhuma grande obra beneficente se mantm. At os discpulos de Jesus
fracassaram nesse aspecto. S quando se tomou religio oficial que o cristianismo se
propagou.
-- No est sendo muito rigoroso?
-- No. O dinheiro  um valor necessrio. Merece nosso respeito, O problema est no uso
que fazem dele.
-- Quanto a isso concordo. Muitas pessoas mergulham na avareza, na cobia, por causa
dele.
-- Voc est invertendo as coisas. So as pessoas desonestas, corruptas, desequilibradas
que abusam no s do dinheiro mas tambm de todos os recursos que conseguem obter.
227
Quem consegue usufruir a riqueza de maneira equilibrada, contribuindo para a evoluo e o
bem-estar do homem, tem mais mrito do que aquele que foge com medo de errar. Porque o
progresso da humanidade  feito com muito dinheiro. As grandes fortunas  que bancam as
pesquisas em todas as reas. Com relao ao dinheiro, em minha profisso tenho visto de
tudo: desonestidade, avareza, m-f. Mas tenho tambm presenciado atos de grande
desprendimento, de dedicao ao bem-estar do prximo, de amor  vida. Sua tia Ester
soube lidar muito bem com o dinheiro.
 verdade. Tia Ester foi admirvel. J percebi que no vai ser fcil fazer o que eu pretendo.
-- Ter de ser bem planejado legalmente. Pode contar comigo. No quis que comeasse um
projeto sem base. Apesar de ser um trabalho espiritual, neste mundo h que cumprir as leis
sociais. Tenho visto pessoas que tm contato com os espritos, se entusiasmam e logo
querem fundar um grupo, uma obra assistencial. No se preparam convenientemente, no
se perguntam se esto capacitadas e acabam arranjando problemas ao invs de solucion-
los.
No sabia que o senhor conhecia tanto esse assunto.
-- Creio na reencarnao, tive algumas provas disso. Respeito o espiritismo, que ensina a
lidar com a mediunidade e a entender a evoluo do homem. O problema so as pessoas.
Elas interpretam a espiritualidade a seu modo, cometendo todos os disparates.  uma pena.
-- Apesar disso, h muitas obras assistenciais espritas socorrendo, consolando,
confortando muita gente.
-- Na verdade, quem se converte ao espiritismo se entusiasma, quer fazer caridade, est
sendo sincero. Mas ajudar  uma arte difcil e  preciso conhecimento, estudo,
discernimento.
-- Tenho pensado muito a respeito. A ajuda s  eficiente quando a pessoa que recebe est
receptiva, aberta, com vontade de melhorar. Mestre Antnio nunca fazia nada pela pessoa.
Procurava fazer com que ela se motivasse a fazer por si. Atendia oferecendo remdio,
energias espirituais, mas nunca ia alm disso.
--  um homem sbio.
-- De fato. Amoroso, alegre, educado, conversava esclarecendo situaes, mas a deciso
era sempre da pessoa.  assim que pretendo trabalhar.
-- Estou vendo que voc est preparado. Gostaria de participar. Sinto que est na hora de
me aprofundar no trabalho espiritual.
228
-- Fico feliz em poder contar com voc. Vou pensar em tudo que conversamos. Gostaria
que voc tambm pensasse na melhor maneira legal de iniciarmos nosso projeto.
Depois que Felisberto se foi, Osvaldo ficou pensando naquela conversa. O advogado estava
certo: era preciso planejar com cuidado a parte material. Reconhecia que sem uma boa base
ele no poderia desenvolver um trabalho srio e proveitoso, como queriam os espritos.
Sabia que, por mais amor que tivesse em seu corao, todo trabalho astral era realizado
pelos espritos. A ele, como mdium, cabia organizar o atendimento, manter o lugar limpo,
agradvel, bonito, formando um ambiente alegre onde os espritos iluminados tivessem
condies fsicas de atuar com proveito.
Sabia que todos os problemas humanos decorrem dos conceitos errados, dos vcios de
julgamento, da maneira inadequada de observar os fatos. Assim sendo, a cura s se daria
quando as pessoas harmonizassem sua maneira de ver, renovassem seus conceitos,
reavaliassem os fatos de maneira mais real e positiva.
Essa era a parte que lhe competia fazer. Enquanto os espritos cuidavam dos problemas da
pessoa no astral, ele, mdium, deveria cuidar da conscientizao, contribuindo para a
renovao gradativa daquele esprito.
Os remdios, a energizao, o apoio, o esclarecimento eram ferramentas que ele precisaria
ministrar com lucidez, sob a inspirao dos espritos. Mas o xito da cura s se daria
quando a pessoa fizesse sua parte.
Diante disso, ele pensou que o importante seria fazer bem a parte que lhe cabia, sem se
preocupar com os resultados.
229
Por causa de uma cliente, Clara saiu do ateli mais tarde do que de costume. Olhou para o
relgio: passava das nove. Estava cansada e com fome. A noite fria e a garoa insistente
fizeram-na caminhar de pressa at o estacionamento onde guardava seu carro. Quando
chegou  porta, encontrou Vlter  espera. Esboou um gesto de contrariedade e tentou
desviar-se, mas ele a segurou dizendo:
--Voc no vai fugir de mim. Estou cansado de correr atrs de voc. Hoje vamos decidir
tudo de uma vez por todas.
-- No h o que decidir. Eu j disse que no quero nada com voc. Por favor, deixe-me em
paz. Estou cansada, quero ir para casa.
-- Chega de desculpas. Hoje voc no me escapa.
Clara sentiu um cheiro forte de bebida e sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
-- Voc bebeu. Pare de me perseguir.
Ele segurou seu brao com fora, querendo arrast-la. Ela resistiu assustada. Conseguiu
desvencilhar-se e entrou no estacionamento procurando alcanar o carro. Ele a alcanou e
tentou abra-la. Clara, tentando livrar-se, olhou em volta  procura de ajuda.
O estacionamento estava vazio e mal iluminado. Vlter abraou- a forte tentando beij-la.
-- Voc  minha! -- repetia com voz rouca. -- No vou deix-la para o idiota do Osvaldo.
Agora venha comigo.
Reunindo suas foras, Clara empurrou-o e ele cambaleou. Aproveitando-se, ela procurou a
chave do carro na bolsa mas no a encontrou logo.
-- Desta vez voc no vai escapar -- disse ele com raiva.
Clara recuou nervosa. Vlter havia sacado um revlver e apontava-o para ela.
230
Captulo 19
-- Voc vai fazer o que eu mandar, seno acabo com voc aqui mesmo. Estou decidido. Se
no quer ser minha, no ser de mais ningum.
Clara parou estarrecida. Nesse momento ela viu um homem aparecer atrs de Vlter. O
homem encostou um revlver em suas costas e disse com voz firme:
-- Largue essa arma ou eu atiro.
Apanhado de surpresa, Vlter estremeceu. O homem insistiu:
-- Largue ou eu atiro. Juro que no estou brincando. Ponha a arma no cho e levante as
mos.
Lentamente Vlter obedeceu. O homem aproximou-se apalpando o corpo de Vlter para ver
se havia outra arma. No encontrou nada.
Clara olhava calada, plida.
-- No se assuste, Dona Clara. Sou da polcia. A senhora vai ter de me acompanhar at a
delegacia.
-- O senhor chegou em boa hora. Mas prefiro ir para casa. Estou no limite das minhas
foras.
-- Lamento, mas, se a senhora no formalizar a queixa, no poderei det-lo.
Clara suspirou resignada:
--Est bem.
-- E uma formalidade necessria. Prometo que vou liber-la o mais rpido possvel. A
senhora quer ir no meu carro conosco?
-- Obrigada, mas eu o acompanharei com o meu.
-- Est calma o bastante para dirigir? Est trmula.
-- Estou bem agora.
Na delegacia, o detetive, depois de pedir ao delegado que prendesse Vlter, foi ter com
Clara, que o esperava.
-- Agora podemos conversar. Meu nome  Durval Menezes, sou detetive particular.
--  um prazer conhec-lo. Se voc no tivesse aparecido, nem sei o que poderia ter
acontecido. Nunca pensei que Vlter pudesse chegar a tanto.
-- Ele est desequilibrado. Eu temia o que aconteceu hoje.
Clara no conteve a curiosidade:
--No estou entendendo. Do jeito que est falando, parece que j o conhecia. Depois,
chegou me chamando pelo nome. Tenho certeza de que no nos conhecemos.
-- Fui contratado pelo Sr. Osvaldo de Oliveira para proteg-la e a seus filhos. Ele estava
muito preocupado com a segurana da famlia.


231
Clara abriu a boca e fechou-a novamente. No sabia o que dizer. Por fim indagou:
-- Faz tempo que o senhor trabalha para ele?
-- Quase um ms. Durante esse tempo, eu e meu scio temos acompanhado Vlter. O Sr.
Osvaldo desejava saber se ele oferecia algum tipo de perigo. Acabamos entendendo que
sim, uma vez que observamos que ele estava ficando pior a cada dia.
--Vocs trabalharam muito discretamente. Nunca notei nada. Mas foi bom voc estar ali
naquela hora.
Ele sorriu satisfeito e respondeu:
-- Era preciso vir  delegacia e dar a queixa. Assim, ele ficar de tido algum tempo.
Poderemos avaliar melhor os riscos.
-- Ele estava com muita raiva, nos ameaou.
--  natural. Mas ele ser alertado. Agresso a mo armada  grave. Foi preso em
flagrante, o que nos possibilitar conseguir uma priso preventiva.
Clara suspirou triste:
-- No sei o que fazer. Ele ficar preso durante algum tempo, mas quando sair vai
continuar me perseguindo. Parece loucura. Ele havia desistido, mas ultimamente voltou
pior.
-- Por isso a senhora vai formalizar a queixa, contando a perseguio que tem sofrido. Isso
poder intimid-lo.
-- Espero que sim.
Uma hora depois, Clara foi para casa. Sentia-se triste, preocupada. Aquela situao estava
tomando um rumo muito perigoso. Sentiu vontade de sumir, mudar-se com a famlia para
um lugar distante, sem deixar endereo, para que ele no pudesse encontr-la.
Vendo-a entrar, Rita abraou-a inquieta.
-- Ainda bem que voc chegou! Eu estava angustiada, aflita, com um pressentimento ruim
o dia todo.
-- Realmente, por pouco no aconteceu uma tragdia.
-- Voc est plida. Venha, sente-se aqui e conte-me tudo.
Clara contou em poucas palavras. Quando terminou, Rita no se conteve:
-- Abenoado Osvaldo! Ele tornou providncias, conforme me prometeu.
-- Depois do que eu lhe fiz, no esperava isso dele.
-- Eu, sim. Tinha certeza de que nos protegeria. Vamos  cozinha, vou preparar alguma
coisa quente para voc comer.
-- Minha fome desapareceu. Sinto um bolo no estmago.
232
-- Nada disso. Voc vai tomar pelo menos uma sopa. Temos aquela de que voc gosta.
-- No sei o que ser de ns daqui para frente. Vlter estava com muita raiva, no vai
desistir. Estou desanimada.
-- Nada disso. Alm de Osvaldo, h a proteo divina, que nunca nos desampara. Somos
pessoas boas, estamos fazendo nossa parte, por isso no devemos temer nada nem ningum.
-- Estou precisando do seu otimismo
-- Acho melhor reagir. Voc tem andado muito deprimida nos ltimos tempos. Esse no 
seu natural.
-- Desde que Osvaldo voltou, no tenho estado bem. Preferia que ele continuasse l onde
esteve todos estes anos.
-- Assim voc no teria de pensar nele nem enfrentar o passado. Mas o que tenho
aprendido  que no adianta fugir dos problemas. Eles aparecem para podermos encontrar
solues.
-- Estou cansada, confusa. No estou com cabea para tomar decises.
-- Nesse caso, deixe o tempo correr. Mesmo assim, precisa fazer sua parte: reagir, olhar a
vida pelo lado positivo. Ningum pode ser feliz sem procurar alegria, bons pensamentos,
luz.
-- Dona Ldia sempre nos ensina isso. Vou tentar, mas h momentos em que a tristeza, o
medo, a insegurana aparecem com fora e no consigo sair.
Rita sorriu.
-- Voc tem estado muito dramtica. Leva tudo muito a srio. s vezes  bom brincar com
os problemas, olhar o lado engraado das coisas.
-- O que aconteceu hoje no tem graa nenhuma.
-- Tem, sim. Fico imaginando a cara de Vlter quando viu o detetive aparecer com
revlver e tudo.
-- Nessa hora eu no tinha nenhum senso de humor. No sabia quem ele era. Cheguei a
pensar que fosse um assalto.
-- Viu como olha tudo pelo lado pior? Ele a estava socorrendo.
-- Agora eu sei.
-- Sabe de uma coisa? Depois desse susto, Vlter vai desaparecer por um bom tempo.
Quanto tempo ele ficar detido?
-- No sei. Mas, agora que voc falou nisso, me recordo que ele, de rubro que estava, ficou
plido, tremia. Nessa hora a paixo acabou depressa. Ele tentou negar, porm o detetive
sabia de tudo.
-- Pois eu queria mesmo ter visto a cara dele na delegacia.
233
-- A cara de quem? -- indagou Carlinhos.
As duas tentaram disfarar:
-- No vimos voc chegar -- disse Clara, tentando sorrir.
-- Eu estava no quarto e ouvi vocs conversando. Desci para comer alguma coisa.
--  isso que d no jantar direito. Voc come na rua e fica mal alimentado -- reclamou
Rita.
-- No adianta fugir do assunto. Ouvi muito bem quando falou "a cara dele na delegacia"
Clara trocou um olhar com Rita e decidiu:
-- Foi Vlter. Ele ficou inconveniente e dei parte dele na polcia.
Carlos sentou-se, dizendo com animao:
-- At que enfim reagiu! Como foi?
Clara contou por alto o que havia acontecido. Carlos considerou:
-- Papai disse que tomaria conta de ns. Tomou mesmo. Agora esse sujeito no ter
coragem de voltar. Vou contar a Marcos.
Ele subiu apressado, e Clara tornou:
-- No sei se fiz bem em contar.
-- Fez, sim. Os meninos estavam preocupados. Agora ficaro mais tranqilos.
Elas ficaram silenciosas por alguns instantes. Foi Rita quem quebrou o silncio:
-- Voc no acha que deveria falar com Osvaldo e agradecer?
Clara sobressaltou-se:
-- Voc est louca?
-- Seria o mais acertado.
-- Nada disso. Depois de tudo que tenho passado, ainda ter de ouvir as acusaes dele? J
basta a culpa que me atormenta.
-- Voc se atormenta sem necessidade. Ele no est lhe cobrando nada. Ao contrrio:
reconhece que voc tinha o direito de preferir outro. S lamenta que no tenha tido a
coragem para dizer-lhe a verdade.
-- No quero v-lo nunca mais.
-- At parece que foi ele quem errou..
-- No precisa me lembrar disso. Assumo o que fiz. Mas prefiro que ele me ignore. No
lhe pedi nem lhe pedirei nada. O que ele fez foi porque quis.
-- Est bem. Se prefere assim... Nesse caso no tocarei mais no assunto.
-- Eu sei que o defende, gosta dele. Mas o que quer?


234
-- Nada. S penso que seria bom se vocs pudessem se perdoar, mesmo que nunca mais se
encontrassem depois. Ele  o pai de seus filhos e isso voc nunca vai poder mudar. Quanto
ao passado, no estou aqui para julgar nada. Se vocs erraram, no  da conta de ningum.
Mas guardar ressentimentos, manter-se como inimigos, faz mal.
-- Se eu pudesse, arrancava essa culpa do peito, talvez assim conseguisse esquecer. O que
mais me incomoda  ter causado tanta confuso por causa de um traste como Vlter.
-- Talvez, se conversasse com Osvaldo, falasse tudo que sente, ou visse o que ele tem a
dizer, consiga lavar a alma e esquecer. Voc pode no querer, mas eu sei, eu sinto que um
dia a vida ainda mover o destino e far isso acontecer.
-- Pode ser, mas agora no posso. A sopa estava boa, fez-me sentir melhor. Estou com
sono e vou me deitar.
Rita foi para o quarto. Sentou-se na cama e orou pedindo harmonia e paz para todos da
casa. Sentiu-se bem e acomodou-se para dormir.
Semanas depois, Osvaldo estava trabalhando no galpo que ha construdo no stio quando
um dos empregados o chamou:
-- Seu Osvaldo, chegaram visitas para o senhor.
Ele parou o que estava fazendo.
-- Mande entrar na sala e esperar. Eu j vou.
Espiou pela janela e reconheceu sua me e irmo. Fez um gesto de contrariedade. Como
eles haviam descoberto o stio?
Lavou as mos, livrou-se do avental e foi ter com eles na sala.
Vendo-o entrar, Neusa levantou-se e o abraou.
-- Meu filho! Voc nunca nos visita, viemos ver como est. Eu estava morrendo de
saudade.
-- Tenho andado ocupado, me.
Antnio aproximou-se:
-- A me estava me deixando louco. Queria ver voc de qualquer jeito.
-- Aconteceu alguma coisa! Neusa hesitou um pouco, depois disse:
-- No. O de sempre: Antnio ainda no arranjou emprego e continuamos passando
necessidade. Mas no vim por causa disso.  que eu estava mesmo querendo v-lo, saber
como vo as coisas.
-- Est tudo bem. No precisam se preocupar. Como me encontraram aqui?
235
--Eu sabia que tia Ester tinha este stio. Uma vez, com um amigo, passei perto daqui. Foi
h muito tempo, mas no esqueci. Quando sua empregada me disse que voc estava aqui,
resolvemos vir.  um lindo lugar, e agora  todo o seu. Mas acho que no rende dinheiro.
Stio s d despesa e trabalho. Voc pretende vender?
-- No. Tenho um projeto para ele.
Pediu que se sentassem, chamou Rosa e solicitou que preparasse um lanche. Neusa olhava
tudo atentamente, admirando-se de que algum colocasse tanto luxo e objetos caros no
meio daquele mato.
-- Como vieram at aqui? A estao fica longe.
Antnio esclareceu:
-- H um nibus que passa h um quilmetro daqui. Descemos e viemos andando.
-- Podiam ter me avisado, e eu os mandaria buscar na estao. Temos telefone.
-- Nem pensei que pudesse haver telefone em um stio! -- retrucou Neusa. --
Naturalmente,  coisa de milionrio, como voc.
Osvaldo desconversou. Perguntou que tipo de emprego Antnio estava procurando, quanto
queria ganhar, e ele disse:
-- Bem, voc sabe que no tenho muita sade. Por isso no posso fazer servio pesado.
Mas tenho de ganhar bem. Quero dar conforto  nossa me. Ela depende de mim.
Osvaldo no respondeu logo, e Antnio continuou:
-- No tenho conseguido nada. J que estamos tocando nesse assunto, talvez voc, que est
rico agora, possa nos ajudar. Afinal, somos sua famlia. Sei que voc no gosta de ns, mas,
que diabo, temos o mesmo sangue. No pode renegar sua famlia.
Osvaldo olhou srio para eles e disse com voz firme:
-- Voc tem razo. Apesar de nossos desentendimentos, posso ajud-los.
O semblante de Neusa distendeu-se:
-- Eu sabia, meu filho, que voc no ia nos deixar ao desamparo.
Rosa avisou que o lanche estava pronto, e Osvaldo convidou-os para ir  sala onde seria
servido.
Ao entrar na solarenga sala de jantar, mobiliada com gosto e luxo, os olhos de Neusa
brilharam de cobia. Sentada na mesa bem posta, olhando a loua bonita, o lanche
apetitoso, ela pensava que seria bom irem morar com o filho e usufruir tudo aquilo.
Terminado o lanche, Osvaldo conduziu-os de volta  sala. Depois de se acomodarem,
Neusa no se conteve:
236
-- Este lugar  muito lindo. Gostaria at de morar aqui.
-- Seria maravilhoso -- ajuntou Antnio.
-- Vocs esto acostumados a viver na cidade. No se acostumariam a viver aqui. Amanh
mesmo falarei com o meu advogado para providenciar uma mesada.
Os olhos dos dois brilharam curiosos. Neusa perguntou:
-- Posso saber de quanto? Gastamos muito com remdios, a casa nossa mas est velha,
precisando de reforma.
-- Vou pensar. Apesar da minha ajuda, Antnio ter de trabalhar. Um homem no pode
viver na ociosidade.
Antnio irritou-se:
-- Est me chamando de vagabundo? Deus sabe que tenho me esforado.
-- No disse isso. S penso que a vida sem trabalho acaba por trazer doenas. Basta olhar
para a gua parada para entender isso. Assim somos ns. Precisamos desenvolver nossa
capacidade, usar a inteligncia, aprender coisas novas. Caso contrrio, morreremos mais
cedo.
-- Vou continuar procurando.
Osvaldo pensou um pouco, depois disse:
-- Talvez possa arranjar um trabalho para voc.
--  preciso escolher bem -- atalhou Neusa com ar preocupado.
-- Antnio  muito fraco. No quero que ele fique pior. Afinal,  meu arrimo na vida.
--No se preocupe. Ele vai encontrar trabalho. Vou ver o que posso fazer. Estou
organizando uma empresa.
Os olhos de Antnio brilharam de alegria.
-- Conheo servio de escritrio. Posso ser o gerente.
Osvaldo sorriu e respondeu:
-- Poder, depois de provar sua capacidade.
-- Posso saber empresa de qu?
-- Por enquanto, no. O projeto est em fase de organizao. Mas, se voc quiser trabalhar,
ter essa possibilidade. Mas desde j adianto que no ter nenhum privilgio por ser meu
irmo.
-- Est bem. Quando estiver pronto, me avise.
--Quando chegar a hora falaremos. Agora preciso voltar ao trabalho.
-- Pensei que poderamos ficar aqui alguns dias... -- disse Neusa.
-- No pode. No temos acomodaes suficientes. Meu carro vai lev-los  estao. H um
nibus que sai daqui  uma hora. D tempo at para dar uma volta na cidade.
237
Jos conduziu-os  rodoviria. Durante o trajeto eles fizeram perguntas, tentando descobrir
detalhes sobre a vida de Osvaldo. Jos, porm, no lhes satisfez a curiosidade.
Quando se viu a ss com a me, Antnio comentou:
-- Sujeito antiptico esse Jos. Nunca gostei dele.
-- A culpa toda  de Ester e de Osvaldo, com essa mania de dar asa a um empregado.
-- Estou curioso de saber que empresa ele vai montar.
-- No fique muito entusiasmado. Pode no ser bom para voc trabalhar com ele. Disse
que no vai lhe dar nenhum privilgio.
-- Nem sei se essa tal empresa sai mesmo. Afinal, ele no precisa trabalhar. Quanto ser
que ele vai nos dar de mesada?
-- Estou morrendo de curiosidade. Espero que no seja uma porcaria que no d para nada.
-- Seja como for, ele mudou de idia. No queria nos dar nada, agora vai mandar alguma
coisa. Devemos aceitar tudo. Depois, com o tempo pediremos aumento. Ela concordou
satisfeita.
Osvaldo, depois que eles se foram, voltou ao galpo para continuar o trabalho. Durante a
conversa com os dois, havia sentido vontade de ajud-los.
Estava querendo dedicar-se ao trabalho espiritual, ser canal dos espritos. Desejava evoluir,
aprender a cincia de viver melhor, ser feliz, encontrar harmonia, paz.
Tudo isso tinha um preo: precisava fazer a sua parte, agir de acordo com as leis csmicas.
No podia mais ser intolerante, pretensioso, julgar os outros.
Sua me nunca havia sido o que ele gostaria. Para ele, Neusa era egosta, mesquinha,
maldosa, ambiciosa. Porm ela lhe dera a oportunidade de viver no mundo.
Isso no aconteceu por acaso. A vida age com sabedoria, e cada um  responsvel por tudo
quanto lhe acontece. Por mais que as aparncias enganem, no existem vtimas. Ele se
perguntava por que havia atrado uma me como ela e um irmo preguioso, mentiroso,
fraco como Antnio. A presena deles o havia tomado consciente de que, sendo intolerante,
recusando-se a dividir com eles um pouco do que possu estava sendo julgamentoso,
vaidoso, colocando-se acima deles.
Essa era uma perigosa iluso que Osvaldo no queria. Ao contrrio: escolhera o caminho
do progresso espiritual. Para seguir adiante precisaria manter atitudes coerentes.
238
Sem isso, de nada valeria todo o esforo.
No seria demasiada pretenso desejar ajudar os outros antes de resolver os problemas
pessoais que trouxera nesta encarnao?
A convivncia com eles sempre lhe foi desagradvel. Era livre para afastar-se deles. Mas,
fazendo isso, estaria fugindo, adiando a soluo.
Eles eram como eram. Nada poderia fazer quanto a isso. O problema era ele, Osvaldo. Por
que no podia aceitar as diferenas que havia entre eles? Por que se julgava melhor a ponto
de desprezar sua me e irmo?
De repente, a resposta a todas essas perguntas apareceu clara:
-- Vaidade. S vaidade!
Ele se julgava mais honesto, mais sincero, mais trabalhador, muito melhor do que sua
famlia!
A emoo da descoberta fez brotar lgrimas em seus olhos. Logo ele, pensando em se
tomar um mensageiro da espiritualidade!
Sentiu-se arrasado. Foi para o quarto, sem vontade de continuar a trabalhar. Sentou-se na
cama, orou durante alguns minutos pedindo ajuda. Depois deitou-se e adormeceu.
Pouco depois se viu em uma sala clara e bem arrumada. Os mveis antigos lembravam a
casa de Ester, mas ele sabia que estava em outro lugar. Viu um homem sentado em luxuosa
poltrona em frente a uma escrivaninha lavrada, e, embora seu rosto fosse diferente, sabia
que era ele.
De repente, dois homens entraram fazendo grande alarido, arrastando um negro que se
debatia assustado.
-- O que foi, Juventino? -- indagou o fidalgo.
-- Este safado estava fugindo, carregando este saco de jias de Dona Oflia.
No mesmo instante entrou na sala uma mulher de meia-idade, fisionomia sisuda. Vendo-os,
gritou enfurecida:
-- Que atrevimento. Minhas jias! Isso no pode ficar assim.
O fidalgo levantou-se irritado. Tinha horror a brigas e a confuses que lhe tirassem o
sossego. No gostava de misturar-se com as questes domsticas. Mais para ver-se livre do
problema, ordenou:
-- Coloque-o no tronco por quinze dias a po e gua.
Eles arrastaram o escravo para fora. A dama, segurando seu precioso saco, despejou o
contedo sobre a mesa, conferindo tudo enquanto o fidalgo aguardava com impacincia que
ela terminasse.
Osvaldo viu-se transportado para outro lugar. Um barraco escuro, iluminado por algumas
tochas, enquanto alguns negros cantavam tristemente ao redor de um corpo estendido no
cho.
239
Depois se viu vagando por lugares escuros, procurando inutilmente a sada, sem encontrar.
Vultos sombrios o rodeavam, chamando-o de assassino.
"Devo estar no umbral", pensou Osvaldo.
Mentalmente pediu socorro e orou chamando por Alberto. Pouco depois viu-se em uma sala
simples e agradvel. Olhou em volta e viu Alberto aproximando-se.
-- Graas a Deus -- disse ele aliviado. Estava em apuros.
-- O que acha que aconteceu? -- perguntou ele sorrindo.
-- Penso que voltei a uma vida passada. No foi nada bom. Estou confuso. Descobri
quanto ainda sou vaidoso. Isso no  um progresso?
-- Sim. Conhecer nossos pontos fracos nos ajuda a venc-los.
-- Nesse caso, eu deveria ter me sentido melhor.
-- Tornando conscincia de sua vaidade, voc trouxe  tona as energias correspondentes
que acumulou atravs do tempo e com elas as lembranas das atitudes que tomou na poca
e que esto influenciando sua vida na atualidade.  uma excelente oportunidade que lhe
est sendo oferecida para limpar sua aura e seguir adiante. Ningum pode progredir,
conquistar a paz, a felicidade, sem passar por esse processo.
-- Quer dizer que foi bom.
--Voc nunca aceitou sua famlia como . Sempre desejou que eles mudassem para que
pudesse am-los. Hoje voc percebeu que estava enganado. A dificuldade  sua. Descobriu
o que significa a palavra compaixo.
Osvaldo sentiu um calor agradvel invadir-lhe o peito.
-- Eu quero aprender. Tenho sido omisso com eles. Estou arrependido. Desejo compens-
los pelo meu erro.
-- Cuidado. A culpa  to perigosa quanto a omisso. Por causa dela voc pode ceder s
fraquezas deles, atendendo a tudo que pedirem. Amar uma pessoa como ela  no nos
impede de perceber seus pontos fracos. A ajuda que algum pode dar ser sempre a de
apoiar os pontos positivos e nunca ceder s fraquezas. O amadurecimento demanda tempo.
Por isso, no espere nada deles. Contente-se em conquistar seu prprio progresso.
-- No  fcil fazer o que me pede. Desejo ajud-los, mas como passar por cima das
maldades que eles fazem e ainda manter a boa vontade? Como no me sentir culpado
sempre que notar um defeito deles, o que vai acontecer sempre, uma vez que so como so?
240


Alberto sorriu:
-- Sabia que a crueldade pode ser uma maneira equivocada de se defender ou uma forma
de chamar a ateno e conseguir um pouco de valorizao?
-- No. Nunca analisei desse modo.
-- Tente fazer isso. Medite tambm sobre como a cobrana da culpa  um instrumento da
vaidade.
-- No  resultado do arrependimento?
-- No. Quem se arrepende aprende com os erros, no fica se culpando por no ter feito
tudo certo. Cuida de no fazer de novo. Agora tenho de ir. Pense, Osvaldo. Tenho certeza
de que encontrar o melhor caminho.
-- Vou tentar. Obrigado por ter me ouvido.
Alberto abraou-o e Osvaldo mergulhou em um sono profundo e reparador. Quando
acordou, havia anoitecido. Sentiu-se renovado e sereno.
Sentou-se na cama e recordou palavra por palavra o que havia conversado com Alberto.
Sentiu-se mais forte, confiante.Faria sua parte com disposio e firmeza. Mesmo evitando
criar expectativas a respeito do comportamento deles, tinha certeza de que ele, Osvaldo, se
sentiria bem melhor por ter tentado ajud-los.


241


Captulo 20
E ento, conseguiu as informaes? -- indagou Vlter.
-- Sim. Osvaldo vai abrir uma empresa e me convidou para trabalhar l.
-- E voc acreditou? S se for para ele sugar seu sangue. Nunca fez nada pela famlia, no
vai ser agora.
-- Prometeu falar com o advogado e nos dar uma mesada.
-- No acredito. Voc acha mesmo que ele far isso? Deixe de ser bobo. Ele quis ver-se
livre de vocs.
Antnio meneou a cabea pensativo e considerou:
-- Acho que voc est enganado. Ele me pareceu mudado. Conversou bem, nos ofereceu
um lanche caprichado. Ele nunca nos prometeu nada. Sempre foi duro.
-- No  isso que me interessa. Ele falou em Clara?
-- Nem tocou no nome dela.
-- Como assim? Mandei vocs l para isso. Preciso saber como esto as coisas entre eles.
Voc  um intil mesmo.
-- Veja l como fala comigo. Sou seu amigo, viajei, gastei dinheiro para ir at aquele stio
por sua causa.
-- , mas cuidou mesmo foi de arrumar sua vida.
-- O que quer? No podia deixar que ele soubesse por que foi at l. Depois, tambm tenho
de cuidar dos meus interesses.
Acho bom mesmo. Faa enquanto pode. As coisas podem mudar.
-- O que quer dizer com isso?
-- Nunca se sabe. A vida tem seus mistrios. Assim como ele ficou rico, pode vir a perder
tudo de novo.
-- Voc est mal-humorado. Desde quando anda bebendo cedo?
242
-- Voc no tem nada com isso. Bebo para afogar minhas mgoas.
-- Se continuar assim nunca vai conquistar Clara e ainda pode perder o emprego.
-- O que  isso? Voc agora virou conselheiro? No sabe nem cuidar da prpria vida e se
mete a cuidar da dos outros. Chega de conversa fiada. Se quer acreditar que Osvaldo vai lhe
dar mesada, emprego, tudo, faa bom proveito. Quando der com os burros n'gua, vir
correndo me pedir ajuda, como sempre fez. Mas desta vez vou querer fatos concretos antes
de dar-lhe algum dinheiro. Consiga as informaes, e eu lhe pagarei.
Antnio olhou o rosto corado de Vlter e decidiu contemporizar. Afinal, ele poderia ter
razo.
-- No se ofenda, amigo. Essa foi uma primeira visita. Verei o que posso conseguir.
-- Que seja breve. No agento mais esperar pelo pior.
Antnio despediu-se e foi para casa. Neusa, vendo-o entrar, foi dizendo:
-- Fao votos de que Osvaldo resolva logo. Consegui fazer um almoo simples com
dificuldade. Amanh no temos dinheiro nem para o po.
-- Vlter no acredita que Osvaldo vai nos dar mesada.
-- Deixe-o. Est com raiva por ter ficado preso. Apesar do corao duro, Osvaldo
prometeu, e ele sempre cumpriu o que prometia.
-- Estou torcendo para isso.
Osvaldo, acompanhado de Rosa e Jos, regressou  casa da cidade na hora do almoo.
Havia conhecido Honrio, um cunhado do antigo caseiro, e o contratara. Simpatizara com
ele  primeira vista. Homem do campo, amava a natureza, conhecia profundamente aquelas
terras e as plantas.
Era exatamente o que Osvaldo precisava. Ofereceu bom salrio e moradia. Mandou ampliar
e reformar uma das casas, e logo ele se mudaria com a famlia.
Enquanto a casa no ficava pronta, Honrio iria todos os dias cuidar das plantas e ajudar na
reforma. Com ele cuidando das plantas, Osvaldo teria mais tempo para providenciar os
documentos para seu empreendimento, planejar e comprar o que precisava.
Felisberto esperava-o para o almoo. Depois de comerem, foram tomar o caf no escritrio.
Conversaram sobre o projeto e, no fim, Osvaldo comentou:
243
-- Meu irmo esteve no stio com minha me. Esto sem dinheiro e decidi dar-lhes uma
mesada. Gostaria que providenciasse isso.
-- Est certo. Quanto pretende dar?
-- O suficiente para viverem modestamente. Voc conhece Antnio. Se tiver dinheiro,
nunca mais vai querer trabalhar.
Felisberto sorriu e concordou. Osvaldo continuou:
-- Talvez uns mil reais. Vou arranjar-lhe trabalho. Prometi a mesada sob essas condies.
-- No ser fcil empreg-lo. Eu mesmo, a pedido de Ester, tentei algumas vezes. Mas ele
sempre dava um jeito de escapar.
-- Ele vai trabalhar comigo, sob minha orientao.
Felisberto olhou surpreendido para ele. Osvaldo sempre mostrara averso pelos parentes.
-- Vai precisar de pacincia.
-- Talvez no seja to difcil quanto parece. Estive pensando na maneira como ele foi
educado. Minha me enviuvou muito cedo, com dois filhos pequenos para criar. Ficou
insegura. Julgou-se incapaz. Por isso me mandou para casa de tia Ester. Viveu na defensiva
a vida toda. Tornou-se pessimista, e em qualquer ocasio sempre imaginava o pior.
Chamava isso de prudncia; eu digo que era negativismo, pois nada que ela temia
aconteceu. Apesar de ser uma mulher forte, decidida, no confiou na prpria capacidade.
Seu conceito de Deus  mais supersticioso do que verdadeiro. Colocou toda a sua fora na
defensiva. Tomou- se agressiva, mal-humorada. Antnio sempre foi muito ligado a ela.
-- Tenho observado que a f, quando sincera, d coragem, fora
-- Observei que em sua insegurana eles inverteram alguns valores na tentativa de evitar
sofrimento. Para eles, bondade  fraqueza, ser inteligente  ganhar dinheiro sem trabalhar,
cooperar  ser explorado. Felicidade  comprar tudo que quiser e viver s se divertindo. O
dinheiro acabou se tornando a coisa mais importante.
-- Conheo muita gente que pensa dessa forma.
-- Eles no percebem que no universo tudo se movimenta, cada ser tem uma tarefa a
cumprir. A vida cobra de cada um que faa sua parte. E o preo ao receber o dom da vida.
A maioria no pensa assim.
--  por causa disso que o mundo est no caos. A sociedade na Terra s vai melhorar
quando todos aprenderem essa verdade. Enquanto isso, o sofrimento  inevitvel.
-- Entendi. Na tentativa de evitar o sofrimento, entram na iluso que fatalmente os levar a
ele.
244
-- Exatamente. Meus amigos espirituais me ensinaram a observar atentamente os fatos do
dia-a-dia e tentar descobrir como a vida trabalha. Aprendi alguns conceitos bvios mas que,
sob o verniz da educao formal, poucos conseguem enxergar. Para isso h que questionar
as regras preestabelecidas e procurar melhores respostas. Fazendo isso, aos poucos vamos
tendo uma viso da vida mais verdadeira e, a partir da, com naturalidade, vamos
modificando nossos conceitos. Assim, gradativamente vamos aprendendo a viver melhor,
com mais coragem e serenidade. Pretendo passar esse conhecimento para minha me e
Antnio.
-- Acha que vai obter resultado?
-- No sei. Desejo tentar, dar-lhes a oportunidade de olhar a vida de outra forma. Porm o
resultado depende deles. Vou mostrar-lhes o que aprendi, mas s eles podem decidir se
aceitam ou no. De qualquer forma, estou pensando em mim. Quero fazer a minha parte.
Assim, estarei em paz.
Felisberto olhou para Osvaldo com respeito e carinho.
-- Voc me surpreende. Dona Ester gostaria de ouvi-lo dizer essas coisas.
-- Quem garante que ela no est nos ouvindo?
Felisberto sorriu e considerou:
-- Gosto de seus projetos filantrpicos, das verdades que tem me mostrado, mas ainda no
consigo acreditar que Dona Ester possa estar nos ouvindo. Tenho pensado no assunto, lido
a respeito, mas preciso de uma prova mais convincente.
-- Ter, quando chegar a hora.
Passava das cinco quando Marcos e Carlos chegaram. Abraaram o pai com carinho.
-- Soubemos que havia chegado e viemos agradecer sua ajuda --disse Marcos.
--  mesmo, pai -- acrescentou Carlos. -- J soube o que aconteceu?
-- O que foi?
-- O detetive no o procurou?
-- Cheguei na hora do almoo e ainda no falei com ele. Vou ligar para l. Mas vocs me
deixaram preocupado... O que aconteceu?
Carlos respondeu:
-- Foi aquele sujeito. Se no fosse voc ter colocado o detetive para nos proteger, nem sei
o que teria acontecido.
245
Marcos interveio e em poucas palavras contou tudo, conforme Clara lhes havia relatado.
-- Esse homem est se revelando perigoso. Eles deram queixa na polcia?
-- Sim. Ouvi mame conversando com a Rita. Ela disse que gostaria de agradecer sua
ajuda.
Um brilho de emoo passou pelos olhos de Osvaldo.
-- Ela disse isso?
-- Bem, ela reconheceu que a presena do detetive foi maravilhosa -- interveio Carlos. --
Eu senti que ela gostaria de agir pessoalmente mas no teve coragem. Afinal, vocs no se
falam h muito tempo.
-- Ela no precisa me agradecer. Estou fazendo isso para proteg-los. Vou ligar para
Durval. Quero saber tudo e pensar nos prximos passos.
Pegou o telefone e discou. O detetive no estava, e Osvaldo deixou recado.
Os rapazes resolveram ficar e esperar. Eles tambm querem saber detalhes.
Estava anoitecendo quando Durval chegou  casa de Osvaldo.Vendo-o em companhia dos
filhos, hesitou em falar no assunto. Osvaldo esclareceu:
-- Eles sabem de tudo. Pode falar.
-- Conforme eu havia suspeitado, o sujeito est ficando inquieto e perigoso. Leia.
Entregou-lhe algumas pginas nas quais descrevia com detalhes os fatos. Quando terminou,
ele considerou:
-- No podemos deixar as coisas como esto. Vou falar com Felisberto para que tome as
devidas providncias legais para mant-lo preso.
-- Infelizmente ele j foi solto.
Osvaldo, irritado, indagou:
-- Ento o que nos aconselha?
-- Ele ficou muito assustado. Nunca imaginou que algum estivesse vigiando. Isso deve
mant-lo afastado por algum tempo Contudo, ele me pareceu muito irritado. Desconfio que
vai dar um tempo mas no desistir. Por algumas frases que ele disse, notei que  rancoroso
e bastante vaidoso para se conformar em perder. Para ele, esse caso se tornou uma
competio em que vale tudo.
-- Parece uma obsesso.
246
-- De fato, . Por isso no podemos descuidar. Alm disso, anda bebendo demais.
Osvaldo ficou pensativo por alguns segundos, depois disse:
-- E se eu for falar com ele?
Marcos interveio:
-- Isso no. Ele est com muita raiva de voc.
-- No quero que nada lhe acontea -- reforou Carlos.
-- Acalmem-se. Pensei em conversar com ele, sem brigar.
-- Na atual circunstncia, isso poder deix-lo com mais raiva. Ele tem muito cime de
voc -- disse Durval.
-- Cime de mim? -- estranhou Osvaldo. -- Nunca mais estive com Clara. No pode ser.
-- Mas . Eu o ouvi dizer a Dona Clara que vocs estavam pensando em voltar a viver
juntos e que ele nunca iria permitir.
-- Ele disse isso?
-- Eu sempre soube disso -- confirmou Carlos. -- Ele no suporta a idia de que vocs
voltem a ficar juntos.
-- Foi sua me quem disse isso? -- indagou Osvaldo.
-- No -- respondeu Carlos --, mas  fcil notar. Ele voltou a persegui-la depois que voc
apareceu. Antes havia sumido.
-- Tem razo -- concordou Marcos. -- Como no pensei nisso antes?
Durval sorriu dizendo:
-- Seus filhos so muito observadores. Foi isso mesmo. Como Dona Clara o rejeita, ele
imagina que  por sua causa, j que ela nunca arranjou outro depois que se separaram.
Osvaldo sentiu o corao bater descompassado e procurou controlar-se. Essa idia era
disparatada. Havia muito tempo que Clara deixara de am-lo. Baixou a cabea na tentativa
de esconder a emoo e tornou:
-- Ele deve estar mesmo fora de si. Esquece-se de que nos separamos porque ela deixou de
me amar.
-- Ele est descontrolado emocionalmente. Esse  o perigo. Mas vamos continuar a vigi-
lo.
-- Faa isso. A qualquer atitude suspeita, avise-me. Depois que Durval e os meninos se
foram, Osvaldo sentou-se no sof e fechou os olhos. Desejava fazer alguma coisa mais,
contudo estava de mos amarradas.
No se sentia com coragem de aproximar-se de Clara. Para que perturb-la? No desejava
os agradecimentos dela. Sua proteo a fizera sentir-se mais culpada pela traio do
passado.
247
Talvez estivesse com pena dele. Isso seria insuportvel.
Ele a amava como mulher. Ela sempre seria o amor de sua vida.Estava resignado a
continuar amando-a a distncia, mas nunca acreditaria que ela o procurasse arrependida
com pena do sofrimento dele.
Percebia claramente que seus filhos desejavam que se reconciliassem. Isso seria impossvel.
Ele nunca aceitaria as migalhas do amor ela se dispusesse a oferecer-lhe como recompensa
pelos seus sofrimentos passados.
Naquele momento arrependeu-se de ter voltado. Se houvesse ficado no interior, nada teria
acontecido. Talvez estivesse em tempo ainda de voltar para l definitivamente.
Pensou nos projetos que havia feito, nas conversas que tivera com Antnio, no trato com os
espritos. Havia pedido oportunidade para dedicar-se ao trabalho espiritual. Deus
concedera-lhe bens, colocara em suas mos meios de realizar o trabalho.
Sempre que ele precisava de algo para o andamento do projeto as informaes, as pessoas,
as coisas vinham ter a suas mos com facilidade. Eram sinais de que estava trabalhando a
favor da vida, de seu caminho estava certo.
Seria justo jogar fora todas essas aspiraes por causa de seus problemas pessoais?
As lgrimas desciam pelas faces e ele as enxugou decidido. Seu progresso espiritual era
mais importante do que as satisfaes momentneas do mundo. Ele amava Clara e esse
amor deveria ser luz em caminho, no dor. Amava os filhos, e esse sentimento deveria ser
instrumento para que eles aprendessem os verdadeiros valores da alma.
Ali mesmo formulou o firme propsito de seguir adiante, procurando fazer sua parte da
melhor maneira. Sentia que agindo assim estava agindo de acordo com o que aprendera.
Tinha certeza de que um dia conseguiria encontrar a felicidade e a alegria de viver.
Aquele era o momento de plantar, e ele o faria da melhor maneira possvel. A colheita viria
na hora certa.
Osvaldo sentiu-se mais confiante e calmo. Quanto a Vlter, aconteceria o que teria de
acontecer. Fosse o que fosse que lhes reservasse o futuro, ele enfrentaria com coragem e
disposio, na certeza de que no cai uma folha da rvore sem que Deus permita.
Apesar de sentir-se protegida, nos dias que se seguiram Clara conseguia controlar o
nervosismo quando ia para o trabalho ou voltava para casa.
248
Antes de sair, olhava para todos os lados para ver se Vlter a estava esperando.
O que via era um dos funcionrios de Durval acompanhando-a discretamente. O detetive os
havia apresentado a ela a fim de que se sentisse mais segura vendo-os.
Assim decorreu um ms sem que Vlter aparecesse, e Clara comeou a sentir-se
incomodada pensando em quanto Osvaldo estaria gastando para manter aquela segurana.
O mais provvel era que Vlter, assustado, teria desistido de persegui-la.
Comentando com Domnico, ele considerou:
Espere um pouco mais para ter certeza.
-- Eu conheo Vlter. Nunca foi violento.
-- Mas ameaou-a com um revlver. No se esquea disso.
-- Ele havia bebido. Nunca andou metido com a polcia. Acho que o susto valeu.  hora de
Osvaldo parar de gastar dinheiro por minha causa. Isso me constrange muito.
-- Por qu? Ele fez isso espontaneamente.
-- Se meus filhos no tivessem se queixado, mostrado preocupao, ele no teria feito isso.
-- Voc acha que no merece os cuidados dele.
-- No mereo mesmo. Ele est dando uma de bom, e os meninos a cada dia ficam mais
apegados a ele.
--  natural que amem o pai, que se sintam bem reconhecendo que  um homem bom.
Clara suspirou contrariada:
-- Preferia que ele continuasse longe. Durante esse tempo, vive mos em paz. At Vlter
deixou de me amolar.
Domnico olhou srio para ela e disse:
-- No fuja do problema, Clara.  hora de enfrentar o passado com coragem, no de
procurar culpados.
-- Voc no compreende que, quanto mais ele demonstra ser bom, mais minha culpa
aparece?
-- No se iluda. Quando a fora das coisas rene as pessoas, no  para saber de quem  a
culpa dos problemas do passado, mas para que essas culpas se diluam no entendimento.
-- Nenhum entendimento ser possvel entre ns.
-- No  o que me parece. Ele tem se mostrado interessado em ajudar os filhos e em viver
em paz.
-- Um homem nunca perdoa ou esquece uma traio.
249
-- Essa  a sua verso. Se isso fosse verdade, ele teria voltado cobrar, pedir explicaes.
Pelo que me contou, ele nunca a acusou contrrio: reconhece que o amor  livre e voc tem
o direito de escolher a quem amar.
--  disso que eu duvido. Osvaldo sempre foi muito apaixonado ardente. No o imaginava
capaz dessa passividade.
-- Quase sempre as pessoas so o contrrio do que imaginamos Se eu fosse voc,
procuraria saber a verdade. Tenho certeza de que faria muito bem.
-- Tenho medo da reao dele. Sinto vergonha tambm.S em pensar nisso, meu estmago
embrulha, as pernas tremem. Se ao menos ele voltasse para o mato...
Domnico sorriu e disse:
-- Pare de sofrer pelo que j foi. Hoje tudo est diferente.Voc  uma mulher corajosa,
honesta, trabalhadora. Criou seus filhos com dignidade. Est na hora de usar toda a sua
coragem, sua fora, esclarecer definitivamente sua posio com Osvaldo.
-- Rita tambm me aconselhou ir ter uma conversa com ele-- Faa isso.
--Definitivamente, no. Isso, no.
Naquela noite, Clara conversou com os filhos:
-- Vocs vo estar com seu pai amanh. Diga-lhe que no preciso mais de segurana.
Vlter sumiu e acho que nunca mais vai incomodar.  hora de parar de gastar dinheiro com
isso.
-- Eu me sentiria mais tranqilo se esperasse um pouco mais respondeu Marcos.
-- Eu tambm -- acrescentou Carlos.
-- Bobagem. Ele desistiu.
Osvaldo recebeu o recado e conversou com Durval.
-- Depois que o advogado dele conseguiu o hbeas corpus para que ele espere o
julgamento em liberdade, de fato ele nunca mais foi  procura dela. Ns o temos seguido:
continua bebendo bastante, mas tem trabalhado e levado vida normal. A propsito, est
sempre na casa de sua me.  companhia constante de seu irmo.
-- Sempre foram amigos.
-- Talvez no seja boa companhia para ele.
-- Antnio vai comear a trabalhar comigo. Espero que a deixe essa amizade. Em todo
caso, estarei atento. Apesar de Clara achar que no h mais nenhum perigo, quero que
vocs continuem vigilantes. Talvez no to ostensivamente, mas  distncia.
250
-- Concordo.  provvel que ele esteja esperando nosso afastamento para investir de novo.
--  o que estou pensando. Por isso, no descuide.
-- Deixe comigo. Sei como fazer.
Depois que Durval se foi, Osvaldo ficou pensando em Antnio. Iria cham-lo para comear
a trabalhar.
No stio, Honrio cuidava do galpo, onde selecionava as ervas para Osvaldo comear as
pesquisas. Ele se mudara para l com a famlia. Seu filho Orlando ajudava-o no cultivo da
terra, a esposa cuidava dos afazeres da casa. Sua filha Marta tinha ficado na capital,
morando com uma tia, porque havia concludo seus estudos e trabalhava no laboratrio de
um hospital.
Osvaldo j havia aberto uma firma para comercializar as ervas medicinais. Contratara um
farmacutico para ter amparo legal e produzir seus prprios medicamentos. Colocaria
Antnio para ajud-lo na rea administrativa.
Antes de mandar os primeiros produtos para anlise a fim de obter permisso para
comercializ-los, teria de preparar rtulos e tambm embalagens.
Havia muito trabalho a ser feito, e Antnio seria de grande utilidade. Telefonou para a casa
da me perguntando por ele.
-- Antnio saiu. Mas no deve demorar. At que enfim voc se lembrou de ns. Quer falar
com ele por causa do emprego?
-- Sim. Vocs esto recebendo o dinheiro direitinho?
-- Sim, estamos. Mas ainda  muito pouco. No d para nossas despesas.
--  melhor do que nada. Logo Antnio vai comear a trabalhar e a renda de vocs vai
aumentar.
-- Quanto vai lhe pagar?
-- Vou conversar com ele. Desde j adianto que, se ele se esforar, vai ganhar bem.
-- Ele  doente, no pode fazer muito esforo. Veja l o que vai exigir dele.
-- Fique tranqila. Sei o que estou fazendo.
Ela desligou e, quando Antnio chegou, foi dizendo:
-- Seu irmo ligou e pediu para ir  casa dele conversar.  sobre o emprego.
-- Ele disse o que vou fazer e quanto vou ganhar?
251
-- Hmm... A julgar pelo pouco que ele est nos dando de mesada, no tenha muitas
esperanas nesse emprego. No quis adiantar nada. S falou que, se voc se esforar, vai
ganhar bem. Acho que ele quer  explorar voc, isso sim.
-- Se ele fizer isso comigo, no aceito. Acha que sou bobo?
Mais tarde, quando Antnio chegou  casa do irmo, este j o esperava no escritrio.
Sentados um em frente ao outro, Osvaldo foi direto ao assunto:
-- Estou precisando muito de sua ajuda.
No era isso que Antnio esperava ouvir. Olhou admirado para o irmo.
-- Mame disse-me que era para falar do emprego.
-- Tambm. Estou comeando um trabalho muito importante e voc  a pessoa certa para
ajudar-me a realiz-lo.
Antnio endireitou-se na cadeira e levantou a cabea, fitando-o srio. Tinha ido preparado
para ouvir exigncias, cobranas, anlise de seus pontos fracos. Pelo caminho havia se
preparado para explicar por que no conseguia emprego fixo. Tinha a lista de desculpas na
ponta da lngua. A atitude inesperada de Osvaldo deixou- o sem resposta.
-- Para que me entenda, preciso fazer-lhe algumas confidncias. Trata-se de assunto muito
ntimo. Espero contar com sua discrio. Nem mame poder saber disso.
-- Bem... no esperava isso. Voc nunca me contou nada de sua vida ntima.
-- Tem razo. Reconheo isso. Porm voc  meu irmo. Ns nos separamos desde muito
cedo, no tivemos ocasio para nos conhecermos melhor. Agora chegou o momento.
Vamos trabalhar juntos e meu projeto no poder ser realizado sem a unio de todos os
participantes. Por isso chamei-o aqui hoje para essa conversa. Quero que saiba onde est
entrando e por qu. Para isso preciso contar-lhe algumas passagens de minha vida. Quero
que me prometa que esse assunto ficar entre ns. Ser nosso segredo.
Antnio sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Lembrou-se de Vlter. O que Osvaldo
diria se soubesse que ele estava ali para fazer exatamente o contrrio?
Apesar disso, havia alguma coisa no tom de voz de Osvaldo que o impressionou muito, e
foi sem pensar que ele respondeu:
-- Prometo. O que me contar morrer comigo.
-- Est certo.
252
Osvaldo comeou a falar sobre sua infncia, seu namoro, casamento, o nascimento dos
filhos. Sua decepo, sua fuga desesperada, a tentativa de suicdio, o socorro dos amigos e
finalmente a descoberta da espiritualidade.
Antnio ouvia-o comovido. A sinceridade do irmo e sua luta interior para refazer a vida o
impressionaram. Nunca ningum havia conversado com ele daquela forma.
Sentiu-se valorizado, com vontade de mostrar-se solidrio de alguma forma. Osvaldo
concluiu:
-- Todos temos muitos desafios nesta vida. A educao, a famlia, a sociedade no nos
preparam para enfrent-los. Ao contrrio. Enchem-nos a cabea de regras, preconceitos,
iluses, que, por serem falsos, um dia a vida os vai destruir. Ento ficamos sem rumo,
sofrendo, sem saber como recomear. Hoje sei que nossa maneira de enxergar a vida nos
faz tomar atitudes cujos resultados teremos de colher algum dia. Isso  lei universal.
Ningum escapa  colheita de sua semeadura. Aprendi tambm que est em nossas mos
rever nossos conceitos, procurar os verdadeiros valores, que, por serem eternos, nunca
mudaro. Dessa forma, nossas atitudes sero mais lcidas e nossa vida mais serena. O
sofrimento ir embora.
-- Este mundo  um vale de lgrimas. At os padres dizem isso. No existe felicidade.
-- Claro que viver aqui tem seus desafios. A Terra  uma escola espiritual onde nos
matriculamos para desenvolver nossa conscincia. Temos de evoluir, porque esse  o
caminho da felicidade. Essa  a destinao de cada um de ns. Mas se voc olhar em volta,
se observar as pessoas que conhece, notar que os problemas que tm de enfrentar se
devem  maneira errada de fazer as coisas.
Antnio ficou calado por alguns instantes pensando em algumas pessoas que ele conhecia.
De fato, elas provocavam situaes que ele tinha certeza que nunca dariam bons resultados.
-- Bom... isso . A me, voc sabe, ela gosta de ir consultar a cartomante. s vezes vai a
um centro esprita. Sempre pensei que ela estivesse iludida. Voc est dizendo que essas
coisas existem mesmo?
-- Estou dizendo que existe vida alm da vida. Quem morre no acaba. Seu esprito vai
viver em outro mundo, e l tudo continua.
-- Voc nunca foi religioso. E difcil aceitar que voc acredite em espritos.
-- Eu no sou mstico nem religioso, se quer saber. Mas descobri uma verdade que mudou
minha vida, isso no posso negar.
253
Um dia voc tambm ter sua experincia espiritual. Ento entender o que estou dizendo.
-- Cruz credo! Tenho medo de mexer com isso.
Osvaldo sorriu e respondeu:
-- O fato de ignorar no quer dizer que esteja livre de ser rodeado e influenciado por eles.
O mundo astral  coexistente com o nosso. Estou lhe contando tudo porque, se vai trabalhar
comigo, ter de respeitar meu trabalho.
-- Terei de lidar com espritos? -- indagou ele, assustado.
-- Claro que no. Voc vai trabalhar na rea administrativa. Mas eu quero que voc me
ajude. Voc  melhor do que eu, mais bondoso. Enquanto eu larguei a famlia, voc cuidou
da me com dedicao e boa vontade. Ser bom trabalhador com alegria,  gratificante.
Tenho certeza de que voc vai gostar muito do nosso trabalho.
Antnio sentiu os olhos midos. Foi com voz firme que respondei.
-- Pode contar comigo. Quando comeo a trabalhar?
-- Amanh mesmo. Venha aqui s nove. Tenho uma lista de coisas para voc fazer.
Antnio abraou o irmo dizendo srio:
--Estarei aqui na hora certa.
Ele saiu pensando em tudo que haviam conversado. Durante o trajeto, passagens de sua
infncia lhe voltaram  mente: alguns sonhos da adolescncia que nunca realizara, projetos
que arquitetara mas que no levara adiante.
Quanto tempo perdido! Sua vida era vazia, triste, solitria. Pensando nos dias sem objetivo
em que gastava o tempo insatisfeito, algumas lgrimas vieram-lhe aos olhos.
Pegou o leno e tratou de enxug-las, olhando dos lados para se algum dos passageiros do
nibus havia notado. Chegou em casa sem vontade de conversar.
Neusa aguardava-o com ansiedade e foi logo dizendo:
-- E ento? Pela sua cara, vejo que no deu certo. Eu sabia. Osvaldo nunca vai mudar.
Antnio olhou para ela como se a estivesse vendo pela primeira vez.
-- Deu certo, sim. Comeo amanh.
-- ? E quanto vai ganhar?
Foi ento que ele se lembrou de que nem haviam falado nisso.Respirou fundo e respondeu:
254
-- Ainda no sei. Agora vou tomar um banho e arrumar umas coisas. Amanh no quero
perder a hora.
Neusa abriu a boca. Ia falar, mas ele no lhe deu tempo, subindo as escadas e indo para o
quarto. Intrigada, ela pensou:
"O que ser que aconteceu? Ele est diferente. Escapou agora, mas logo mais ter de me
contar tudo direitinho."
E foi para a cozinha cuidar do jantar.
255
Captulo 21
Clara chegou ao centro esprita para a reunio costumeira deparou com uma fila que virava
o quarteiro. Intrigada, entrou no ptio e perguntou a uma voluntria:
-- O que est acontecendo? Para que esta fila?
-- Para marcar consulta com o mdium de cura. Ele vem realizando verdadeiros milagres.
-- Ele vai trabalhar aqui?
-- No. As pessoas tero de ir ao stio onde ele atende. Ele curou a filha da Dona
Mariquinha. Lembra? Aquela que vinha sempre e tinha problema de andar. Eu vi. Depois
que se tratou com ele, ficou completamente curada.
-- Voc j foi l?
-- Ainda no. Mas pretendo ir.
-- Voc no est doente.
-- No. Mas ele d aulas, ensina a manter a sade.
--  mdico?
-- No. Os espritos  que fazem tudo. Dizem que so eles que ensinam a fazer os remdios
de ervas que d ao povo.
--Tenho visto Dona Ldia dar esses remdios sem receita mdica. No ser perigoso?
A outra sorriu e respondeu:
-- Se fosse, Dona Ldia no o faria. Depois, esses medicamentos tm licena e tem um
farmacutico responsvel. O nome dele est no rtulo.
Clara olhou para as pessoas da fila. Eram de todas as idades, algumas bem vestidas, outras
mais humildes. Ela entrou, foi para a reunio costumeira. Estava freqentando o centro uma
vez por semana e sentia-se muito bem.
256
Dormia melhor, sentia-se mais calma, e Vlter no voltara a incomodar desde que haviam
dado parte dele na delegacia, havia quase um ano.
Ldia dissera-lhe que suas energias eram boas para ajudar as pessoas. Por isso, depois de
um curso de bioenergtica, colocou-a para dar passes aos que procuravam a ajuda
espiritual.
Clara comeou a participar dessas reunies sem grande entusiasmo, mais para atender 
indicao de Ldia, em quem confiava. Porm com o tempo percebeu que sua sensibilidade
se abria de maneira surpreendente.
Quando se aproximava de uma pessoa, sentia emoes, pensamentos diferentes. Tinha
vontade de dizer algumas palavras a ela, mas reprimia, uma vez que ningum fazia isso e
todos ficavam em silncio na penumbra da sala ao som de msica suave.
Conversando com Ldia, ela lhe dissera:
-- Sua mediunidade est se abrindo, Clara. Um dia voc vai poder diferenciar os vrios
tipos de energias que a envolvem.
-- Eu j sinto. Algumas vezes sai de minhas mos um calor forte, elas chegam a transpirar.
Outras vezes, passa por mim uma brisa leve suave, refrescante. A pessoa a que estou
atendendo comea a bocejar. Algumas choram, outras estremecem. No comeo eu me
assustava, mas agora no, porque algumas me disseram que se sentiram muito melhor.
--  assim mesmo. Continue firme. Voc vai se surpreender.
O que Ldia dissera se confirmou. Algumas vezes Clara chegava a perceber o que a pessoa
estava sentindo, onde estava doendo, que tipo de problema a preocupava. A conselho de
Ldia, quando terminava o atendimento, Clara procurava desligar-se de todas essas
emoes, pedindo aos espritos que a ajudassem a esquecer o que havia sentido.
Naquela noite, na sada da reunio, ela encontrou Ldia e aproximou-se. As pessoas j
estavam saindo, e ela perguntou:
-- Hoje quando cheguei havia uma fila enorme. Esse mdium de cura  mesmo bom como
dizem?
Ldia olhou intrigada para ela e respondeu:
-- Sim. Tem uma mediunidade muito boa e est fazendo um trabalho srio.
-- Soube que os remdios que a senhora distribui tm farmacutico responsvel.
-- Claro. A mediunidade  uma ferramenta preciosa, mas o mdium, para utilizar-se dela,
precisa usar o bom senso. Eu sou daquelas que, quando um esprito desencarnado vem e me
d um conselho, analiso bem antes de aceitar.
257
 um velho conselho de Paulo, o apstolo: "No acredites em todos os espritos; antes
verifica se eles so de Deus."
-- Ouvi dizer que esse mdium tem ajudado muita gente.
-- De fato, faz um trabalho muito bom. Por isso encaminho as pessoas para ele. Ns aqui
no temos um mdium de cura do nvel dele.
-- Dizem que ele tambm faz palestras, d conselhos. Gostaria de conhec-lo.
Pelos olhos de Ldia passou um brilho de emoo. Ela respondeu:
-- Qualquer dia vou convid-lo para vir aqui fazer uma palestra.
-- Que bom. No deixe de me avisar.
-- Todos sero avisados.
Depois que ela se foi, Ldia recolheu-se pensando naquela conversa. Como Clara reagiria se
soubesse que esse mdium era seu ex- marido? Deveria contar-lhe a verdade? Se contasse,
ela com certeza no apareceria.
Mas seria correto no dizer nada? Ela se recusava a v-lo. Encontr-lo no seria um choque
muito forte?
Sem saber o que fazer, Ldia orou pedindo ajuda aos espritos amigos. Quando acontecia
isso, entregava o assunto nas mos de Deus. Por isso resolveu no fazer nada, apenas
esperar. Tinha certeza de que a vida se encarregaria de fazer o que fosse melhor, sem
precisar de sua interferncia.
Clara chegou em casa bem-disposta. Rita esperava-a para o costumeiro ch que tomavam
sempre que ela voltava do centro. Sentadas uma em frente  outra, Clara tornou:
-- Hoje havia uma fila imensa no centro para consultar aquele mdium que manda os
remdios para Dona Ldia. Voc ouviu falar dele?
Rita estremeceu. Pensou que Clara soubesse quem ele era.
-- J. Nunca pensei que Osvaldo fosse ficar to conhecido.
Clara deu um salto:
-- Osvaldo? O que tem ele a ver com esse mdium?
Rita hesitou um pouco e respondeu:
-- Pensei que voc soubesse! Ele  esse mdium. Est realizando um trabalho admirvel.
Clara ficou plida e balbuciou:
-- Voc no est enganada? Esse mora num stio, enquanto Osvaldo vive na cidade.
258


-- Voc no tem ouvido os meninos dizerem que ele passa a maior parte do tempo no stio
que herdou de Dona Ester?
Clara deixou-se cair na cadeira boquiaberta.
-- O stio de tia Ester! Tem certeza? Dona Ldia no me disse nada. Ela sabe?
-- Acho que sim. Mas  discreta.
--  difcil crer. Ele nunca foi dado a coisas espirituais. Era um homem normal, como
tantos outros. Trabalhava, divertia-se, namorava... Enfim, estou surpresa. As pessoas falam
dele como se fosse um santo.
-- Exageram, como sempre. S porque ele  mdium,trabalha com os espritos, no
significa que seja um santo. O povo gosta de se iludir. Depois, quando percebem um trao
humano nesses "santos" que elegeram indevidamente, eles o crucificam, esquecem tudo de
bom que eles fizeram e lembram-se apenas de suas fraquezas. Tenho horror a essa fama de
santidade.
-- Tem razo. Mas  difcil separar uma coisa da outra. Um mdium  um missionrio,
precisa se purificar. Pelo menos  o que dizem.
-- Nada mais errado. Um mdium  s uma pessoa que tem sensibilidade para perceber
alm dos cinco sentidos. S isso. Agora, quanto ao uso que ele far dessa sua sensibilidade,
isso sim vai depender do seu nvel de progresso espiritual. Quanto mais evoludo ele for,
mais lcido, coerente, correto ele se mostrar no trato com a mediunidade.
-- Tem lgica. No sabia que voc conhecia tanto esse assunto.
-- Tenho aprendido com Osvaldo.
-- Voc tem ido v-lo? Por que nunca me contou?
-- Porque voc evita o assunto, e eu no queria incomod-la. Procuro tirar meu dia de folga
quando ele faz palestra no stio e vou passar o dia l com ele.
Clara olhou curiosa para ela.
--  verdade mesmo o que dizem?
-- Voc precisa ir para ver. Quando ele fala, o povo fica mudo, no tira os olhos dele,
procura no perder uma s palavra.
-- No sabia que ele era bom orador.
-- So os espritos que falam atravs dele. Em alguns momentos, sua voz muda
completamente, d para sentir uma emoo diferente no ar. No d para explicar. S
estando l. S sei que saio daquele lugar muito bem-disposta, pensando em suas palavras,
procurando fazer o que ele ensina.
Clara ficou calada pensando no que ouvira. Ela tinha outra viso de Osvaldo. Sentiu-se
confusa.
259
-- Sei o que est pensando -- continuou Rita
-- Duvido.
-- Voc est comparando o que ele  hoje com a idia que tinha dele quando viveram
juntos.
--  justamente por isso que me parece uma fantasia o que voc est afirmando.
-- Mas no  fantasia. Voc viveu ao lado dele alguns anos e pensa que o conhece bem.
Nada mais falso do que isso. Ns mudamos todos os dias. A vida vai nos desafiando, e sob
sua competente ao ns vamos desenvolvendo nosso potencial interior. Dona Ldia
explicou isso outro dia.
-- Sei o que quer dizer, mas penso que ningum vira mdium de uma hora para outra,
ainda mais assim, como vocs dizem que ele . Eu nunca notei nada de estranho nele. Era
at um homem equilibrado, procurando fazer tudo dentro das regras. Como, de um
momento para outro, pode transformar-se em um curador to poderoso?
--Ele no se transformou em um curador poderoso. Nasceu com essa capacidade, porm
ela s se manifestou de algum tempo para c.
-- No consigo ver Osvaldo como um curador.
Rita sorriu e respondeu:
-- Talvez voc tenha essa dificuldade, mas, que ele  um bom curador, . Essa  a verdade.
Se no acredita, v ver com os prprios olhos.
Clara no respondeu. Sentia-se curiosa, porm a idia de encontrar-se de novo com
Osvaldo assustava-a. Rita observou:
-- Apesar da curiosidade, voc no tem coragem para fazer isso. A vida de Osvaldo no me
interessa nem um pouco. S estranhei o que vocs dizem dele.
Por qu? Ele sempre foi um homem bom. Voc mesma disse agora a pouco que ele era
equilibrado, cumpridor de suas responsabilidades. No  de estranhar que os espritos bons
o tenham escolhido como intermedirio.
-- Sempre viveu na cidade e agora faz remedinhos de ervas para os doentes. Isso no tem
coerncia.
-- Pode no ser racional na sua cabea, porque voc o imagina diferente do que .
-- Isso no. Eu sei como ele . Ns vivemos juntos muitos anos
-- Isso no  suficiente para conhecer intimamente uma pessoa Depois, como eu disse, ns
mudamos a todo instante.
-- J vi que no d para conversar com voc. Est encantada com Osvaldo, e nada que eu
disser sobre ele voc aceita.
260
-- Pode me dizer as coisas boas que ele sempre fez. Inclusive como est tentando ajudar os
filhos e at voc, apesar de no estarem mais juntos.
--Os filhos,  seu dever. Quanto a mim, no preciso de nada dele. Estou muito bem. Sou
suficiente para cuidar de mim e da famlia.
-- No seja ingrata, Clara. Afinal, o que a irrita? Foi voc quem se apaixonou por outro.
Ele nunca a teria deixado. Depois, ele se ausentou e s voltou quando se equilibrou, e agora
tenta proteger a famlia. Se no fosse ele, talvez Vlter tivesse provocado uma tragdia.
Clara baixou a cabea e no respondeu logo. Instantes depois, disse:
-- Tem razo. O que me irrita  ele ser o bom e eu a traidora, ele ter todas as virtudes e eu
ser a mulher adltera. At quando terei de suportar a idia de que ele sempre foi e  melhor
do que eu?
As lgrimas comearam a cair. Rita aproximou-se e colocou as mos em seu ombro,
dizendo:
-- Desculpe, no tive inteno de magoar voc. No estou julgando quem  melhor.
Falvamos dele, no de voc. No se compare. Cada um de ns tem pontos positivos e
fracos. Mas ningum  melhor do que ningum. Alguns esto mais conscientes do que
outros, mas diante da vida todos somos iguais, cada um vivendo seu processo, trabalhando
com sua experincia.
Clara levantou o olhar, sorriu levemente por entre as lgrimas e respondeu:
-- Voc  um exemplo vivo de como se pode progredir. De alguns anos para c voc tem
mudado muito. Sempre admirei sua maneira direta e simples de dizer as coisas, mas agora
voc est indo muito mais longe. Est se tomando sbia. Entendo que Osvaldo pode ter
progredido tambm.
-- Assim como voc, os meninos. Assim  a vida.
Clara levantou-se e abraou-a com carinho:
--  bom ter uma amiga como voc. Agora vamos dormir.
Rita concordou e, depois de tirar as xcaras da mesa, subiu para o quarto. Estava pensando,
perguntando-se at quando Clara resistiria  vontade de ver Osvaldo.
Antnio chegou em casa e Neusa esperava-o impaciente.
-- Puxa, pensei que no voltasse mais. No agento ficar tanto tempo s. Voc est me
abandonando.
-- Estou trabalhando, me. Tem de entender.
261
-- Ficou dois dias fora de casa.
-- Voc sabe que estive trabalhando no stio.
Neusa observou sarcstica:
-- A tem coisa! Essa sua repentina dedicao ao trabalho me intriga, O que h l? Alguma
mulher interessante? Voc nunca foi disso!
Antnio levantou a cabea e respondeu com altivez:
-- Sei o que estou fazendo. Por que reclama? No era voc quem vivia dizendo que eu
precisava trabalhar? Agora que estou me esforando, no est contente.
No estou acreditando nesse seu sbito interesse pelo trabalho.
-- Chega de conversa. Agora vou tomar um banho e depois terei de ir  cidade fazer
algumas compras. Osvaldo volta do stio amanh e precisa encontrar tudo pronto.
Ele subiu e Neusa balanou a cabea pensativa. Antnio estava mudado. Falava menos,
levantava cedo, ficava fora o dia inteiro, no reclamava de estar trabalhando. No lhe
dissera quanto estava ganhando, mas ela imaginava que recebia um bom salrio, uma vez
que se vestia melhor, comprava roupas finas e, o que era mais intrigante, nem usava a
mesada que Osvaldo lhes mandava todos os meses. At as despesas da casa ele sustentava.
Aquilo no era natural. s vezes pensava que ele estava preparando um grande golpe para
arrancar dinheiro do irmo. Por isso ela precisava se precaver, no gastar o dinheiro da
mesada. Assim, caso a situao estourasse e ele fosse despedido, ela teria uma reserva para
se sustentar.
Antnio, porm, dizia que ela precisava vestir-se melhor, cuidar mais da aparncia,
arrumar-se. Antes, ele nunca reparava em como ela se vestia. Precisava tirar aquele assunto
a limpo.
Quando ele desceu, depois do banho, ela serviu o almoo e, antes que ele se levantasse da
mesa, foi direto ao assunto:
-- O que est acontecendo? Voc est mudado. Tenho andado preocupada.
-- No precisa se preocupar. Nunca estive to bem.
-- No sei... Voc parece outra pessoa.
Ele riu bem-humorado.
-- Estou me sentindo outro mesmo, se quer saber. Minha vida agora tomou um novo rumo.
-- Como assim? Apareceu alguma mulher?
Ele riu sonoramente.
262
-- Ainda no. Mas, se aparecer e valer a pena, posso at gostar.
-- Logo voc, meu filho, est pensando em me abandonar?
-- Estou crescidinho para ficar embaixo da saia da me.
-- Est vendo? Tenho motivos para me preocupar.
-- No tem, no. Mesmo que um dia aparea algum em minha vida, nunca a deixarei.
Pode ter certeza disso.
Ela suspirou aliviada.
-- Ainda bem. Fico nervosa s de pensar nisso.
-- Se bem que um dia, quando um de ns morrer, teremos de nos separar.
-- Deus me livre! Nem fale uma coisa dessas.
-- Por qu? Nos ltimos tempos tenho pensado muito sobre isso. A morte faz parte da vida.
-- Vamos mudar de assunto. No quero falar sobre isso. Ele ficou srio e respondeu:
-- Voc precisa ir qualquer dia destes ouvir uma palestra de Osvaldo no stio.
-- Palestra? De Osvaldo? Sobre o qu? Ele continua com aquela mania de falar em
espritos?
-- Continua. Os espritos falam atravs dele.
-- Voc me disse que ele recebe os espritos de gente morta. Fico arrepiada s em pensar.
Acho que a traio de Clara tirou alguns parafusos da cabea dele. S pode ser. Antes, ele
nunca falava nisso.
Antnio no respondeu de imediato, ficou pensativo. Ele tambm se surpreendeu quando
comeou a trabalhar com o irmo. A princpio descrente, depois curioso, ultimamente
intrigado com o que via.
Alguns fatos que ocorriam no stio desafiavam sua lgica. No conseguia encontrar
explicaes. Apesar disso, pessoas melhoravam, resolviam problemas, mostravam-se
emocionadas, agradecidas.
Ele mesmo, sem Osvaldo saber, havia levado algumas amostras dos produtos de ervas que
fabricavam no stio para um mdico seu conhecido; que, analisando-as, garantira que se
tratava de drogas inofensivas  sade, mas sem grande poder curador.
Todavia, com elas as pessoas recuperavam a sade e algumas doenas graves eram curadas.
S podia ser sugesto. Tinha ouvido falar do placebo, remdio sem potencial de cura mas
que pode agir como fator psicolgico.
Porm, se alguns casos que presenciara poderiam ser encaixados nessa explicao, outros
havia em que s a cirurgia poderia resolver, em que certos rgos estavam muito
comprometidos, mas que, apenas com o uso daquelas ervas, tinham se resolvido.
263
O tumor desaparecera, os rgos se refizeram como por milagre.Observando tudo isso,
Antnio foi se transformando completamente. Depois, o respeito com que Osvaldo o tratara
desde o incio foi muito prazeroso. Ele no estava habituado a ser tratado daquela forma.
Sentiu-se bem, til, digno. Ficou emocionado com os casos dolorosos que apareciam no
stio em busca de ajuda. Sentiu vontade de fazer alguma coisa, de cooperar.
Descobriu que era gratificante ser bom, que ajudar algum a sentir-se melhor, confortar,
mostrar-se solidrio causava-lhe muito bem-estar. Aos poucos foi se tornando mais
interessado no trabalho que faziam.
Levantou-se da mesa dizendo:
-- J estou saindo, me. No sei a que horas voltarei. Tenho muitas coisas para fazer.
Vasculhou os bolsos e encontrou a lista de compras, apanhou a pasta e saiu sem responder a
Neusa, que resmungava que estava cansada de comer sozinha.
Estava uma tarde quente, e Antnio andava apressado quando algum o puxou pelo brao.
-- At que enfim o encontro. Onde tem andado?
Vlter estava em sua frente e, vendo-o, Antnio surpreendeu-se com sua aparncia. Sentiu
uma impresso desagradvel, um cheiro de lcool, e instintivamente susteve a respirao
para evit-lo.
-- Estou trabalhando, como voc sabe.
-- Sei. Tenho ido  sua casa e voc nunca se encontra l. Sua me est cansada de me ver.
Ultimamente finge que no h ningum em casa. Mas eu sei que ela est l.
-- No a leve a mal. Sabe como ela .
-- Temos de conversar. Vamos tomar uma cerveja em algum lugar.
-- Obrigado. Mas acabei de almoar, comi demais e no tenho vontade de nada.
-- O que  isso? Uma cerveja sempre cabe. Vamos. Agarrou-o pelo brao. Antnio olhou
para o relgio: podia dispor de alguns minutos. Entraram em um bar, sentaram-se e Antnio
pediu um refrigerante e Vlter, uma cerveja.
Enquanto esperavam, Antnio considerou:
-- No acha que ainda  cedo para comear a beber?
-- Nada disso. Para mim, qualquer hora  hora. Mas, fale, como vo as coisas?
264
-- Bem.
-- Estou vendo. Voc anda bem vestido, elegante. Pelo jeito est mesmo indo muito bem.
Qualquer dia destes vai aparecer at com um carro.
-- Estou pensando nisso mesmo.
-- Conseguiu as informaes que lhe pedi?
-- Voc ainda no se esqueceu disso?
--Dei um tempo, mas no esqueci. O que sei  que Clara no voltou com Osvaldo. Se ela
fizesse isso, iria se arrepender.
Havia tanto dio em sua voz que Antnio estremeceu, sentiu um aperto no peito e uma
sensao de desconforto. Teve vontade de levantar-se e sair dali. Controlou-se, porm.
-- No vejo por que tem tanto dio de Osvaldo. Foi voc quem arrasou com a vida dele.
Ele  quem poderia sentir dio de voc. No entanto, ele nunca fala nisso.
-- Pelo jeito voc se baldeou para o lado dele. Eu estava desconfiado. Voc sumiu. Anda
todo emproado, orgulhoso. Voc no era assim. Agora tenho certeza de que voc se vendeu
mesmo. No  mais meu amigo. O que faz um pouco de dinheiro!
Tentando conter a impresso desagradvel, Antnio respondeu:
-- No seja to maldoso. No me baldeei para o lado dele. Osvaldo  meu irmo, deu-me
um bom trabalho, trata-me com respeito, considerao. Tem se mostrado meu amigo.  um
homem decente, como sempre foi. No vejo razo para ficar contra ele em nada. Ao
contrrio: a cada dia gosto mais do que estou fazendo.
-- Voc  um bobo. Com um punhado de dinheiro ele est conseguindo manipular voc,
que s faz o que ele quer. Quando no lhe convier mais, vai dar um p no seu traseiro e
pronto.
Antnio levantou-se.
-- No d para conversar com voc. Vou embora. Tenho mais o que fazer.
Vlter puxou-o pelo brao, forando-o a sentar-se.
-- Ainda no terminei. Sempre tive voc como meu melhor amigo. Quando Osvaldo no
ligava para voc, arranjei-lhe um timo emprego.
-- Que eu perdi quando voc teve o caso com Clara.
-- Sempre amei aquela ingrata. No fiz de propsito. No pensei que voc fosse pedir
demisso por causa disso. Voc  muito falso, nunca foi meu amigo.
-- Est enganado. Continuo sendo seu amigo. Mas no gosto de ver voc do jeito que est.
265
Se continuar assim, vai acabar perdendo o emprego.
-- Isso j est acontecendo. No tenho vendido nada, qualquer dia destes eles vo me
despedir. Mas de quem  a culpa? De vocs. De Clara, que me enlouquece, e de voc, que
prometeu me ajudar mas nunca cumpriu.
-- Olhe aqui, Vlter, vamos esclarecer isso de uma vez. No tenho culpa se Clara no quer
nada com voc. H anos que no converso com ela, nem sei por onde ela tem andado.
Tenho visto os meninos com Osvaldo, falamos de outros assuntos, mas nunca de Clara.
Seria bom que voc esquecesse o passado, cuidasse da sua vida, no bebesse tanto,
procurasse manter uma boa aparncia.
-- No posso esquec-la. Depois, de que me adiantaria manter boa aparncia se ela no me
quer?
-- Mas poder encontrar outra que o ame e refazer sua vida.
-- No quero. Um dia ela ainda vai voltar para mim.
Antnio meneou a cabea negativamente.
-- Voc no tem jeito mesmo. Pare de culpar os outros pelos problemas que conseguiu
arranjar com sua atitude. Agora preciso ir. Tenho muito que fazer.
Levantou-se apressado para no dar tempo a que Vlter o segurasse. Foi se afastando, mas
ouviu-o dizer:
-- Vocs me pagam! No vou deixar passar. Juro que no.
Antnio continuou andando sem olhar para trs. Pela primeira vez observara quanto Vlter
era rancoroso, injusto, desequilibrado, desagradvel. Sentia-se atordoado, indisposto,
cansado. Respirava e tinha a sensao de que seus pulmes no recebiam todo o ar de que
precisavam.
O encontro com Vlter fizera-lhe mal. Entrou em uma lanchonete e pediu um copo de gua
mineral. Respirou fundo e foi tomando a gua em pequenos goles, tentando se refazer.
Aos poucos foi melhorando. Olhou no relgio e decidiu continuar seu trabalho. Apesar do
esforo que fez para esquecer aquele desagradvel encontro, de vez em quando a figura de
Vlter e suas palavras voltavam-lhe  lembrana. Ao pensar nele, sentia um aperto no peito
e certa inquietao da qual ele lutava para sair.
266
Captulo 22
Depois que Antnio saiu, Neusa deu largas  inquietao. Seu filho estava diferente
mesmo. No a ouvia como antes. Talvez esse trabalho de Osvaldo com espritos dos mortos
fosse a causa.
Nos ltimos tempos via pela televiso pastores dizendo que os espritos dos mortos no se
comunicavam. Era o demnio quem se apossava das pessoas, enganando-as.
Um arrepio de medo percorreu-lhe o corpo. Quando ela consultava cartomantes querendo
saber o futuro, no estaria tambm sendo enganada pelo demnio?
Foi  cozinha e tomou um copo de gua, mas a inquietao no passava. Comeou a andar
de um lado para o outro nervosa enquanto vrios pensamentos ruins a atormentavam.
E se Osvaldo estivesse sob possesso do demnio? Antnio, trabalhando com ele, tambm
estaria sendo envolvido. E se os dois enlouquecessem? Se Osvaldo perdesse todo o
dinheiro, o que seria deles no futuro? Quando queria conversar com Antnio, contar-lhe as
novidades, comentar os problemas, como sempre fazia, ele desconversava, no lhe dava
ateno, mostrava-se indiferente.
Era provvel que j estivesse enfeitiado pelo malvado.
A certa altura, parou. Era me. Tinha de defender os filhos. Precisava fazer alguma coisa,
mas o qu?
Sentiu a cabea atordoada, o estmago enjoado. Colocou gua no fogo para fazer caf. A
campainha tocou e ela foi atender. Era Dorotia, sua vizinha.
-- Neusa, tenho uma novidade para lhe contar.
Os olhos dela brilhavam de prazer, e Neusa convidou-a entrar.
-- Vamos  cozinha, que vou passar um caf. Estou deprimida, O caf  bom para levantar
o nimo.
267
-- Sabe a Dota do 202? Ela deixou o marido. Quando ele voltou do trabalho ontem  tarde,
ela j tinha ido.
Por alguns instantes Neusa esqueceu a preocupao.
-- No diga! Um homem to trabalhador, to bom. Por que ela teria feito isso?
-- Dizem que foi por causa do filho de seu Antero.
-- O dono da padaria?
-- Esse mesmo. Levou Joozinho com ela. O pai est louco da vida. Deu parte  polcia.
-- Tomara que ele os encontre. Uma mulher como ela merece ser punida. Para voc ver
como esse mundo  injusto. Mulheres honestas, trabalhadoras, sinceras no tm sorte. J
uma desavergonhada como Dora, os homens se matam por ela. Veja eu, esposa dedicada,
honesta, mulher de um homem s. Fiquei viva depois de seis anos de casamento.
-- Voc era moa. Por que nunca mais se casou?
--Nem com meu marido morto eu o tra. E, quanto a esse caso de Dora, pode apostar:
Onofre vai esbravejar, dar parte na polcia, mas daqui a algum tempo vai acabar perdoando
e voltando com ela.
-- Ser? Depois do escndalo, ele no ter coragem. A rua inteira sabe e comenta.
A gua estava fervendo, e Neusa, que j havia preparado o p no coador, passou o caf.
Colocou o prato com bolo no meio da mesa, serviu o caf para ambas e sentou-se para
comer.
-- Mas voc disse que estava preocupada comentou Dorotia.
-- Aconteceu alguma coisa?
Neusa ficou silenciosa por alguns instantes. Sabia que Dorotia havia deixado a igreja
catlica na qual fora educada pela famlia e estava freqentando uma dessas igrejas que
apareciam na televiso.
-- Pelo seu silncio, vejo que est mesmo acontecendo alguma coisa.
--Voc  minha amiga. No posso negar. Meus filhos esto mudados. No gosto do que
esto fazendo.
-- O que foi, Neusa?
-- Sei que voc mudou de religio, freqenta outra igreja. Gostaria de saber como se sente.
-- Muito bem. Depois que fui para l, minha vida mudou. Tenho f. Sei que meu Deus
nunca vai me abandonar se eu for fiel, se fizer tudo certo.
Os olhos de Dorotia brilhavam, seus lbios entreabriram-se em doce sorriso.
268


Sua expresso mudou como se ela estivesse tendo uma viso celestial.
-- Conte-me como  isso.
Dorotia falou da bblia, dos salmos, dos pastores, da regras da igreja com euforia e
disposio. E concluiu:
-- Agora encontrei meu caminho. Estou feliz.
-- Puxa! Voc est entusiasmada mesmo. -- Hesitou um pouco, depois perguntou: -- O
que voc acha do espiritismo?
-- Coisa do demnio. Estamos no fim dos tempos. O diabo est tomando conta da
humanidade. S vai se salvar quem seguir a igreja. Por que pergunta isso?
--  isso que me preocupa. Meu filho Osvaldo diz que fala com espritos dos mortos.
-- Cruz credo! Que horror!
-- O pior  que ele que nunca ligou para Antnio nem para mim.  triste dizer, mas
Osvaldo sempre nos desprezou. Agora aproximou- se de ns, est nos dando dinheiro, O
que me chamou a ateno foi que Antnio tambm est mudado. Evita conversar comigo,
quase no pra em casa. No sei o que fazer, a quem recorrer. Tenho de fazer alguma coisa.
-- Tem mesmo, e depressa. Est claro que o diabo os est seduzindo. Cuidado. Ele 
perigoso. Voc no vai poder expuls-lo sozinha. Hoje mesmo vou lev-la  minha igreja 
noite. Tenho certeza de que esse demnio vai ser expulso de sua casa.
-- Voc faria isso por mim?
-- Claro. Voc  minha amiga e est correndo perigo. Acalme-se. Voc ser protegida.
Combinaram de ir  igreja naquela mesma noite. Dorotia passaria mais tarde em sua casa.
Depois que ela se foi, Neusa sentiu-se mais calma. Estava tomando providncias para
ajudar a famlia.
Estava ansiosa. Dorotia falara maravilhas daquela igreja, dos hinos, das pessoas, tudo.
Neusa sentiu-se cansada e com sono. Olhou para o relgio. Tinha tempo de descansar um
pouco.
Foi at o quarto e deitou-se. Foi relaxando e estava quase pegando no sono quando sua
ateno foi despertada. Olhou para o canto do quarto e viu um homem alto, forte, que foi se
aproximando da cama. Ela reconheceu seu marido Joo. Estava remoado, parecia bem-
disposto.
Neusa estava atordoada e no primeiro instante esqueceu-se de que ele falecera havia muitos
anos.
269
-- Joo! Voc sarou, est bem. Que bom!
-- Neusa, abra seus olhos e aproveite a oportunidade que lhe est sendo oferecida. Osvaldo
est dizendo a verdade. Acredite nele.
Foi a que Neusa se lembrou e gritou:
-- Voc est morto! Isto  um sonho.
A figura de Joo estremeceu, balanou no ar e desapareceu. Neusa fez fora para se
levantar mas no conseguiu. Apavorou-se, quis chamar algum, mas seu corpo no lhe
obedecia.
Gastou alguns segundos na tentativa de mexer o corpo, at que por fim conseguiu dar um
pulo e sentar-se na cama. Suava e estava muito assustada.
"Foi s um sonho", pensou.
Mas aquela viso no lhe saa do pensamento. Depois da morte de Joo, sonhara com ele
vrias vezes. Entretanto, nenhum dos sonhos havia sido igual quele. A presena do marido
havia sido to real que Neusa chegou a sentir o cheiro do perfume que ele usava em vida.
Era como se ele houvesse ressuscitado.
-- Esta histria de espritos me perturbou. Por que fui meter-me nesse assunto?
As palavras de Joo no lhe saam do pensamento:
"Osvaldo est dizendo a verdade. Acredite nele." Lembrou-se de Dorotia. Logo mais ela
viria busc-la para ir  igreja. Dissera-lhe que l eles exorcizavam o demnio. E se ela se
sentisse pior?
Havia perdido completamente a vontade de ir. O melhor mesmo era no se envolver com
essas histrias.
De repente lembrou-se de que a vida de Dorotia no mudara nada. O marido continuava
desempregado, o filho brigando com a irm porque ela resolvera namorar um rapaz que ele
dizia ser malandro. At a prpria Dorotia continuava exausta, uma vez que tanto o marido
quanto o casal de filhos, alm de no ajudar em nada em casa, viviam reclamando da
comida que ela fazia, das roupas mal passadas, da casa mal arrumada.
No. Dorotia mostrava-se mais animada, mas sua vida continuava na mesma.
Mais tarde, quando ela apareceu, conforme o combinado, Neusa disse que no iria.
-- Pelo que vejo, voc j se deixou dominar por "ele". Reaja. Vamos. Voc precisa se
salvar e salvar seus filhos. No dia do julgamento final, todos vocs sero destrudos para
sempre.
270
-- No  que eu no queira ir. Mas no posso sair agora. Estou esperando Antnio. Ele
telefonou e disse que vir mais cedo para o jantar. Tenho de esper-lo. Irei outro dia.
-- Aposto que ele fez isso s para impedi-la de ir. O diabo sabe de tudo e o fez ligar para
segurar voc. Ainda acho que deve ir.
Quanto mais Dorotia insistia, mais Neusa sentia vontade de no ir. Foi categrica:
-- No adianta, Dorotia. Hoje eu no vou.
-- Est bem. Voc  quem sabe. Mas depois no venha com ares de preocupao reclamar
comigo.
Depois que ela saiu, Neusa respirou aliviada. Comeou a desconfiar que havia alguma coisa
errada na insistncia dela. No gostava de ser pressionada. Sentia vontade de fazer o
contrrio.
Decidiu ter uma conversa sria com Antnio. Esperou-o para o jantar, porm ele s chegou
depois das onze. Vendo-a acordada, estranhou. Neusa gostava de dormir cedo.
-- Ainda acordada? Aconteceu alguma coisa?
-- Fiquei esperando por voc. Temos de conversar. No adianta dizer que est cansado,
porque hoje no o deixarei ir.
Antnio sentou-se no sof e respondeu:
-- Est bem. O que houve?
-- Voc est mudado. No conversa mais comigo como antes, nem me d ateno.
-- Antes eu ficava o dia inteiro em casa, mas agora estou trabalhando.
-- Eu sei. Por isso mesmo tenho suportado a solido sem dizer nada. Mas hoje voc me
disse algumas coisas que me preocuparam.
-- O que foi?
-- No estou gostando dessa histria de Osvaldo lidar com os espritos dos mortos. Vocs
mudaram muito. Hoje Dorotia, que tem muita f e  evanglica, me disse que os espritos
dos mortos nunca se comunicam, que  o diabo que se faz passar por eles, para nos
dominar.
Antnio comeou a rir.
-- Voc ri, mas isso  srio -- continuou ela. -- Dorotia disse que est chegando a hora
do juzo final e que ternos de salvar nossa alma, seno nossos espritos sero destrudos
para sempre.
-- No acredito. Como voc pode dar crdito a uma coisa dessas?
-- Tambm no acredito, mas e se for verdade?
-- Me, temos de ter bom senso, observar os fatos.
271
-- Foi o que fiz. Veja s: Osvaldo nunca ligou para ns, e agora, de uma hora para outra,
decide nos ajudar. Isso no lhe parece estranho?
-- No. Ele est fazendo isso porque percebeu que estava errado e quer corrigir.
-- , mas antes voc me dava mais ateno. Agora...
-- Voc no tem nenhuma razo para preocupar-se. Nunca estivemos to bem. Estamos
progredindo, nossa famlia est se entendendo como nunca. Nada nos falta. Voc est sendo
mal-agradecida.
-- Mas, se for coisa do diabo, ele vai cobrar um preo caro por tudo isso. Quem morre
nunca mais volta. Voc acredita que os mortos possam se comunicar?
-- No comeo pensei que Osvaldo estivesse tendo alucinaes. Mas depois as coisas
comearam a acontecer, e hoje estou inclinado a reconhecer que ele est dizendo a verdade.
Osvaldo afirma que, quando o corpo morre, aquele esprito vai viver em outro mundo. Diz
que a carne  como uma roupa que cobre o corpo espiritual e eterno. Todos somos assim.
Depois da morte, ficamos com o corpo espiritual, e, apesar de viver em outra dimenso,
continuamos sendo a mesma pessoa, com os mesmos gostos e afetos.
Neusa ficou pensativa. Seria por isso que Joo, apesar de morto, continuava se interessando
pela famlia?
-- Ser?
-- Osvaldo diz que . Diz tambm que, depois de certo tempo no outro mundo, nossos
espritos voltam a nascer na Terra. As crianas que nascem no mundo esto voltando para
continuar a aprender mas j viveram muitas vidas aqui antes.
-- Isso  demais. Como pode ser?
-- Jesus ensinou isso. Est na bblia.
-- Voc nunca se interessou por religio.
-- Sabe, me, o que tenho visto no stio tem me feito pensar. Hoje estou certo de que existe
muito mais coisas alm dos nossos cinco sentidos.
-- Voc me deixa curiosa. Como sabe?
-- Osvaldo consegue ver e ouvir os seres do outro mundo.
-- Como sabe que  verdade?
-- Porque ele d recados dos parentes mortos para as pessoas. Muitas provas e no h
como duvidar.
-- Voc me falou que ele faz remdios de ervas. Como pode isso, se ele foi criado na
cidade?
272
-- Me, no adianta eu ficar falando.  melhor que voc v l ver. Tenho certeza de que
concordar comigo.
-- Eu? No.  muito perigoso. E se for coisa do diabo? Antnio riu bem-humorado e
respondeu:
-- L s se pratica o bem, s se fala em bondade e amor, perdo e harmonia. Se o diabo
trabalhasse assim, estaria trabalhando contra ele mesmo e se tomando um anjo bom.
Neusa ficou pensando por alguns minutos. No contou que tinha visto Joo nem o que ele
lhe dissera. Antnio se sentia apoiado. Ela desejava refletir um pouco mais. Algumas coisas
que o filho dissera a impressionaram favoravelmente.
Afinal, Dorotia no servia de exemplo para ningum. Se ela no conseguia melhorar sua
vida nem a da prpria famlia, no estava em condies de ensinar nada. Queria ver quanto
ia durar a f que ela alardeava. Quando sasse da euforia e percebesse que tudo continuava
igual, procuraria outra coisa e faria tudo de novo.
-- Agora vamos dormir, me.  tarde. Pense no que eu disse. Se quiser ir l qualquer dia
destes, posso lev-la.
-- Vamos ver.
-- Acho que deveria ir. Se est preocupada, precisa ver com seus prprios olhos como so
as coisas.
Ela concordou. As palavras de Antnio acalmaram-na. Podia ser que estivesse sendo
precipitada. Afinal, de fato, a vida deles havia melhorado muito.
Antnio foi para o quarto. Convivendo com Osvaldo e as pessoas que o procuravam,
comeou a perceber que no havia somente espritos bons que se comunicavam mandando
mensagens para os entes queridos, mas tambm havia outros menos equilibrados que
interferiam na vida das pessoas, prejudicando-as.
Depois de receberem orientao de Alberto, o guia espiritual de Osvaldo, e de freqentarem
as reunies no stio ou no centro de Ldia, para onde eram encaminhadas, essas pessoas
voltavam aliviadas e muito melhor.
Isso o impressionava e fazia pensar. Ele nunca havia sido bem-sucedido em nada. Sua vida
afetiva sempre fora um fracasso. Nas duas vezes que se apaixonara, em uma fora trado e,
na outra, rejeitado.
Desiludido, jurou nunca mais se apaixonar. As palavras de Neusa, quando a procurou para
desabafar, nunca mais lhe saram da lembrana: "Amor verdadeiro, meu filho, s de me.
Sempre estarei aqui para apoi-lo."
273
Apesar de gostar muito dela, sentia falta de motivao, de objetivos. Tornou-se indiferente
s pequenas alegrias do dia-a-dia. A rotina o entediava, mas ele se conformou. A vida era
assim mesmo, conforme Neusa dizia.
Agora, porm, Osvaldo dissera-lhe que cada um  responsvel por tudo quanto lhe
acontece. No universo no existe vtima. So as atitudes que criam o destino. Enquanto
voc as mantiver, elas continuaro a produzir os mesmos resultados. As coisas ruins
podero ser afastadas se a pessoa descobrir qual das suas atitudes est provocando esse
resultado e troc-la por outra melhor.
Antnio sentia-se mexido, tocado profundamente em seus sentimentos. Assistindo s
palestras de Osvaldo, questionava tudo, cheio de dvidas, ansioso por entender o que
sentia. Tinha dificuldade de analisar suas emoes.
Percebeu que no se conhecia. No sabia dizer do que gostava, o que lhe causava prazer.
Uma tarde, ao olhar-se no espelho, notou como estava envelhecido, curvado, suas roupas
eram deselegantes, sem graa, como ele mesmo.
Ficou chocado. Estava com trinta e oito anos mas aparentava muito mais. Passou a mo
pelo rosto e notou que sua pele estava seca, sem vida, e seus olhos inexpressivos.
Na manh seguinte foi ao barbeiro, mudou o corte dos cabelos, passou por algumas lojas e
interessou-se por uma linda camisa de linho. Perguntou o preo. Era cara, a loja muito fina.
Mas havia recebido na vspera e num impulso a comprou.
Quando a vestiu, olhou-se no espelho e sentiu-se melhor. Seus olhos brilhavam satisfeitos,
mas notou que as calas e os sapatos no combinavam. Dois dias depois, havia comprado
tudo.
Tomou um banho, arrumou-se bem e saiu para dar uma volta.
Satisfeito, notou alguns olhares interessados de duas moas. Foi o bastante. Sentiu-se
valorizado, alegre.
A partir desse dia, passou a cuidar melhor da aparncia. Observou que a me havia parado
no tempo. Suas roupas eram antiquadas, seus cabelos sem brilho, nunca se pintava. A casa
estava velha, precisando de reparos e de pintura.
Falou com a me, mas ela no quis.
-- Est como sempre esteve. Pintura  caro.
-- Mas, me, h muitos anos no pintamos a casa.
-- Bobagem gastar dinheiro com isso. Temos de guardar para nosso futuro.
274
No sabemos o dia de amanh. Eu posso ficar doente, voc pode perder o emprego. Nunca
se sabe.
Antnio no respondeu. Ela podia ter razo. Mas, a cada dia, mais e mais o incomodava
olhar para as paredes desgastadas do seu quarto, os mveis velhos da cozinha, o tapete
desbotado da sala de estar, a cadeira em que ningum podia sentar porque as pernas
balanavam. Neusa recusava-se a jogar fora o sof desbotado de almofadas tortas e
desconfortveis.
Era com prazer que ele ia  casa de Osvaldo, onde tudo, embora antigo, era conservado
como novo. Havia flores nos vasos, as paredes eram bem pintadas e claras. No stio
tambm tudo era arrumado com capricho. Cada coisa em seu lugar.
Osvaldo dissera-lhe que a casa era reflexo de seu habitante. Uma casa malcuidada
significava que a pessoa cuidava mal da prpria vida. Seria verdade? Eles teriam cuidado
mal de suas vidas? Era por isso que haviam tido tantos problemas?
Aos poucos foi perdendo a vontade de ficar em casa. Apesar de abrir as janelas todas s
manhs, sentia um desagradvel cheiro de mofo. Procurando descobrir de onde vinha,
notava todos os detalhes em volta e no gostava do que via.
Quando reclamava com a me, ela respondia:
-- Voc agora est ficando enjoado. Porque ganha um pouco de dinheiro, est luxento.
Tudo aqui est como sempre esteve. Mas eu sei o que est acontecendo. Est procurando
desculpa para me deixar aqui sozinha.
Uma tarde conversou com Osvaldo sobre o assunto.
-- No sei mais o que fazer com a me. Quero melhorar nossa vida, mas ela recusa. No
quer pintar a casa, trocar os mveis. No liga para nada. A casa est no mais completo
abandono. Apesar de gostar muito dela, estou pensando seriamente em me mudar.
-- Ela ficar desolada.
-- Eu sei. Vive pendurada em mim. Mas  claro que no penso em abandon-la. Estarei l
todos os dias. Mas tenho o direito de viver em um lugar mais arrumado. Quando reclamo,
ela diz que  desculpa para abandon-la.
-- A me sempre foi assim. Nunca cuidou de si mesma como poderia. Foi voc quem
mudou.
--  verdade. Estou cansado de viver em um lugar feio, malcuidado, cheirando a mofo.
Aqui tudo  feito com capricho, bom gosto, h flores nos vasos.Mame no tem gosto nem
capricho. No estou me queixando.
275
 uma boa me, sempre interessada em meu bem-estar, mas  muito relaxada. No acha
que tenho razo?
At certo ponto, sim. Voc tem o direito de viver em um lugar bonito, bem arrumado. Uma
casa, ainda que modesta, simples, bem limpa, arrumada com gosto e capricho, atrai
energias positivas, provoca bem-estar em seus moradores, ao passo que o desleixo, os
objetos quebrados, malcuidados, a falta de higiene so o ninho certo para energias
negativas, desagradveis. Alm de dificultar a ajuda dos espritos de luz, favorecem a
presena de entidades perturbadoras.
-- Outro dia ouvi voc dizendo isso.
-- Por outro lado, h que ter pacincia com mame. Ela tambm  esprito e em sua
essncia guarda muita sensibilidade  beleza, ao amor.
--A me? No creio. Nunca vi pessoa mais crtica. Adora falar mal da vida alheia.
Principalmente quando se junta com Dorotia.
-- Ela sempre foi assim.
-- Antes eu tinha pacincia, ouvia e at dava palpite. Mas agora cansei. Incomodam-me
certos comentrios. Ns no sabemos lidar nem com nossos prprios problemas e queremos
julgar os outros.
-- Voc percebeu que esse tipo de atitude no lhe agrada. Sabe por qu?
-- No.
-- Porque descobriu que no precisa realar os pontos fracos dos outros para se valorizar.
Ao contrrio. Essa atitude  falsa e desagradvel. Voc est ficando mais consciente. Tenho
ouvido comentrios dos amigos dizendo que voc remoou, est mais bonito, elegante. No
me espantaria se qualquer dia destes alguma moa bonita se apaixonasse por voc.
Antnio corou de prazer. Ele tambm havia notado. Osvaldo continuou:
-- Sabe, Antnio, diante dos desenganos, cada um reage de um jeito. Mas o medo de sofrer
acaba sepultando a sensibilidade. A pessoa se fecha, procura ser indiferente e acaba
perdendo at a individualidade. Deprime-se, perde o prazer de viver, acaba no sabendo m
do que gosta ou o que quer da vida. A me sempre foi prisioneira medo. Seus pensamentos
so pessimistas. Julga que assim est se protegendo dos perigos. Isso  iluso. A vida far
justamente o contrrio Quanto maior a indiferena, maior ser o acontecimento que vir
para quebr-la. Ns somos espritos eternos, sensveis ao bem,  beleza,  luz. Nossa alma
vibra ao toque dos valores verdadeiros.
276
--  difcil pensar que a me seja assim tambm. Osvaldo sorriu bem-humorado.
-- Todos somos. Mas h momentos em que preferimos nos esconder na depresso e na
incapacidade. Mas  intil, porque a vida trabalha para nos transformar, para trazer  tona
toda a grandeza espiritual que guardamos em nosso mundo interior.
-- Tem certeza disso?
-- Tenho. Voc era como ela. Assim como despertou para a vida  sua volta, ela tambm
despertar. Ao invs de ir embora, se mudar, deix-la s, faa o oposto: traga-a para onde
voc est agora. Desperte a sensibilidade dela, faa-a perceber toda a beleza que nos cerca.
Assim, aos poucos ela tambm vai recuperar a alegria e o prazer de viver.
Os olhos de Antnio brilharam comovidos.
-- Puxa, se eu conseguir, ser maravilhoso.
-- Faa isso, mas no espere resultados rpidos. Ela pode ser resistente, demorar para
desabrochar. Lembre-se de que ela se tornou assim para defender-se de seus medos. Largar
essa postura pode significar a perda dessa proteo mantida durante anos.  uma iluso,
mas  preciso coragem para deix-la ir e aventurar-se em novos caminhos.
As palavras de Osvaldo calaram fundo em Antnio. Saiu de l pensando no que fazer para
conseguir o que pretendia.
Depois que ele se foi, Osvaldo ficou em sua me. Para ele havia sido muito bom ter sido
criado por Ester e o marido. Aprendera muito com eles, embora naquele tempo se
ressentisse porque no lhe deram o carinho que ele desejava. Agora, porm, reconhecia ter
recebido muito deles.
A educao esmerada, o respeito com que sempre o trataram apesar da situao financeira
de sua famlia, a oportunidade de estudar, vestir-se bem, ter uma vida confortvel.
Tudo isso fora melhor do que os mimos que julgava merecer. Sua me agarrara-se ao filho
mais novo, nica companhia que lhe restou, mimara-o de tal maneira que acabou por
transform-lo em um homem fraco, sem vontade, vulnervel e incapaz de cuidar da prpria
vida.
Naquele momento, Osvaldo viu tudo claramente. Percebeu que, privado do aconchego da
me, evitou ficar na mesma situao de Antnio. Felizmente o irmo estava acordando,
percebendo que podia tornar-se uma pessoa mais feliz e respeitada. Se Neusa tambm
acordasse para a realidade, talvez eles pudessem conviver bem. No seriam apenas pessoas
que a vida reuniu nesta vida e que, acabando os laos do mundo fsico, se afastariam.
277
No seriam apenas uma famlia consangnea mas sim uma famlia espiritual, ligada pelos
laos da amizade e do amor.
Pensando na bondade divina que lhe permitira descobrir esse caminho, Osvaldo ajoelhou-se
ali mesmo, na sala, e entregou-se  orao de agradecimento.
278


       Captulo 23
Clara entrou em casa e admirou-se ao encontrar Marcos e Carlos esperando-a na sala.
-- Os dois em casa to cedo? Aconteceu alguma coisa?
-- Estvamos esperando voc -- disse Carlos.
Papai vai mandar o carro nos buscar. Vamos para o stio passar o fim de semana. No
queramos ir sem nos despedirmos de voc.
-- Parece que agora virou moda. Todos os fins de semana vocs vo para o stio e nos
deixam sozinhas. No acham que esto exagerando? Eu tambm gosto de ficar com vocs.
Faz tempo que no passamos uma tarde juntos, conversando.
-- Eu sei, me. Mas  que vai haver um evento importante no stio. No queremos perder
-- disse Marcos. -- Carlos vai tocar. Ensaiou a semana toda.
-- No sei o que h l que vocs tanto gostam.
-- Garanto que se voc fosse adoraria -- tornou Carlos.
Clara fez de conta que no ouviu. Disse apenas:
-- Nesse caso, no digo mais nada. Podem ir.
Os dois a abraaram com carinho. Subiram para o quarto e desceram logo com a bagagem.
-- Pelo menos, jantem comigo.
Os dois hesitaram, e Marcos respondeu:
--  que papai mandou preparar um jantar especial para ns. O carro j deve estar
chegando.
Eles a beijaram e se foram. Clara entrou na copa dizendo:
-- Voc viu, Rita? Eles nem ligam mais para mim. Agora tudo  o pai. No sei como isso
vai acabar. Qualquer dia destes vo querer nos deixar e morar com ele. Isso no vou
suportar. Depois de tudo, Osvaldo aparece e quer tomar os filhos de mim.
279
Rita, que supervisionava Diva, que fazia o jantar, disse sria:
-- No exagere, Clara. Eles adoram o pai, mas no  s isso. Eles gostam das palestras que
Osvaldo faz, dos jovens que circulam por l aos domingos. Eles fizeram amizades, cantam,
alegram-se juntos.
-- Osvaldo faz isso s para tir-los de mim.
-- No seja injusta, Clara. Na verdade, Osvaldo conseguiu criar naquele Stio um ambiente
leve, agradvel, onde as pessoas se voltam para a espiritualidade, sentem-se bem, melhoram
suas vidas. O lugar  alegre, bonito.
-- Chega, Rita. Daqui a pouco voc tambm vai passar para o lado dele.
-- Gostaria que voc tambm fizesse isso. Garanto que se sentiria muito feliz.
-- Voc sabe que isso  impossvel.
-- No sei por qu. Conheo muitos casais que se separaram mas convivem pacificamente,
at como amigos.
-- Eu tambm conheo, mas nosso caso  diferente. Osvaldo nunca vai esquecer o que eu
lhe fiz. Depois, eu tambm no quero v-lo.
-- Voc  quem sabe. Mas no pode impedir que seus filhos gostem de ficar com ele.
Clara no respondeu. Subitamente sentiu-se cansada. No queria pensar em nada. O
passado estava morto, e ela no queria ressuscit-lo.
Antnio chegou em casa e encontrou Neusa mal-humorada.
-- At que enfim chegou. Estava falando sozinha.
-- Porque quer. Saia, v visitar alguma amiga, ligue o rdio, a televiso. Procure distrair-se.
-- No sinto vontade de nada.
Antnio olhou pensativo para ela. Osvaldo estava certo: Neusa no sentia prazer em nada.
Havia comprado um televisor em cores para ela. Mas, apesar de assistir um pouco, ela no
demonstrava alegria.
Depois do jantar, tomaram caf na sala. Ao final, ele se levantou, dizendo:
-- Vou subir Tenho de arrumar a mala. Amanh bem cedo vou para o stio.
-- Outra vez Pensei que fosse ficar em casa este fim de semana.
-- No posso. Faz parte do meu trabalho. Depois, neste domingo teremos um evento l.
Osvaldo conta comigo.
-- Ele est  se aproveitando de voc. Ningum  obrigado a trabalhar nos fins de semana.
280
-- Gosto tanto de ir para l que nem  trabalho,  prazer. Por que no vai comigo?
-- Eu? No gosto de dormir fora de casa.
-- Quando fomos l, voc bem que queria ficar.
-- E Osvaldo no deixou. No esqueo essa grosseria. Por isso no vou de oferecida.
-- Ele fez isso porque no tinha como nos hospedar. Mas agora ele aumentou a casa e
podemos ir. Assim no ficar aqui sozinha. Poder distrair-se.
Ela hesitava entre curiosidade e a vontade de se fazer de difcil.
-- Estou convidando Faa como quiser. No vou insistir. Tem todo direito de escolher.
Vendo que ele ia saindo, ela decidiu:
-- Est bem. Eu vou. Mas  s para no passar o fim de semana aqui, olhando para as
paredes.
Ele sorriu levemente e respondeu:
-- Sairemos s seis. Quero chegar l antes de Osvaldo e do resto do pessoal.
No dia seguinte, quando Antnio se levantou, ouviu barulho na cozinha e sentiu o cheiro do
caf fresco. Arrumou-se e quando desceu viu a mala da me pronta na sala.
Quando Osvaldo chegou ao stio com Jos, Rosa e os dois filhos, Antnio e Neusa j
estavam l. Enquanto ele abraava a me, dando-lhe as boas-vindas, Marcos e Carlinhos se
entreolharam aborrecidos.
A presena da av, com quem haviam tido momentos desagradveis, foi um balde de gua
fria em seu entusiasmo.
Osvaldo disse com simplicidade:
-- Vocs no vo cumprimentar sua av?
Acanhados, cada um por sua vez estendeu a mo, arriscando um tmido "Como vai, v?"
Neusa olhou para os dois. Fazia muito tempo que no os via. Exclamou admirada:
-- Esto moos! Bonitos! Puxa, Marcos se parece muito com meu falecido Joo, seu av.
J Carlos  mais parecido com a me. Eu vou muito bem. Mas, se eu no viesse aqui, vocs
nunca se lembrariam que tm uma av. Eu sei que no se importam comigo. Afinal, nunca
pudemos conviver.
Nenhum dos dois respondeu, e ela continuou:
-- Mas no os culpo por terem me esquecido. Com certeza fizeram muito bem a cabea de
vocs contra mim.
281
--Est enganada, v. Ningum nunca fez nossa cabea -- disse Carlos com certa irritao.
Voc  que nunca gostou de ns.
Osvaldo interveio:
--Talvez vocs no se conheam o suficiente para apreciar as qualidades uns dos outros.
Esta  uma excelente oportunidade de se conhecerem melhor e notar o que cada um tem de
bom. Garanto que vo se surpreender.
--  injusto voc dizer que no gosto de vocs. Ao contrrio. Sempre me preocupei com o
futuro, principalmente depois que Osvaldo foi embora. Muitas vezes falei com sua me.
Queria que fossem morar comigo. Estava disposta a ficar com vocs. Mas ela nunca quis.
Apesar disso, tenho rezado sempre para que Deus os proteja.
Neusa tinha lgrimas nos olhos, e os dois rapazes no sabiam o que responder. Foi Osvaldo
quem tomou a palavra:
-- O amor  um sentimento singular. Cada pessoa sente e se manifesta do seu jeito. Isso
gera muita incompreenso. Como no podemos entrar dentro do corao dos outros para
saber qual  o sentimento que cultivam, o mais certo  nunca julgar. Por outro lado, sempre
ser til analisar e procurar compreender o que vai dentro do nosso corao. Isso eu garanto
que dar um resultado muito melhor.
Jos apareceu para avisar que a mesa estava pronta para um lanche, e os dois rapazes
respiraram aliviados. Quando se viram a ss, Carlinhos no se conteve:
--Voc viu s? Na frente do papai ela parecia um cordeirinho.
No acredito em nada do que ela disse.
-- De fato. Vov sempre foi irritante, maltratou mame. Agora ela vem com essa conversa
de que gosta de ns. Tambm no creio. Mas viemos aqui para um encontro de paz, e no 
bom lembrar das nossas mgoas. Depois, papai tem razo.
-- Por qu? Eu no acho.
-- Se ela nos tratou mal, ns fizemos o mesmo. Nunca a procuramos nem tivemos um
gesto de carinho com ela.
-- O que ela queria, depois do que fez? Deve dar graas a Deu por a tratarmos com
educao. S fiz isso em respeito ao papai. A ltima vez que nos vimos, ela foi  escola
falar mal da me para voc Rita apareceu bem na hora.
-- Seja como for, temos de ser educados com ela.
-- Isso se ela no provocar. Viu o que ela falou de mame? Se der mais alguma indireta,
no vou tolerar. Papai que me desculpe
-- Calma, Carlos. No devemos nos importar com o que os outros dizem, mas sim cuidar
para no cairmos no mesmo erro deles. O pai sempre fala isso, lembra?
282
-- Lembro. Mas no  fcil.
Marcos riu e respondeu:
-- No  porque estamos viciados em revidar tudo. Estamos ainda na lei do "olho por olho,
dente por dente". Isso  um atraso para nossa vida.
Carlos suspirou:
-- Est bem. Sei o que quer dizer. Vou me esforar.
Depois do lauto caf que tomaram, apressaram-se a ir at o galpo que Osvaldo construra
ao lado do lago que estavam inaugurando naquele dia. Ele costumava fazer as palestras na
beira do lago, ao ar livre. No comeo, eram poucas as pessoas presentes. Com o tempo, o
nmero foi aumentando.
Por isso Osvaldo decidiu construir aquele galpo rstico mas que os protegeria das
intempries. Estava lotado. Apenas na primeira fila de cadeiras alguns lugares estavam
reservados. Antnio levou a me e os dois sobrinhos para se acomodarem nesses assentos.
O dia estava lindo e o sol brilhava refletindo-se nas guas do rio. Os pssaros cantavam e
havia flores por toda parte.
Um jovem cuidava do aparelho de som e a msica era suave. Osvaldo apanhou o microfone
e colocou-se em p  frente do pblico.
Depois de saud-los dando as boas-vindas, disse:
-- Hoje  um dia feliz para mim, porque, alm de receber vocs em nosso novo salo,
conto com a visita de uma pessoa muito importante para mim. Finalmente ela decidiu nos
honrar com sua presena to esperada.  com alegria que desejo apresentar-lhes minha
me, Dona Neusa.
Uma salva de palmas entusiasmadas ecoou enquanto Neusa, tomada de surpresa, tremia
qual folha batida pelo vento forte. Osvaldo foi at ela, pegou seu brao para que se
levantasse e ficasse de frente para a platia.
Olhando para aqueles rostos alegres que batiam palmas sorrindo amistosamente, Neusa no
conteve a emoo e comeou a soluar. Abraou o filho, que a apertou em seus braos com
carinho. Quanto mais ela chorava, mais eles a aplaudiam.
Quando ela conseguiu se acalmar, ele a fez sentar novamente e continuou:
-- Minha me  uma mulher simples, que se mostrou corajosa, fiel. Ficou viva depois de
seis anos de casamento, tendo dois filhos pequenos para criar: eu e Antnio, que vocs
conhecem.
283
Naquele tempo era difcil para uma mulher conseguir trabalho, principalmente para ela, que
vinha de uma famlia pobre, sem recursos para estudar. Por isso, fez o sacrifcio de separar-
se de mim, seu filho mais velho, pedindo  minha tia Ester, irm de meu pai, que cuidasse
de mim, enquanto ela cuidaria do sustento do menor, ainda de colo.
O povo ouvia com interesse, e Osvaldo continuou:
--Eu estava com cinco anos e senti muito a mudana. Fui para um lugar estranho, com
costumes muito diferentes da casa de minha me. Meus tios, ricos e instrudos, sempre me
trataram bem, mas eu me sentia retrado, deslocado. Jos, que hoje trabalha comigo, vocs
conhecem, foi quem me ensinou os rudimentos da vida social. Eu tentei no desagradar aos
tios que me acolheram, que me deram tudo. Estudei nos melhores colgios, tornei-me um
jovem educado, que sabia conviver em qualquer ambiente social. Consegui trabalho, fiz
uma carreira bem-sucedida.
-- Apesar disso, eu continuava retrado. Naquele tempo, no soube avaliar o que fizeram
por mim. Sempre me julguei inferior a eles, sempre me senti como uma pessoa criada de
favor. Observando a diferena social entre meus pais e eles, fiquei magoado com minha
me por ela ter me dado a eles. Nunca tive coragem de lhe dizer que naquele tempo talvez
eu tivesse preferido passar pelas agruras da pobreza ao lado dos meus a viver como eu
vivia.
-- Incapaz de analisar meus sentimentos, distanciei-me muito da minha me e do meu
irmo. Acreditei que eles no me amassem e que estavam contentes por verem-se livres de
mim.
-- Foi preciso que uma tempestade terrvel varresse minha indiferena, foi preciso que eu
mergulhasse no inferno da desiluso, da dor e do desespero, que eu perdesse a f nas
pessoas, em Deus, em tudo, descesse ao fundo do poo, para entender que eu sempre
estivera errado.
-- Foi a ajuda de pessoas simples, sinceras, cheias de amor e f na espiritualidade que me
trouxe de volta  vida. A bondade divina me abriu a sensibilidade, e eu pude vislumbrar a
luz de outros mundos, de outros seres que j viveram aqui e hoje esto ao nosso lado,
prontos para nos ajudar.
-- Ento, iluminado pela luz espiritual, pude analisar minha vida e enxergar a verdade. Foi
por amor que minha me me entregou para meus tios. Ela pensou em meu futuro. Ela
tambm deve ter chorado de saudade sentindo minha falta, mas preferiu sacrificar-se para
que eu pudesse desfrutar de mais conforto e de um futuro melhor.
284
-- Mas eu, julgando-me abandonado, sentindo-me inferior, dei vazo ao meu egosmo e,
qual criana mimada, no cumpri a parte de filho. No valorizei quem me deu o bem maior,
que  a vida. Fiz mais. No aceitei o carinho dos meus tios. S depois, quando me vi
perdido, foi que finalmente conheci melhor minha tia Ester. Mulher admirvel, justa,
bondosa. Felizmente, tive tempo de aprender com ela muitas coisas. Tenho certeza de que,
de onde ela est, continua me abenoando.
-- Graas a ela, de quem herdei todos os bens, posso hoje me dedicar inteiramente ao que
gosto de fazer.
Osvaldo fez ligeira pausa e, olhando nos olhos das pessoas presentes, prosseguiu:
-- Hoje ao chegar aqui, senti muita alegria por encontrar minha me, porque sei que  a
oportunidade que a vida est me oferecendo para que eu demonstre a gratido que sinto por
ela ter me dado a vida. No importam os caminhos que cada um de ns escolheu para
enfrentar seus medos e poder sobreviver. No estou em condies de julgar ningum. Se
me distanciei dela e ela se retraiu, no vem ao caso. O importante  que tomei conscincia
de que a vida nos colocou lado a lado para que aprendssemos um com o outro, e, embora
eu tenha demorado a entender isso, ainda temos tempo de conviver e aproveitar essa
oportunidade.
-- Sei que no h duas pessoas iguais, e isso pode atrapalhar o bom relacionamento.
Contudo, se houver respeito, se aceitarmos as diferenas uns dos outros, a convivncia se
tomar boa e prazerosa.
-- Estou expondo minhas experincias para que vocs observem, meditem na verdadeira
causa dos desentendimentos que nos perturbam. A falta de dilogo, a presuno de saber o
que os outros pensam, de ver segundas intenes onde pode ser apenas dificuldade de se
expressar, so as causas mais provveis de nossos problemas. Por isso, h que ponderar, ter
bom senso. Conversar. Colocar-se com sinceridade, dizer o que sente sem medo, procurar o
que est atrs das palavras.
-- Nem sempre o que parece . Um ato agressivo pode ser uma maneira indireta de chamar
a ateno e de pedir ajuda. Uma postura indiferente pode ser uma mscara para esconder a
prpria sensibilidade a fim de evitar o sofrimento. Uma observao maldosa sobre o
comportamento de algum esconde a falta de confiana em si, a carncia de afeto e o desejo
inconsciente de fazer amigos.
-- Ns que desejamos conhecer a verdade, que confiamos na vida, no podemos mais nos
prender a essas iluses. Durante anos, pressionados pelas regras sociais, fomos colocando
diversas mscaras conforme as convenincias.
285
E chegamos  concluso de que elas apenas nos levaram  infelicidade.
-- Chega de querer parecer isto ou aquilo. Somos como somos. Negar nossas qualidades
ser atirar fora todas as nossas conquistas. Traz-las  tona, mantendo-as ativas,  colocar
nossa fora a servio do nosso progresso. Quanto aos pontos fracos,  preciso conhec-los e
ter pacincia diante dos prprios limites. A aprendizagem  objetivo da vida, porm ela 
gradativa e cada um a realiza em seu prprio ritmo. Nesses casos, a impacincia e a
intolerncia criam maiores obstculos ao amadurecimento.
-- Por isso, vocs, que esto aqui dispostos a criar uma vida melhor, devem saber que o
primeiro passo  conhecer o processo, saber como a vida trabalha.  ela que une na mesma
famlia pessoas que podem ajudar-se mutuamente.  ela tambm que as separa por perodos
conforme o aproveitamento e as necessidades de cada um.
-- Todavia  preciso estar atento, porque a escolha, a aprendizagem  para todos os
envolvidos. A vida no exige que algum suporte a maldade alheia indiscriminadamente,
mas sim que cada um faa sua parte. Depois de certo tempo, afasta as pessoas resistentes.
Elas precisam de mais tempo para aprender.
-- Mas voc que anseia por seguir um caminho melhor, mais condizente com as aspiraes
de sua alma, no se prenda nem se martirize tentando insistir para que os outros entendam
seus argumentos e o acompanhem. Ser intil. Entregue os retardatrios nas mos de Deus
e siga seu prprio caminho.
--  preciso respeitar os prprios limites. Aceitar o que no pode mudar  reconhecer a
fora maior que rege nossas vidas. Esforar-se para fazer o seu melhor aproveitando todas
as oportunidades  fazer a parte que lhe cabe na criao do prprio destino.
-- A bondade de Deus  infinita e o universo  perfeito. A felicidade  o nosso objetivo,
seja onde for. Minhas palavras indicam o caminho mais curto para a conquista do nosso
progresso. Quem as entender e experimentar certamente se livrar de muitos sofrimentos e
descobrir que tudo ficou mais fcil. Fao votos de que consigam.
Osvaldo calou-se por alguns instantes, depois fez uma prece de agradecimento e encerrou a
reunio.
As pessoas foram se levantando e saindo. Marcos e Carlos abraaram o pai. Antnio e
Neusa continuaram sentados. Cabea baixa, Neusa, sempre to comunicativa, no sentia
vontade de falar.
As palavras de Osvaldo mexeram com seus sentimentos. Fizeram-na recordar-se de todos
os sofrimentos quando perdeu o marido e viu-se sem dinheiro, com duas crianas pequenas.
286
Lembrou-se dos primeiros dias de viuvez, quando o dinheiro foi acabando e ela no sabia o
que seria deles no futuro.
Viu-se na sala de sua pequena casa conversando com Ester, que concordou em criar
Osvaldo. Dos primeiros dias em que ela olhava a caminha dele vazia e se culpava por haver
se separado dele. Suas brincadeiras, seu riso alegre, suas palavras engraadas... Sua casa
tornou-se muito vazia depois que ele se foi. Os brinquedos simples que ele possua e que
Ester no quis levar ficaram, e Neusa pegou-se algumas vezes segurando-os enquanto as
lgrimas desciam pelo seu rosto. Conformara-se ao saber que ele vivia com conforto,
vestia-se bem, tinha tudo. Ela procurou sustentar a casa como deu. Lavou roupa para fora,
costurou, fez doces. Trabalhava muito para se ocupar e poder ganhar o sustento. A penso
do marido era insuficiente, pagava o aluguel e nada mais.
Ester comprou-lhe a pequena casa em que ela morava e assim pde economizar o dinheiro
do aluguel.
Ela sentiu uma mo em seu ombro enquanto uma voz de mulher dizia:
-- Dona Neusa, posso dar-lhe um abrao?
Arrancada de seus pensamentos, Neusa levantou os olhos. Uma mulher de meia-idade,
rosto corado, sorriso acolhedor, estava parada  sua frente.
-- Tenho muito prazer em conhec-la. Meu nome  Lusa. Posso dar-lhe um abrao?
Neusa levantou-se admirada e sorriu. A outra abraou-a com fora, depois disse
emocionada:
-- Deve ser muito bom ter um filho como Osvaldo. A senhora  uma me feliz. Eu perdi
meu filho h dois anos. Vim aqui desesperada, pensando at em me matar. Mas ele me
ajudou, me devolveu a f, a vontade de viver. Hoje eu sei que a separao  temporria, que
meu filho continua vivo em outra dimenso. Deus abenoe a senhora por ter dado vida a
ele.
Neusa agradeceu emocionada. Logo viu-se rodeada por algumas pessoas que
demonstravam carinho e gratido.
Antnio pegou em seu brao, dizendo:
-- Agora temos de ir. A segunda parte vai comear. Carlinhos vai tocar.
Em meio quelas pessoas, Neusa seguiu calada. Sentia um calor no peito que a deixava sem
vontade de falar. Tinha medo de chorar.
287
-- Veja como o dia est lindo! Aqui o cu fica mais azul e as flores so mais perfumadas.
No acha, Dona Neusa?
Ela olhou para o cu. Viu as flores, ouviu os pssaros como se os estivesse vendo pela
primeira vez. Havia quanto tempo no prestava ateno neles?
-- Sim.  lindo.
Na varanda do casaro, as pessoas se acomodavam, algumas sentando nas escadas, outras
no cho ou nas cadeiras dispostas contra a parede. No meio deles, Carlinhos, sentado,
segurando o violo, esperava.
Antnio encaminhou Neusa para uma cadeira de onde podia ver o neto e acomodou-se do
lado de fora. As pessoas conversavam alegres. Algum pediu silncio e Carlinhos comeou
a tocar e cantar uma cano em voga, e as pessoas cantaram junto.
Enquanto isso, Osvaldo foi para uma sala e chamou Marta. Apesar de trabalhar na capital,
ela ia para casa dos pais todos os fins de semana. Era uma moa bonita, inteligente,
instruda, agradvel. Possua olhos castanhos que, quando estava alegre e sorria, tomavam-
se cor de mel. Sua voz era doce e seu sorriso, amistoso.
Osvaldo simpatizou com ela desde o primeiro momento. Marta interessou-se logo pelo
projeto e ofereceu-se para ajud-lo nos fins de semana.
Dentro de pouco tempo, havia se familiarizado com tudo, e sua ajuda tornou-se eficiente. Ia
para o stio s sextas-feiras no fim da tarde e no sbado pela manh atendia s pessoas que
procuravam Osvaldo para uma consulta.
 tarde, ele as atendia e depois Marta obedecia s determinaes que lhe eram indicadas.
No domingo, havia uma reunio  qual compareciam as pessoas que Osvaldo indicava.
Nesses encontros, alm da prece e das palestras de Osvaldo, havia um almoo e um evento
musical em que todos participavam.
Seguindo orientao espiritual, solicitavam aos participantes que levassem um prato
qualquer como contribuio.
No incio, havia poucas pessoas, porm depois de algum tempo o nmero foi aumentando.
Osvaldo havia organizado essas reunies como um tratamento psicoespiritual no qual o
convidado participaria por um perodo. Quando estivesse mais equilibrado, teria alta e no
precisaria mais comparecer.
No entanto, o ambiente alegre, gostoso, participativo, a camaradagem acabaram por fazer
com que, mesmo no precisando mais de tratamento, as pessoas insistissem em continuar.
288


Osvaldo pediu orientao de Alberto, que respondeu:
-- Pode permitir que continuem. Lembre-se de que a alegria, o companheirismo, o
convvio, a orao em conjunto criam energias radiosas. Nesse ambiente, no me
surpreenderia se muitas curas viessem a ocorrer.
-- Entendi. H mais alguma orientao?
-- Continue como est. Muitos acreditam que para se ligar com Deus precisam ir s igrejas,
obedecer a determinadas regras. A verdade  outra. Para se ligar com a luz basta a alegria
de corao, a sinceridade de propsito, o respeito pelas diferenas dos outros, a disposio
de fazer o melhor e de ficar no bem. Esse  o caminho do equilbrio espiritual, o segredo da
boa sade e da longevidade. Enquanto mantiver o ambiente aqui como est, tudo estar
favorvel a que ns os espritos possamos trabalhar.
Assim, ele atendia s pessoas nos fins de semana e, nos outros dias, trabalhava na
organizao do laboratrio, onde colocara um farmacutico responsvel, que, apesar de ser
funcionrio contratado, comungava nos mesmos ideais de espiritualidade.
Alis, orientado pelos espritos, Osvaldo s empregava pessoas que compartilhassem dos
mesmos objetivos. Alberto dissera-lhe que, para haver comprometimento, entusiasmo,
alegria, realizao profissional, era indispensvel esse ponto de vista. Algum que pensasse
de forma diferente estaria deslocado, distanciado, e no faria um bom trabalho.
Depois, os trabalhadores ligados  espiritualidade precisam conhecer as energias que esto
 sua volta, tanto no contato com as pessoas como para poder manter o prprio equilbrio.
Os funcionrios de uma organizao, mesmo remunerados pelo seu trabalho, no se
isentam das energias que seu trabalho atrai. Onde as pessoas se agrupam, mesmo sem
conhecer a espiritualidade, apenas com propsito de manter um negcio, alm das energias
de cada um que se misturam e os influenciam, circulam outras: espritos ligados s pessoas
presentes, parentes mortos desejosos de se comunicar ou de proteger seus entes queridos,
espritos perturbadores que implicam com certas atitudes de algum.
O mundo das energias atua com um realismo impressionante, e ningum est isento de suas
influncias. Por isso seria bom que nas empresas se cultivassem a meditao, os valores
verdadeiros do esprito, o hbito da orao.
289
Osvaldo sabia que, atendendo a pessoas doentes, desequilibradas, aflitas, precisaria mais do
que nunca cercar-se de pessoas conhecedoras do processo e fortes na f.
Marta entrou na sala onde Osvaldo esperava com uma ficha na mo.
-- Vamos comear a atender. Quantas pessoas temos?
-- Selecionei quinze que so aqueles que realmente precisam ser atendidos.
-- Est bem. Pode entrar o primeiro.
Enquanto isso, na varanda as pessoas cantavam alegres, e Carlinhos acompanhava-os ao
violo. Marcos, sentado nos degraus da escada ao lado de uma garota morena muito bonita,
sentia-se feliz.
Havia dois meses que ela ia s reunies com a me, que estava em tratamento. Apesar de
estar melhor, elas continuavam indo. Eunice era filha nica de Estela, que ficara viva e a
criara com carinho.
Marcos, que a princpio comparecera a essas reunies para passar o tempo e agradar ao pai,
depois que a conheceu passou a aguardar com ansiedade os fins de semana no stio.
Dezesseis anos, alta, morena, cabelos vastos e ondulados, corpo bem-feito, boca carnuda,
olhos amendoados, duas covinhas quando sorria, o que fazia com freqncia, tornavam-na
encantadora.
Conhecia todas as msicas em voga, cantava muito bem. Sua alegria e vivacidade
animavam esses encontros, o que fez Carlinhos comentar com o irmo:
-- No prximo domingo vou arranjar um babador para voc. Quando ela canta, voc fica
babando.
-- No seja intrometido. No  nada disso.
Carlos sorria contente. Gostava desses encontros, quando, alm de fazer inmeros amigos,
tocava e cantava. A alegria do ambiente deixava-o bem a semana inteira.
Marcos sentia-se atrado por Eunice. Quando ela estava, ele no conseguia desviar a
ateno. Seus olhos a seguiam por toda parte. Era tmido e no sabia como se aproximar.
Carlinhos facilitou tudo, por que Eunice logo fez amizade com ele, trocaram letras de
msica, e Marcos aproximou-se com naturalidade.
Sentado ao lado dela na escada, ele sentia uma gostosa energia. Tinha vontade de segurar
sua mo, mas continha-se. Como havia muitos jovens na escada, estavam muito prximos e
muitas vezes seus corpos se tocavam, principalmente quando algum resolvia subir ou
descer os degraus.
Nesse momento ele sentia seu corao bater descompassado. Carlos, que os observava
furtivamente, quando seus olhos se encontravam com os do irmo, piscava sugestivamente,
e Marcos fingia no ter visto.
290
Sentada na cadeira, Neusa, rodeada por algumas senhoras, observava tudo calada. Elas
tentavam conversar, mas Neusa no sentia vontade de falar. Educadamente respondia o que
lhe perguntavam, mas s.
Ela se recordava que, quando adolescente, gostava de danar, ouvir msica, reunir-se com
jovens de sua idade para trocar confidncias. Agora, ali, esse parecia-lhe um outro mundo.
Sentiu saudade. Lembrou-se de que quando se casou havia sido difcil controlar o desejo de
danar, de cantar. Mas esforou-se para isso.
Uma mulher casada no podia sair por a como uma adolescente.Quando o marido era vivo,
o nascimento dos filhos compensou-a de certa forma. Ela aceitou a parte que lhe cabia na
responsabilidade conjugal. Mas, depois que ficou viva, tudo piorou.
Uma viva no podia sorrir, muito menos ser alegre. O que os outros iriam dizer? O
casamento tambm no a atraa mais. No valia a pena. Representava mais trabalho e a
possibilidade de arranjar outros filhos.
As mulheres a seu lado cantavam e batiam palmas acompanhando a msica, e ela se
surpreendeu. Muitas eram to velhas quanto ela, pois estavam com os filhos adultos.
A que estava a seu lado tocou em seu brao, dizendo:
-- Eu adoro essa msica. Sei s um pedao da letra.
Comeou a cantar alto e Neusa olhou em volta e notou que todos faziam o mesmo com
naturalidade. S ela estava calada.
Quando a msica acabou, a que estava do seu lado lhe disse:
-- Eu tenho um caderno onde copio as letras de que gosto. Estou vendo que voc no
canta.
-- No sei as letras -- desculpou-se Neusa.
-- Nesse caso, vou traz-lo na semana que vem. Voc pode levar e copiar tudo. Eu j sei de
cor.
Neusa teve vergonha de dizer que no sabia mais cantar. Deixou-se ficar ali, pensativa, em
silncio. Do lado de fora, Antnio observava-a, tentando descobrir o que estava se passando
em sua cabea.
291
Captulo 24
Clara entrou no quarto dos filhos com uma pilha de roupas para guardar. Ela gostava de vez
em quando de fazer isso pessoalmente para arrumar as gavetas e colocar saches
perfumados.
Abriu a gaveta da cmoda e comeou a fazer a arrumao. Os dois rapazes conversavam
animadamente no banheiro:
--Acabe logo com essa barba que eu preciso do espelho.
-- Para qu? Essa penugem de bigode no precisa tirar -- respondeu Marcos em tom de
brincadeira.
-- Penugem? Pode ser, mas sou mais corajoso do que voc. No fosse por mim, pelo meu
charme e meu violo, Eunice nem teria se aproximado de voc.
-- Voc que no viu como ela se jogava em cima de mim cada vez que algum subia a
escada.
-- Claro, no tinha espao. O que queria que ela fizesse?
-- Ela ainda vai entrar na minha, pode esperar.
-- Voc est mesmo caidinho! Por que no fala logo e pede para namorar? Vai demorar
muito nesse espelho?
Clara sorriu ouvindo o barulho da gua.
Marcos havia se tornado um bonito rapaz e mesmo sendo um pouco tmido era natural que
chamasse a ateno das moas. Eles continuavam conversando.
-- Voc viu Marta?
--. O que  que tem?
-- Aonde o pai vai, ela vai atrs. Fica em volta para adivinhar tudo que ele quer. A tem...
-- No seja malicioso, Carlinhos. Ela trabalha com ele.  natural que procure agrad-lo.
-- O que no  natural  a maneira como ela olha para ele. Acho que est caidinha!
292
O pai  um pouco passado, mas ainda impressiona as mulheres. No viu como suspiram
quando ele passa?
-- Vi, mas ele no liga.
-- Mas com Marta ele  muito delicado. Qualquer hora eles vo se entender, voc no
acha?
-- Agora que voc me chamou a ateno, me recordo que na semana passada, quando
entrei na sala, ele estava debruado sobre a mesa examinando alguns papis e ela olhava
para ele com muito carinho. Sabe que voc pode ter razo?
-- E se eles se entenderem, o que faremos? Nada. Ele tem todo o direito de refazer sua
vida. Depois, ela  uma mulher muito especial. Tenho certeza de que o far muito feliz.
Clara colocou a roupa de qualquer jeito na gaveta e saiu. Sentia-se inquieta, irritada. Seus
filhos estavam falando do namoro de Osvaldo com outra mulher.
Foi para o quarto, fechou a porta e sentou-se na cama, pensativa. Durante todos aqueles
anos imaginara que isso pudesse acontecer.
Afinal estavam separados e ele era livre.
Havia se preparado para essa realidade. Pouco lhe importava que ele se relacionasse com
outra. Ficaria at aliviada do peso da culpa de ser a causadora de sua solido.
Mas, ouvindo aquela conversa, no foi alvio que sentiu mas uma inquietao irritante,
desagradvel.
"Bobagem", pensou. " melhor que ele tenha esquecido o passado. Assim posso ficar em
paz."
Mas a sensao inquietante no ia embora.
"Devo reconhecer que me envaidecia pensar que ele nunca mais amou outra mulher. Claro.
E s vaidade que me incomoda. Pois para mim ele pode se casar com quem quiser."
Foi ao banheiro, arrumou-se e desceu para ver o jantar. Marcos j estava na copa
conversando com Rita:
-- Estou com fome. Vai demorar?
-- No. Est pronto. Estou esperando Carlinhos e sua me descerem para mandar servir.
-- Eu j estou aqui -- interveio Clara.
--  melhor no esperar Carlinhos. O banho dele  muito demorado. Eu preciso sair.
Dez minutos depois o jantar foi servido. Ao final, depois que os dois rapazes saram, Rita e
Clara foram tomar caf na sala. As duas gostavam de conversar depois do jantar.
293
Falaram sobre o movimento da loja, de outros assuntos. De repente, Clara indagou:
--Voc conhece uma moa chamada Marta?
Rita olhou surpreendida para Clara.
--Sim. Por que pergunta?
-- Casualmente ouvi os meninos falando sobre ela. Disseram que  muito bonita.
-- Bonita e inteligente.  filha do caseiro do stio. Trabalha aqui na cidade durante a
semana e vai para l s sextas-feiras. Parece que os meninos gostam muito dela. Quando
eles vo para o stio, ela faz tudo para agrad-los.
-- Por qu? Que interesse pode ter neles?
Rita fitou-a com seriedade.
--  uma moa gentil, educada. Trata todas as pessoas muito bem. No demonstra nenhum
interesse especial por eles. Se est preocupada com Marcos, esclareo que ele se interessa
muito por uma jovem, e aonde ela vai ele vai atrs. Quanto a Marta,  bem mais velha e
pela sua postura no creio que tenha qualquer inteno com ele. Pode ficar tranqila.
Clara no respondeu. Mas a sensao inquietante reapareceu com mais fora.
-- Pois eu no gosto que meus filhos andem nesse stio todos os fins de semana. No
conheo as pessoas, no sei o que eles fazem l. O que sei  que a cada dia noto que ficam
mais interessados em ir. Alguma coisa tem.
-- Tem mesmo.  um lugar lindo, as pessoas so alegres, agradveis. Se voc fosse,
perceberia logo que  o melhor lugar para eles. Depois, Osvaldo cuida de tudo com muito
carinho,  respeitado.
-- Preferia que ficassem aqui, perto de mim, como antigamente.
-- Voc est com cime!
Clara irritou-se:
-- Cime? De onde tirou essa idia?
-- Est, sim. Confesse. Est com cime de Osvaldo. Est sendo injusta. Seus filhos gostam
dele, mas gostam muito de voc. No precisa ficar enciumada.
Clara no respondeu. Levantou-se, colocou a xcara na bandeja e disse:
-- Espero que no venha a me arrepender de deixar que eles freqentem esse lugar. Agora
vou dormir, estou cansada.
Ela subiu e Rita se demorou um pouco mais pensando naquela conversa.
294
O que teriam dito os meninos a respeito de Marta que deixou Clara to irritada? Gostaria de
saber.
Na manh seguinte, depois da sada de Clara para o trabalho e de Marcos para a faculdade,
enquanto Carlinhos tomava caf na copa, Rita, vendo-se a ss com ele, tocou no assunto:
-- Neste domingo no pude ir ao stio. Era a inaugurao do galpo na beira do lago. Como
foi?
-- Lindo! Voc nem imagina quem estava l: a vov! Tio Antnio a levou. Papai fez a
palestra falando sobre a famlia, foi emocionante. Todo mundo chorou. Vov, ento, voc
precisava ver. Nunca pensei que ela fosse to sensvel. Achei que era durona, indiferente,
mas me enganei.
--  mesmo? Pena que no fui. Conte tudo com detalhes.
Carlinhos em breves palavras relatou tudo e Rita surpreendida pensava em como Osvaldo
estava mudado. Percebeu que Antnio havia melhorado muito. Parecia outro homem.
Osvaldo conseguira transform-lo. Talvez desejasse fazer o mesmo com Neusa. Mas estaria
perdendo tempo: essa nunca mudaria.
Carlinhos dizia:
-- Quando nos despedimos, ela me abraou e disse que eu cantava muito bem. Foi o
primeiro elogio que a ouvi fazer.
--  surpreendente. Neusa sempre foi muito crtica. S v o lado negativo das coisas.
-- Acho que foi o ambiente, que estava alegre, gostoso, todo mundo bem. No havia nada
para criticar.
-- E Marta, o que acha dela?
-- Muito boa, linda, inteligente, alegre. Gosto dela.
-- Eu tambm. Muito atenciosa.
-- Principalmente com papai. Voc reparou o jeito como ela olha para ele?
-- Voc quer dizer que ela...
-- Gosta dele. Tenho certeza.
-- E ele, corresponde?
-- Acho que nem percebeu. s vezes penso que papai  meio devagar nessas coisas. No se
interessa por mulher nenhuma.
-- S pode ser por dois motivos: ou ainda ama sua me ou tem medo de amar e sofrer.
Carlinhos interessou-se:
-- Voc acha que, apesar de tudo que aconteceu, ele ainda pode gostar de mame?
295
-- Ele era louco por ela. Posso estar enganada, mas sua falta de interesse por outras
mulheres pode ser por causa disso.
-- Seria timo se eles voltassem a viver juntos. Mas mame no gosta dele.
-- Por que diz isso?
-- No sou eu quem diz,  papai. Nas raras vezes que tocou no assunto, disse que foi ela
quem deixou de am-lo.
Rita ficou calada. De fato, Osvaldo, quando se referia a Clara, repetia isso. Seria mesmo?
Depois do rompimento deles, Clara despediu Vlter e nunca mais se interessou por
ningum.
Era bonita, os homens sentiam-se atrados por ela, mas eram sistematicamente recusados.
Carlinhos saiu e Rita continuou pensando. Clara casara-se por amor. Ela mesma havia
presenciado como eles se amavam. Quanto ao interesse que sentira por Vlter, havia sido
uma iluso que teria terminado logo e sem conseqncias se Osvaldo no os houvesse
surpreendido.
Muito jovem, um pouco imatura, Clara entrou na aventura da qual saiu arrependida e
culpada. Vrias vezes dissera-lhe que se pudesse voltar atrs nunca teria se deixado
envolver.
Clara no era uma mulher volvel, fcil. Ao contrrio: era sincera, fiel, honesta em todas as
suas atitudes. Osvaldo estava enganado. Se ela o tivesse trado por amor a outro, teria
ficado com Vlter quando se separou. Se ela se arrependeu, se descobriu que no amava
Vlter, foi porque continuava amando o marido. No era falta de amor que a impedia de
procur-lo, mas medo, culpa.
A esse pensamento, Rita levantou-se. Precisava fazer alguma coisa para saber a verdade.
Tinha certeza de que Osvaldo continuava amando Clara. O que precisava saber era se Clara
tambm sentia amor por ele.
O sonho de Carlinhos no era to difcil assim. Se os dois ainda se amavam, havia
possibilidade de uma reconciliao. Rita decidiu fazer tudo para descobrir.
No domingo anterior, quando Osvaldo terminou de atender s pessoas, foi servido um
lanche e depois todos se despediram.
Osvaldo abraou a me, dizendo:
-- Estou feliz que tenha vindo, espero que volte sempre.
-- Foi tudo muito bom. Eu voltarei.
Neusa entrou no carro de Antnio calada. Durante o trajeto de volta, Antnio, vendo que
ela estava quieta, o que no era seu costume, perguntou:
296
-- O que foi, voc no gostou de ter vindo?
-- Gostei muito.
-- Pois no parece. Est to calada, com uma cara triste...
-- Estou pensando, lembrando algumas coisas. Isso me deixa triste. Mas no tem nada a
ver com nosso passeio. Todos me trataram muito bem.
-- Eu vi. L s tem gente boa, me. Osvaldo falou do passado, mas o que ele disse no foi
para entristec-la.
-- Eu sei, meu filho. Eu  que estou pensando. Osvaldo est diferente, mudou muito. As
pessoas gostam dele.
-- Isso mesmo. Ele ficou contente por voc ter ido.
Neusa no respondeu. Sentiu um n na garganta e no quis que Antnio notasse sua
comoo. Ele percebeu e mergulhou nos prprios pensamentos.
Uma vez em casa, Neusa foi para o quarto e deitou-se. Por sua mente desfilaram todos os
acontecimentos do dia. Quando Osvaldo comeou a palestra falando a respeito dela, a
princpio temeu que ele estivesse apenas sendo amvel por causa das pessoas presentes,
mas depois, diante do tom de sinceridade, falando sobre os prprios sentimentos, ela
entendeu que ele estava sendo sincero.
Ele era to pequeno quando se separaram. Nunca imaginou que essa separao o houvesse
magoado. Percebeu que essa mgoa foi causadora da indiferena dele.
De repente compreendeu: o que Osvaldo sentia no era indiferena, mas amor que julgava
no correspondido. Ele nunca soube quanto ela havia chorado sua ausncia.
As lgrimas brotaram em profuso, lavando suas faces. Neusa deixou-as cair. Sentiu o
quanto amava os filhos. Arrependeu-se de ter pensado que o conforto era mais importante
que o amor.
Como ela pde fazer isso? Sentiu-se arrependida, culpada, triste. Lembrou-se de que
Osvaldo dissera o quanto valorizava sua amizade. Mas ela no merecia os elogios que ele
lhe dispensara.
Chorou durante muito tempo at que, por fim, exausta, adormeceu. No dia seguinte
levantou-se apressada. Olhou para o relgio e vestiu-se rpida. Estava atrasada para fazer o
caf.
Correu para a cozinha e encontrou a mesa posta, a trmica sobre a mesa, po fresco no
cestinho. Antnio j havia sado, mas antes havia comprado po, feito o caf, arrumado
tudo.
297
Sentiu-se culpada por ter perdido a hora, mas ao mesmo tempo sentiu alvio. No estava
com vontade de conversar.
Tomou caf e lembrou-se do lanche servido no stio. A mesa estava to bonita, com uma
toalha xadrez amarela, um arranjo de flores no centro, os pratos arrumados com capricho.
L era tudo to alegre, to bonito. Havia flores por toda parte. Estavam na primavera.
Olhou em volta: em sua casa no havia nenhuma flor. O velho vaso meio desbeiado estava
vazio. Dentro apenas alguns pequenos objetos que ela ia colocando ao acaso.
Apanhou o vaso e debruou-o sobre a pia da cozinha. De dentro caram alguns parafusos
um pedao de barbante enrolado, um lpis preto com a ponta gasta, uma chave de fenda
pequena, uma nota de compras dobrada e amarelecida.
Ela apanhou a chave de fenda, dizendo:
-- Puxa, eu procurei tanto por voc! No sabia que estava a.
Tirou a mesa e comeou a lavar a loua. Observou que o pratinho de sobremesa estava
lascado. No stio tudo parecia novo, mesmo o velho bule que conhecia desde o tempo de
Ester.
Deu de ombros. Ester tinha empregados; ela, no. Precisava fazer tudo sozinha. Esse
pensamento no a confortou. Reconheceu que sua loua estava muito feia. Talvez fosse
bom colocar em uso aquele jogo que ganhara no casamento e nunca havia usado.
Orgulhava-se de dizer que ele estava na caixa, novo como no primeiro dia.
Foi ao quartinho dos fundos, apanhou a caixa, colocou-a sobre a mesa da cozinha, abriu-a.
Foi tirando as peas uma a uma. Era um jogo de ch de porcelana, muito bonito. Estava
empoeirado. Neusa lavou tudo cuidadosamente. Pegou a caixa para guard-lo novamente
porm notou que ela estava suja, o papelo rasgado de um lado. O aparelho estava limpo,
lindo. No seria justo guard-lo naquela caixa velha, quase se desfazendo.
Foi para a sala de jantar e olhou a cristaleira onde havia tambm algumas lembranas, como
os copos que Ester lhe dera quando comprou a casa. Teve de reconhecer que a garrafa de
licor, os clices de cristal foram presente de Ester, que nunca esquecia seu aniversrio.
Decidiu lavar tudo e arrumar de forma que o aparelho de ch coubesse. Ali ficaria melhor
do que na caixa, e ela poderia v-lo sempre. Quando acabou, olhou satisfeita para
cristaleira. Tudo estava brilhando e a loua havia ficado muito bonita.
Afastaram-se alguns passos para avaliar o efeito e sorriu com satisfao. Ela tambm tinha
coisas bonitas em casa.
298


A campainha tocou e ela foi abrir. Dorotia entrou dizendo:
-- Ento, como foi ontem?
Neusa no sbado havia confidenciado que no tinha vontade de ir ao stio. Iria apenas para
satisfazer Antnio e no passar o domingo sozinha.
-- Ontem como?
-- L no stio. Aborreceu-se muito? Vi quando chegaram. Quase vim aqui saber as
novidades. Mas Antnio anda to antiptico comigo... Alis, no sei o que deu nele
ultimamente. Est com o rei na barriga. S porque arranjou um emprego bom, no d
confiana aos pobres, como eu.
Neusa olhou para Dorotia como se a estivesse vendo pela primeira vez. Fechou a cara e
respondeu:
-- Antnio  muito bom. No gosto que fale dele desse jeito.
-- Puxa, no pensei que fosse se ofender. No disse por mal. Voc sabe que, apesar de
tudo, gosto dele como de um filho.
Dorotia olhou em volta e parou em frente  cristaleira:
-- Puxa, voc tambm est melhorando de vida. Ainda bem, no ? Foi Osvaldo quem lhe
deu essa loua linda?
Neusa irritou-se com o tom dela. Respondeu com frieza:
-- No. Eu tenho esse aparelho desde o meu casamento.
-- Nossa. Por que nunca me mostrou?
-- Estava guardado em uma caixa. Ficou bonito a, no?
-- , ficou. Mas voc ainda no me falou de ontem. Foi muito ruim?
--Ao contrrio. Foi timo. At me arrependo de no ter ido antes. Estou pensando em
voltar l no prximo domingo.
Neusa notou que Dorotia no gostara da resposta, dissimulando. Conhecia o trejeito de sua
boca quando disfarava.
Dorotia ironizou:
-- Estou vendo que eles conseguiram.
-- Conseguiram o qu?
-- Impressionar voc, como fizeram com Antnio. Logo estar fazendo tudo que eles
querem. No percebe que eles esto envolvendo vocs com essa histria de espritos? Voc
sabe que isso  coisa do demnio. Alis,  ele quem est lhes trazendo dinheiro. Voc est
se deixando levar.
Neusa encarou-a irritada:
-- No gosto que fale assim de meus filhos. Eles so muito bons. Principalmente Osvaldo.
Ele  muito querido e respeitado por todos.
-- Est vendo? At ontem dizia que seu filho era ruim, no ligava para a famlia, ficou rico
e nunca ajudou vocs.
299
Agora ficou bom de uma hora para outra? No v que est sendo usada?
-- No. Voc est sendo maldosa. Todos que estavam no stio so pessoas de bem que s
pensam no bem. Voc pensa que sou burra e incapaz de saber o que  bom ou ruim para
mim?
Dorotia adoou a voz:
--Eu no quis dizer isso.  que o tinhoso fascina. Tem mil e uma maneiras de enganar.
Estou vendo que voc j caiu na lbia dele.
-- Sabe de uma coisa? No estou com vontade de conversar. Voc v maldade em tudo.
Nunca a ouvi dizer uma coisa boa.
-- Sou sua amiga, quero esclarecer, desejo o seu bem.
-- No parece. S pensa no mal.
-- Ao contrrio. Estou prevenindo voc contra o mal.
Est se metendo na minha vida e no estou gostando disso.
-- J vi que no d para fazer mais nada. Se  assim, lavo minhas mos. Depois, quando
cair em si, vai me dar razo, mas pode ser tarde.
--Olhe aqui, Dorotia, no gosto que aponte o dedo para mim.Estou sem vontade de
conversar. Quero ficar quieta no meu canto. Por isso,  melhor ir embora.
-- Est me expulsando de sua casa? -- gritou ela, colrica.
-- Estou pedindo que v embora porque quero ficar sozinha. No estou querendo brigar.
-- Bastou uma vez nesse stio infeliz para voc acabar com uma amizade de tantos anos --
disse ela com voz chorosa. -- Mas no faz mal. Meu Deus me ensinou a perdoar, por isso
vou embora. Mas estou sentida. S voltarei aqui se for me pedir.
Ela deu as costas, saiu de cabea erguida e passos firmes. Neusa passou a mo pela testa
como querendo afastar os pensamentos desagradveis.
Melhor mesmo que Dorotia no voltasse mais. Era uma maldosa. S sabia falar mal dos
outros. Estava com inveja porque eles estavam melhorando de vida.
Sua amizade no lhe faria falta. Tinha novos amigos que a respeitavam e a tratavam com
carinho.
Domingo iria de novo ao stio. Foi para o quarto, abriu o guarda-roupa. Examinou um a um
os vestidos pendurados. Eram escuros, imprprios para um dia de primavera.
Lembrou-se de um corte de tecido que Antnio lhe dera havia alguns anos e que ela no
costurara por ach-lo de cor muito viva.
300
Abriu a gaveta, apanhou o tecido, estendeu-o sobre a cama. Era de fundo azul- claro e tinha
estampadas algumas florzinhas midas amarelo-claras.
Colocou-o sobre o corpo e foi at o espelho. Achou-o alegre. Servia bem para um dia de
vero. Resolveu fazer um vestido para usar no domingo.
Apanhou os velhos figurinos e comeou a folhe-los  procura de um modelo. Neusa no
percebeu, mas do seu lado estava um moo que sorriu satisfeito vendo-a entretida na
escolha.
Com carinho, passou a mo acariciando sua cabea dizendo ao seu ouvido:
-- Finalmente, minha querida, voc est comeando a acordar. Havia muito tempo que
estava esperando que voc reagisse. Eu nunca a esqueci. Agora tenho esperanas de que
possamos ficar juntos de novo quando voc regressar.
Beijou-a levemente na testa. Neusa estremeceu e lembrou-se de Joo, seu marido. Ele
gostava de tecidos daquela cor. Como seria bom se ele estivesse ali e pudesse v-la!
Joo abraou-a, dizendo ao seu ouvido:
-- Eu estou aqui e voltarei para v-la com esse vestido. Vai ficar linda!
Neusa sorriu. Joo gostava de cores vivas, alegres. Se ele estivesse vivo, sua vida no teria
sido to triste.
-- Vou me vestir assim em memria dele. Se os espritos podem nos observar, como
Osvaldo disse, ele vai poder me ver com este vestido.
Com disposio ela continuou procurando o modelo, escolheu um de duas peas que tinha
o molde exatamente no seu nmero.
Quando Antnio voltou  noite, ao invs de Neusa estar, como sempre, em frente 
televiso, estava no quarto dos fundos onde passava roupas e tinha a mquina de costura,
trabalhando. Admirado, ele a encontrou em meio a moldes, alfinetes, tesoura e retalhos de
pano.
-- O que est fazendo?
-- Um vestido. Foi voc quem me deu este tecido, h muito tempo, lembra?
-- Lembro. Pensei que no tivesse gostado, afinal nunca fez nada com ele.
-- . Agora resolvi. Lembrei que seu pai gostava desta cor. Vou parar para esquentar o seu
jantar.
--No precisa. Comi um lanche fora. J passa das nove.
-- J? Nem percebi. Esqueci at a novela. Tambm, no estava boa mesmo.
301
Vou comer alguma coisa. Estou com fome. Amanh continuo.
Antnio olhou pensativo para a me. Teria visto bem! Ela, alm de no fazer nenhuma
queixa, estava costurando, coisa que dizia detestar. Reclamava toda vez que tinha de
consertar uma roupa ou pregar um boto em suas camisas.
Entrou na sala e logo notou que a cristaleira estava diferente.
Havia alguma coisa nova ou era s impresso?
Neusa apareceu na porta e disse:
--  lindo esse aparelho de ch, no acha?
-- Acho. Voc comprou?
No.  velho. Foi presente de casamento.
-- Onde estava, que eu nunca vi?
-- Na caixa. Mas ela estava velha. Depois, achei que ele fica muito bonito a.
-- Ficou lindo. A sala at parece outra com essas coisas brilhando na cristaleira.
Neusa sorriu contente. Ela tambm sabia fazer as coisas e cuidar de sua casa.
Antnio foi para o quarto pensativo. Era cedo para avaliar, mas Neusa estava diferente:
mais disposta, mais viva, at seus olhos brilhavam mais. Como seria bom se ela fosse mais
feliz! No gostava de v-la insatisfeita, inquieta, reclamando pelos cantos da casa.
Insistiu para lev-la ao stio porque queria que ela usufrusse todo o bem que ele mesmo
sentia l. No ntimo, temia que ela no se sensibilizasse. Mas estava enganado. Agora podia
ter esperanas de que ela mudasse sua maneira de olhar a vida.
As palavras de Osvaldo ainda estavam vivas em sua memria. Neusa era uma mulher
corajosa, dedicada, honesta. Apesar dos problemas que havia enfrentado na mocidade,
gozava de boa sade e podia contar com Antnio, que sempre estivera do seu lado. Agora
que ele havia encontrado um caminho melhor, que se sentia alegre, motivado ao trabalho,
ganhando dinheiro, desfrutando de mais conforto, reconhecia que no tinham nada a
reclamar da vida mas sim a agradecer.
Estava disposto a ser feliz. No queria mais ficar ao lado da me sempre descontente,
infeliz. Por isso desejara se mudar. No pretendia abandon-la, mas sim viver em um lugar
mais bonito, que pudesse arrumar com capricho, manter em ordem.
Alberto dissera que os espritos iluminados vivem em lugares bonitos, que a beleza
alimenta a alma.
302
A ordem, a higiene criam a harmonia, atraem energias positivas. Para isso no havia
necessidade de ser rico mas de ter capricho e bom gosto.
Antnio ficava imaginando como seria esse lugar. Sentia vontade de usufruir todas essas
coisas.
Deitou-se pensando em como seria bom se Neusa tambm descobrisse essa realidade e ele
no precisasse sair de casa, se juntos pudessem transformar aquela velha casa em um lugar
alegre e feliz.
303
Captulo 25
Clara estugou o passo. As lojas estavam lotadas, apesar de ainda faltar um ms para o
Natal. Ela havia comprado um presente para Marcos e pretendia comprar um violo melhor
para Carlinhos. O dele era simples e o som deixava a desejar.
Carlinhos havia comentado com Marcos que andava namorando um violo e sempre ia 
loja de instrumentos musicais para v-lo.
Mas era caro e ele no queria pedir para compr-lo.
Clara casualmente ouvira essa conversa e Marcos dera-lhe as informaes a respeito.
Dispunha de algumas economias e desejava dar esse prazer ao filho. Carlinhos estava mais
estudioso, mais atencioso, e ela achava que ele merecia.
A tarde estava acabando e ela finalmente encontrou a loja. Estava lotada. Procurou por um
vendedor, mas todos estavam ocupados. Parou diante de um balco olhando os violes
expostos, procurando descobrir qual o que procurava.
Uma vendedora carregando uma caixa passou por trs dela, pisou em falso e caiu em cima
de Clara, que por sua vez perdeu o equilbrio e ia caindo em cima do balco de vidro
quando algum a segurou impedindo que batesse o rosto.
Clara voltou-se para agradecer e deu com o rosto preocupado de Osvaldo, que,
reconhecendo-a, empalideceu e largou-a imediatamente. Por alguns instantes, nenhum dos
dois conseguiu falar.
Clara tremia e sentia as pernas fraquejarem. A jovem causadora do acidente havia se
levantado.
-- Desculpe. Tropecei. Machucou-se? Voc est plida... Est sentindo mal?
Clara passou a mo pelos cabelos e respirou fundo. Osvaldo, percebendo que ela ia
desmaiar, segurou seu brao, dizendo:
304
-- Venha, aqui est muito abafado. Voc precisa de ar. Clara deixou-se conduzir sem dizer
nada. Uma vez na calada, ele continuou:
-- Vamos entrar naquela confeitaria. Voc precisa sentar-se e tomar uma gua.
Clara no respondeu. Parecia-lhe estar vivendo um sonho. Deixou-se levar. Osvaldo
conduziu-a a um lugar discreto, perto de uma janela, e ela se sentou. Ele se sentou em sua
frente, chamou a garonete e pediu uma gua. Enquanto isso, Clara observava-o
furtivamente, pensando no que ele lhe diria.
Veio a gua, ele a serviu e entregou-lhe o copo:
-- Beba. Vai fazer-lhe bem.
Ela tomou alguns goles. Osvaldo olhava-a tentando dissimular a emoo. Clara estava mais
bonita. Havia em seu rosto, em sua postura, algo diferente que ele no sabia bem o que era.
Enquanto bebia a gua e tentava se acalmar, Clara notava que Osvaldo continuava elegante,
bonito. Alguns fios de cabelos brancos nas tmporas davam-lhe um aspecto distinto.
-- Ento, sente-se melhor?
-- Sim. J passou.
-- O que aconteceu? Ficou mal porque fui eu quem a segurou?
Diante de uma pergunta to direta, Clara baixou a cabea e no soube o que responder. Ele
continuou:
-- Minha presena a incomoda tanto assim?
Havia tanta mgoa em sua voz que ela protestou:
-- No foi isso.  que a surpresa, eu no esperava.., perdi o rumo.
-- Faz tempo que no nos vemos.
-- ... depois de tudo que houve, eu me sinto constrangida.
--No se sinta assim. O tempo passou, ns amadurecemos.
De repente Clara comeou a chorar. As lgrimas desciam pelo seu rosto e ela no conseguia
parar. Os soluos sacudiam seus ombros, e de cabea baixa ela dava vazo aos seus
sentimentos.
Comovido, Osvaldo levantou-se e sentou-se ao lado dela. Apanhou o leno e colocou-o em
sua mo. Depois passou o brao sobre seus ombros, apertando-a de encontro ao peito.
-- Chore, Clara. Lave sua alma.
Ela continuou soluando por algum tempo, depois aos poucos foi serenando. Deixou-se
ficar ali, cabea encostada no peito dele, que batia descompassado com a proximidade dela.
Clara estava em seus braos. Sentia o perfume de seus cabelos, a maciez de sua pele, o
cheiro familiar de sua presena.
305
Teve vontade de beij-la muito, matar a saudade que irrompia incontrolvel. Conteve-se,
porm. No podia abusar de um momento de fragilidade que ela estava vivendo. Beijou-lhe
levemente os cabelos, sentindo o calor do amor que vibrava em seu corao.
Ela se afastou um pouco, dizendo:
-- Desculpe. No pude evitar.
--Eu sei. Tambm estou tentando me controlar. No est fcil.
Seus olhos se encontraram e Clara disse baixinho sem desviar:
-- Perdoe-me por todo o mal que lhe fiz.
Osvaldo no respondeu logo. Pela sua mente passou de novo a cena de Clara nos braos de
Vlter. Sentiu um aperto no peito e respondeu:
-- Ningum manda no corao. Voc deixou de me amar e no a culpo por isso. Se tivesse
sido franca, se tivesse dito que gostava de outro, eu, mesmo sofrendo, teria deixado o
caminho livre.
-- Fui covarde. At hoje, quando me lembro daquele tempo, no consigo entender meus
sentimentos. No estou justificando o que fiz. Aceito minha culpa. Ela tem me infelicitado
desde aquele dia. Mas eu mereo. Errei. Fui leviana, covarde, e, o que  pior...
Ela se calou indecisa.
-- O que pode ser pior?
-- O arrependimento. Ver que nesse jogo eu perdi muito mais do que ganhei.
Osvaldo ficou calado. A garonete aproximou-se:
--Desejam comer alguma coisa?
Osvaldo pediu suco e alguns salgadinhos. Clara apanhou a bolsa, abriu, tirou o espelho,
olhou para seu rosto e comentou:
-- Que horror, estou horrvel.
--Voc continua bonita como sempre.
Ela corou levemente. Osvaldo olhava-a com admirao e Clara perdeu o jeito. Dissimulou,
empoou o rosto, passou levemente o batom. Guardou tudo.
-- Fazia tempo que desejava procur-la, porm voc no queria me ver, e eu respeitei. Mas
foi bom termos nos encontrado. Nossos filhos no tm culpa de nossos desacertos e
merecem viver em paz.
-- Por que diz isso? Eles comentaram alguma coisa?
-- No diretamente, mesmo porque tenho evitado falar no assunto. Mas se ressentem. Voc
precisa saber que voltei para refazer minha vida, assumir a responsabilidade de pai. Afastei-
me porque no tinha condies emocionais. Estava desequilibrado, levou tempo para
conseguir voltar ao normal.
306
Mesmo que desejasse regressar, no tinha como. Estava desempregado, sem capacidade de
trabalho. No podia oferecer nada aos nossos filhos. Depois...
Ele hesitou sem poder continuar, e Clara perguntou:
-- Depois o qu?
-- Nada. Eu estava desequilibrado, minha imaginao no me dava sossego. No tive
coragem de voltar e enfrentar meus medos.
-- Tenho ouvido comentrios sobre voc e o trabalho que vem realizando.
-- Tive a felicidade de conhecer pessoas muito boas no interior que me deram algumas
respostas sobre as dvidas que me atormentavam. Aprendi a confiar na bondade divina, que
me levantou e me fez enxergar a vida de outra forma. Sou grato por isso. Encontrei a paz e
a vontade de viver.
Osvaldo fez uma pausa e, notando que Clara o ouvia com ateno, continuou:
-- A vida  maravilhosa. Fomos criados para a felicidade. Mas ns enchemos nossa cabea
com idias limitantes e erradas que nos fazem enxergar o lado pior. Essa  a causa da nossa
infelicidade. Tenho aprendido com os espritos superiores que todos somos fortes, podemos
enfrentar todos os desafios e encontrar a paz.
Clara meneou a cabea indecisa:
-- No tenho essa certeza. Dona Ldia tem me orientado, mas no est fcil. Vivo
atormentada. H momentos em que acredito que nunca mais terei paz.
-- Ter quando encontrar a f. Acontea o que acontecer,  preciso confiar na fonte da
vida. Ela supre todas as nossas necessidades.A natureza prova o que estou dizendo.
Clara levantou para ele os olhos emocionados. O rosto de Osvaldo estava expressivo, seus
olhos brilhavam cheios de vida e havia entusiasmo em sua voz, que adquirira um tom
amoroso e firme.
-- Pelo jeito voc j conseguiu.
-- Algumas vezes. No o tempo todo. Alguns fantasmas mentais ainda aparecem para
cobrar alguma coisa. Mas eu insisto no bem e na f. Sei que esse  o caminho para a
conquista definitiva.
-- Gostaria de poder fazer isso. Agora preciso ir.  bom saber que voc est feliz. A
lembrana do mal que lhe fiz tem me atormentado. Apesar do que houve, nunca desejei
prejudic-lo. Em minha leviandade, nem sequer pensei nisso.
Osvaldo colocou sua mo sobre a dela.
307



-- No precisa se justificar. No estou lhe cobrando nada. Por causa de nossos filhos,
gostaria que mantivssemos um relacionamento cordial. Se minha presena a incomoda,
basta apenas que, quando nos encontrarmos, o que poder acontecer no futuro quando as
circunstncias exigirem, possamos nos falar com naturalidade, sem magoas ou
ressentimentos.
-- Voc j conseguiu no me odiar!
-- Nunca a odiei. Nem nos piores momentos. Naqueles dias, o que eu queria era
desaparecer, sumir, para no atrapalhar sua vida. Mas no pense que sou bom. Apenas
compreendi que o amor  espontneo. No se pode forar. A nica dor era porque voc no
me contou nada. Mais tarde, percebi que no foi capaz. Tenho aprendido que  loucura
querer de algum o que no nos pode dar. Acredite, eu nunca a odiei.
Clara estremeceu, seus lbios tremeram e as lgrimas tomaram seus olhos mais brilhantes.
Ela se controlou.
-- Desculpe. No estou conseguindo me controlar.
-- No se perturbe. Foi bom termos nos encontrado. Ainda continua querendo me evitar?
-- No. Acho que fantasiei demais sobre nosso encontro. Tambm me sinto aliviada.
-- Antes assim.
-- Preciso ir. Pretendia comprar um violo para Carlinhos. Ele anda querendo um.
-- Fui l pelo mesmo motivo. Antnio me contou que ele sonhava com esse violo.
Ela sorriu.
-- Se no nos encontrssemos, ele poderia ganhar dois.
Eu j encomendei um. Vai demorar quinze dias para ficar pronto Voc pode d-lo a ele.
Vou procurar outra coisa.
-- No. Voc encomendou. J pagou?
-- Dei metade de sinal.
-- Nesse caso, procurarei outra coisa.
-- Se quiser dar o violo, no se acanhe. Escolherei outro presente
-- No. Pode deixar. Amanh verei outra coisa. Tenho de ir.
-- Espere, vou pagar a conta. Posso lev-la.
-- No, obrigada. Meu carro est no estacionamento prximo.
Ele tirou um carto do bolso e ofereceu a ela.
-- Fique com meu telefone. Se precisar de alguma coisa, ligue.
308
Seus olhos se encontraram e Clara pegou o carto com a mo trmula. Levantou -se. Ele fez
o mesmo e segurou a mo que ela lhe estendia.
-- Obrigada por tudo.
-- Foi muito bom v-la!
Estavam muito prximos, e Osvaldo sentiu vontade de beij-la. Conteve-se a custo. Clara
puxou a mo, apanhou a bolsa, os pacotes e saiu.
Osvaldo sentou-se novamente pensativo. Por que no conseguia esquecer aquele amor?
Clara estava perdida para sempre. Precisava conformar-se em v-la sem esperar nada, em
am-la sabendo que nunca teria seu amor.
Clara foi direto para casa. No sentia vontade de continuar as compras. Vendo-a, Rita
comentou:
-- Voltou cedo! As lojas devem estar lotadas.
-- Esto. Voc nem imagina o que me aconteceu.
-- Hmm... Voc est corada, agitada... O que foi?
-- Fui  loja ver o violo de Carlinhos e tive uma surpresa.
Em poucas palavras Clara contou tudo. Quando acabou, Rita disse sria:
-- Eu sabia que um dia isso iria acontecer. No houve nada do que voc temia. Como foi?
Garanto que ele a tratou muito bem.
-- De fato, ele foi atencioso. Em nenhum momento me pediu contas do passado. Acho que
foi por isso que no pude me controlar. Ca no choro, foi um vexame: a surpresa, a tenso
de todos estes anos imaginando o que ele faria quando me encontrasse. No sei, mas ele
est diferente. Seus olhos tm um brilho novo, seu rosto est mais vivo, no sei explicar.
H alguma coisa nele que o torna muito diferente do que foi.
-- Tambm tenho notado essa mudana. No princpio fiquei me perguntando o que era.
Com o tempo entendi. Ele se tornou mais maduro, mais lcido e mais verdadeiro. Sua
presena faz bem, suas palavras me colocam para cima. Ele se tomou muito positivo, e eu
sinto que o que ele diz  verdade.
Clara ficou pensativa por alguns instantes. Rita serviu um caf para ambas e sentaram-se na
sala enquanto Diva cuidava do jantar.
-- Estive pensando... -- disse Clara. -- Ser mesmo que ele pode ver os espritos?
-- Tenho certeza. Vrias vezes eu o vi atendendo a pessoas falando de coisas que s elas
sabiam. Se voc visse, tambm acreditaria.
309
-- Talvez assim eu pudesse ter mais f. Ele disse que para conquistar a paz interior 
preciso ter f.
-- A f para agir, para nos dar foras, precisa ser verdadeira. A dvida nos enfraquece. No
me refiro ao fanatismo, que sempre prejudica, mas  certeza de como as coisas so. H
muita diferena entre uma coisa e outra. O fanatismo vem da superstio, da iluso, do
orgulho; a f vem da constatao da verdade. Aparece quando olhamos as bnos que a
vida nos traz todos os dias.
No sabia que voc conhecia tanto a respeito.
-- Tenho freqentado as palestras de Osvaldo no stio. Elas tm me esclarecido muito. Ele
nos ensina a observar, a pensar, a compreender. Agora que perdeu o medo, no quer ir
comigo no prximo domingo?
Clara estremeceu.
-- No. Conversamos como pessoas civilizadas, mas ele deixou claro que s vai se
aproximar de mim quando a situao exigir por causa dos meninos. Em nenhum momento
falou em manter uma amizade. Eu entendo isso. Acho melhor assim. No pretendo me
aproximar dele.
Rita olhou-a nos olhos, como querendo penetrar seus pensamentos ntimos, e tornou:
-- Osvaldo est mais bonito agora do que sempre foi. Esse encontro no a fez sentir
saudade do passado?
Clara corou levemente.
--Saudade do passado eu sempre tive, porque foi uma poca em que fomos felizes. Mas
isso acabou.
-- E se ele quisesse voltar, voc aceitaria?
Clara levantou-se indignada.
-- Nem fale uma coisa dessas! Nunca passou pela minha cabea essa possibilidade. Acho
que voc andou conversando demais com os meninos. Eles  que de vez em quando atiram
suas indiretas.
--Fale a verdade, Clara. Voc vive sozinha. Por que nunca mais se apaixonou?
-- Porque sofri o bastante. E voc, por que nunca se casou?
-- Porque no encontrei o homem dos meus sonhos. Se encontrasse, no perderia a
oportunidade.
-- Voc agora virou casamenteira? Pois para mim chega. Nunca mais quero amar ningum.
Tenho meus dois amores, tenho voc, muitos amigos. No preciso de nada.
Rita sorriu maliciosa, mas no respondeu. Era cedo ainda para falar sobre o assunto.
310
Sabia que Osvaldo amava Clara como no primeiro dia. Era preciso dar tempo ao tempo.
Nos dias que se seguiram, Rita notou que Clara estava mais quieta do que o habitual. Vrias
vezes surpreendera-a pensativa. Quando perguntava o que estava acontecendo, ela
desconversava.
J no brigava com os rapazes quando os via arrumar a bagagem nos fins de semana para ir
ao stio com Osvaldo. Ficava em volta deles, prestando ateno s suas conversas, fingindo
que estava arrumando alguma coisa.
Uma noite em que estava lendo na sala, os rapazes se aproximaram e sentaram-se. Clara
fechou o livro, dizendo:
-- Os dois aqui a esta hora? Acho que querem alguma coisa. O que ?
-- Temos de conversar -- disse Marcos. -- Faltam trs dias para o Natal, e como vai ser
este ano?
-- Como sempre foi. Teremos nossa ceia  meia-noite. J sei, querem sair depois para ver
as garotas.
Marcos hesitou e Carlinhos tomou a dianteira:
-- No.  que vai haver uma festa no stio de papai amanh. Queremos participar.Carlinhos
vai tocar. As pessoas esperam, programaram.
Clara olhava-os franzindo o cenho. Eles estavam dizendo que passariam o Natal fora de
casa, longe dela?
-- Mas estaremos de volta na vspera de Natal, antes da meia- noite, para a ceia --
apressou-se a esclarecer Carlinhos.
-- S no vamos poder ajudar a arrumar os enfeites, a rvore, como sempre. Rita e Diva
disseram que faro nossa parte.
Clara suspirou, sem saber o que responder. Era evidente que eles preferiam ir ao stio a
ficar em casa com ela. No respondeu logo. Eles sempre se entusiasmaram com os
preparativos para a ceia. Escolhiam os enfeites, montavam o cardpio, compravam
ornamentos novos.
Carlinhos aproximou-se, sentou-se a seu lado no sof e passou o brao sobre seus ombros.
-- Me, no queremos que fique triste. Voc  a pessoa a quem mais amamos no mundo.
Marcos tambm a abraou.
-- Se voc ficar triste, ns no iremos.
Clara no encontrou resposta logo. Tinha a sensao de que os filhos a estavam
abandonando, preferindo o pai, que durante tantos anos esteve ausente. No achava justo.
311
-- Ser uma festa muito bonita. Gostaramos muito que voc fosse. Assim ficaramos todos
juntos, sem termos de dividir nosso carinho -- disse Carlos.
--Vocs sabem que isso  impossvel.
-- Por qu? -- perguntou Carlos. -- L  um lugar mgico, que torna as pessoas felizes.
Voc se lembra de como eram a vov Neusa e o tio Antnio? Duas pessoas desagradveis,
das quais ningum gostava.Agora...
Marcos interveio:
-- Esto to diferentes que voc no os reconheceria mais.
Clara sacudiu a cabea negativamente:
-- Vocs esto me dizendo que eles mudaram? No posso acreditar. Convivi alguns anos
com eles e sei que so intratveis. Vocs se lembram de que, depois que seu pai foi embora,
ela ia  escola perturbar.
-- Sei disso, mas vov parece outra pessoa. Est mais alegre, arruma-se melhor, tem muitas
amigas, troca receitas com elas e a cada semana leva um prato diferente para o lanche --
contou Marcos.
-- Quando fazemos msica, as pessoas sentam-se em volta e cantam. Voc sabia que vov
tem uma bela voz?
Clara no se conteve:
-- Dona Neusa canta? Vocs esto enganados. Ela nem sorri. Acho que se trata de outra
pessoa.
-- Nada disso.  a vov mesmo. Sabe, me, ns estvamos enganados a respeito dela --
disse Marcos.
-- No posso crer. Vo contar essa histria para outra pessoa.
-- Papai explicou tudo -- esclareceu Carlinhos. -- Vov ficou viva muito cedo e teve
medo de no poder sustentar os filhos. Quando deu o papai para tia Ester criar, ela sofreu e
tornou-se infeliz.
-- Ele disse que o medo pode tornar a pessoa agressiva.  uma reao de quem no
acredita na prpria capacidade. Ela  uma mulher forte, mas no tinha conscincia disso.
Tornou-se amarga. Mas agora ela sabe que  corajosa e com Deus pode enfrentar qualquer
coisa-- completou Marcos.
-- No comeo no me aproximei muito dela. Tive receio de que falasse mal dos outros,
como antigamente. Mas ela nunca mais falou nada. Elogia as msicas, me abraa. Agora
at gosto quando ela chega.
-- No sabia que estavam convivendo com eles. Seu pai nunca foi muito ligado  famlia.
-- Ele tambm sofreu muito quando se separou de vov. Tinha s cinco anos. Pensou que
ela no gostasse dele. Agora ele sabe que ela tambm sofreu, que se sacrificou para que ele
tivesse conforto e no passasse necessidade -- disse Marcos.
312
-- Quer dizer que seu pai se aproximou da famlia...
-- Sim. Ele costuma dizer que todas as pessoas tm Deus dentro de si. Algumas no tm
conscincia disso e o buscam fora, nas coisas do mundo. Mas isso  uma iluso perigosa.
Nunca d certo. Bom mesmo  sentir o bem que cada um guarda dentro de si. A no tem
erro.
Clara fitou-os admirada. Era difcil crer no que eles diziam. Dona Neusa era uma mulher
mesquinha, ruim, sempre vigiando para criticar.
-- Tudo que vocs esto dizendo  muito bonito, mas no acredito que sua av seja como
dizem. Vocs esto sendo ingnuos. Ela pode muito bem estar fingindo.  interesseira e
mesquinha. Faz qualquer coisa por dinheiro. Ela quer agradar a seu pai agora que est bem
de vida.
Marcos baixou a cabea, mas Carlinhos disse com tristeza:
-- Me, falando assim voc me parece mais maldosa do que ela. Temos nos encontrado
vrias vezes, e ela nunca falou mal de voc.
Clara remexeu-se no sof inquieta, notando que ele estava certo.
-- Desculpe, meu filho. No quis ser maldosa mas essa  a lembrana que guardo dela.
Tenho conscincia de que nos anos que estive casada procurei inmeras vezes me
aproximar dela, manter um relacionamento afetivo, respeitoso. Mas no consegui. Agora
voc diz que ela mudou...  difcil acreditar.
-- Mas  verdade -- garantiu Marcos. -- Ningum pode fingir daquele jeito. Os olhos dela
brilham de alegria, ela demonstra boa vontade, no se queixa de nada.
-- Voc precisa ir l e ver -- disse Carlinhos. -- Quando h boa vontade, alegria, as
pessoas ficam bem, no sentem vontade de criticar nem de criar problemas.
-- Do jeito que dizem, esse stio  a oitava maravilha do mundo-- tornou Clara sorrindo,
tentando desfazer a impresso de intolerante que estava transmitindo.
-- Voc bem que poderia ir conosco. Tenho certeza de que seria muito bem recebida por
todos -- acrescentou Carlinhos.
-- Ela no quer encontrar papai -- disse Marcos ao irmo.
Clara interveio:
-- No irei com vocs. Podem ir, mas voltem para a ceia. Ns arrumaremos tudo.
Depois que eles deixaram a sala, Rita aproximou-se:
-- O cerco est apertando -- disse sorrindo.
-- Voc estava a? Ouviu tudo?
313
-- Sim.
-- Eles esto me abandonando, passando para o lado do pai. Tambm, com tanta festa e
movimento,  mais interessante mesmo do que ficar aqui ao nosso lado. Imagine voc:
quiseram convencer-me que Dona Neusa agora  uma pessoa boa, alegre. Acha possvel?
-- Por incrvel que parea, ela mudou muito mesmo.
-- Voc acha que est sendo sincera?
-- Bem, isso no sei. Os dois mudaram muito. Tanto ela quanto Antnio parecem outras
pessoas. Com ele tenho conversado mais. J com ela, apesar de me cumprimentar sorrindo,
tenho evitado conversa, porque, se ela me perguntar alguma coisa de voc, como fazia
antigamente, ou fizer uma provocao, no terei pacincia de tolerar. No gostaria de ter
uma discusso em um lugar em que as pessoas vo para se sentir melhor.
-- Voc tambm no acredita que ela tenha mudado.
--  que ns a conhecemos de outros tempos. Mas l as pessoas a estimam, ela tem muitos
amigos. Que eu saiba, ela tem se comportado muito bem.
-- Vai ver que tem medo de perder a ajuda de Osvaldo.
-- Acho que no. Ele nunca lhe pediu que freqentasse o stio. Pelo que sei, muito antes de
Dona Neusa aparecer por l, ele j lhe dava mesada.
-- Os meninos no gostaram quando eu disse o que pensava dela. Chamaram-me de
maldosa. Agora ela passa por boa. Eu  que fiquei sendo a ruim.
-- Tambm no  para tanto. Deixe de ser ciumenta. Afinal, acabar com as mgoas do
passado, relacionar-se melhor com a famlia sempre  um bem.
-- Seja como for, no gostaria de me reencontrar com ela.
-- Isso demonstra que voc ainda guarda mgoa. Temos aprendido com os espritos que
para sermos felizes  preciso limpar nosso corao de todos os ressentimentos.
--  fcil dizer mas difcil de fazer.
-- No quando encontramos a verdade dos fatos. Eles acabam demonstrando que nosso
juzo foi errado.
-- No com Dona Neusa. Ela sempre foi terrvel. Est certo que eu errei, mas ela nunca
tentou compreender e ajudar.
-- Voc nunca poderia esperar isso dela. Dona Neusa estava sofrendo com seus prprios
problemas emocionais. No tinha alcance nem condies de olhar com equilbrio os
desacertos de sua relao com Osvaldo.
314
Depois, se sua incapacidade de trabalhar a dor tornou- a agressiva e crtica com as pessoas,
seu sofrimento com os problemas do filho fizeram-na ver em voc a causa do que estava
sofrendo.
-- No sei se  verdade esta histria de que a dor provoca agressividade.
-- Pode no ser para voc ou para mim, mas pode ser para algum que veja na
agressividade uma forma de prevenir o mal, de se defender, de bater antes que os outros
batam.
-- Pode ser que ela tenha pensado assim.
-- Ns julgamos os outros pelo nosso modo de ver as coisas. Isso nunca d certo, uma vez
que cada um pensa de um jeito.
-- Amanh eles iro para o stio e ns ficaremos sozinhas.
--  bom nos acostumarmos. Eles so adultos. Hoje iro com o pai, amanh vai aparecer
uma moa, e a se iro de vez.  a vida. Temos de nos desapegar deles.
-- Sei disso. Mas no  fcil. Eles so tudo que me resta no mundo Durante estes anos,
habituei-me a fazer tudo para eles.
-- No diga isso. A vida faz tudo certo. Quando eles se forem, outros interesses aparecero
em nossas vidas, O importante  aceitar as mudanas que a vida traz e seguir adiante, com
otimismo e alegria.
-- No sei onde voc aprendeu a ser to positiva. Gostaria de ter a sua coragem.
--  melhor ir pela inteligncia do que pela dor. Quando a gente no quer andar, a vida
empurra.
Clara riu e abraou a amiga, dizendo:
-- Enquanto voc estiver comigo, tudo vai sair bem.
No dia seguinte pela manh, Carlinhos foi procurar o pai.
-- Falamos com mame e ela concordou. Ns vamos para o stio hoje com voc e
voltaremos para a ceia na vspera de Natal.
-- Estou contente, mas ela concordou mesmo?
-- Bom, a princpio ficou triste, mas por fim entendeu. Ela sabe que ns a amamos muito.
Vim para combinar a hora e ver o que precisamos levar.
-- Iremos no fim da tarde. Depois das cinco. Tenho algumas coisas para fazer na cidade.
-- Marta disse que ia levar tudo hoje. Ela vai conosco?
-- No. Um dos motoristas foi com ela fazer tudo. Jos devem estar a caminho do stio.
Vo adiantar os preparativos.
Carlinhos ficou parado alguns momentos de cabea baixa.
315
-- Voc parece triste, O que foi? Prefere ficar com sua me?
-- No  isso. E que eu gostaria que ela tambm fosse. Tenho certeza de que lhe faria bem.
No gosto de v-la sempre sozinha com Rita, trabalhando, lendo, sem se divertir.
-- Por que no a convida para ir?
-- Eu convidei, mas ela no quis. Acho que tem receio de encontrar voc.
-- Bobagem. Ns nos encontramos outro dia na cidade e conversamos, O motivo deve ser
outro. Vai ver que tem outro compromisso.
-- Que nada. Antigamente ela ainda saa com alguns amigos, mas ultimamente recusa os
passeios. Est sempre em casa. S sai para ir ao centro de Dona Ldia e para trabalhar. Se
ela fosse junto, seria maravilhoso. Tenho certeza de que Rita ficaria feliz. Ela me disse que
gostaria de estar l.
Ficou calado por alguns instantes, hesitou e depois disse:
-- Posso lhe perguntar uma coisa? Pode.
--Vocs conversaram numa boa?
-- Sim. Est tudo bem.
--Nesse caso, por que no liga e convida-a para ir conosco? Notei que ela at gostaria de ir,
mas est acanhada. Se voc convidasse...
--No creio que ela aceite. Vamos deixar isso. No gosto de pressionar. Se um dia ela for,
ser bem recebida. Mas no vou pedir-lhe isso.
Carlinhos no respondeu. O fato de seus pais j terem se falado havia sido bom. No queria
insistir.
Depois que ele saiu, Osvaldo sentiu vontade de ligar. Mas conteve-se. No queria que Clara
pensasse que ele estava forando a situao.
Apanhou a lista do que faltava para comprar e saiu.
316


Osvaldo terminou as compras antes do meio-dia e foi para casa almoar. Pretendia
descansar um pouco antes de viajar para o stio.
Enquanto comia, Jos aproximou-se:
-- O motorista foi com Dona Marta mas esqueceu-se de entregar as cestas para Dona Ldia.
Ficaram na despensa.
-- Comprei tudo antes, para evitar as correrias de ltima hora.
-- Telefonei para Dona Ldia, mas ela no tem ningum para mandar buscar. Se quiser, eu
posso ir.
-- No. Voc ainda tem muitas coisas para fazer. No quero atrasar a viagem. Pode deixar,
eu mesmo levo. Assim aproveito para abraar Dona Ldia.
Quando terminou de almoar, Jos h havia colocado tudo no carro e Osvaldo apressou-se.
Alm do dinheiro que mandava mensalmente para a assistncia social do centro, levara
tambm alimentos para as famlias que ela atendia por ocasio do Natal.
Encontrou Ldia no salo acompanhada de seus voluntrios preparando os sacos de
alimentos para distribuio, como fazia todos os anos.
Ela no achava justo ter mesa farta nessa data enquanto outras pessoas no tinham nem o
necessrio para comer.
 preciso dizer que ela cadastrava essas famlias e as atendia durante o ano inteiro com tudo
que podia, mas nas festas do Natal, com a ajuda das pessoas, preparava uma sacola
especial. Era com alegria que trabalhava nessa tarefa, cuidando dos brinquedos e dos
alimentos a serem distribudos para mais de trezentas famlias.
Vendo Osvaldo descarregar o carro auxiliado por alguns voluntrios, aproximou-se
sorrindo:
-- Seja bem-vindo.
Captulo 26
317
Trocaram um abrao amigo, e, depois de agradecer o donativo, ela convidou:
-- Vamos at minha sala tomar um refresco. Est muito calor. Ele a acompanhou satisfeito.
Admirava o trabalho daquela mulher simples e bondosa. Conversaram durante quinze
minutos. Depois Osvaldo se despediu:
-- No vou tomar mais seu tempo.
-- Fique mais um pouco.  um prazer falar com voc.
-- Obrigado, mas tenho de viajar logo mais. No quero pegar estrada  noite.
Ele saiu e encontrou um conhecido, que o abraou. Quando se voltou, Clara, segurando
alguns pacotes coloridos, estava na sua frente. Ficaram olhando-se por alguns segundos.
Depois ele estendeu a mo e disse:
-- Como vai, Clara?
Ela apertou a mo que ele lhe estendia.
-- Bem. E voc?
-- Vim cumprimentar Dona Ldia. Acho que voc teve a mesma idia.
. Trouxe alguns brinquedos para a distribuio.
--  bom saber que voc tambm se interessa em ajudar. Dona Ldia faz um trabalho
maravilhoso.
--  verdade. Os meninos j foram para sua casa. No pensei encontr-lo aqui.
-- Combinamos de sair s cinco. Tenho muito tempo. Voc est corada, o sol est quente,
vamos tomar um refresco na lanchonete da esquina?
Ela hesitou um pouco, depois decidiu:
-- Aceito. Antes vou entregar os brinquedos.
Ele ficou esperando, o corao batendo forte. Clara voltou logo e foram caminhando at a
lanchonete.
-- Voc mora aqui perto. Rita me disse que sua loja tem bom movimento.
-- D para viver. Ela  quem cuida. Eu trabalho em um ateli.  um bom emprego. Gosto
do que fao.
Eles entraram na lanchonete e sentaram-se em um canto. Osvaldo pediu refrigerantes.
-- Quer comer alguma coisa?
-- No, acabei de almoar. Estamos com muito servio no ateli. Tenho de voltar para
trabalhar. Nem poderia ter sado.
318
-- Foi bom t-la encontrado. Os meninos gostam muito de ir ao stio nos fins de semana.
Prepararam-se para a festa de amanh. Disseram que voc concordou de boa vontade que
eles fossem comigo. No fica aborrecida por eles a deixarem sozinha?
-- Sinto falta deles. Mas preciso me acostumar. No so mais crianas. Um dia, cada um
tomar seu rumo e terei de aceitar.  a vida.
-- Por que no se junta a ns?
Clara estremeceu. Baixou a cabea pensativa. Ele continuou:
-- Somos pessoas civilizadas querendo nos espiritualizar. Por que no podemos conviver
amigavelmente? Nossos filhos ficariam felizes.
Eles se ressentem da nossa falta de dilogo.
-- Falando assim parece fcil. Mas fico constrangida. Sua famlia freqenta l. No
gostaria de encontr-los.
--Clara, precisamos deixar ir o passado. Todos sofremos, mudamos, aprendemos muitas
coisas, mas a vida continua. Conservar mgoas, desentendimentos no corao impede-nos
de encontrar a felicidade. Sei que guarda uma lembrana desagradvel de minha famlia.
Mas eles tambm mudaram. Entenderam que cuidar da prpria felicidade  mais importante
do que se meter na vida dos outros. Se voc fosse ao stio com nossos filhos, seria muito
bem recebida. Ningum se atreveria a mencionar o passado. Isso eu garanto.
-- Pode ser. Mas sou eu que no estou preparada. V-los significa lembrar da minha culpa.
Osvaldo pegou a mo dela com carinho e respondeu:
-- No se machuque mais do que j fez. Esquea o passado. No  bom conservar
ressentimentos. Atrai foras negativas. No d para voltar atrs, mas podemos ser amigos.
Estavam to entretidos que no notaram algum parado atrs da coluna da lanchonete
observando-os com raiva. Era Vlter.
Havia seguido Clara esperando oportunidade para lhe falar. Vendo-a sair do centro com
Osvaldo, escondeu-se e seguiu-os.
De onde estava no podia ouvir o que diziam mas, vendo-o segurar a mo dela olhando-a
com carinho, ficou furioso.
Ento era verdade. O que ele temia estava acontecendo. Por certo estavam combinando os
detalhes para reatar o casamento. Isso ele no iria admitir. Eles ficariam juntos e seriam
felizes, enquanto ele estaria sofrendo, s, desprezado.
Trincou os dentes com raiva. Osvaldo no perdia por esperar.
No iria ficar com Clara. Ela lhe pertencia por direito. Por ela havia suportado o desprezo
dos amigos, tornara-se incapaz de amar outra mulher.
319
Nunca se casara. Por causa do seu desprezo, enterrara-se na bebida, perdera o emprego.
Vivia de expedientes.
Osvaldo tomara-se rico. Andava elegante, carro bonito... Claro que ela o havia preferido.
Quando os dois se levantaram, ele se escondeu. Despediram-se.
Osvaldo voltou para o carro enquanto ela se dirigia para sua casa.
Vlter entrou na lanchonete e pediu uma bebida. Precisava pensar, encontrar um jeito de
tirar seu rival do caminho.
Clara chegou em casa pensativa. Rita notou:
-- Aconteceu alguma coisa?
--Encontrei Osvaldo no centro. Conversamos sobre Marcos e Carlinhos.
-- Isso a deixou triste?
-- No.  que ele me convidou para ir com eles ao stio. s vezes me pergunto se ele est
bem da cabea.
-- Por qu?
-- Porque as pessoas da famlia dele so as ltimas que eu gostaria de ver. Ele disse que 
preciso esquecer o passado. Do jeito que fala, parece at que j esqueceu. Eu no sei at
que ponto diz a verdade. Quando nos separamos, ele largou tudo, sumiu, jogou-se do trem,
e agora fala no assunto como se nada tivesse acontecido.
-- Osvaldo compreendeu que no adianta lembrar o que j foi. O passado no volta mais.
Depois, no h como modific-lo. Por isso o melhor  mesmo esquecer.
-- Talvez tenha razo. Por que no consigo tirar essa mgoa do corao? Depois que
Osvaldo voltou, ela ficou mais viva.
Rita abraou-a com carinho.
-- Talvez voc ainda goste dele. Voc nunca amou Vlter nem outro qualquer.
-- No  nada disso. O problema  que vocs o elogiam tanto, exaltam suas qualidades, que
eu me sinto ainda mais culpada. Ele  bom, nobre, maravilhoso, enquanto eu sou a esposa
adltera que se deixou iludir por um Don Juan barato.  isso que me entristece.
-- Em nenhum momento ns criticamos voc. Todos a consideramos muito. Voc tem
nosso respeito, nossa amizade. Seus filhos a amam e admiram. No se deixe envolver por
esses pensamentos deprimentes. Isso no  verdade.
Clara sacudiu a cabea negativamente, como querendo jogar fora aqueles pensamentos.
320
-- Tem razo. Nem sei por que estou dizendo isso.  que a presena de Osvaldo mexe
comigo.
-- Se eu fosse voc, pensaria melhor no que ele disse. Se voc pudesse conviver, manter
um relacionamento cordial, mesmo que convencional, com Osvaldo e sua famlia, acabaria
por enxergar as coisas de outra forma. Iria se livrar da sensao de culpa que tanto a tem
atormentado. Teria mais paz, seus filhos viveriam em um ambiente mais harmonioso.
-- Voc realmente acredita nisso? Quando me separei de Osvaldo, a nica coisa boa que
me aconteceu foi livrar-me de Dona Neusa e de Antnio. No consigo nem imaginar ter
essa mulher de novo por perto, ainda que seja socialmente.
-- Sabe, Clara, quando pedimos ajuda espiritual, sade, paz, harmonia em nossas vidas,
esperamos ser atendidos. Rezamos, mas nos esquecemos de que para obter tudo isso h
determinadas condies sem as quais nunca alcanaremos o que pedimos. A conquista da
felicidade  o resultado das nossas atitudes. Lembre-se disso.
-- Voc est cada vez mais insistente. Acha que todos tm de pensar como voc.
-- Se  assim que pensa, mudemos de assunto. Voc  livre como sempre foi para escolher
seu caminho. E melhor tratarmos da lista de compras para a ceia. J escolheu o cardpio?
-- Deixemos isso para quando eu chegar  noite. Preciso ir ao ateli. Domnico j deve
estar reclamando minha ausncia.
Depois que ela saiu, Rita ficou pensando naquela conversa. Sentia que Osvaldo estava
sendo sincero. Embora ele nunca lhe houvesse dito nada, sabia que continuava amando
Clara. Por outro lado, embora Clara no quisesse admitir, suspeitava que ela ainda
conservava o amor do marido no corao.
Admitir isso seria tornar ainda mais grave a culpa que carregava. Imaginando que havia
deixado de am-lo, ela no tinha de enfrentar a dor da perda desse amor.
Era uma pena que ela estivesse jogando fora a oportunidade de refazer a vida e ser feliz.
-- Um dia ela vai perceber, tenho certeza. S que a poder ser tarde demais.
Ela murmurou essa frase pensando em Marta. Ela era bonita, inteligente, amorosa, tinha
todas as qualidades, alm de gostar das atividades de Osvaldo. Estava certa de que Marta
estava interessada nele.
Osvaldo no nutria nenhuma esperana de reconquistar o amor de Clara.
321
Tinha certeza de que ela no o amava. Um dia ele poderia se sentir sozinho, desejar
companhia. Marta estaria por perto, atenta, amorosa. Seria natural que se unissem
definitivamente.
Para Osvaldo no seria ruim. Marta era uma moa boa, dedicada, e com certeza o faria
muito feliz.
Mas e Clara, como reagiria? Talvez descobrisse que nunca havia deixado de amar o marido,
mas, sabendo que ele estava com outra, nunca teria coragem de confessar. Arrastaria pelo
resto da vida a frustrao e mais culpa por ter deixado passar a oportunidade.
Notou que, quanto mais demonstravam entusiasmo com o trabalho no stio, elogiavam
Osvaldo, mais Clara resistia. Decidiu no tocar mais naquele assunto.
Vrias vezes tentara aproxim-los, sem sucesso. Suas tentativas provocavam efeito
contrrio: estavam atrapalhando ao invs de ajudar. No iria tentar mais nada. O futuro
estava nas mos de Deus.
A vida promovera o encontro deles por duas vezes. Se tivessem de ficar juntos, ela teria
meios de dar um empurrozinho.
Na vspera do Natal, Clara trabalhou at a metade do dia. Quando chegou em casa, Rita j
havia providenciado quase tudo. A rvore montada na sala de estar estava brilhando, os
presentes j haviam sido colocados  sua volta.
Clara no estava com vontade de comemorar o Natal. Sentia-se cansada, deprimida.
Suspirou resignada. Preferia que aquela data j tivesse passado. Desejava ficar quieta no
seu canto, mas no podia por causa dos filhos.
Depois, Rita e Diva haviam feito tudo para alegr-la. No desejava desgost-las.
--Voc tem trabalhado demais nestes ltimos dias -- considerou Rita. Est abatida. V
descansar, ns faremos tudo.
Clara sorriu.
-- No mesmo. Este ano no pude ajudar em nada. Vou trocar de roupa e j volto. Vamos
deixar tudo ainda mais bonito.
Quando ela desceu novamente, seu rosto estava mais animado. Entregaram-se s
arrumaes. Tudo pronto, elas foram se preparar. Clara havia comprado um vestido longo
verde-escuro de seda pura que Gino havia confeccionado para uma cliente que nesse meio
tempo ficou grvida e decidiu suspender a encomenda.
Clara encantou-se com o vestido e comprou-o a preo de custo.
Apesar de no ir a festas, aproveitou a oportunidade.
322
-- Se eu no o usar, acabo vendendo -- disse na ocasio. Porm naquela noite queria
reagir, jogar fora a depresso. Os filhos mereciam que ela se arrumasse, ficasse bonita. Eles
gostavam de v-la elegante e bem vestida.
Quando ela desceu, Rita j estava pronta na sala. Vendo-a, no conteve uma exclamao:
-- Nossa, como voc est linda!
Os olhos de Clara brilharam alegres. O verde do vestido realava o tom de sua pele
contrastando com o castanho-dourado dos cabelos.
-- Decidi jogar fora a tristeza. De agora em diante vou mudar, voc vai ver.
-- Estava na hora!
Clara olhou para o relgio.
-- Os meninos j deveriam ter chegado. So nove horas.
-- Logo estaro aqui.
Tudo pronto, as duas serviram-se de vinho branco e sentaram- se para esperar.  medida
que o tempo passava, Clara ia ficando mais inquieta.
-- Ser que aconteceu alguma coisa?
-- No. Devem estar chegando.
Passava das dez quando Marcos entrou. Carlinhos vinha logo atrs. Clara foi ao encontro
deles no hall, dizendo:
-- Finalmente chegaram! Estava preocupada. Vocs no tm considerao..
Ento ela viu que Osvaldo entrara atrs deles. Calou-se surpreendida. Ele se aproximou:
-- No brigue com eles. No tiveram culpa. Entrei para pedir-lhe desculpas. Houve um
pequeno problema com o carro. Samos de l cedo, mas s conseguimos chegar agora. Nem
fomos para minha casa, viemos direto para c.
-- Eu disse que ela ia achar ruim -- tomou Carlinhos para Marcos. Depois continuou: --
Nossa, como a rvore est linda! Vocs fizeram tudo melhor do que ns.
Rita aproximou-se, estendendo a mo para Osvaldo.
-- Que bom v-lo! Feliz Natal!
-- Obrigado, feliz Natal para vocs tambm.
Clara refez-se da surpresa.
-- Obrigada. Eu estava mesmo zangada. Estamos esperando faz tempo.
323
-- Bem, agora que j est explicado, vou embora.
--  cedo, pai. Por que no fica aqui um pouco mais? -- disse Carlinhos.
--Obrigado, meu filho, mas preciso ir.
-- Pelo menos aceite um copo de vinho -- disse Rita estendendo o copo para ele. Vamos
brindar juntos.
Ele segurou o copo, o corao aos pulos. No conseguia desviar os olhos de Clara. Ela
estava mais linda do que quando a conhecera.
Mais requintada, mais fina.
--A felicidade de todos ns -- disse Rita.
Eles repetiram em coro, tocando os copos levemente.
-- Como foi a festa? -- indagou Clara, tentando controlar o nervosismo.
-- Foi maravilhosa! -- disse Marcos.
-- Claro. Em to boa companhia! -- comentou Carlinhos sorrindo.
Rita apanhou um prato com salgadinhos e ofereceu-o a Osvaldo:
--Experimente um desses. Devem estar com fome.
Osvaldo apanhou um e respondeu:
-- De fato, os meninos esto com fome mesmo. Por isso j vou indo. No quero atrasar
ainda mais a ceia de vocs.
-- Por que no fica para cear conosco? -- indagou Carlinhos.
-- Obrigado, meu filho, mas as pessoas l em casa esto me esperando.
Osvaldo colocou o copo sobre a mesinha e despediu-se. Depois que ele saiu, Carlinhos
tornou:
-- Me, por que voc no pediu a ele para ficar?
--  mesmo -- interveio Marcos. -- Se voc tivesse convidado, ele teria ficado.
--Ele disse claramente que no podia. H pessoas esperando em sua casa -- respondeu
Clara.
-- Rosa e Jos! Papai vai passar a vspera de Natal sozinho com os empregados --
comentou Carlinhos.
-- Ele tem famlia. Certamente ficaro juntos.
-- Vov e tio Antnio estiveram no stio. Estavam cansados e disseram que iam dormir
cedo -- retrucou Marcos.
-- Chega de conversa. Vo tomar um banho rpido para espantar o cansao -- pediu Clara.
Os dois subiram e Clara os acompanhou. Ela havia comprado roupas novas para aquela
noite e queria que eles as vestissem.
324
Os dois entraram no banheiro e Clara ficou colocando sobre a cama as roupas que iriam
vestir. Ouviu perfeitamente quando Marcos comentou:


-- Acho que papai no vai ficar s com os empregados.
-- Por que diz isso?
-- Ouvi Marta combinando com Rosa de fazer uma surpresa para ele.
-- Ela vai aparecer na casa dele hoje?
-- Vai. Disse que comprou um presente maravilhoso. Comentou que no ia permitir que
papai ficasse sozinho.
-- Eu disse que ela est caidinha por ele. Qualquer um pode notar isso. Ser que ele sabia?
-- Claro que no. Ela queria fazer surpresa, mas ele vai gostar. Tambm, uma surpresa
dessas!
-- Rosa pode ter contado a ele. Vai ver que foi por isso que no aceitou nosso convite.
Clara desistiu da arrumao e desceu. De repente seu entusiasmo desapareceu, a depresso
voltou. No tinha por que se importar com Osvaldo. Era natural que ele encontrasse outra
mulher e fosse feliz.
Mas a sensao desagradvel no passava. Pegou outro copo de vinho e sentou-se
pensativa.
Rita aproximou-se:
-- Por essa voc no esperava.
-- No mesmo.
-- Por isso est com essa cara? -
-- Que cara? Eu estou muito bem.  que os meninos me deixam nervosa com a demora.
Estou com fome.
--Sei. Voc gostaria que Osvaldo tivesse aceitado o convite?
-- Isso no tem cabimento. Tiraria nossa privacidade. Ainda bem que ele teve o bom senso
de recusar. Carlinhos continua inconveniente.
-- Pois eu gostaria que ele ficasse. Afinal, Natal  festa de famlia. Os meninos ficariam
contentes.
-- Eles j ficaram tempo demais com ele. Agora  minha vez.
Rita sorriu. Os dois desceram e Carlinhos comentou:
-- Ns samos cedo do stio porque papai queria que passssemos na casa dele para poder
nos dar nossos presentes. Ainda nem os abrimos. Estou morrendo de curiosidade.
Clara impacientou-se:
-- Vamos servir a ceia. J  quase meia-noite.
325
Osvaldo deixou a casa dos filhos emocionado. Clara sempre fora bonita. Todavia os anos a
haviam transformado em uma mulher de classe, muito atraente.
Daria tudo para ter ficado l, mas de que adiantaria? Serviria apenas para aumentar seu
sofrimento. V-la perto sem poder toc-la, sentir seu perfume, sem poder beij-la, seria um
tormento constante.
Perdido em seus pensamentos, no viu que Vlter estava do outro lado da rua,
acompanhando-o com os olhos.
Era fora de dvida que Osvaldo estava reatando com a famlia. Trouxera os filhos, entrara
na casa. Talvez at estivessem planejando a vida juntos. Precisava fazer alguma coisa. No
podia mais esperar.
Depois que Osvaldo entrou no carro e se foi, Vlter decidiu procurar dois conhecidos na
periferia. Berto, ex-policial, era seu companheiro de bar. Vrias vezes abrira-se com ele
contando os prprios problemas.
Quando Berto foi mandado embora da polcia por trfico de drogas, Vlter deps a seu
favor, dizendo que aquela droga era para consumo de ambos.
Berto foi exonerado, mas livrou-se da priso. Depois disso, passou a prestar pequenos
servios a quem pagasse. Encontrou-o no bar de sempre, bebendo. Abraaram-se,
reclamaram da vida, da solido, da falta de dinheiro.
--Neco no apareceu por aqui hoje? -- indagou Vlter.
-- No. Ele no est abandonado como ns. Arrumou uma viva que o convidou para ceia.
Vai passar a noite l.
-- Sabe, Berto, estou resolvido a dar um jeito na minha vida. Chega de ficar em segundo
plano. Preciso que vocs dois me faam um servio.
-- Eu topo. Estou precisando de dinheiro. Meu aluguel est vencido. Se no pagar logo,
serei despejado.
-- Verei o que posso arrumar. Voc sabe que atualmente estou sem dinheiro.
-- Voc  meu amigo. Se eu no estivesse nesta situao, nem falaria em dinheiro. Mas,
nas atuais circunstncias, s posso aceitar se me pagar.
-- Mas voc vai ser recompensado.
-- Nesse caso, pode me contar tudo.
-- Voc sabe dos meus problemas. A mulher que eu amo, pela qual sacrifiquei tudo nesta
vida, no quer nada comigo. O ex-marido reapareceu rico e anda no pedao, e ela prefere
voltar a viver com ele.
326
-- Que ingratido! Depois de tudo que voc fez por ela...
-- Para voc ver. Mas, se ele desaparecer, ela acabar voltando para mim. Clara me amava.
Traiu o marido por minha causa.
-- Voc quer dar um susto nele?
-- Susto? Eu quero que vocs apaguem esse cara. Deve desaparecer para sempre.
-- Isso  perigoso. No estou disposto a correr riscos.
-- Vocs sabem como fazer isso. Olhe, o sujeito  muito rico. S o carro de luxo dele vale
um dinheiro. Vocs podem ficar com todo o lucro. Eu no quero absolutamente nada, s
que ele saia do meu caminho de uma vez.
Berto tomou alguns goles, tirou umas baforadas do cigarro jogando a fumaa para o ar,
depois respondeu:
-- Falarei com Neco. Vamos estudar esse caso.
-- Garanto que no vo se arrepender. Podem entrar na casa e levar muita coisa. Ele vive
em uma manso, sozinho com alguns criados. Forneo os dados, depois nos reunimos para
programar a ao.
-- Eu ainda no disse que vamos aceitar.
-- Estou certo de que, depois de estudar, vocs no vo recusar.Vai ser sopa.
Os sinos da igreja badalaram a meia-noite comemorando o Natal, mas os dois, imersos em
energias escuras e viciadas, nem sequer perceberam. Continuaram bebendo e tecendo seus
nefandos planos para o futuro.
Nos dias que se seguiram, Osvaldo no conseguia esquecer o rosto de Clara. Ela povoava
seus pensamentos, e ele recorreu  orao, suplicando aos amigos espirituais que o
ajudassem a controlar aquele amor que depois do reencontro se acendera mais do que nos
tempos de juventude.
Marta, vendo-o calado e pensativo, fazia tudo para alegr-lo.Apesar de continuar amvel,
trabalhando como sempre, ela notava que havia um brilho triste em seus olhos.
Tinha conversado com Rosa tentando descobrir o que estava acontecendo.
-- A senhora sabe o que est havendo com Osvaldo? Ele anda quieto, diferente. Nosso
projeto est melhor a cada dia. Ele deveria estar satisfeito.
Rosa olhou sria para Marta e respondeu:
-- No aconteceu nada. Ele  assim mesmo.
327


-- No creio. Antes ele era mais alegre, entusiasmado. Agora h momentos em que me
parece distante, sem vontade de conversar. Alguma coisa est acontecendo com ele.
-- Talvez ele no tenha boas recordaes. Ele sofreu uma desiluso amorosa no passado.
Mas agora est tudo bem.
Marta ficou pensativa por alguns instantes, depois considerou:
-- No pode ser s o passado. Sinto que ele est sofrendo, e  coisa de agora. Ele mesmo
diz que  preciso soltar o passado e viver no presente.
Rosa, apesar de haver notado, no quis comentar. Respondeu:
-- Esquea isso. No est acontecendo nada.
Ela sabia que Osvaldo havia se encontrado com Clara. Comentara com o marido que ele
ficara mais introvertido depois disso.
Na vspera do Natal, ele lhe contou que fora falar com Clara sobre o atraso dos filhos. Rosa
notou que os olhos de Osvaldo brilhavam emocionados ao mencionar isso. Logo depois
chegaram Marta e alguns amigos para cumpriment-lo, conforme haviam planejado.
Rosa observou que foi difcil para Osvaldo manter a ateno na conversa dos amigos.
Quando se despediram, uma hora depois, ficou aliviado.
Conversou com o marido:
-- Acho que Osvaldo ainda gosta de Clara. Voc notou como chegou aqui hoje?
-- Muito inquieto, distrado.
-- Isso mesmo. Ele entrou na casa dela e conversaram. Justino no disse nada?
-- No. Ele  um motorista muito discreto. Depois, no sabe nada sobre o passado.
Marta veio perguntar se eu sabia o que estava acontecendo. Ela tambm notou.
-- Vocs esto sempre vendo coisas. H dias que as pessoas gostam de estar sozinhas,
descansar. Osvaldo est cansado. A festa no stio deu muito trabalho. Ele atendeu a muita
gente.
-- Pois eu acho que a tem coisa. O futuro dir.
Osvaldo havia programado frias para os trabalhos do stio. Voltariam no ms de fevereiro.
S o laboratrio estava funcionando. Ele queria dedicar mais tempo s pesquisas que
estavam realizando sob a orientao dos espritos.
328
Haviam montado um aparelho que registrava os tipos de energias das plantas, e a cada dia
que passava eles estavam mais entusiasma dos com as descobertas.
Nos dias que se seguiram,Osvaldo entregou-se ao trabalho, tentando no pensar em Clara.
Mas estava difcil. Percebendo que era intil, decidiu no lutar mais contra seus
sentimentos. Amava Clara. No adiantava fugir. Aceitou essa verdade resignado e assim
conseguiu acalmar um pouco sua ansiedade.
Sentia que seria assim pelo resto de sua vida. No havia nada que pudesse fazer para apagar
esse sentimento do corao.
329
Captulo 27
Clara olhou para o calendrio pensativa, O ateli ficaria fechado quinze dias. Gostaria de
viajar com os meninos para descansar, aproveitando as frias escolares.
Desde o encerramento das aulas, no final de novembro, eles pouco ficavam em casa,
passando a maior parte do tempo com o pai e os fins de semana no stio.
No era justo. Queixava-se com Rita:
-- Eles esto me deixando de lado. Moram mais com o pai do que aqui.
-- No  nada disso. Eles gostam das atividades de Osvaldo. H um grupo de jovens com
os quais fizeram amizade. Sentem-se bem com eles.
-- Eu tambm gosto do trabalho espiritual. Tenho me sentido muito bem freqentando o
centro de Dona Ldia. Quando posso, colaboro com o trabalho assistencial. Mas no estou
l todos os dias.
Rita sorriu e respondeu:
-- No d para imaginar como  no stio. Se voc fosse ver, tenho certeza de que
entenderia. Marcos gosta de uma garota, esto sempre juntos. Penso que j esto
namorando.
-- No gosto de ver meu filho namorando to novo, ainda mais com uma moa que no
conheo.
--Eu conheo.  muito bonita e educada, de boa famlia. No tem com que se preocupar. E
Carlinhos l  como um rei. Vive paparicado por todos.
-- No sei se isso  bom para ele.
--  que ele leva alegria, msica, aonde vai. Todos gostam dele As garotas ficam em volta,
as mes levam coisas gostosas para o lanche porque Carlinhos gosta. Voc precisa ver.
330
-- Estive olhando os prospectos de viagem. Hoje quando eles vierem vamos programar
tudo.
-- Voc est precisando mesmo sair um pouco.
Depois do jantar, os dois rapazes foram para o quarto e Clara ainda ficou mais um pouco
conversando com Rita. Quando ela subiu, ou viu que os dois se entretinham com o violo
cantarolando e conversando. Entrou:
--  bom v-los to alegres.
-- Carlinhos est compondo uma melodia e me pediu para fazer a letra. Eu fiz, mas no 
fcil rimar e fazer dar certo nos compassos da melodia.
-- No sabia que tinha dois filhos compositores.
-- Estamos tentando -- explicou Carlinhos. -- Marcos quer a msica pronta para o
prximo fim de semana.
-- Voc disse que podia fazer isso.
-- Por que tanta urgncia? -- indagou Clara.
Carlinhos fez um gesto largo e disse com voz teatral:
-- Porque temos de criar um momento romntico.
Marcos interveio:
-- No exagere. Voc quer ou no fazer essa msica?
-- Quero.
-- Subi para conversar -- disse Clara sentando-se na cama. -- Estamos de frias. Tenho
quinze dias. Pensei em aproveitarmos e irmos para um lugar bem bonito, um hotel cinco
estrelas, tudo.
Os dois a olharam surpreendidos, entreolharam-se e no responderam logo.
-- O que foi, no gostaram? -
-- No  isso, me -- comeou Marcos. --  que no sabamos e fizemos outros projetos.
Combinamos com alguns amigos...
-- ... -- reforou Carlinhos. -- Eu me comprometi a tocar, e as pessoas contam com isso.
Elas se programaram.
Clara levantou-se irritada.
--Naturalmente  nesse bendito stio aonde vo todos os fins de semana.
-- Por que implica tanto com o stio? Pois voc est enganada. No h nada l. As
atividades esto suspensas at fevereiro.
-- Ento no entendo.
Marcos levantou-se e abraou-a tentando contornar.
-- Voc no nos disse nada, ns no sabamos. Mas, se faz tanta questo, veremos o que
ser possvel fazer.
331
-- Pois eu prefiro ficar e fazer o que prometi. Combinamos com vrios amigos o que
faramos nessas frias. Vamos nos reunir cada fim de semana na casa de um. Eu levo a
msica e as outras pessoas colaboram com a comida e a bebida. Se eu no for, eles vo
suspender tudo.
-- Estou vendo que vocs preferem ficar com os amigos a viajar com a me. Nesse caso,
desisto.
Clara deixou o quarto, e Marcos considerou:
--Talvez possamos fazer o que ela pede. Viajar com ela pelo menos uma semana.
-- Mame precisa entender que temos nossos compromissos. No  ela quem vive falando
que  preciso cumprir o que prometemos?
-- Estou notando que voc est muito interessado nesses encontros. No seria por causa
daquela lourinha que nos dois ltimos fins de semana ficou grudada em voc o tempo todo?
Como  mesmo o nome dela?
-- Liliana.
-- Voc capricha mais quando ela est perto.
-- O que h de errado? Pensa que  s voc que pode ter uma garota?
Marcos sorriu satisfeito.
-- Ela fica perto porque gosta de msica. No se anime muito. Voc  que pensa. Ela est
mesmo me dando bola.
-- E voc est gostando.
-- Estou. Ela no vai viajar nestas frias. Eu quero ficar com ela. Mame poderia viajar
com Rita. Elas se divertiriam mais. Gostam das mesmas coisas.
-- Para ir de m vontade  melhor no ir. Vou conversar com mame. Ela vai entender.
-- No v jogar a culpa toda sobre mim. Voc tambm quer ficar com Eunice. Quer
dedicar essa msica a ela.
Marcos encontrou a me na sala lendo. Sentou-se a seu lado.
-- Me, ficou aborrecida conosco?
Clara colocou o marcador e fechou o livro:
-- Estou decepcionada. Pensei em dar-lhes uma grande alegria com essa viagem, mas
enganei-me.
-- Gostaria que entendesse que ns crescemos. Gostamos de estar com voc, mas  muito
bom fazer amigos, namorar, viver a nos juventude. Voc mesma sempre diz que  o melhor
tempo da vida. Preferindo estar com os amigos, no estamos nos afastando de voc.Seu
lugar ningum tira.
332
Clara olhou nos olhos de Marcos e notou sua sinceridade. Sorriu e respondeu:
-- Eu entendo, meu filho. No se preocupe. Vocs tm razo. Eu havia me esquecido como
 na juventude. Vocs podem fazer o que quiserem.
-- Por que voc no viaja com Rita? Seria uma boa companhia.
-- H a loja. Mas vou pensar.
Quando ele voltou para o quarto, Clara sentiu voltar a sensao de vazio no peito. Por qu?
Sabia que um dia seus filhos iriam embora, cuidar da prpria vida.
Eles haviam crescido muito depressa. Clara no queria se transformar em uma me
queixosa como tantas que conhecia, cobrando dos filhos o retorno do amor e da dedicao
que lhes dera.
Mas teria foras para desapegar-se deles? Estava sendo difcil aceitar o amor deles pelo pai.
Como seria no dia em que resolvessem casar, assumir o amor por outra mulher?
Rita aproximou-se com uma xcara de ch.
-- Tome, Clara,  daquele que voc gosta.
Ela apanhou a xcara.
-- Obrigada.
-- Voc estava to entusiasmada com a viagem. O que aconteceu, por que est com essa
cara?
-- Hoje descobri que meus filhos cresceram. Programei a viagem com eles sem os
consultar e no deu certo.
-- Eles tinham outro programa.
-- . O que me deixou chocada foi que eles se esforaram para me agradar, mas odiaram a
idia.
-- No se aborrea. A reao deles  natural. Esto descobrindo a vida, o sexo oposto, as
amizades.
-- Eu sei. Reconheo isso. Mas confesso que no esperava. Qual quer dias destes vo
querer casar, assumir a prpria vida, e eu terei de aceitar.
--  a vida, Clara. Mas voc deve viajar assim mesmo. Faa uma excurso. Sempre ter
companhia. Eu tomarei conta de tudo.
-- No. No seria a mesma coisa. Vou descansar em casa mesmo. Abriu novamente o livro
e reiniciou a leitura.
Osvaldo chegou em casa na sexta-feira  tarde. Durante as frias das atividades no stio, ele
ia para l nas segundas-feiras e trabalhava no laboratrio at sbado cedo, quando voltava 
cidade.
333
Estava satisfeito com as pesquisas, que a cada dia se tornavam mais especficas e os
resultados, melhores.
Os produtos devidamente licenciados que lanara no mercado estavam tendo boa aceitao
e comeavam a render um lucro razovel, que Osvaldo investia na empresa, principalmente
na rea das pesquisas.
Claro que seus produtos no eram como os existentes no mercado. Iam acompanhados de
um folheto com orientao metafsica para determinados tipos de sintomas, deixando claro
que a ajuda energtica que eles continham precisava ser acrescida de um ambiente especial
que os pensamentos do paciente teriam de criar para que o efeito fosse completo.
Devido  grande procura de pessoas interessadas em aprender mais, Osvaldo estava
treinando um grupo de terapeutas sensveis  mediunidade para dar atendimento.
Orientados pelos espritos, que consideravam a necessidade de a pessoa valorizar a ajuda
recebida, cobravam preos mdicos pelo atendimento.
Estava com saudade e telefonou para os filhos. Rita atendeu e chamou Carlinhos. Depois de
saber como estavam, Osvaldo convidou-os para jantar.
-- Sabe o que , pai? Hoje vamos nos reunir na casa de Flvio. Combinamos tocar.
-- A que horas vocs vo?
-- L pelas duas.
-- Nesse caso, venham almoar comigo e depois eu os levo de carro at l.
Eles chegaram com a alegria de sempre. O almoo decorreu descontrado. Quando faltavam
quinze para as duas, saram.
Osvaldo tinha dado folga ao motorista e foi pessoalmente leva-los. Saram conversando
animados e no notaram um carro estacionado em frente  casa.
Dentro dele estavam Vlter e seus dois amigos.
-- Veja,  ele com os filhos. Vamos segui-los.
-- No, agora no -- disse Berto. -- Vou fazer as coisas do meu jeito. Concordei em
fazer o que me pediu, mas no vou correr riscos desnecessrios.
-- Tudo bem. Faa como quiser, mas acabe com ele.
-- A casa  muito grande -- disse o outro.
-- , Neco. Mas entrar l pode ser mais arriscado.
334
-- O lucro ser maior. Depois, tenho observado. Os criados dormem em um apartamento
fora da casa. So velhos e no h vigia. Sei a disposio de todos os cmodos da casa.
-- Em dez dias conseguiu ver tudo isso, Neco?
-- Eu vesti aquele velho uniforme da companhia de gs e entrei na casa para fazer uma
vistoria a pretexto de uma reclamao de vazamento.
-- O qu? Voc no podia ser visto por Osvaldo -- disse Vlter assustado.
-- Ele estava viajando. Ficou fora a semana inteira.
-- Ele vive no stio. Seria bom peg-lo na estrada.  deserta.
-- A idia  boa. Mas nesse caso no entraramos na casa -- considerou Neco, que no
tirava os olhos dela.
-- Vamos esperar um pouco mais antes de decidir. Nada pode dar errado -- tornou Berto.
-- Temos de resolver logo. Estou cansado de esperar -- reclamou Vlter.
-- Vamos estudar isso -- concluiu Berto.
Osvaldo parou o carro e os rapazes desceram.
-- Quando quiserem ir para casa, liguem. O carro vir busc-los. No precisa. No temos
hora para terminar -- apressou-se a dizer Marcos.
Ele queria sair com Eunice. Carlinhos lanou-lhe um olhar malicioso e tornou:
--Pode deixar. Se ficar muito tarde, Flvio nos leva de carro.
Osvaldo chegou em casa pensando em descansar um pouco. Recostou-se no sof, deu uma
cochilada e acordou assustado, sentindo um aperto no peito.
Levantou-se de um salto e foi  copa tomar um copo de gua.
--  energia pesada -- pensou, sentindo arrepios pelo corpo e certo mal-estar.
Foi para o quarto, sentou-se na cama e concentrou-se, procurando ajuda espiritual. Sentiu
que estava difcil. Esforou-se para mentalizar luz, chamando pelos espritos amigos.
Notava  sua volta nuvens de energias escuras. Tentou descobrir de onde vinham, mas sua
cabea estava atordoada e seu rosto coberto de suor.
--  energia de encarnado -- pensou, por fim. -- Mas de quem? Na mesma hora, a
imagem de Vlter apareceu em sua frente.
335
Osvaldo percebeu que as energias escuras vinham dele. Sentiu que ele estava com muita
raiva.
Era melhor enfrentar. Por isso olhou-o nos olhos, dizendo com voz firme:
-- No aceito suas energias. Neste momento, o que lhe pertence vai voltar para voc e eu
fico com o que  meu. No quero nada de voc. No cobro nada. Eu sou eu e voc  voc.
Estou me desligando de voc. Voc vai seguir seu caminho e eu, o meu. No temos nada a
ver um com o outro. Deus  testemunha disso.
Repetiu essas palavras com tal convico e firmeza que de repente a viso desapareceu e o
mal-estar tambm. Respirou fundo pensando como as pessoas podem se agredir a distncia.
Aliviado, fez uma orao agradecendo a ajuda espiritual.
Na tarde de domingo, Carlinhos ligou para o pai dizendo que gostaria de ir com ele passar a
semana no stio. Liliana dissera-lhe que sua me havia combinado com Marta de ir
trabalhar l como voluntria na semana seguinte. Ela iria junto e queria saber se Carlinhos
estaria l.
 claro que ele disse sim e combinou com o pai, que esclareceu:
-- Amanh vou sair muito cedo.  melhor vir dormir aqui esta noite. Fale com sua me.
Vou mandar o carro busc-lo.
Clara concordou. Estava decidida a deixar os filhos escolherem como queriam passar as
frias. Ele arrumou a mala, pegou o violo e foi para a casa do pai.
Eles se recolheram cedo. Osvaldo pretendia sair s quatro da manh. Por isso, s duas da
madrugada a casa estava s escuras. Todos dormiam.
Um carro de faris apagados parou no porto dos fundos e dois homens encapuzados
portando armas desceram enquanto outro ficou esperando no carro.
Eles haviam calculado tudo e decidido no esperar mais. Vlter havia convencido Neco a
no levar nada da casa.
-- Vamos pedir um bom resgate. Esse dinheiro ser para vocs. Eu s quero tirar esse cara
do caminho. Ficarei satisfeito com isso.
-- Quer dizer que, mesmo se pagarem, ele no vai voltar para casa -- disse Berto rindo.
-- Claro que no -- confirmou Vlter. -- Mas o dinheiro ser de vocs.
-- Vamos logo -- impacientou-se Neco.
336
Eles pularam o muro e foram  porta dos fundos. Neco comeou a trabalhar na fechadura e
logo a porta se abriu.
Os dois entraram. Sabiam qual era o quarto de Osvaldo. Durante a vigia, Neco havia
observado tudo. Podia entrar na casa mesmo no escuro.
Em poucos minutos estavam no quarto de Osvaldo, que dormia. Aproximaram-se da cama,
e Berto colocou o revlver na cabea dele, dizendo:
-- Acorde. Isto  um assalto!
Osvaldo abriu os olhos ainda sonolentos mas logo viu o brilho da arma e o vulto ao lado da
cama.
-- Levante-se em silncio. Voc vai comigo.
Osvaldo obedeceu.
-- O que querem? -- indagou.
-- Voc. Vista-se rpido e vamos embora.
Osvaldo procurou ganhar tempo.
-- Est muito escuro aqui. Vou acender o abajur para poder me vestir.
-- No vai acender nada -- disse Neco.
-- No estou vendo nada. A luz do abajur  fraca. No haver perigo.
-- Acenda e vista-se rpido, ento. Temos pressa.
Osvaldo acendeu e procurou vestir-se devagar, mas eles o ameaaram insistindo:
-- Depressa, depressa, vamos! Pegue a chave e os documentos do seu carro. Vamos descer.
Se fizer o menor barulho, eu atiro -- garantiu Berto.
Osvaldo obedeceu. Desceram e foram  garagem.
-- Entre no carro, vamos -- disse Neco.
Nesse momento, Carlinhos apareceu na porta chamando:
-- Pai, voc j vai? Por que no me chamou?
-- Volte para o quarto, meu filho. No vou para o stio agora.
Carlinhos entrou na garagem:
-- O que est acontecendo? Pai...
Os dois pegaram Carlinhos, e Neco empurrou-o para dentro do carro. -
--  um assalto. Entre no carro e no faa barulho se no quiser levar um tiro.
Trmulo, Carlinhos encolheu-se no banco enquanto foravam Osvaldo a entrar no carro.


-- Por favor -- pediu ele --, deixem meu filho sair. Eu irei com vocs. Ele  s um
menino.
-- No. Ele vai junto -- disse Berto.
-- Eu farei o que quiserem, mas deixem-no ir -- disse Osvaldo, nervoso.
-- Para ele telefonar  polcia? Acha que somos bobos? Vamos embora.
Berto sentou-se na frente ao lado de Osvaldo e mandou-o tirar o carro. Saram. Depois de
fechar a porta da garagem para no levantar suspeitas, Neco, de arma em punho, voltou ao
carro e sentou- se ao lado de Carlinhos.
-- Siga em frente -- ordenou Berto.
Depois de rodarem algum tempo sob orientao de Berto, eles pararam em uma rua
deserta e o carro de Vlter, que os havia seguido, parou atrs.
--Fique de olho neles enquanto converso.
Berto desceu e foi ter com Vlter.
-- O que aconteceu? Quem  a outra pessoa que vocs pegaram?
--  o filho dele. Apareceu de repente e no tivemos outro remdio seno coloc-lo no
carro.
-- No  possvel! Como puderam fazer isso? Vai atrapalhar tudo. No vai atrapalhar nada.
Teremos de dar cabo dos dois.
--No posso fazer isso. Se Clara souber que matamos o filho dela, nunca vai me perdoar.
-- Bobagem. Ela nunca vai saber. Podemos fazer o trabalho agora e depois jogar os corpos
na represa.
-- No. Vamos esperar.
-- perigoso. No foi isso que combinamos.
--Claro que foi, no se lembra?
Vlter estava assustado e procurou ganhar tempo:
--Voc pode no receber o dinheiro do resgate. Antes de pagar eles sempre exigem uma
prova de que a pessoa est viva.
-- Ih... No foi isso que voc disse.
--Mas estou dizendo agora.  melhor prender os dois em algum lugar e s fazer o servio
aps receber o dinheiro. No quero depois que voc diga que no recebeu e fique me
cobrando.
-- No estava em nossos planos. Aonde vamos lev-los?
-- Voc tem tantos esconderijos. Precisamos de um lugar de que ningum desconfie.
Berto pensou por alguns instantes, depois disse:
338
-- J sei. Tenho um na periferia onde guardo algumas muambas. Deve servir. Mas depois
terei de encontrar outro lugar para colocar tudo. No posso facilitar.
-- Com o dinheiro que voc vai ganhar, vai arranjar outro fcil e melhor. V, que eu vou
atrs.
Berto voltou para o carro. Fez Osvaldo e Carlinhos descerem do carro e obrigou-os a
entrar no porta-malas.
Apertados, abafados e muito assustados, os dois sentiam o corao bater descompassado.
Osvaldo esforou-se por recuperar a calma e disse ao filho:
-- Vamos rezar, meu filho. Deus vai nos ajudar.
Segurou a mo trmula de Carlinhos e continuou:
--Ns vamos sair desta, filho. Somos pessoas de bem. Nada vai nos acontecer.
O carro comeou a andar e eles rezavam baixinho na escurido do porta-malas.
Depois de algum tempo o carro parou. Eles desceram e Osvaldo notou que havia mais
algum com eles. Susteve a respirao, esforando-se para ouvir o que diziam:
--Abra a porta que eu quero ver o lugar.
Osvaldo estremeceu. Onde ouvira aquela voz? Pareceu-lhe familiar, mas no conseguiu
descobrir. Ouviu passos, depois a mesma voz disse:
-- Pode ser a. Vou indo. No quero me encontrar com eles.
-- Pode deixar. Tomaremos conta de tudo.
-- Amanh combinamos o prximo passo.
-- No estou gostando dessa mudana. Eu queria terminar tudo hoje.
Osvaldo estremeceu. Eles estavam querendo mat-los?
-- Tenha calma. Tudo vai dar certo.
Escutou o barulho de um carro. Depois o carro deles andou alguns metros e parou. Abriram
o porta-malas e os obrigaram a sair. Carlinhos, que estava de pijamas, tremia de nervoso e
de frio.
-- Vamos andando -- disse Neco, empurrando-os.
Estava escuro, e Osvaldo tentou olhar em volta para ver onde estavam, mas levou um
safano e Neco resmungou:
-- O que est olhando? Vamos em frente, ande. Entre a.
A porta estava aberta e eles obedeceram. A sala estava escura. Eles foram levados para
outro aposento e a porta foi trancada por fora.
Osvaldo abraou o filho, tentando confort-lo.
339
-- Voc est tremendo de frio.
Tirou o palet e fez Carlinhos vesti-lo. Depois olhou em volta.
O aposento era pequeno e sem janelas, cheirando a mofo.
-- Pai, o que vai acontecer agora?
-- No sei, meu filho. Imagino que vo pedir dinheiro para nos soltar.
Tenho medo.
-- Eu tambm tenho. Mas no podemos nos entregar ao pessimismo.  preciso ter f. Deus
pode tudo e vai nos ajudar. Voc ver.
Apesar de tentar ser forte, Osvaldo estava muito assustado por causa de Carlinhos. No
conseguiam enxergar quase nada. Osvaldo puxou o filho e sentaram-se no cho abraados.
-- Vamos rezar. Estamos nas mos de Deus.
Abraados, eles oraram pedindo ajuda espiritual.
Berto estendeu-se no velho sof que havia na sala, dizendo:
-- Vou dormir um pouco. Voc fica vigiando. No tire os olhos daquela porta.
-- Tambm estou cansado.
-- Acorde-me daqui a uma hora, e a voc dorme e eu vigio.
O despertador tocou e Jos levantou-se de um salto. Chamou Rosa e trataram de preparar-
se para a viagem. Depois Jos foi chamar Osvaldo. A porta do quarto estava aberta. Ele
entrou, procurou, mas no o encontrou.
Talvez estivesse no quarto de Carlinhos. A porta estava encostada. Bateu ligeiramente, mas
ningum respondeu. Entrou e viu a roupa do menino sobre a cadeira, e deles nem sinal.
Foi ter com Rosa.
-- No sei o que aconteceu, mas parece que j foram.
-- Como j foram? No pode ser. Osvaldo no iria partir sem nos esperar.
-- J procurei, mas os dois no esto. Vou ver se o carro est na garagem.
Voltou alguns segundos depois, dizendo:
-- O carro tambm no est.
-- Deve ter acontecido alguma coisa. Estou ficando com medo.
-- No. Vai ver que foram  padaria comprar alguma coisa.
-- Duvido. As malas esto no quarto e a roupa de Carlinhos, na cadeira. Ele no sairia de
pijama.
Desceram novamente  garagem.
340
-- A porta est s encostada. Osvaldo nunca teria sado e deixa do a casa aberta.
Foram para o quintal nos fundos e Jos apontou o muro:
-- Veja, Rosa, uma marca de tnis na parede. Algum entrou aqui.



-- Meu Deus! Deve ter sido um ladro. Vamos chamar a polcia.
-- Vamos ligar primeiro para o Dr. Felisberto.
O advogado assustou-se e aconselhou:
-- Vou avisar a polcia. No toquem em nada. Podem atrapalhar a percia.
Rosa estava plida e trmula. Jos foi  copa e preparou gua com acar para ambos.
-- Beba, Rosa. Precisamos manter a calma.
Felisberto chegou com alguns policiais, que interrogaram os dois criados, mas eles no
tinham visto nem ouvido nada. Percorreram to das as dependncias da casa procurando
encontrar vestgios.
Avisado por Felisberto, Durval chegou em seguida.
-- Os ladres eram dois e pularam o muro dos fundos. As marcas esto visveis -- disse
um dos policiais.
Durval perguntou a Jos:
-- Verificou se abriram o cofre? Deu por falta de alguma coisa?
-- A primeira vista, no levaram nada. Vamos ver o cofre.
O advogado, Durval e o policial acompanharam Jos at o escritrio. O cofre no havia
sido violado.
-- Pode ser que tenham obrigado o Sr. Osvaldo a abri-lo disse o policial.
-- Pode. Mas no teriam o cuidado de fech-lo novamente nem de colocar o quadro no
lugar -- disse Durval.
Eles levaram apenas os dois comentou Felisberto.
-- Ento no foi um assalto, mas um seqestro. Vamos avisar o grupo anti-seqestro e
esperar que os bandidos se comuniquem pedindo o resgate -- considerou o policial.
-- Para mim trata-se de uma vingana -- disse Durval. -- Nesse caso, a vida deles corre
perigo. Esperar pode ser fatal. Temos de agir depressa.
Baseado em que diz isso? -- perguntou o delegado, que havia se aproximado.
--  uma longa histria, doutor. Vou lhe contar.
Durval em poucas palavras contou o que sabia. O delegado ouviu com ateno.
341
-- De fato,  uma hiptese. Vamos  delegacia tomar providncias. Dois homens ficaro
aqui para o caso de eles se comunicarem.
Felisberto e Durval acompanharam o trabalho policial. Para o sucesso das investigaes, o
delegado pediu sigilo.
-- Precisamos falar com a me do menino -- disse Felisberto, preocupado.
--  melhor esperar mais um pouco. No vamos tomar nenhuma providncia antes de falar
com o chefe da diviso especial.
Durval deu o nome e endereo de Vlter.
-- No vou prend-lo agora. Vamos vigi-lo. Se tiver alguma coisa a ver com o caso, nos
dar a pista.
No estreito aposento em que estavam confinados, Osvaldo e Carlinhos continuavam
sentados no cho, abraados.
-- Ainda est escuro tornou Carlinhos.
-- O dia j amanheceu, mas daqui no podemos ver.
J devem ter dado pela nossa falta. O que vai acontecer?
-- Talvez avisem Durval ou o Dr. Felisberto. Eles sabero o que fazer.
-- Pai, estou com medo.
-- Vamos continuar rezando, meu filho. A fora do mal  menor que a do bem. Ns
estamos do lado mais forte.
-- Espero que seja assim..
O tempo foi passando. Um dos seqestradores abriu a porta, colocou um pacote no cho e
uma garrafa de gua. Fechou a porta de novo sem dizer nada.
Osvaldo apanhou o pacote. Continha um filo de po.
--Voc deve estar com fome.
-- No, pai. Meu estmago est embrulhado. Este cheiro  horrvel. Essa privada ao lado
cheira mal.
Osvaldo levantou-se tateando, tentando descobrir os objetos que havia l. Lembrou-se de
que tinha fsforos no bolso. Acendeu um e olhou em volta. Havia alguns caixotes velhos,
uma mesa tosca a um canto e muita poeira.
Osvaldo pegou os caixotes e colocou-os em frente da privada, tentando isol-la.
-- Se ao menos tivssemos uma vela -- disse ele.
-- Este lugar  horrvel!
Osvaldo sentou-se novamente ao lado do filho. Dividiu o po ao meio e deu-o a ele,
dizendo:
342
-- Vamos comer. Temos de conservar as foras. Ns vamos sair daqui, voc vai ver.
Carlinhos pegou o po sem vontade.
-- Coma, Carlinhos. No est ruim,  fresco.
Ele obedeceu. Depois de comer, diminuiu o enjo.
-- Vamos procurar descansar, poupar nossas foras.
Estenderam-se no cho. Osvaldo segurou a mo do filho para dar lhe coragem. Eles no
podiam fazer nada seno esperar.
343
Captulo 28
Clara chegou em casa no fim da tarde. Pouco depois recebeu a visita de Felisberto e Durval.
Surpreendida, mandou-os entrar. Uma vez na sala, Durval disse srio:
-- Dona Clara, precisamos conversar.
-- Aconteceu alguma coisa?
-- Infelizmente aconteceu -- tornou Felisberto.
Clara levantou-se nervosa:
-- Meu filho viajou com Osvaldo. Aconteceu algum acidente?
-- No. Mas, a casa do Sr. Osvaldo foi assaltada e eles levaram os dois -- respondeu o
advogado.
-- Meu Deus! Levaram como?
Rita apoiou Clara, que cambaleou.
-- Calma, Clara. Vamos ouvir.
-- Por favor, digam o que aconteceu.
Ele contaram tudo, e Clara deixou-se cair no sof transtornada.
-- Quero ir  polcia, falar com o delegado. Isso no pode ter acontecido com eles.
-- O delegado vai mandar um investigador aqui para conversar com todos da casa. Eles
querem guardar sigilo por enquanto para no prejudicar as investigaes. Na delegacia h
reprteres.
Rita suspeitou de Vlter, ms no quis dizer. Perguntou apenas:
-- Os ladres levaram muita coisa?
-- Nada. Apenas os dois -- esclareceu o detetive. -- Suspeito que Vlter esteja metido
nisso.
Clara deu um salto.
-- No pode ser. Ele no faria isso! Se fosse s Osvaldo eu at poderia acreditar. Mas levar
Carlinhos... isso no.
344
-- Suspeitamos que eles o tenham levado por fora das circunstncias. O rapaz acordou,
viu-os e ficaram com medo. Ao que tudo indica, ele nem teve tempo para se vestir. As
roupas dele ficaram em cima da cadeira.
Clara, apavorada, olhou para Rita.
-- O que vamos fazer? Meu Deus! Carlinhos e Osvaldo na mo de bandidos.
-- Eles vo pedir dinheiro para solt-los -- disse Felisberto tentando acalm-las. --
Estamos atentos.
-- Temos de estar preparados. Precisaremos arranjar o dinheiro-- disse Clara aflita.
-- No se preocupe, Dona Clara. Tenho como fazer isso -- esclareceu Felisberto.
-- Meu Deus! O que faremos enquanto isso? Carlinhos pode estar com frio, passando
fome, apavorado.
-- Vamos rezar, Clara. E o que podemos fazer. Deus no vai nos desamparar.
-- Um investigador vai ficar aqui e eu vou deixar um dos meus homens tambm -- disse
Durval. -- Tenho algumas suspeitas. Vou investigar.
-- Tome cuidado--aconselhou Felisberto. -- A polcia no quer ningum no caso.
-- Tenho minhas suspeitas e no vou esperar. Sei fazer as coisas. Fique tranqilo.
Durval saiu com Felisberto, que foi  casa de Osvaldo consolar Rosa e Jos e esperar
alguma notcia.
Comeou para eles o tempo terrvel da espera. Rita tratou de ligar para Ldia pedindo ajuda
espiritual. Clara andava de um lado para o outro inquieta. Marcos chegou na hora do
almoo e juntou-se a elas nervoso.
As horas passavam, e nada. Nenhum telefonema. Antnio no foi ao stio porque tinha
servio a fazer na cidade. No fim da tarde, ligou para o stio. Precisava falar com Osvaldo.
Marta atendeu e informou que eles ainda no haviam chegado.
-- Como no? Ele me disse que iria bem cedo.
-- Mas no veio. Talvez tenha resolvido vir amanh.
Antnio desligou o telefone preocupado. Ligou para casa de Osvaldo e Jos contou-lhe o
que havia acontecido, pedindo-lhe segredo.
Antnio foi at l e informou-se dos detalhes. No se conformava. Ficou tambm  espera,
mas nenhuma notcia chegava.
345
Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
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Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
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-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
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-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
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-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
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Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
Passava das oito quando Antnio decidiu ir para casa, depois de pedir que o informassem a
qualquer hora, se tivessem alguma notcia.
Em casa, resolveu no contar  me o que estava ocorrendo. Seria melhor esperar pela
manh seguinte. Pelo menos ela dormiria em paz, uma vez que ele no iria conseguir pregar
olho.
Por insistncia de Rita e at dos dois investigadores, que prometeram avis-la a qualquer
notcia, Clara foi para o quarto, estendeu-se na cama mesmo vestida e Marcos deitou-se a
seu lado.
-- Me, o que ser que est acontecendo com eles?
-- No sei. Isso est me matando.
Puxa, Carlinhos quis ir com papai por causa de Liliana. Ele est gostando dela. Deve estar
arrependido de ter ido.
-- Ningum poderia prever uma coisa dessas. Ele deve estar apavorado.
-- Papai  corajoso. Deve estar ajudando-o.
Clara suspirou aflita.
-- Meu Deus! Ningum telefona.
-- Durval disse que eles demoram para dar notcias de propsito Assim a famlia paga o
que pedirem.
-- No sei o que dizer.
Marcos ficou calado alguns segundos, depois disse:
--Se Carlinhos no tivesse ido, s papai teria sido seqestrado.
Clara no respondeu. Pensou em Osvaldo, nos encontros que tivera com ele, na maneira
como ele a olhava, como ele estava bonito, elegante. Seus olhos encheram-se de lgrimas.
No queria que nada de mau acontecesse a ele.
--Me, Durval acredita que pode ser coisa de Vlter. O que voc acha?
Arrancada de seus devaneios, Clara estremeceu.
-- Ele no seria capaz disso.
-- Eu penso que seria. Ele odeia papai.
-- Mas no teria coragem de levar Carlinhos. Ele tem a pretenso de me conquistar. Essa
seria a pior coisa que poderia fazer.
-- Mas voc ouviu Durval. Carlinhos acordou, surpreendeu-os. Acabou tendo de ser levado
junto.
-- Voc acha mesmo?
-- Se ele foi capaz de apontar uma arma para voc, que ele diz que ama, pode muito bem
ter feito isso. Aquele sujeito  capaz de tudo.
--Durval tambm acha.
346
-- Se foi ele, ser pior. Ele no faria por dinheiro. Nesse caso, pode tentar alguma coisa
contra Osvaldo.
Clara sentou-se na cama nervosa. Marcos arrependeu-se de haver sugerido isso. Tentou
disfarar.
-- So suposies. Vai ver que no foi nada disso. Logo vo telefonar, entregamos o
dinheiro e eles estaro de volta.
-- Deus queira, meu filho.
-- Voc precisa descansar. Deite-se e tente dormir um pouco.
Clara deitou-se e fechou os olhos. Sabia que no conseguiria dormir. O rosto querido de
Carlos no saa de sua lembrana. Seu sorriso, sua alegria, seu carinho... Sentia o corao
apertado e o tempo parecia no passar.
Deitados no cho duro, Osvaldo e Carlinhos continuavam presos na sala escura. Osvaldo
ouviu vozes, mas o som chegava baixo e ele no conseguiu entender o que diziam. Por
baixo da porta passava um pouco de luz. Levantou-se procurando no fazer rudo, encostou
o ouvido na porta. Ouviu:
-- No estou gostando nada da mudana de planos.
-- Eu tambm no.
-- Vlter ficou cheio de dedos por causa do garoto. A me deles no precisa saber quem
fez o servio.
-- Mas ele pode se vingar, nos denunciar.
-- S se for muito burro. No se esquea de que a idia foi dele.
-- Bom, isso .
-- No acho, prudente esperar, ficar aqui. Eles podem ter dado queixa  polcia. 
madrugada. Vamos acabar com eles e pronto. Ningum vai ver.
Osvaldo recuou horrorizado. Precisava fazer alguma coisa. Acendeu um fsforo e olhou em
volta  procura de algo com que se defende, mas no encontrou nada.
Carlinhos, vencido pelo cansao, havia adormecido. Acordou-o dizendo baixinho:
-- Levante-se.
Ele acordou, e nesse instante Berto abria a porta.
-- Vamos dar um passeio -- disse.
Enquanto isso, Neco tirou dois lenos escuros, vedou os olhos dos prisioneiros e amarrou
suas mos com uma corda.
-- Vamos andando -- disse Neco conduzindo-os pelo brao.
Abriu o porta-malas, mas fechou imediatamente ao ver o farol de um carro se aproximando.
347
Empurraram os dois prisioneiros rapidamente para dentro da casa.
Berto ficou do lado de fora. O carro parou diante do porto. Ele reconheceu Vlter e foi
abrir.
-- Voc me pregou um susto! O que faz aqui uma hora destas?
-- Fiquei de vir antes, mas tive medo de ser seguido. Notei um tipo suspeito perto de minha
casa.
-- No deveria ter vindo. Tem certeza de que no o seguiram?
-- Tenho. Tomei muito cuidado. O que estava fazendo aqui fora?
-- Tomando ar.
-- Vamos entrar.
Quando entraram, Vlter viu os dois de olhos vendados e desconfiou. Disse baixinho:
-- Por que eles no esto presos?
-- Por que decidi fazer diferente. Voc est pondo em risco nossas vidas e no posso
admitir.
Encostou o revlver no peito de Vlter, dizendo:
-- Vamos, entre ali.
-- Voc no pode fazer isso comigo. No combinamos de pegar o dinheiro?
-- Sinto que as coisas esto mal paradas. No vou esperar. Voc vai entrar l e esfriar a
cabea.
Osvaldo se mexeu e Neco encostou a arma na cabea dele, dizendo:
-- Se tentar alguma coisa, eu atiro.
Carlinhos interveio assustado:
-- Pai, cuidado. No faa nada!
Osvaldo conteve-se. Eles trancaram Vlter no pequeno quarto. Berto ordenou:
-- Vamos embora rpido. Isso est demorando demais.
Obrigaram os dois a entrar no porta-malas. Neco foi dirigindo.
Osvaldo ouviu distintamente Berto dizer:
-- Vamos para bem longe daqui.
-- Pai, para onde esto nos levando? O que vo fazer?-- perguntou Carlinhos baixinho.
Osvaldo sabia mas no teve coragem de dizer.
-- Vamos rezar, meu filho.  hora de manter a f.
Osvaldo pensou em Alberto e pediu ajuda. Se eles tivessem de morrer, que fossem
amparados pelos amigos espirituais.
-- Se ao menos eu pudesse soltar as mos -- disse Osvaldo.
348
Eles haviam sido colocados no porta-malas de forma que a cabea de um ficava nos ps do
outro. Carlinhos pediu:
-- Estique os braos o mais que puder. Vou ver se consigo desatar seus ns com os dentes.
Osvaldo obedeceu e Carlinhos curvou-se at alcanar os pulsos do pai. Ento comeou a
tentar desatar o n com os dentes. O carro sacudia e no era nada fcil. Seus lbios ardiam,
mas ele continuou. Quando conseguiu desatar uma parte, Osvaldo liberou as mos.
-- Agora vou soltar voc.
Eles conseguiram e tiraram as vendas.
-- Temos de estar preparados quando abrirem o porta-malas -- disse Osvaldo. -- Eu saio
na frente.
-- Tome cuidado, pai.
O carro parou. Neco abriu o porta-malas. Osvaldo deu violento soco na mo dele e a arma
caiu longe.
Berto, que estava olhando o lugar para ver se era adequado, voltou-se rpido:
-- O que foi?
Osvaldo, aproveitando que Neco estava desarmado e surpreso, deu-lhe violento soco no
rosto e ele caiu.
-- V, Carlinhos, corra para o mato.
Berto estava na sua frente com a arma apontada:
-- Ele no vai a nenhum lugar. Vocs vo ter o que merecem.
Osvaldo, percebendo que ele ia atirar, pulou em cima dele segurando seu pulso, tentando
faz-lo largar a arma.
-- V, Carlinhos, corra.
O menino obedeceu. Viu a arma de Neco no meio da estrada e chutou-a para bem longe.
Depois, embrenhou-se no mato, mas no quis se afastar muito.
Ouviu dois tiros e estremeceu. Depois a voz de Berto gritando:
-- Vamos peg-lo. No deve estar longe. No pode escapar. As lgrimas corriam pelo rosto
de Carlinhos. Aqueles tiros o faziam crer que seu pai estava morto. Precisava fugir.
Comeou a correr mato adentro em busca de socorro. A noite era de lua mas, seja pelo
nervoso ou pelo medo, ele no conseguia divisar o caminho.
Sentiu-se mal. Pensou:
"Eu vou desmaiar e eles vo me matar."
Tentou reagir, mas sua vista toldou-se e ele perdeu os sentidos, rolando o barranco.
349
Quando acordou, pouco depois. Seu corpo doa, sua boca ardia. Ele se sentou. O que teria
acontecido?
Lembrou-se de repente. Precisava procurar pelo pai. Era possvel que estivesse morto.
O barranco era ngreme, mas Carlinhos subiu quase se arrastando, segurando nos arbustos.
O dia estava clareando. Chegou  estrada e no viu nada. Eles teriam levado Osvaldo?
Comeou a procurar. Eles queriam mat-lo. No o levariam de volta. Andou por ali
olhando nas encostas. Finalmente viu Osvaldo. Eles o haviam atirado em um barranco e o
corpo ficara preso a um arbusto logo no comeo.
Soluando desesperado, Carlinhos foi at ele e debruou-se sobre seu corpo. Sentiu que ele
estava respirando.
-- Ele est vivo!
O sangue empapara a camisa e Carlinhos abriu-a para ver de onde saa. O ferimento era na
cintura. Ele tirou a prpria camisa e amarrou-a fortemente na cintura de Osvaldo, tentando
estancar o sangue.
Precisava buscar socorro, mas no queria deixar o pai sozinho. No tinha tempo a perder.
Foi para a estrada, rezando para que aparecesse algum.
Naquele instante pensou em Alberto e pediu ajuda. Mesmo andando de um lado para o
outro da estrada, fez um apelo aflito aos espritos. Naquele instante apareceu um furgo.
Carlinhos fez gestos desesperados e ele parou.
-- Por favor, fomos assaltados. Meu pai est ferido no barranco. Ajude-nos, pelo amor de
Deus!
O homem desceu logo e Carlinhos levou-o para ver Osvaldo.
-- Ele est mal. Acho que no vai agentar a viagem.  melhor eu ir buscar uma
ambulncia.
-- Por favor, no nos abandone.
-- Calma. No vou abandon-los. Vou buscar socorro. Meu furgo est cheio de
mercadoria. Ele no vai ficar bem acomodado sacudindo l dentro. Fique aqui e espere.
Logo o socorro vai chegar.
De corao apertado, Carlinhos viu-o afastar-se. Osvaldo, plido, respirava com
dificuldade. Se no viessem logo, ele poderia morrer. As lgrimas corriam pelo rosto de
Carlinhos enquanto ele ia e vinha da estrada ao lugar onde estava o pai, inquieto.
Finalmente a ambulncia chegou e com ela uma viatura policial.
Osvaldo foi colocado na maca e recebeu os primeiros-socorros. Carlinhos no queria
separar-se do pai, mas o policial no deixou:
350
-- Voc vai conosco, contando o que aconteceu. Ns vamos juntos ao hospital.
O telefone tocou na casa de Clara e o policial atendeu. No mesmo instante, Clara e Marcos
estavam ao lado dele ansiosos.
-- Sim, ela est aqui. Fale com ela. -- E, voltando-se para Clara:
-- seu filho.
Clara pegou o telefone. Sua voz tremia:
-- Filho. O que aconteceu?
-- Me. Estamos no hospital. Papai est ferido. Venha logo.
-- Eu vou j. Diga o endereo.
Ela estava to nervosa que no conseguia entender. O policial tomou o telefone. Do outro
lado, a atendente do hospital forneceu o endereo, porque Carlinhos mal conseguia falar.
-- Vamos, vou levar vocs l -- disse o policial.
Meia hora depois, Clara chegou com Marcos e o policial. Foram conduzidos  sala onde
estava Carlinhos. Vendo-os, atirou-se nos braos da me, soluando.
Filho, voc est ferido!
-- Eu estou bem. Papai  que est mal. Quero ficar com ele!
A enfermeira explicou:
-- Ele est sendo atendido pelos mdicos. Temos de esperar.
-- Como ele est? -- indagou Clara.
-- Ainda no sabemos. Precisamos aguardar.
-- Ele est mal, me. Perdeu muito sangue. Ele se arriscou para me salvar.
Clara abraou Carlinhos.
--Calma, meu filho. Ele est sendo medicado. Vamos rezar para que fique bom.
A enfermeira aproximou-se.
-- A senhora  esposa do paciente?
Clara hesitou, mas respondeu:
-- Sim.
-- Precisa me acompanhar para preencher a ficha.
Clara estava atordoada.
-- Tem de ser agora?
--  melhor.
Marcos interveio:
-- Meu pai tem um procurador que cuida de tudo. Vou avis-lo.
Marcos ligou para Felisberto, que imediatamente se dirigiu ao hospital.
351
Chegou com Durval. Enquanto o advogado cuidava da internao, Durval foi ao encontro
de Carlinhos na outra sala. Com voz trmula, o jovem relatou o que havia acontecido e
finalizou:
-- Temos de falar com o mdico. Papai no pode morrer! Aqueles homens iam nos matar.
Se no fosse a coragem dele, eu no estaria aqui.
Clara abraava Carlinhos tentando acalm-lo, mas sentia o corao oprimido.
-- Fui me informar. Seu pai est em boas mos. Os mdicos aqui so excelentes disse
Durval.
-- Como ele est? Soube de alguma coisa? -- perguntou Carlinhos aflito.
--Ainda no. Mas vamos pensar no melhor. Voc conhecia aqueles homens?
--No. Estavam encapuzados. Mas ouvimos um terceiro conversando com eles. A voz era
conhecida. Papai comentou isso.
-- Voc acha que pode ser Vlter?
-- No tenho certeza. Mas ele tentou evitar que nos levassem. Desentenderam-se e depois o
levaram para dentro da casa. Acho que o deixaram preso l.
-- Vamos investigar.
Quando Felisberto entrou na sala, Durval chamou-o em um canto e disse:
-- Acho que minhas suspeitas eram reais. Havia um terceiro homem cuja voz era familiar a
Osvaldo. Brigaram e prenderam-no na casa onde se esconderam. Ainda deve estar l. Vou
ver se o encontro.
-- Vai agora?
-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


-- Sim. Eles pensaram que Osvaldo estava morto e foram embora. Quando souberem que
est vivo, vo ficar com medo e querer acabar o servio. Temos de evitar isso.
O mdico apareceu na porta e todos o fixaram preocupados.
-- E ento, doutor, como est meu pai? -- indagou Carlinhos.
-- Fizemos o possvel. Ele levou dois tiros. Um na coxa, outro no pncreas. Foi necessria
uma cirurgia muito delicada. Ele est fraco, perdeu muito sangue. Estamos fazendo uma
transfuso.
-- Por favor, doutor, salve meu pai! -- implorou Carlinhos.
-- Faa o que for preciso, mas salve-o -- pediu Marcos com os olhos cheios de lgrimas.
Clara, plida, no conseguia dizer nada. Olhava assustada, e por fim perguntou:


352


-- Ele vai se recuperar?
--  cedo para dizer. Por enquanto temos de esperar.
-- Podemos v-lo? -- indagou Marcos.
-- Ele est sob efeito de anestesia. Melhor deix-lo descansar. O enfermeiro est cuidando
dele.
-- Mas eu quero v-lo -- insistiu Carlinhos. -- No agento ficar aqui fora esperando.
-- Ele est na UTI. O enfermeiro precisa estar atento.  melhor que fique s com o
paciente. Por que no descansa um pouco? Voc est precisando, depois do que passou.
-- Enquanto ele no melhorar, no saio daqui. Vou ficar na porta da UTI at ele acordar.
Rita apareceu no corredor assustada. Abraou Clara e perguntou:
-- Como est ele?
-- Ainda no sabemos. Foi operado, temos de esperar. Perdeu muito sangue e est fraco.
Felisberto conseguiu um quarto particular, com duas camas, e conduziu-os para l.
-- Carlinhos precisa descansar. O mdico que o examinou receitou um calmante explicou
ele discretamente a Clara.
A enfermeira entrou, mandou Carlinhos tomar um banho e vestir roupa limpa do hospital.
Depois obrigou-o a deitar-se e deu-lhe um comprimido.
--Vou ficar l fora. Tratem de descansar. Se houver novidade, eu avisarei.
Clara e Marcos estenderam-se na outra cama. Rita sentou-se ao lado da cama de Carlinhos
e comeou para eles a espera.
No momento em que Berto e Neco o prenderam no pequeno quarto escuro, Vlter
arrependeu-se de ter entrado naquela aventura.
Tinha de impedir a todo custo que matassem Carlinhos. Tentou arrombar a porta, mas no
conseguiu. Machucou a mo em uma farpa de madeira e praguejou nervoso.
Nunca deveria ter confiado em Berto. Ele s fazia o que queria, no ouvia ningum. E se
eles no voltassem para libert-lo, como sairia dali?
As horas passavam e eles no apareciam. Vlter daria tudo para saber o que estava
acontecendo.
353
Naquele momento, Berto e Neco estavam bem longe, rumo ao sul. Tinham pegado o
dinheiro que havia no bolso de Osvaldo.
-- Tem certeza de que ele estava morto? -- indagou Berto.
-- Tenho. Esse no incomoda mais ningum.
--No sei como  que voc pode ser to mole. No amarrou a mo deles direito e depois
ainda perdeu a arma.
-- Eu no esperava aquele ataque. O cara tem parte com o diabo. Como  que se livrou
daquelas cordas?
-- Voc que  frouxo.
Estou pensando no rapaz. Voc no devia desistir de peg-lo.
-- No gosto de correr riscos. Aquele carro passou bem na hora que jogamos o corpo no
barranco.
-- Eles no viram nada, tenho certeza. Quando passaram, j estvamos voltando.
-- Por via das dvidas, foi melhor vir embora. Temos de aproveitar enquanto eles no
descobrem o corpo. Hoje mesmo chegaremos a Foz do Iguau. Atravessamos a ponte e
pronto. Vendemos o carro no Paraguai. Ficamos por l um tempo. Assuno  uma cidade
tima. Podemos arranjar muitos bicos interessantes. Tenho alguns amigos l.
-- Quanto acha que pegamos por este carro?
--  novo e de luxo. Claro que ter de ser menos do que vale. Mas isso  assim mesmo.
Pelo menos estamos livres e com dinheiro.
-- Vlter deve estar furioso.
-- Que nada. Fizemos o que ele queria, O caminho agora est livre para ele.  por isso que
no gosto de me amarrar em mulher. O cara desgraou a vida por causa dela.
-- Pois eu gosto. Minha viva vai achar falta de mim.
Os dois riram satisfeitos. Estavam acostumados a viver de expedientes. Para eles era uma
aventura excitante.
Durval havia colocado um homem perto da casa de Vlter  espera e depois foi  delegacia.
O delegado era seu amigo e costumavam trocar idias sobre os casos. Estavam conversando
quando o telefone tocou e um investigador atendeu.
Imediatamente anotou e foi ter com o delegado.
-- Algum que no se identificou ligou para dizer que h um carro suspeito parado na
periferia, aberto. Parece carro roubado. Deu o nmero da chapa.
Durval olhou e reconheceu:
--  o carro de Vlter, o suspeito de que lhe falei. Vamos at l.
354
A viatura saiu e Durval acompanhou-os. O carro estava com os vidros abertos, mal
estacionados em frente ao muro de uma casa que parecia abandonada. Revistaram o carro e
s encontraram alguns jornais.
Olharam em volta. Durval bateu no porto e ningum atendeu.
Alguns curiosos apareceram.
-- No adianta bater. A no mora ningum.  um depsito no sei de qu. De vez em
quando aparece um homem, mas no mora a.
O porto estava preso s com o trinco. Um policial tirou a arma e entrou, enquanto o outro
ficava do lado de fora. Durval entrou com ele.
A sala estava vazia, mas havia vestgios de comida. Algum estivera l recentemente.
Havia outra porta fechada, com a chave do lado de fora. Abriram-na e encontraram Vlter
encolhido em um canto, tentando esconder-se.
-- O que aconteceu com voc? Por que o prenderam a? -- indagou o policial.
-- Fui assaltado -- mentiu ele. -- Os ladres levaram todo o meu dinheiro.
-- O carro que est l fora  seu?
-- .
-- Voc vai nos acompanhar at a delegacia.
-- Mas eu no quero dar queixa. Tenho medo de represlia.
Tendo reconhecido Durval, ele queria escapar.
-- Voc ter de ir conosco -- tornou o policial.
Uma vez na delegacia, depois de revistado, foi levado a uma sala onde o prprio delegado o
interrogou. Ele negou qualquer participao no seqestro de Osvaldo.
Mas Durval, que assistiu calado ao interrogatrio, a um sinal do delegado interveio:
-- No adianta negar, Vlter. Temos seguido voc todos estes dias e sabemos que os dois
seqestradores so seus amigos. Se no der o nome deles, voc vai responder sozinho por
esses crimes.
-- Crimes? No tenho nada a ver com a morte de Carlinhos nem de Osvaldo.
-- Como sabe que os dois estavam juntos?
Vlter engasgou e percebeu que no tinha como engan-los. Assustado, comeou a chorar,
gritando:
-- Eu no queria que eles matassem ningum. Mas Carlinhos apareceu. Era s para dar um
susto em Osvaldo. No era para mat-lo. Eu disse para Berto...
Depois da crise de choro e de desespero, Vlter contou tudo.
355
Imediatamente a polcia levantou a ficha dos outros dois, que j tinham algumas passagens
pela delegacia. Mandou a foto para todos os distritos para que se iniciasse a busca.
No hospital, Clara e os filhos continuavam esperando que Osvaldo melhorasse. O mdico
dissera que ele no estava reagindo e continuava inconsciente. O caso tanto poderia evoluir
para cura como para o coma e a morte.
Clara, muito abalada, no continha as lgrimas. Rita fazia o possvel para consol-la e
tambm aos dois rapazes. Depois do almoo, foi para casa buscar roupas para eles.
Clara, recostada na cama, esperava calada. Os dois rapazes foram andar um pouco pelo
jardim do hospital. Algum bateu levemente na porta e Clara mandou entrar.
Antnio apareceu na porta. Atrs dele vinha Neusa. Clara sentou-se na cama assustada. No
estava com disposio de ouvir desaforos.
-- Desculpe, Clara, termos vindo incomod-la, mas s agora ficamos sabendo o que
aconteceu. Carlinhos est bem?
Neusa aproximou-se dela chorando.
-- Clara, como foi acontecer uma coisa dessas com eles? Meu Deus! Estou agoniada. Logo
agora que tudo estava indo to bem...
Apesar da antipatia que sentia pela sogra, Clara ficou penalizada. Tambm era me e podia
avaliar o que Neusa estava sentindo.
-- Carlinhos est bem -- respondeu. -- Temos de rezar para Osvaldo melhorar.
Neusa fixou nela os olhos cheios de lgrimas.
-- Disseram que ele est muito mal. Eu gostaria de rezar, mas veja... -- Estendeu para ela
as mos trmulas. -- Estou tremendo. Sinto uma dor no peito. Nunca pensei que isso
pudesse acontecer.
Clara segurou suas mos e f-la sentar-se a seu lado na cama.
-- Vamos esperar pelo melhor. Ele vai reagir, ficar bom. Vamos conservar a f.
Antnio, plido, olhos vermelhos, olhava aflito.
-- Sente-se, Antnio.
-- No consigo ficar parado.
-- Os meninos tambm no. Foram andar no jardim.
-- Vou falar com eles. Posso deixar minha me com voc?
-- Pode.
Clara colocou gua com acar em um copo e deu-o a Neusa.
-- Beba, Dona Neusa. A senhora est plida. E melhor estender-se na cama.
356
Neusa olhou admirada para Clara. Parecia estar vendo a nora pela primeira vez. Sua cabea
estava atordoada e seu peito, oprimido. Estendeu-se na cama, suspirando:
-- Como pde acontecer uma coisa dessas?
-- O que importa agora  que Osvaldo melhore.
De repente ela comeou a soluar e Clara, preocupada, sentou-se na beira da cama,
dizendo:
-- Sei que  difcil, mas o desespero s vai arruinar sua sade. Procure se acalmar.
-- Eu fui culpada de tudo. Eu permiti que aquele canalha freqentasse minha casa e
desgraasse nossa famlia.
Clara estremeceu. No queria falar no passado. Ela continuou:
-- Nunca me senti bem ao lado dele. Eu sentia que no era boa coisa. Mas fui ambiciosa,
interesseira. No acreditava Antnio capaz de arranjar um bom emprego e nos sustentar.
Vlter arranjou emprego, protegeu Antnio, eu fechei os olhos. Mas eu sentia que ele no
prestava. No me enganei quanto a ele, mas quanto a Antnio eu estava enganada: ele 
capaz, trabalhador, honesto. No precisava da proteo daquele marginal. Eu infelicitei
Osvaldo, dei-o para Ester criar, e ele ficou sentido. Mas eu no sabia o que sei agora. Juro
que se fosse hoje eu nunca teria feito isso. Eu teria criado os dois filhos, porque meu amor
me daria foras. Eu teria expulsado Vlter de casa e ele nunca teria iludido voc. Eu fui a
nica culpada, Clara. Agora estou sendo castigada. Deus me permitiu conhecer a verdade,
mas est me punindo tirando meu filho.
Clara, emocionada, segurou a mo dela, dizendo:
-- Isso no  verdade. Deus no pune ningum. A senhora no tem culpa de nada. Eu  que
me iludi, errei, estou pagando pelo meu erro. O peso da culpa  terrvel. A senhora no
pode carregar isso no corao.
--  s no que eu penso. Por isso tenho tanto medo. Deus vai me castigar.
-- No creio.
Algum bateu levemente na porta, e Clara foi abrir. Ldia abraou-a com carinho.
-- Que bom que veio!
-- Rita me contou. Como est ele?
-- Por enquanto na mesma.
-- Vamos confiar, minha filha.
-- Entre, Dona Ldia. Venha conhecer a me de Osvaldo.
357
Neusa tentou conter o choro e limpou o rosto com a ponta do lenol.
-- Dona Ldia  uma amiga muito querida. Veio nos ajudar. Ldia aproximou-se da cama e
pegou a mo que Neusa lhe estendia, mantendo-a entre as suas.
Sempre desejei conhec-la. Osvaldo me falou muito bem da senhora.
Obrigada. Desculpe, mas ainda estou muito chocada com o que aconteceu.
-- Compreendo. Mas Deus est nos ajudando. Vamos confiar. Antnio e os rapazes
entraram no quarto. Depois de cumprimentarem Ldia, Carlinhos pediu:
-- Dona Ldia, a senhora, que  to boa, pea a Deus para salvar meu pai. Vivemos tanto
tempo separados. No queremos perd-lo de novo.
-- Vamos orar juntos.
Ela pediu a todos que se dessem as mos e proferiu comovida prece pedindo calma e ajuda
para todos. Quando terminou, Clara respirou aliviada. Ldia olhou-os com ternura e disse:
-- Osvaldo precisa da nossa ajuda. Vamos todos manter o otimismo. O medo, o desespero
s atrapalham. Vamos envolver nosso doente com pensamentos de luz, recuperao. Agora
 hora de confiar, de ter f, de esperar o melhor.
-- Dona Ldia tem razo -- disse Marcos. -- Papai sempre nos ensinou que o pensamento
positivo com a f fazem milagres.
Depois que Ldia se foi, Antnio tornou:
-- Vamos para casa, me. A senhora precisa descansar. Eu voltarei e ficarei aqui.
-- De jeito nenhum. Daqui no saio.
-- Mas Clara e os rapazes precisam descansar. Vov pode ficar -- disse Carlinhos. -- Eu e
Marcos dormimos em qualquer lugar.
Neusa interveio:
--  noite vou para outro lugar. Mas quero ficar no hospital.
-- A senhora fica aqui comigo -- decidiu Clara com firmeza. --  hora de ficarmos todos
juntos.
Os dois rapazes trocaram olhares admirados e Clara fingiu que no viu. Antnio sorriu
levemente e respondeu:
-- Eu tambm acho que temos de nos unir. Afinal ns somos uma famlia.
358
Quando anoiteceu, Antnio e os dois rapazes foram comer na lanchonete. Neusa no quis ir
e Clara tambm no. Pediu que lhes trouxessem um lanche.
Quando eles saram, Neusa, ainda estendida na cama, considerou:
-- Voc deve ter muita raiva de mim.
Apanhada de surpresa, Clara no respondeu logo, e ela continuou:
-- Eu sei. Fui muito impertinente. No que agora eu tenha me tornado uma santa. s vezes
sinto vontade de brigar, de me meter nas coisas dos outros, mas procuro me conter. Osvaldo
me ensinou muito. Agora eu quero ser bondosa, porque descobri que fico muito alegre
quando fao alguma coisa boa para algum.
-- De fato, a bondade traz alegria, felicidade.
-- Sabe, Clara, eu fui muito implicante com voc. Se fosse hoje, eu faria tudo diferente.
Por isso, gostaria muito que voc esquecesse as coisas que eu disse e fiz. Sei que agora 
tarde, que voc est separada de Osvaldo, mas continua sendo a me dos meus netos.
Gostaria que no tivesse mais raiva de mim por causa do que passou.
Clara olhou admirada para ela. Nunca imaginou que Neusa pudesse lhe dizer aquilo.
-- De fato, reconheo que ns no nos demos bem no passado. Mas parece-me que a
senhora mudou. Eu tambm mudei. Meus filhos gostam da senhora. Seria muito bom que
pudssemos conviver em paz.
-- Quer dizer que vai esquecer o que lhe fiz?
-- Sim. O que a senhora fez no foi to grave como o que eu fiz. Tenho conscincia da
minha culpa. No vou pedir que me perdoe porque sei que  impossvel. Mas aceito a paz
que me oferece.
-- Tenho pensado muito no passado. Cheguei  concluso de que no tenho condies de
julgar nem condenar ningum. Eu gostaria muito se pudssemos apagar o que aconteceu e
voltar a sermos uma famlia. Voc com Osvaldo e os rapazes.
Clara estremeceu.Ficou calada por alguns segundos, depois respondeu:
-- Eu tambm gostaria. Se eu pudesse voltar atrs, nunca teria feito o que fiz. Mas agora 
tarde. Osvaldo nunca me perdoar.
-- No tenha tanta certeza. Ele est muito mudado. Mas mesmo nos piores momentos
nunca condenou voc.
-- Ele  muito generoso. Mas, mesmo que ele me perdoe, eu nunca me perdoarei.
Neusa olhou surpreendida para ela. No imaginava que Clara estivesse to arrependida.
359
-- O arrependimento di muito. Mas o passado no volta. Eu me arrependo de muitas
coisas. Osvaldo me aconselhou a esquecer. Disse que o arrependimento serve para nos
motivar a no repetir a mesma coisa.
-- Ele est certo.
As duas continuaram conversando. Pela primeira vez desde que se conheceram, falavam
com sinceridade sobre seus sentimentos. Assim acabaram descobrindo que, apesar dos
antigos desentendimentos, tinham muitos pontos em comum.
Captulo 29
Era madrugada. Clara deitara-se vestida e, vencida pelo cansao, adormecera. Sonhou que
estava sentada no jardim do hospital e viu Osvaldo aproximar-se.
Ele se sentou a seu lado. Estava muito abatido e havia tanta tristeza em seu rosto que Clara
se assustou.
-- Osvaldo! Voc ainda no pode se levantar!
Ele no respondeu. Seus olhos estavam apticos, imveis. Clara continuou:
-- Osvaldo, voc tem de reagir. No pode ficar desse jeito! Nossos filhos esto
desesperados.
Ele estremeceu. Por seus olhos passou um lampejo de emoo.
--De que me vale viver sem voc? De que me vale voltar para sufocar este amor que nunca
me deixou?  melhor eu partir. Assim, voc ficar livre.
Clara sentiu que as lgrimas molhavam suas faces.
--  possvel que continue me amando depois de tudo?
-- Esse tem sido meu segredo. Mas estou muito cansado. Estou sem coragem de retornar.
-- No diga isso. Voc tem de viver!
Ele se levantou e foi se afastando. Clara chamou-o, mas ele se desfez como fumaa e ela
acordou chorando, sentindo o peito oprimido, o corao descompassado.
Ela se levantou, tomou um pouco de gua e respirou fundo.
-- Foi apenas um sonho -- murmurou.
Mas a imagem de Osvaldo, suas palavras no lhe saam do pensamento. O mdico dissera
que ele no dava acordo de si. Tanto podia voltar como entrar em coma e morrer.
Ela estremeceu horrorizada. E se ele morresse?
361
Sentiu o peito apertado enquanto as lgrimas continuavam molhando seu rosto. Clara
compreendeu:
"Eu ainda o amo! Se ele morrer, nunca mais serei feliz. Isso no pode acontecer."
Saiu do quarto e foi para a porta da UTI. Tentou entrar, mas a enfermeira no deixou.
-- Por favor -- pediu Clara. Preciso v-lo.  muito importante!
-- Sinto, Dona Clara, mas no posso permitir. A senhora est muito emocionada.
Disse isso e fechou a porta.
Clara sentou-se no banco em frente. O dia estava clareando quando o mdico apareceu. Ela
o abordou:
-- Doutor, quero entrar para ver meu marido.
-- No convm. Ele precisa de repouso.
-- Ele precisa de mim. Eu sinto. Por favor! Juro que no vou atrapalhar. Mas ele tem de
saber que estou aqui.
-- Se me prometer que vai se controlar, deixarei que o veja e fique por cinco minutos.
Clara vestiu o avental branco, colocou a mscara e com o corao aos saltos entrou.
Osvaldo, plido, respirao lenta, no parecia vivo.
Ela se sentou ao lado da cama e segurou sua mo gelada. Emocionada, fez uma prece
pedindo a Deus que salvasse a vida dele.
Depois aproximou os lbios de seu ouvido e disse:
-- Volte, Osvaldo. Eu preciso de voc. Nunca deixei de am-lo. Quero que viva para mim,
para nossos filhos.
Ela repetiu essas palavras vrias vezes.
-- No adianta dizer nada. Ele est inconsciente, no pode ouvir -- disse o mdico.
-- Ele vai me ouvir, doutor. Tenho certeza. Seu corpo pode estar doente, mas seu esprito
est vivo. Ele vai voltar para a famlia.
A enfermeira ia intervir, mas a um sinal do mdico conteve-se.
-- Voc est me ouvindo, no , Osvaldo?
Naquele instante Clara sentiu que a mo dele apertara a sua e exclamou contente:
-- Ele est me ouvindo. Apertou minha mo.
-- Agora chega. O paciente precisa descansar -- disse o mdico.
Clara no queria sair, mas ele insistiu e ela obedeceu.
-- Tenho certeza de que ele me ouviu. Ele vai reagir e voltar. O senhor vai ver.
--  melhor no se entusiasmar.
362
Todos estamos torcendo para que ele reaja, mas  comum nesses estados o paciente ter um
espasmo. Ele no apertou sua mo conscientemente. Ele teve um espasmo.
Clara no respondeu. Tinha certeza de que Osvaldo a ouvira. Entrou no quarto e encontrou
Neusa de p.
-- Eu ia sair  sua procura. Acordei e no a vi. Fiquei assustada. Aconteceu alguma coisa?
-- Sim. Consegui ver Osvaldo. Tenho esperana de que ele vai reagir.
-- Graas a Deus! Estou rezando para isso. A enfermeira trouxe o caf e Clara tomou:
-- Vamos comer, Dona Neusa. Precisamos estar bem de sade para cuidar de Osvaldo
quando ele sair.
Enquanto tomavam o caf com leite, Clara, olhando nos olhos da sogra, disse sria:
-- Esta noite tive um sonho muito forte com Osvaldo.
-- Ser que ele vai morrer?
Em poucas palavras, Clara contou o sonho. Finalizou:
-- Senti que, apesar de tudo, Osvaldo ainda me ama. Senti que nunca amei outro homem, O
que a senhora acha disso?
-- Sempre desconfiei que vocs ainda se gostavam. Voc nunca teve outro, nem ele teve
outra. Isso sempre me intrigou. S pode ser amor mesmo. Eu gostaria muito que
voltssemos a ser uma famlia de verdade. Agora estamos mais experientes, tenho certeza
de que viveramos muito bem.
Clara aproximou-se de Neusa e beijou-lhe delicadamente a face. Rita, que ia entrando,
olhou-as admirada. A cena era difcil de crer.
-- Chegou na hora, Rita. Quer um caf? -- disse Clara.
-- Acabei de tomar em casa. Como est Osvaldo?
Antes que Clara respondesse, a porta se abriu e o mdico entrou.As trs olharam em sua
direo, esperando suas palavras.
-- Seu marido acordou. Chama pela senhora.  melhor ir.
Clara acompanhou-o, o corao aos pulos.
-- Eu disse que ele estava me ouvindo, doutor.
O mdico meneou a cabea, dizendo:
-- Existem reaes inexplicveis. Pode ser coincidncia.
Clara sorriu e no respondeu. Vestiu o avental e a mscara e entrou. Sentou-se ao lado da
cama e pegou a mo de Osvaldo, que gemeu levemente, abriu os olhos e disse baixinho:
-- Estou sonhando ou  voc mesma?
-- Voc no est sonhando. Sou eu.
363


-- E Carlinhos?
-- Est bem. Todos estamos aqui, rezando pela sua cura. Sua me, seu irmo, estamos
todos juntos.
Ele sorriu levemente.
-- Tenha pacincia com eles, Clara.
-- No se preocupe. Estamos todos nos entendendo, nos conhecendo de verdade. Dona
Neusa tem ficado comigo desde que voc foi ferido.
--  bom demais para ser verdade.
Clara beliscou levemente seu brao.
--  para voc sentir que est vivo e que estamos todos juntos. Agora  melhor descansar.
Est tudo bem. No h nada com que se preocupar.
Ele se remexeu inquieto.
--Quer alguma coisa?
Ele respirou fundo e tomou:
-- Sei que voc est aqui, que esto todos juntos, mas...
Ele hesitou. Clara esperou. Como ele ficou calado, ela disse:
--Continue, O que ia dizer?
--Estou atordoado. Misturando as coisas. No sei se sonhei ou se voc me disse algumas
coisas..
-- Eu disse que nunca deixei de amar voc.
Ele fechou os olhos tentando esconder a emoo. Quando conseguiu falar, tornou:
-- Voc ficou com pena de mim. Pensou que eu fosse morrer.
-- No. Eu amo voc. Nunca mais duvide disso. Se deixar, vou cuidar de voc pelo resto
da vida. Agora trate de descansar.
Ele apertou a mo que ela detinha entre as suas e no disse nada.
Sua voz estava embargada. Quando se acalmou, murmurou:
-- Se este  um sonho, no quero acordar.
O mdico chegou, examinou-o e a enfermeira aplicou-lhe uma injeo.
-- Venha, Dona Clara. Seu marido agora vai dormir. Quanto mais ele descansar, mais
rpido ser o processo de cicatrizao.
Ela obedeceu. Uma vez fora do quarto, perguntou:
-- Ele est fora de perigo?
-- Est melhor, mas ainda no posso afirmar isso. Vamos esperar at amanh. Se a melhora
se mantiver, ele ir para o quarto. Ento poderei saber.
-- A me dele e os filhos gostariam de v-lo.
364
-- Vou permitir a visita de um de cada vez, mas devem ficar em silncio. Ele est sob
efeito de calmante. No devem acord-lo.
Clara voltou ao quarto animada. Neusa esperava-a ansiosa.
-- Ele acordou e est melhor -- informou Clara. -- Perguntou por todos.
-- Ele vai sarar? -- quis saber Marcos.
-- Se a melhora se mantiver, amanh ele deixar a UTI.
Neusa quis ir ver o filho, e Antnio acompanhou-a.
Rita sentou-se ao lado de Clara.
-- Quando entrei, voc estava beijando a face de Dona Neusa ou foi sonho?
-- Eu vi que voc ficou assustada.
-- Cheguei a pensar que Osvaldo tivesse piorado.
--  que ns estivemos conversando. Dona Neusa mudou muito.
-- Eu notei, mas no pensei que fosse tanto.
-- Pois foi. Ela chegou a se declarar culpada at do que eu fiz.
--No diga!
Os dois rapazes, que estavam cada um lendo uma revista esperando o momento de ir ver o
pai, aproximaram-se interessados. Rita procurou ser discreta:
-- Conversaremos depois.
-- No, Eles precisam saber o que est acontecendo. Chega de mal entendidos, de coisas
mal explicadas. Vou contar.Eles a rodearam satisfeitos e ela relatou minuciosamente tudo.
Finalizou:
-- No sei o que vai acontecer daqui para frente. Mas, se Osvaldo me quiser, voltaremos a
viver juntos.
Os dois rapazes abraaram-na efusivamente, beijando-a com alegria.
-- Claro que ele vai querer -- disse Carlinhos. -- Bem que eu notei como ele ficava
quando falvamos de voc.
--  uma notcia maravilhosa.
No fim da tarde, Durval apareceu.
-- Trago boas notcias. Vlter confessou tudo. Conseguimos prender os dois malandros no
sul. Esta noite chegaro  delegacia.
-- So pessoas conhecidas? -- indagou Clara.
-- Trata-se de Berto, um ex policial que se tornou marginal, e de Neco, indivduo com
vrias passagens na polcia, especializado em arrombamento.
365
 difcil acreditar que Vlter tenha sido capaz de se juntar a marginais e tentar matar
Osvaldo.
-- Esse sujeito nunca me enganou -- disse Marcos.
-- E agora? Ele vai ficar preso? Tenho medo de que ele saia e volte a nos perseguir --
acrescentou Carlinhos.
-- O que ele fez foi muito grave. Tenho certeza de que ficar preso por muitos anos.
A melhora de Osvaldo se manteve e dois dias depois foi transferido para outro quarto.
Estava plido, abatido, mas, rodeado pela famlia, foi se recuperando.
Clara foi incansvel. Suas frias estavam para terminar e ela telefonou para Domnico
relatando o que havia acontecido, pedindo uma licena.
Depois disso, o quarto de Osvaldo estava sempre cheio de visitantes. Primeiro Gino e
Domnico, que demonstraram quanto gostavam de Clara, s tendo palavras elogiosas.
Depois, as melhores clientes do ateli, para abra-la e desejar que Osvaldo se recuperasse.
Quando Osvaldo foi para o quarto, Neusa disse que ficaria para dormir com o filho e que
Clara poderia ir para casa descansar. Mas ela no aceitou:
-- No, Dona Neusa. A senhora  quem precisa descansar. Meu lugar  aqui, ao lado de
Osvaldo.
Ele as ouvia, procurando esconder a emoo. Estava fraco e fragilizado. Neusa concordou
em dormir em casa, mas iria ao hospital todos os dias.
Assim Neusa pde ver como sua nora era querida e admirada. Sentiu-se orgulhosa e
satisfeita. Clara era digna e merecedora de sua estima.
Uma semana depois, no fim da tarde, o mdico examinou Osvaldo e disse com satisfao:
-- Amanh vou dar-lhe alta. Pode se preparar para retomar sua vida. Mas no comeo no
pode fazer esforo nem dirigir, est bem?
Ele concordou. Depois que o mdico se foi, Clara fechou a cortina e sentou-se novamente
ao lado da cama. Estavam sozinhos.
-- Que bom que voc vai deixar o hospital -- disse ela com alegria.
-- No sei se ser bom. Por mim ficaria aqui mais tempo. Ela olhou surpreendida para ele.
366
-- Por que diz isso? Acha que ainda no est bem?
-- Estou muito bem.
-- Ento...
-- Ao sairmos daqui, voc ir para sua casa e eu ficarei sozinho. Clara, voc tem se
dedicado todos esses dias. Tem me tratado com carinho. Preciso ser sincero. Sua presena
me trouxe de volta  vida. Voc disse que ainda me ama. Eu gostaria que fosse verdade.
Mas tenho dvidas. Voc deixou de me amar h muitos anos. Agora est grata por eu ter
salvado a vida de Carlinhos, confundindo gratido com amor.
Ela tentou falar, mas ele a impediu:
-- No diga nada. Deixe-me terminar. Eu a amei sempre. Esse amor sem esperana
machucou meu corao durante muito tempo, at que, cansado de lutar, compreendi que
precisava aceitar essa verdade. Eu amo voc e a amarei por toda a minha vida. Esse amor 
to grande, to verdadeiro, que eu no gostaria que voc ficasse a meu lado por gratido. 
nobre de sua parte, mas eu no aceito isso. No quero que um dia voc se arrependa.
-- E me apaixone por outro?  disso que tem medo? Voc me ama mas no confia mais em
mim, em meu amor. A mgoa do passa do ainda est viva dentro de voc.
-- No  verdade. Eu admiro voc. Sei que  digna, fiel.
Os olhos de Clara encheram-se de lgrimas.
-- Eu sabia que voc no ia aceitar meu amor.
Havia tanta tristeza em sua voz que ele a abraou emocionado.
-- Clara, seu amor  o que eu mais quero no mundo.
Abraou-a, puxou-a para junto de si e beijou-a com ardor. Ela retribuiu, e a emoo
reprimida de tantos anos tomou conta deles. Continuaram beijando-se com paixo.
-- Osvaldo, estou com voc porque o amo. Sempre amei. Sinto que voc  o amor da
minha vida. No me expulse de seu lado. No quero mais viver sem voc.
Inebriado, ele ouvia, o corao batendo descompassado, a emoo transbordando.
-- Clara, como eu sonhei com este momento! Como desejei ter voc novamente em meus
braos como agora.
-- Diga que me quer. Que vai voltar para mim. Que nunca mais vai me deixar.
-- Eu a quero.
Nos braos um do outro, entregaram-se ao sentimento que os unia.
Quando se acalmaram, deitados um ao lado do outro, Osvaldo disse:
367
-- Gostaria que vocs se mudassem para minha casa amanh mesmo.  uma casa grande,
boa, ficaremos bem. Nossos filhos gostam de l.
-- Eu tambm gostaria. Mas preciso resolver minhas coisas.
-- Quero que v  minha casa para ver se gosta.
-- Eu disse que vou resolver minhas coisas, mas no vou deixa-lo nem por um dia. J
perdemos muito tempo.
Osvaldo beijou sua face com carinho.
No dia seguinte ele foi para casa. Clara e os filhos o acompanharam. Os rapazes estavam
comovidos com a reconciliao dos pais.
Na tarde do mesmo dia, Marta foi visit-lo. Quando chegou, Osvaldo estava em uma
poltrona na sala segurando a mo de Clara, que estava sentada a seu lado.
Vendo os dois, Marta empalideceu. Osvaldo apresentou Clara com naturalidade:
-- Esta  Clara, minha esposa.
A outra estendeu a mo que tremia e tentou dissimular a contrariedade. Clara olhava
curiosa para Marta. Era uma mulher mais nova do que ela e muito bonita. Olhou para
Osvaldo um pouco enciumada.
Ele, porm, conversou com naturalidade, informando-se de como estavam seus projetos.
Marta deu todas as informaes, depois, sentindo-se mais calma, disse:
-- Eu tentei ir ao hospital visit-lo, mas disseram-me que as visitas no eram permitidas.
-- Eu pedi a Jos que dissesse isso porque preferia receber os amigos aqui em casa. No
hospital  sempre desagradvel. Mas isso no se aplicava a voc.
-- Ele no me disse. Foi por isso que s apareci hoje. Mas todos rezamos muito para seu
restabelecimento.
Continuaram conversando e, a pretexto de combinar algumas coisas com Rosa, ela foi 
cozinha:
-- Ningum me avisou que ex-esposa vinha visit-lo -- reclamou.
-- No pensei que voc se interessasse em saber--defendeu-se Rosa. Eles no se falavam.
No pensei que ela fosse aparecer.
-- No s apareceu como voltaram a viver juntos.
Marta estremeceu.
-- Eles voltaram?
-- Olhe, Marta, eu sei que voc gosta muito de Osvaldo e nutria a esperana de conquist-
lo. Mas, mesmo separado, ele nunca deixou de amar a esposa.
368
Nunca quis ter outra mulher. Por isso, o que tem a fazer  esquecer e partir para outra.
-- Claro. Pensei que ele fosse livre, mas agora...
-- No perca seu tempo alimentando essa iluso. Pelo que eu vi at agora, desta vez  para
sempre. Nunca mais vo se separar.
-- Tem razo. Vou tir-lo da minha cabea.
Quando ela voltou para a sala, estava mais calma. Depois que ela se foi, Clara conversou
com Osvaldo:
-- Estive pensando... Acho que vou deixar de trabalhar todos os dias no ateli. Participarei
dos desfiles, dos eventos e at como relaes-pblicas, que  o que tenho feito nos ltimos
tempos. Quero ter tempo para ajud-lo nos trabalhos espirituais. Dona Ldia me falou a
respeito e fiquei entusiasmada.
Carlinhos, que havia entrado e ouvido essas palavras, interveio:
-- Eu sei por que pensou nisso agora. Encontrei Marta saindo... Clara fez que no
entendeu:
-- No sei o que quer dizer. Eu gosto do trabalho espiritual. Freqento Dona Ldia.
Osvaldo sorriu satisfeito. O cime de Clara alegrava-o. O ambiente estava agradvel e
todos estavam felizes.
-- Contar com voc vai ser muito bom -- disse ele.
Nos dias que se seguiram, ele foi ganhando foras rapidamente. Clara decidiu que Rita
continuaria morando no mesmo lugar e cuidando da loja, o que ela fazia muito bem.
Mudou-se com os filhos para a casa de Osvaldo. Ele queria que Clara reformasse tudo a seu
bel-prazer, porm ela gostou muito da casa e no quis mudar nada.
Rosa e Jos, que a principio ficaram um pouco preocupados em t-la na casa, logo se
habituaram e passaram a gostar dela. Clara tinha classe, sabia respeitar os empregados e
trat-los bem.
Rosa logo estava fazendo docinhos para ela, e Jos, cercando-a de gentilezas.
Foram para o stio e Clara adorou o que viu. Interessou-se logo pelo trabalho e procurou
aprender tudo. Ficaram por l uma semana recebendo os amigos que apareciam para
abraar Osvaldo, felizes com sua recuperao.
Quando voltaram para a capital, Osvaldo teve a idia de fazer uma reunio espiritual em
sua casa. Convidou Dona Ldia, dizendo que ela poderia levar alguns mdiuns. Queria
agradecer o auxlio recebido e obter orientao para o trabalho.
369
Estava ansioso para recomear a atender s pessoas e precisava saber se j estava em
condies.
Ao redor da mesa coberta com uma linda toalha branca bordada na sala de jantar, sentaram-
se Felisberto, Antnio, Neusa, Clara, Carlinhos, Marcos, Ldia e mais duas senhoras que ela
convidara. Sobre a mesa, alguns livros e uma bandeja com copos e a jarra de gua.
As luzes foram apagadas e, na penumbra da sala iluminada apenas por um abajur, Osvaldo
proferiu sentida prece agradecendo a Deus pela cura e pela unio de sua famlia. Estava
comovido, sentindo o corpo leve e no peito um brando calor.
No final, pediu orientao dos espritos. Uma das convidadas de Ldia comeou a falar:
--  com alegria que venho hoje visit-los e dizer que completaram mais um ciclo no
caminho da evoluo. Isso significa que de agora em diante tero pela frente uma etapa de
progresso e alegria.
No fim do sculo passado, um fidalgo muito rico vivia no Brasil, na cidade do Rio de
Janeiro. Bonito, requestado pelas mulheres em virtude de seu dinheiro e sua boa aparncia,
Dom Ricardo, como se chamava, vivia com a me, mulher arrogante e autoritria, que
controlava os gastos do solar onde residiam com avareza, vigiando os escravos com rigor.
Ricardo levava vida social intensa, viajando pela Europa, conquistando belas mulheres. Em
uma dessas viagens, conheceu Denise em Paris. Era uma danarina do Moulin Rouge,
muito disputada. Bonita, cheia de vida, alegre, Ricardo apaixonou-se perdidamente. Por ela
esqueceu todas as mulheres. Levou-a para o Brasil e casou-se com ela, apesar de a me
tentar impedir de todas as formas, porque ficou sabendo a vida que a nora levava em Paris e
ficou horrorizada. Por isso vigiava Denise, tendo discutido muitas vezes com o filho.
Apesar de amar o marido, Denise sentia falta do palco, dos aplausos, da alegria de sua vida
em Paris, tendo a sogra sempre desconfia da e irritada por perto. Ricardo fazia tudo para
agradar  esposa, proporcionando-lhe uma vida de luxo, levando-a a festas na corte, onde
ela brilhava sempre.
Foi em uma dessas festas que Denise conheceu Andr, um jovem bonito e ftil que a
cercou de atenes. Ele no tinha renda, por isso conquistava ricas mulheres que acabavam
por sustent-lo.
Ricardo, cego pela paixo, no percebia nada. Oflia, sua me, tentou abrir-lhe os olhos,
mas ele se zangava, porque percebia a implicncia da sogra com a nora.
370
Denise comeou cedendo aos galanteios de Andr mais por divertimento, mas acabou se
envolvendo. Algum tempo depois, teve a surpresa desagradvel de ser chantageada por ele.
Dizia que sua irm conseguira provas do relacionamento deles e para se calar exigia jias.
Ela se arrependeu de sua leviandade, mas era tarde. Estava nas mos dele. Apavorada,
rompeu a relao, mas comeou a dar-lhe algumas jias.
Oflia, que percebeu que as jias haviam desaparecido, exigiu que Ricardo encontrasse o
ladro. Ele no gostava de se incomodar com os negcios e deixava tudo a cargo da me.
Deu-lhe carta-branca para investigar.
Assustada, Denise tentou despistar. Apanhou o saco de jias de Oflia e colocou-o do lado
de fora da casa, em meio s plantas do jardim. Tinha certeza de que a sogra o encontraria.
Oflia deu pela falta do saco de jias e ficou desesperada procurando. Encontrou-o e
chamou o filho, acusando um dos escravos que vira passando pelo local momentos antes.
Jernimo trabalhava dentro de casa e era estimado por todos. Chamado a tomar
providncia, Ricardo, aborrecido, tratou de resolver aquela situao o mais rapidamente
possvel. Ele no gostava de enfrentar situaes desagradveis.
Jernimo chorou, jurou que no tinha feito nada, mas Oflia foi implacvel: exigiu que
Ricardo o castigasse. Contrariado, porque ele gostava do escravo, mandou que o capataz o
colocasse no tronco, no desejando enfrentar uma briga com a me.
Assustada, Denise rogou que no o castigassem, porm Oflia foi irredutvel e Ricardo
preferiu esquecer o assunto. Jernimo, depois das cinqenta chicotadas controladas por
Oflia, foi deixado no tronco a po e gua.
Na manh seguinte, Jernimo estava morto. Denise chorou muito, arrependeu-se, mas no
teve coragem de dizer nada. Dali para frente, mudou muito. Sentindo o peso da culpa, tinha
pesadelos, deixou de freqentar a crte, vivia triste e deprimida.
Ricardo fazia tudo para alegr-la, mas ela aos poucos foi se consumindo. Aos quarenta
anos, uma pneumonia a trouxe de volta ao mundo espiritual.
No tiveram filhos. Ricardo nunca mais se casou. Viveu o resto de seus dias triste e
desinteressado de todas as coisas. Oflia cuidou de tudo e viveu mais do que Ricardo.
Quando ele voltou ao mundo espiritual, partiu em longa busca por Denise. Enfim
encontrou-a perambulando dementada, tendo ao lado o escravo que havia se colado a ela,
exigindo justia.
371
Levou tempo para Ricardo conformar-se com a verdade. Porm o amor que sentia por
Denise ainda estava em seu corao. Por isso, tudo fez para ajud-la. Assistido pelos
espritos superiores, conseguiu que ela se equilibrasse.
Arrependida, Denise pediu perdo. Oflia, sabendo que castigara um inocente, arrependeu-
se. Descobriu que, para livrar-se da culpa e das perturbaes que a acometiam de vez em
quando, precisava fazer alguma coisa que lhe devolvesse a dignidade.
Descobriram que s a reencarnao poderia ajud-los a conseguir o equilbrio que tanto
queriam. Oflia, sabendo quanto havia errado como me de Ricardo, pediu para tentar de
novo. Foi-lhe concedido receb-lo outra vez como filho, mas, para que ela ficasse bem, era
preciso receber tambm Jernimo. Ela concordou.
Ricardo, ansioso por ajudar Denise, pediu para casar-se com ela novamente. Foi alertado de
que no precisava fazer isso, que eles se amavam, mas que ela precisava amadurecer. Ele
poderia ficar no astral e esperar at que ela voltasse, ento ficariam juntos.
Ricardo, porm, preferiu reencarnar, mesmo sabendo que Andr tambm reencarnaria e se
encontrariam novamente, Decidiu correr o risco.
-- Meu amor  tanto que a ajudar.
Assim, comearam essa nova vida. Ricardo como Osvaldo, Denise como Clara, Oflia
como Neusa, e Jernimo como Antnio. Andr renasceu como Vlter.
No mundo, os desafios mais difceis so os do sentimento, por que em meio aos problemas
do dia-a-dia, mesmo havendo esquecido o que aconteceu em outras vidas, os assuntos no
resolvidos continuam no inconsciente, refletindo-se no presente.
S a f na espiritualidade, a certeza de que a vida contnua aps a morte do corpo ajudam a
encontrar o rumo melhor na conquista da vitria. A mediunidade  uma ferramenta
abenoada para abrir a conscincia e mostrar a verdade.
-- Estamos felizes por vocs terem vencido. Osvaldo aprendeu a olhar as pessoas com
olhos do amor. Clara descobriu os verdadeiros valores da alma. Neusa, na dificuldade e na
carncia, descobriu que a bondade traz felicidade. Antnio aprendeu que a valorizao
independe da cor da pele, conquista-se pela dignidade do trabalho e da honestidade.
Infelizmente Vlter no conseguiu. Mas a vida cuidar dele no momento certo.
372
A verdade  que ele nunca mais os perturbar. A energia de vocs agora  diferente e ele
desistir de persegui-los.
Ela fez uma pausa, depois continuou:
-- Voc pode recomear o trabalho espiritual, Osvaldo. Muitos amigos no astral esperam
ansiosos o momento de participar. O mundo est conturbado. A violncia plantada
indiscriminadamente por alguns polariza as disputas, e a vaidade, a luta pelo poder
imperam.
No se deixem dominar pelo pessimismo. A luz vence as trevas, e o futuro ser de
progresso e paz. A firmeza na f  necessria, mas o discernimento  fruto do bom senso.
Tenho certeza de que sabero fazer o melhor. Que Deus os abenoe.
Ela se calou e Osvaldo encerrou a reunio. Eles estavam tocados pelo momento. Cada um
tomou seu copo de gua. Conversaram um pouco sobre as belezas da vida espiritual e do
conforto que proporciona.
Quando todos se despediram, Osvaldo tomou a mo de Clara, passaram pelo quarto dos
rapazes, que j se haviam acomodado.
Depois foram para o quarto. Osvaldo abriu a janela e chamou Clara.
-- Venha ver as estrelas.
Abraados, ficaram contemplando o cu.
-- De onde ser que viemos? -- indagou ela.
-- No sei. S sei que estamos juntos, e desta vez nada e ningum vai nos separar.
Clara abraou-o e seus lbios procuraram os do marido. E a brisa delicada que passava
atravs da janela os envolvia com carinho, como a dizer que tudo estava em paz!
Fim
373
